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quinta-feira, 20 de agosto de 2026

A Inflação também traz problemas morais para a sociedade

    Um costume que me parece ser uma marca de nossa acelerada época é uma estranha obsessão por encontrar uma "causa única", uma "explicação simples" com base em um só fator para qualquer problema, especialmente nas áreas de ciências humanas. É como se hoje em dia as pessoas tivessem "se esquecido" que os fenômenos sociais formam uma imensa teia de eventos correlacionados, que se influenciam uns aos outros, numa cadeia lógica muitas vezes incompreensível à razão humana, da qual muitas vezes conseguimos enxergar somente os elementos mais superficiais.



    Embora eu considere isso uma falha na forma de se pensar as coisas, ao mesmo tempo eu acho interessante, como exercício de pensamento, partir de um só fator ou fenômeno e tentar chegar a conclusões gerais, ou encontrar outros fatores/fenômenos que com ele interajam e influenciem. 

    Dito isto, escreverei sobre o fenômeno da inflação e discutirei algumas de suas implicações para a moral da sociedade. (Óbvio que a inflação não é "A" causa para os problemas aqui descritos, mas certamente contribui para agravá-los)

    Há, por exemplo, pessoas que defendem a idéia de que a diminuição do teor de ouro nas moedas para financiar as campanhas militares foi "A" causa fundamental da queda do Império Romano. Tal diminuição do percentual de ouro nos Aureums e de prata nos Sestércios não teria sido "publicada", "oficializada", nem nada disso, mas feita na surdina, sem o conhecimento do povo, o qual eventualmente percebeu que as moedas não tinham tanto valor quanto antes, estavam mais leves, e aí iniciou-se uma reação em cadeia que culminou na destruição do Império através das invasões bárbaras.

    Eu não sou um grande estudioso da história romana, mas acho essa explicação simplista demais. No entanto, não deixa de ser interessante analisar, olhando a nossa realidade brasileira, os efeitos perniciosos da inflação nos hábitos da sociedade. Vejamos:

(Os exemplos que eu escrevi neste artigo são "anedotas", mas, afinal, o que são "dados" se não uma imensa coleção de "anedotas"?)

O que dizem os livros-texto de economia acerca da inflação? Em sua maioria os livros-texto de economia possuem forte viés keynesiano, ou ao menos assim eram os que eu tive acesso (Ex: Mankiw). Em muitos está escrito que a inflação é uma alta generalizada de preços da economia, a qual leva a uma desvalorização da moeda. Ou subentende-se isso.

E o que dizem as correntes de pensamento econômicos mais voltadas ao libertarianismo a respeito da inflação? Basicamente que a inflação é a desvalorização da moeda, o que acaba acarretando numa alta generalizada de preços. O caminho inverso da explicação "keynesiana".

Uma explicação é um espelho da outra, uma troca a causa pelo efeito da outra. Eu acredito que ambas coexistam, formando uma figura similar a um ouroboros:



Eu acredito que:

1) A emissão de moeda de maneira exagerada pelo governo e pelos bancos comerciais acaba tendo como uma de suas consequências o aumento generalizado dos preços da economia (afinal, considerando que a moeda se comporta como se fosse um bem e a escassez de um bem é um dos fatores determinantes de seu valor, quanto menos escassa for uma moeda, menos valor cada unidade monetária carregará) - essa é a que provoca, nos dias de hoje, a desvalorização direta da moeda e a inflação do ponto de vista mais libertário.


2) A perda de confiança do povo em sua moeda também contribui para a inflação, pois provoca a "Inércia Inflacionária": o povo espera que a moeda desvalorize, então confia menos nela, e essa desconfiança acaba realmente desvalorizando a moeda (uma profecia auto-realizada)


3) Eu não sei se isso é um aspecto da "Inércia Inflacionária", mas eu chamaria este fenômeno que vou descrever a seguir de "Arredondamento da Inflação": Por exemplo, o IBGE/Banco Central divulga que o IPCA foi de 7,5%. O dono do mercadinho e o dono da padaria não vão aumentar os seus preços em 7,5%. Eles vão arredondar logo para 10% porque assim eles "garantem" alguma proteção a mais (se sentem mais seguros) e porque é mais fácil de fazer as contas com números redondos. Eu acredito que a inflação na prática sempre é arredondada para cima. 


4) De certa forma um aspecto do fenômeno do Arredondamento da Inflação: a desconfiança do povo nas informações emitidas por instituições oficiais também pode aumentar a inflação. Todo mundo tem uma idéia geral de que "Inflação = Ruim", e todo mundo tem uma noção de que "Inflação = Ruim = Imagem negativa para os políticos do momento", então há uma idéia de certa forma difundida que "Números oficiais são mais baixos do que a realidade para não manchar a imagem do partido que ocupa os cargos no momento", então quando é anunciado que o IPCA foi de 12%, muitos vão pensar que na verdade foi 15%, então vão aumentar seus preços em 15% ou próximo disso. E isso desvaloriza a moeda, também no ponto de vista keynesiano (alta dos preços que faz a moeda comprar menos)


E Outras coisas que contribuem para o aumento generalizado dos preços em um país, mas não diretamente para a desvalorização da moeda:

A) Os chamados "Custos de Menu" que seriam os custos relativos à própria atualização dos preços em si. O exemplo clássico é o restaurante que incorre em custos extras para ficar atualizando os preços do cardápio, daí o nome do termo, mas aqui entram também todos os custos inerentes a isso, como os custos extras que se têm com o planejamento orçamentário, custos de trocas de fornecedores, gastos com contadores, com equipe de marketing (para "suavizar" com propagandas o aumento do preço - tipo esses chocolates que diminuem de tamanho e colocam isso na embalagem como se fosse uma conquista - "novo tamanho!" ou "nova fórmula!"), os próprios custos de desenvolvimento e troca de embalagens, etc. - todos estes gastos extras aumentam os preços e contribuem para a noção keynesiana de inflação.

B) Problemas gerais com a oferta agregada (infraestrutura ruim, safras ruins, interrupções de cadeias de suprimentos, guerras, crises bancárias, etc.) também provocam altas generalizadas nos preços, o que, forçando a barra, indiretamente contribui para a desvalorização da moeda (no sentido de que uma unidade monetária compra cada vez menos bens), principalmente se tais problemas persistirem, tendo em vista que a "inércia" é um componente importante da inflação  (se o povo de um país perde a confiança em sua moeda, isso inicia uma verdadeira bola de neve inflacionária, e mesmo que os problemas com a oferta sejam resolvidos, a falta de confiança permanecerá, ao menos por um tempo). 

C) Altas cargas tributárias contribuem para o aumento generalizado dos preços e indiretamente contribuem para a inflação, na medida em que desencorajam investimentos produtivos.

D) Taxas de juros altas também provocam o efeito das cargas tributárias altas: se consigo facilmente ganhar mais dinheiro aplicando meu capital com pouco risco em títulos do tesouro, por quê vou me arriscar montando fábricas, abrindo lojas, ou exercendo qualquer outra atividade produtiva? Com isso, produz-se menos, diminui-se a oferta e aumenta-se os preços.


Não é novidade para ninguém que lê sobre economia e finanças que o Real já perdeu muito valor desde sua implantação em 1994 e que em 2024 e 2025 essa perda de valor acelerou bastante, inclusive por conta da deterioração da taxa de câmbio. Cem reais de hoje em dia compram bem menos coisas que cem reais de 1994. Aliás, as notas de cem reais estão bem mais comuns, algumas são sacadas já sujas e com marcas de dobra, sinais claros de que circularam, em contraste com, digamos, 20 anos atrás,  em que eram bem mais raras e estavam sempre limpas. Só não estão mais comuns ainda por causa do uso generalizado do pix.

Além disso, não devemos nos esquecer que o dinheiro é uma abstração e que funciona como uma "bateria de tempo", armazenando nosso tempo gasto trabalhando para que possamos utilizá-lo mais tarde - isso é a "Reserva de Valor", uma das três funções da moeda.

Assim, a desvalorização da moeda implica, então,  numa desvalorização de nosso tempo e de nosso próprio trabalho, e isso traz consequências psicológicas para todos nós,  ainda que a nível inconsciente ou subconsciente. 

Os economistas dizem que os preços funcionam como sinais que indicam o que deve ser produzido, o quanto, e aonde. Então em um cenário de inflação é como se todos nós estivéssemos o tempo todo recebendo uma mensagem: "você vai trabalhar a mesma coisa, ou mais, e vai receber cada vez menos em troca do seu trabalho". Os mais prejudicados nesse processo são os assalariados, que não conseguem ajustar o preço de sua mão-de-obra: dependem do empregador lhes conceder aumentos ou de encontrarem outro emprego que lhes pague melhor, o que no Brasil é muito difícil, dado que temos poucas empresas grandes (só temos 4 ou 5 bancos grandes, só 1 siderúrgica, só umas 2 ou 3 petroleiras, etc. enquanto que nos EUA há literalmente milhares de empresas de grande porte e capazes de pagar bons salários). 

As pessoas de mente mais fraca e de pouca evolução moral se sentem mais tentadas a cometer crimes, tendo em vista que o trabalho honesto não está rendendo tão bem quanto deveria, e a violência aumenta (assaltos, sequestros, roubos, etc.). 

Os Bens Reais, principalmente aqueles atrelados a commodities, e as próprias commodities em si, tendem a manter seu valor real, ceteris paribus, com seus preços se ajustando à inflação - vemos isso nos metais, por exemplo. E por isso aumenta o número de roubos de portas de alumínio, tampas de bueiro (geralmente feitas de ferro fundido), fios elétricos (que são feitos de cobre), etc. 

Eu já testemunhei, à luz do dia, com carros e pessoas passando em volta, um bandido arrancando os fios de um poste, mais de uma vez, e não duvido que vários leitores daqui do blog já tenham presenciado algo assim! Na minha rua já roubaram várias vezes os fios (subterrâneos!) do sinal de trânsito. Também já vi alguns bueiros sem tampa nos caminhos que faço para chegar ao trabalho, e já roubaram, de madrugada, a porta de alumínio que protegia o hidrômetro da casa de meu pai. 

Esses são só alguns exemplos, e tenho certeza de que vocês têm outros parecidos.

Roubo de cabos de cobre dos carregadores de carros Tesla, na Baía de São Francisco, nos EUA. Esse fenômeno é global, não é exclusivo do Brasil!


Há também um nível mais sutil de roubo (para alguns pode não ser roubo, mas para mim não deixa de ser moralmente reprovável) e que é praticado pelas empresas: a diminuição da qualidade dos insumos de produção (moralmente reprovável, dependendo das circunstâncias) e, em alguns casos (aí sim um roubo, inegavelmente), a falsificação dos materiais utilizados. Isso acontece bastante na indústria alimentícia em geral, tanto em restaurantes quanto nos supermercados. Um exemplo que está chamando atenção do pessoal é o chocolate: cada vez menos cacau e leite, cada vez mais "manteiga de cacau" e "soro de leite" e gordura hidrogenada (hoje nós só temos biscoitos "Sabor Chocolate"). 

Assim como os chocolates, os lanches dos fast-food e dos restaurantes como um todo vem diminuindo ano após ano, e seus ingredientes pioraram. 

A cerveja está cada vez mais aguada, com menos cevada e mais "milho", e por aí vai. Logo logo haverá a "bebida alcoólica sabor cerveja".

Para mim o pior caso de falsificação de materiais é o da fiação elétrica: alguns cabos de cobre são falsificados pelos fabricantes e passam a ter altos teores de alumínio,  isso quando não são vendidos fios de alumínio como se de cobre fossem (só com uma cobertura de cobre, ou com o alumínio oculto sob a capa de borracha), e o desempenho dos equipamentos que usam tais cabos não é o  esperado, o que resulta em mais custos de manutenção, fora o risco maior de acidentes. 

Quem me contou essa história de estarem falsificando cabos de cobre foi um técnico que eu chamei uma vez para consertar o ar condicionado da minha casa. Ele disse que tem visto isso em vários equipamentos que ele conserta, e até quando compra fios em lojas de materiais de construção. E eu não duvido que seja verdade. Com o dinheiro desvalorizando, as coisas reais tendem a ficar mais caras, e o cobre não escapa a esta regra.

Outra coisa bizarra é como que os livros-texto de economia em geral "ignoram" o problema da inflação. 

Eu tenho em casa um exemplar da 7ª edição do livro de macroeconomia do Mankiw, e em um capítulo em que ele fala a respeito da inflação ele diz algo do tipo "a inflação não é um problema de verdade porque o salário também aumenta na mesma proporção - não importa se tudo está 10 vezes mais caro porque o salário também aumenta 10 vezes", e eu li esse mesmo argumento em pelo menos outro livro de economia. 

Na minha opinião o argumento ou é burrice ou mau-caratismo. 

Esse raciocínio só seria verdadeiro se o salário aumentasse na mesma proporção que a inflação e na mesma velocidade, o que obviamente não é verdade, pelo menos não aqui no Brasil. 

Talvez em uma hiperinflação (como as da época dos planos Cruzeiro e Cruzado) as empresas dêem reajustes com mais frequência, até porque senão dali  a pouco ninguém estará comprando mais nada e elas também irão se prejudicar. 

Mas em cenários como o nosso atual, de inflação "mediana", com índice oficial entre uns 10% e 15% , não há reajustes salariais proporcionais e, nas raras vezes em que há, eles não são na mesma velocidade da inflação. Vamos perdendo nosso poder de compra a conta-gotas (na verdade, mais rápido do que isso, mas não conheço uma metáfora que ilustre bem a idéia) e nada é feito. 

Quem é autônomo consegue repassar pelo menos um pouco da inflação para seus clientes - quanto mais essencial o seu serviço, ou quanto melhor for sua reputação no mercado, mais o profissional liberal conseguirá repassar a inflação para seus clientes. Por isso que a inflação médica é a maior de todas. Nunca me esquecerei do ano em que meu plano de saúde reajustou 28% de uma só vez e fui forçado a trocar de plano.

Quem é empresário consegue repassar uma parcela maior, a depender da essencialidade / qualidade percebida de seus produtos e serviços. 

E empresas muito grandes conseguem repassar quase tudo por terem uma escala de produção que permite diluir mais seus custos. 

Como sempre, quem sofre mais é o trabalhador comum, cujo salário raramente é reajustado. Algumas empresas nem quinquênio pagam.

E aos poucos o trabalhador vai sendo empurrado para a pobreza, sendo obrigado primeiro a cortar supérfluos (se tiver) até que se chega no modo "sobrevivência". 

E não é um problema apenas estatal - a mentalidade média de nosso empresariado também é parte do nosso problema. Eu nunca vi um produto diminuir realmente de preço (Exceto as variações sazonais de frutas, legumes e vegetais). 

Por exemplo, eu duvido que, se o governo isentasse os chocolates de ICMS e outros tributos, o preço cairia para os patamares de 5 anos atrás ou que a qualidade fosse melhorar. 

Pela minha experiência, o preço e a qualidade se manteriam iguais ao de hoje, e os diretores das empresas que fabricam/importam chocolate iam ganhar bônus maiores no fim do ano. Isso porque aqui não existe concorrência, só existem oligopólios praticamente, e os oligarcas sabem que o público já se acostumou a pagar 15 reais numa barra sebosa de gordura hidrogenada com aroma de cacau, então eles não sentem necessidade de diminuir o preço.

E também é necessário dizer: a realidade de "trabalhar mais para receber cada vez menos" provocada pela inflação também provoca o efeito pernicioso do trabalhador fazer corpo mole e não trabalhar com o devido zelo. Ele não tem incentivo para trabalhar mais, pois percebe ano após ano, mês após mês, que sua recompensa só diminui. Eu vejo nisso uma difícil questão moral: eu sei que não é certo um empresário exigir dedicação total de um funcionário que trabalha de segunda a sábado das 8h às 18h em troca de R$ 1.500,00 por mês (realidade de muitos brasileiros infelizmente), mas também sei que há empregados que não fazem por onde e são mesmo indolentes, insolentes, etc. e a "sensação" de pobreza (entre aspas porque é bastante real) que a inflação traz só piora a indolência de quem já seria indolente de qualquer jeito, e torna indolentes outros que em outra realidade seriam bons trabalhadores.

Toda a sociedade perde com a inflação, e não entendo porque em praticamente todos os países (pelo menos os ocidentais, mas não tenho certeza) existe uma "meta de inflação" maior do que zero, quando deveria ser zero ou até mesmo negativa (deflação).


sexta-feira, 14 de abril de 2023

Sobre a previdência social

Recentemente, na França, foi aprovada na canetada uma reforma que aumenta em 2 anos a idade mínima de aposentadoria dos franceses: de 62 passou para 64 anos. E muitos franceses foram às ruas para protestar e até saíram na porrada contra esta reforma, mas foi tudo em vão. 

E olha que dizem que o brasileiro é que não trabalha, ou que trabalha pouco! Pode até ser que a eficiência aqui seja menor, mas é fato que trabalhamos muito. O povo brasileiro é um dos que mais trabalha no mundo,  em termos de horas.

Alguns reclamam que aqui há muitos direitos trabalhistas. Alguns eu acho justos, outros nem tanto (assunto para futuros textos), mas tenho razões  para acreditar que há mais direitos trabalhistas na França do que no Brasil, e esse é um dos motivos para o desemprego lá ser alto, principalmente entre os jovens. 

Um conhecido meu que já trabalhou na França me disse que a cultura de pequenos negócios familiares é forte por lá justamente por conta disso. Ele deu o exemplo de uma padaria francesa, onde não havia nenhum empregado: todos os que trabalhavam lá eram da família do dono - o dono era o padeiro, e fazia os pães sozinho. A esposa ficava no caixa, e os filhos ficavam de faz-tudo, ora ajudando o pai, ora a mãe,  ora recebendo fornecedores, etc, pois o padeiro não teria condições de bancar funcionários de "carteira assinada" ou seu equivalente francês. Quem mais sofre com isso são os jovens cujas famílias não têm negócios próprios,  pois penam bem mais para conseguir empregos na França.

Aqui, ao menos por enquanto,  vejo muitas padarias com empregados, mas não sei se estes recebem todos os seus direitos trabalhistas, nem se as padarias têm condições de paga-los. Mas também já vi alguns destes lugares perto de onde moro que seguem o modelo francês de contratar somente pessoas da família. Por exemplo, a padaria onde geralmente vou comprar pães pertence a duas irmãs,  e seus filhos trabalham no balcão.  Acho que só uns 2 empregados são de fora da família.  Um bar perto da minha casa me parece ser 100% tocado pela família do dono, pois os funcionários são todos muito parecidos, do cozinheiro aos garçons (óbvio que posso estar errado).  


Mas divaguei. Voltando à previdência social, que é o assunto do post: aqui a idade mínima para aposentadoria vai ser de  65 anos no fim da transição de regimes, com a obrigação de somar 105 com o tempo de contribuição (ou seja, para se aposentar aos 65 tem que ter contribuído por 40 anos - é a realidade que a maioria de nós irá pegar), ou seja, trabalhamos mais tempo que o povo francês. E isso sem falar que lá a semana de trabalho tem menos horas (oficialmente 35 horas, contra 40h daqui - mas óbvio que em ambos os países o tempo efetivo de trabalho para o trabalhador médio é superior ao número legal de horas).

E não duvido nem um pouco que ainda pegaremos outra(s) reforma(s) no futuro que aumentem a idade mínima e o tempo de contribuição. Pode ser que quando chegue a nossa vez, tenhamos que trabalhar até os 90, ou algo assim. Ou a previdência social pode simplesmente acabar.

Mas não creio que pegaremos o fim "oficial" da previdência social em nossas vidas... talvez peguemos um fim "disfarçado" - regras impossíveis de serem cumpridas, ou benefícios irrisórios,  ou descontos absurdos nos benefícios, algo nessa linha.

Os principais problemas que eu enxergo são: 

1) supondo que nada mude e não haja mais reforma nenhuma e o governo não faça nada para cobrir rombo nenhum, e mesmo assim ainda pudermos nos aposentar legalmente aos 65 anos: 99,9% se aposentarão com um salário mínimo,  o qual é ridículo e mal dá para pagar contas básicas... ou seja, a vasta maioria vai ficar na penúria e/ou terá que trabalhar até a morte (como era antigamente, antes de existir previdência social) para conseguir viver na velhice, e/ou ser amparado pela família.

2) se o governo resolver "imprimir dinheiro" para se furtar de fazer uma reforma (pois reforma de previdência é algo politicamente ruim), poderemos até ter aumentos no INSS e mais pessoas recebendo mais de 1 salário mínimo,  porém tais valores serão corroídos pela inflação,  e ficamos na mesma situação do item 1.

3) se o governo fizer mais alguma reforma e aumentar a idade mínima e/ou tempo de contribuição, provavelmente todos teremos que trabalhar até os 80 ~ 90 anos para nos aposentarmos pelo INSS e, mesmo assim, provavelmente para receber somente 1 salário mínimo. Será que vale a pena fazer isso? Trabalhar até os 80 anos para receber um salário mínimo de aposentadoria? Eu acho que não. Ainda mais aqui, onde o trabalhador honesto não é culturalmente valorizado, nem mesmo nas empresas, que dele dependem. Melhor ser autônomo e quando ficar mais velho passar a selecionar clientes e a diminuir o horário de trabalho.

4) nada impede o governo de, a qualquer momento, numa canetada, criar algum desconto nos benefícios de aposentados, com a desculpa de que tal desconto é para cobrir algum rombo (como foi o caso dos fundos de previdência de determinadas estatais, que estão descontando a mais para cobrir imensos passivos, alguns deles gerados por desvios de verbas - imagine você com 85 anos recebendo a notícia que seus proventos de aposentadoria irão diminuir a partir do mês que vem porque alguém roubou dinheiro e agora todos terão que pagar a conta), ou com qualquer justificativa que inventarem ma ocasião.


Vejam que não importa o cenário,  todos nós temos que tomar as seguintes atitudes:

1) Criar uma família e cuidar muito bem dela, para termos apoio, carinho, afeto e amparo durante toda as nossas vidas, não só na velhice;

2) Cuidar da saúde tão bem quanto possível, para termos condições de aproveitar a vida até que nossa hora chegue;

3) Aportar com disciplina todo mês,  o máximo que pudermos, de modo a:

    a) ser possível aposentar antes da idade mínima,  seja ela qual for, caso este seja nosso desejo;

    b) ter a possibilidade de não precisar mais trabalhar por causa do dinheiro, ou ter a liberdade de trabalhar com coisas mais leves e por menos horas por dia; e 

    c) para ter uma chance de viver com mais dignidade na velhice, pois no que depender do governo, teremos só o mínimo do mínimo,  e talvez nem isso. 

Enfim, nobre confraria da finansfera, companheiros de trincheira, estes são alguns de meus pensamentos acerca do espinhoso assunto que é a previdência social. 

O que têm a dizer sobre este tema?


Forte abraço! 

Fiquem com Deus!


domingo, 12 de março de 2023

Mais comentários sobre a inflação

Dando continuidade ao meu post sobre a devastação de nosso poder de compra, trago aqui mais alguns comentários sobre a inflação: algumas coisas que são facilmente observadas no dia a dia de qualquer trabalhador / pai de família.


A inflação pode se manifestar de várias maneiras, e não raro como uma combinação destas:

1) o simples aumento dos preços; e/ou 

2) a diminuição das quantidades e/ou do tamanho dos produtos (lá fora já apelidaram isso de "shrinkflation"); e/ou

3) a diminuição da qualidade das matérias-primas e demais insumos usados na produção; e/ou

4) o simples desaparecimento de produtos, que se tornam inviáveis de serem vendidos por conta do aumento do preço (inviáveis ao menos em mercados formais)


fonte da imagem - clique aqui


Vejam que é bastante comum observar os itens 1, 2 e 3 acima em restaurantes e lanchonetes e quaisquer locais que vendam comida, no geral.

Vou dar um exemplo de uma padaria próxima de onde moro. Eu costumava comprar esfihas nesta padaria. Há pouco tempo (ano passado ou retrasado), cada esfiha custava 5 reais, e era bem recheada.

Hoje em dia, as esfihas nesta padaria estão custando R$ 6,90 e o recheio está vindo em menor quantidade (mais massa e menos recheio) e está com qualidade bastante inferior (da última vez que comi uma esfiha de queijo branco, o queijo estava muito "aguado" e muito gorduroso, ou seja, o dono da padaria realmente reduziu o padrão do fornecedor ao mesmo tempo em que aumentou o preço). Por mais que eu seja 100% a favor de apoiar os comércios locais em detrimento das grandes redes, parei de comprar estas esfihas. 

Até restaurantes e botecos que servem o famoso "prato feito" estão de muquiranagem. "Prato feito" sempre foi bem servido, mas eu só observo a quantidade de arroz aumentando e a de carne ou frango diminuindo, a cada ano que passa, e o preço aumentando.

Havia um boteco perto de onde meus pais moram que servia sardinhas fritas a 60 centavos por unidade. Claro que isso já faz bastante tempo (mais de 15 anos, se não me engano!), mas hoje em dia acho que estão cobrando uns 5 reais por sardinha!. E, se bobear, as sardinhas são menores do que aquelas de outrora que custavam 60 centavos!

Outro exemplo que me ocorre são as batatas fritas que acompanham hamburguers em restaurantes, especialmente "hamburguerias gourmet": geralmente elas vinham no prato, em volta do hamburguer. Hoje já vejo alguns restaurantes colocando-as em uma canequinha de metal ou numa cestinha, ou seja, vem menos da metade do que costumava vir.

Outro exemplo são as barras de chocolate que se compra em qualquer mercado por aí (as comuns, tipo nestlé, lacta, etc.). Há algum tempo, os chocolates eram divididos em fileirinhas com 4 quadrados cada uma, ou seja, era fácil dividir uma fileirinha de maneira justa entre 2 pessoas. De uns anos para cá, cada fileirinha passou a ter 3 retângulos, o que dificulta a divisão entre 2 pessoas e faz com que fique mais normal cada um comer uma fileira, consumindo assim 2 fileiras de cada vez (seria uma estratégia dos fabricantes para aumentar o consumo?) .E isso sem falar no tamanho e no peso das barras, que diminuíram sensivelmente de uns anos para cá (a imagem no início do post ilustra bem isso... nos anos 90 as barras tinham 200g, e hoje tem 85g ou 90g). 

As caixas de bombom das principais marcas estão vindo cada vez mais vazias, ano após ano, ao ponto de, na minha opinião, não valer mais a pena comprá-las. Lembro de pesarem 500g ou 400g quando eu era criança, e hoje em dia acho que pesam uns 250g ou menos, vem menos bombons, e o preço só sobe. E os bombons que vinham na caixa até há alguns anos eram melhores. Hoje me parece que está tudo sem graça e com "sabor genérico". Provavelmente por causa da pior qualidade das matérias-primas utilizadas.


Nos anos 80 pesava 500g! - fonte da imagem - clique aqui.


Aliás, no geral, os ingredientes usados nos chocolates feitos aqui no Brasil são de qualidade cada vez pior. Menos cacau, menos leite, e mais gordura, mais parafina, mais "soro de leite", mais "manteiga de cacau", mais corante, mais açúcar, e por aí vai. 

Engraçado que, desde pelo menos uns 10 anos, toda Páscoa surgem aqueles posts "engraçadinhos" dizendo que vale mais a pena comprar barras do que ovos de chocolate por causa da relação R$/g, mas do jeito que as coisas estão indo, acho que agora chegamos em um "tanto faz", porque está tudo caro mesmo.

Será que isso tem um limite? A lógica nos faz acreditar que sim, pois há um limite para o que é razoável, e eu não imagino que seja razoável vender barras de 2g de chocolate, nem de 5g... acho que o limite do aceitável vai ser quando começarem a vender barras da garoto, lacta, etc. nos mesmos moldes daquelas do kinder chocolate, barrinhas de 12,5g. As do kinder chocolate são bem caras, mas pelo menos ainda são de uma qualidade superior (acho). Se as coisas chegarem neste ponto, é porque o resto da economia foi pro saco. Torçamos para que não aconteça!

(Atualização de dezembro de 2024: a inflação no Brasil deu uma disparada em 2024, principalmente a partir do 2º semestre, e aconteceu exatamente o que o Mendigo Investidor descreveu nos comentários: relançaram os chocolates mais ou menos no tamanho antigo (150g) mas inventando ser uma "versão família" e cobrando mais caro!)

Fonte: clique aqui

Enfim, confraria, apenas um desabafo de mais um trabalhador que foi ao supermercado e se assustou com os preços das coisas. É triste ver nossa moeda tão desvalorizada, nossos salários valendo cada vez menos, entre outras problemas... Até quando?

Que produtos estão caros em suas respectivas cidades, confrades?

Forte abraço!

Fiquem com Deus!


quinta-feira, 23 de fevereiro de 2023

A devastação de nosso poder de compra

Não é novidade para ninguém que o poder de compra de nossa moeda está cada vez menor. 

Os efeitos da inflação tem se feito sentir com mais intensidade  nos últimos meses. Acho que todo mundo  aqui ja está ouvindo há muito tempo no trabalho, no mercado, na rua, etc. aquelas reclamações do "litro do leite muito caro" ou "preço da carne nas alturas", dentre outras.

Conforme escrevi já  há algum tempo em um comentário no blog do nosso colega de finansfera Engenheiro Tardio:

"Sair pra comer, fazer um passeiozinho qualquer você gasta em unidades de 100 reais (o 100 parece ser o novo 20tão)" - triste verdade, o nosso querido real não está valendo nada...Eu me lembro de quando eu saía para comer com 20 reais e ainda voltava com troco! Essa deveria ser uma das prioridades de qualquer governo, seja de direita ou de esquerda, democrata ou republicano: manter estável o valor da moeda, e buscar a deflação, caso possível."

Eu acho que todo governo deveria buscar valorizar a moeda de seu país,  pois todo o povo se beneficia disso, não apenas os mais ricos. 

E acredito que qualquer governo deveria buscar sempre a deflação, para que o poder de compra de todos aumente com o tempo.

Mas claro, isso num mundo ideal. No mundo real, qualquer governo é seu inimigo pessoal, e devemos fazer de tudo para viver da maneira mais digna possível apesar do governo. Não estou dizendo que não haja servidores públicos bem-intencionados, claro que eles existem, mas a entidade "governo", no geral, muito mais nos atrapalha do que ajuda, pois desde que os governos surgiram, eles foram cooptados a servirem somente aos interesses de  pequenas elites locais em detrimento de seus respectivos povos, e não vejo esse cenário mudando tão cedo, infelizmente. 

Alguns assuntos que têm surgido na internet nos últimos meses e que afetam direta ou indiretamente o poder de compra das moedas em geral:

- o enfraquecimento dos EUA perante China e Rússia, o que faz o mundo rumar para uma ordem "multipolar"

- com um mundo multipolar, o dólar pode deixar de ser a moeda de referência no comércio mundial, enfraquecendo seu poder de compra e sua utilidade como reserva de valor

- Além disso, consta que os EUA vem financiando a guerra na Ucrânia através da famosa impressora do FED. E, antes disso, parece que a maior parte dos gastos públicos com a covid foram financiados da mesma maneira... ou seja, mais dólar foi impresso aos bilhões nos últimos 3 anos.

- Rússia, China e Índia têm aumentado suas reservas de ouro, e muitos estão comentando que o preço dos metais preciosos tem sido mantido artificialmente baixo através da manipulação do mercado de títulos lastreados em metais. Isto está fazendo muita gente (na internet, pelo menos) acreditar em uma possível volta do padrão ouro, ao menos no mercado internacional. Eu sinceramente não acredito muito nisso, embora goste da ideia. E o Brasil bem que poderia seguir o exemplo do restante do BRICS e aumentar suas reservas de ouro também...

Sinceramente, não me interessa tanto se um smartphone está "barato", ou se um laptop está "barato", nem nada disso, se as coisas que realmente importam estão cada vez mais caras... água, comida, energia, gás, planos de saúde (o meu, por exemplo, sofreu um reajuste de 28% desde janeiro) consultas médicas... com estas coisas essenciais cada vez mais caras, de que adianta ter coisas supérfluas baratas? 

É tragicômico  notar como que os preços vão sendo reajustados em cascata... um belo dia a gasolina e o diesel aumentam, e com isso os fretes de todas as transportadoras aumentam, e isso puxa para cima os preços de tudo o que é transportado e os valores das passagens rodoviárias. 

Os preços nos supermercados seguem essa tendência. 

Um médico, ao fazer suas compras do mês,  sente tudo mais caro e pensa "vou ter que aumentar o preço da minha consulta", e assim o faz. 

Um advogado que se consulta nesse médico sente o aumento do preço da consulta, e dos alimentos nos supermercados, e pensa "preciso aumentar meus honorários", e assim o faz.

Quem mais se prejudica é,  como sempre, o trabalhador assalariado, que é encarado e tratado apenas como um custo na planilha do RH de sua empresa, e justamente por isto seu salário não é reajustado na mesma velocidade que os preços da economia, e nem na mesma proporção (vide o incrível aumento de 18 reais brutos do salário mínimo). Por esse e por outros motivos que eu acho importantíssimo que a mentalidade de autônomo seja cultivada, conforme o meu post da "Cultura de Emprego" (atual campeão de visualizações do blog), e também a busca por outras fontes de renda, principalmente por quem é CLT.

sexta-feira, 6 de maio de 2022

O que influencia o mercado de criptomoedas?

Fui fazer minha compra mensal de BTC e fiquei surpreso com o preço. 

Ainda é bastante caro e ainda acima do valor pelo qual comprei pela primeira vez (por volta dos 168K), mas como estava acostumado a ver o preço acima dos 200K, me impressionei.

Vejam só o gráfico do BTC, nos últimos  12 meses:

Todos os prints deste post foram tirados em 5 de maio de 2022.


O que pode estar influenciando o preço do BTC? (não tenho pretensão nenhuma de acertar nada, são só suposições) - creio que os 2 principais motivos sejam:

- Baleias enormes se desfazendo de suas posições rapidinho e inundando o mercado, o que força os preços para baixo (talvez com o objetivo de provocar uma queda para recomprar depois, mais barato?);

- Alta dos juros dos EUA - será que lá o pessoal é que nem aqui e quando vê um juro um pouco mais alto já corre para a renda fixa? Ou será que simplesmente os americanos voltaram a ficar otimistas com o dólar? Ou será que foi por causa da expectativa de redução da oferta de moeda (US$) provocada pela alta dos juros? Com menos dinheiro disponível, os grandes investidores institucionais precisam pensar duas vezes antes de pôr dinheiro em um ativo arriscado...


Podem ser todos os motivos listados acima, podem ser só alguns deles e podem ainda ter outros N motivos para a queda geral das criptomoedas. E é interessante reparar como que o BTC é o benchmark desse mercado, pois a cotação das demais criptos (ao menos das principais) tende a seguir os movimentos do bitcoin. Vejam alguns gráficos abaixo:

Gráfico de 12 meses do ETH

Gráfico de 12 meses do LTC

Gráfico de 12 meses do Polkadot


Uma coisa interessante de se notar foi que o BTC subiu bastante a partir da pandemia (notem o preço de 25K reais em 13/3/2020):


E durante todo esse tempo dr pandemia, milhares de altcoins foram lançadas (a maioria provavelmente "shitcoin"). Imagino que só uma minoria continue existindo nos próximos 5 anos... mas posso estar enganado!

Enfim, só achei interessante a movimentação dos preços das criptomoedas neste começo de maio. Acabei lendo alguns artigos a respeito e já há (desde pelo menos fevereiro, na verdade) repórteres e economistas falando de um novo "inverno cripto". 

Imagino que isso tudo "funcione" da seguinte maneira: existe um "preço mágico" que é o "consenso" do mercado para o que deveria ser o  "piso" do bitcoin. Se ele não romper esse "piso", muita gente vai aproveitar para comprar BTC "barato", e por causa disso, a moeda deve se recuperar em seguida, voltando à casa dos 200K. Porém, se o preço romper o "piso", vai aumentar o número de pessoas que vão perder a confiança na moeda, e um novo "piso" será "eleito" pelo "consenso" do mercado

Como eu aporto bem pouco em BTC (menos de 2% do meu patrimônio total), para mim tanto faz o que vai acontecer com essa moeda. Se virar pó, posso ficar um pouco chateado, mas logo vou superar.


E vocês,  confrades? Aportam em BTC? 

Os que não aportam, o que acham dessa moeda?

Forte abraço e fiquem com Deus!

sábado, 12 de março de 2022

Breves reflexões sobre a inflação no Brasil e seus efeitos em nossa sociedade

 

A que ponto chegamos...


O nosso dinheiro infelizmente não está valendo nada e temos vivido tempos inflacionários nos últimos anos.

Aliás, de uma maneira geral o dinheiro no mundo todo não está valendo muita coisa, mas como aqui somos um país que há muito tempo possui histórico inflacionário já há uma "desconfiança" natural do povo com relação à nossa moeda e, por isso, geralmente sentimos mais estes efeitos da desvalorização monetária , que ainda por cima é agravada pela desvalorização  cambial. Embora sejamos um país grande e bastante populoso, nossa moeda é irrelevante no comércio internacional. 

A inflação de nossa moeda faz com que os metais e outras conmodities fiquem ainda mais caras para nós, o que impacta todos os preços de nossa economia. 

Um fenômeno que ocorre em consequência disso é o abandono da moeda. Isso inclui a compra de moedas mais fortes, a compra de metais preciosos, e também a busca por outros metais e até mesmo mercadorias baratas, conforme veremos abaixo. 

E acredito que a inflação alta também contribui para o aumento do crime, conforme também veremos abaixo.

Às vezes fingimos que não, mas o Brasil é um país onde a pobreza é quase extrema*, onde falta saneamento básico até mesmo em capitais, a infraestrutura no geral é precária, etc.  

Na verdade, o Brasil tem pequenos "oásis" mais desenvolvidos, cercados por bolsões de pobreza e miséria, ou até mesmo cercados por locais completamente abandonados onde quase ninguém mora e parecem não atrair interesse nem do Estado e nem da iniciativa privada... 

A maioria da população não tem condições de trocar nossa moeda  por outra mais forte, nem por ouro e prata, e nem por ativos mais financeiros (ações, FIIs) e é obrigada a continuar no real, sofrendo com constantes reajustes de preços, sem os devidos reajustes salariais, perdendo seu poder de compra, que nem uma vítima sendo sugada por um vampiro...

Tudo isso é agravado pela inflação: a falta de infraestrutura desestimula investimentos, tanto de investidores nacionais quanto estrangeiros, o que diminui o número de vagas de emprego, principalmente as que exigem maior qualificação. 

A maioria das vagas por aqui é para empregos de baixa ou nenhuma especialização, que normalmente pagam 1 salário mínimo + VT + VR, isso quando pagam, e de período integral (na minha opinião, empregos de 1 salário mínimo deveriam ser só de meio expediente), geralmente com horas extras não pagas - dificultando muito que o indivíduo se qualifique ou busque atividades paralelas, até mesmo o lazer fica difícil, ainda mais o lazer saudável como a leitura. 

Como o desemprego costuma ser alto, mesmo vagas de emprego que pagam pouco são disputadas a tapa por milhares de desempregados, e então não há incentivo nenhum para que os empresários aumentem os salários, pois a oferta de mão de obra está sempre maior que a demanda. Até mesmo reajustes inflacionários demoram a ocorrer, e geralmente são abaixo da inflação. O nosso poder de compra diminui rápido por aqui.

Os salários baixos, aliados à inflação alta e à educação precária contribuem para o aumento da criminalidade: os cidadãos de mente fraca e moral baixa vão para o crime (geralmente oriundos de famílias desestruturadas, mas isso não é condição necessária para ser criminoso)  para tentar compensar o que não conseguiriam ganhar com trabalho honesto (na verdade muitos até repudiam o trabalho honesto - e acredito que as péssimas relações de trabalho no Brasil somadas aos baixos salários e às longas horas de jornada ajudam a explicar ao menos em parte isso, mas óbvio que não justificam!).

Como a criminalidade e a impunidade são bastante altas, tem gente que rouba até mesmo fios de cobre, portas de alumínio, tampas de bueiro feitas de aço ou ferro fundido, e por aí vai, porque o preço dos metais, mesmo os não preciosos, está "compensando" o risco do roubo. Nossa moeda não está valendo nada mesmo. 

Até lâmpadas estão sendo roubadas, obrigando comerciantes a colocarem grades para protegê-las. E a foto logo no início do post é um fenômeno semelhante, com comerciantes colocando cadeados para impedir que roubem o papel higiênico dos banheiros de suas lojas. Surreal!!




É de certa forma assustador pensar que, além da infraestrutura já ser precária, dependendo de onde moramos, ainda corremos um sério risco de, do nada, termos luz, internet e telefone cortados por conta de algum vagabundo que resolveu arrancar os fios para revender o cobre, e então ficamos à mercê da companhia elétrica, esperando ela ir lá e repor os fios, consertar os estragos feitos pelos criminosos (e a conta obviamente será repassada para nós que trabalhamos... o crime infelizmente compensa, no Brasil, pois o ladrão provavelmente seria solto em pouco tempo).


O dinheiro não estar valendo nada também explica ao menos em parte porque a comida tem ficado mais cara: além da própria desvalorização da moeda em si pela inflação, ainda tem a desvalorização cambial que faz valer mais a pena exportar a produção agropecuária do que vender no mercado interno (e acabamos ficando praticamente com a xepa - e cara, ainda por cima)

Sinceramente, não entendo os economistas que defendem que nossa moeda precisa ser fraca no câmbio para sermos mais competitivos no mercado internacional e entendo menos ainda os pseudo-economistas que dizem que inflação é saudável para a economia. Desse jeito estamos sendo competitivos às custas das pessoas comuns,  pobres e de classe média, e o objetivo de nenhum governo deveria ser esse.

O caso da hiperinflação no Brasil, ainda recente em termos históricos, deixou uma marca profunda na psique do brasileiro,  pois forjou uma mentalidade avessa à poupança na população em idade de trabalhar naquela época. 

Após decorridos quase 30 anos de relativa estabilidade do Plano Real, considero que ainda estamos engatinhando na formação desta mentalidade de planejamento para longo prazo. 

Claro que isso não é exclusivamente culpa da hiperinflação dos anos 80 e início dos 90, mas também da relativa precariedade dos salários no Brasil e do espantoso nível dos aluguéis e do custo de vida em geral nas principais cidades, o que impede muitos de pouparem e investirem, ainda que queiram e tenham esta mentalidade de longo prazo.

Eu sinceramente não entendo como que em um país em que a renda média mensal está na casa dos R$ 2.200* as pessoas têm coragem de cobrar mais de R$ 1.000,00 de aluguel até para morar em "semi-cativeiros", e nem como têm coragem de cobrar mais de R$ 100K em casas que parecem barracos em ruas que mal têm asfalto e saneamento básico, ou até mesmo cobrar mais de R$ 200.000 em apartamentos de menos de 30m²... (chamados pela indústria imobiliária de "studio" para não chamar de cubículo ou cela) 

Eu considero que viver pagando mais da metade do salário só em aluguel é uma condição análoga à escravidão,  e que ganhar 1 salário mínimo (ou até um pouco mais que isso) é sim uma forma de escravidão moderna, pois mal dá para cobrir os custos mínimos de vida em muitas cidades e obriga a pessoa a viver correndo atrás do próprio rabo em termos financeiros, sem sair do lugar. Se ao menos fossem empregos só de meio expediente... seria menos pior.

Óbvio que nada o que está escrito acima é culpa exclusiva da inflação... também temos de culpar a educação precária, as más influências da mídia, as más influências da "literatura" nacional que vem sendo produzida pelo menos nos últimos 50 anos, a "arte" que vem sendo produzida nos últimos 100 anos, entre vários outros fatores, principalmente os de ordem cultural ligados à "mentalidade brasileira".

E vocês, confrades, o que acham disso? Vocês têm sentido os efeitos da inflação? Acham que o certo seria brigar para que nossa moeda fosse mais relevante no mundo?


Forte Abraço!

Fiquem com Deus!

*: a renda mensal média do brasileiro é de cerca de R$ 2.200,00, conforme o IBGE, o que daria pouco mais de US$ 5K por ano - lembrem-se de que nos EUA um caixa do Walmart ganha em média US$ 23K  por ano! Pensem no quanto ganha o caixa de um super-mercado grande aqui no Brasil...

sexta-feira, 4 de junho de 2021

Iniciando minha carteira de investimentos - parte 5 (final) - Renda Fixa

 Saudações, confrades!


Vamos à última parte da série sobre a montagem de minha carteira de investimentos.

Agora falando sobre a Renda Fixa, um assunto que, confesso, não curto muito.

Como este assunto também já foi amplamente debatido em diversos sites, blogs e fóruns, vou escrever apenas as minhas opiniões pessoais sobre o assunto:

1) Considerando que o mais importante é o prazo do investimento (por causa do efeito exponencial que ele exerce sobre o montante final, tendo em vista a fórmula dos juros compostos), não me parece bom negócio aplicar só em títulos de prazos curtos (ex: 2 anos, 5 anos, etc) a não ser que seja uma grana que você esteja juntando para um objetivo específico de curto prazo. Então, por exemplo, aquele dinheiro para se aposentar, atingir a IF, a TF, etc. tem que ser aplicado em algum título público de 30 anos, 40 anos, etc. o de prazo mais longo que estiver disponível no momento da aplicação, e preferencialmente com cláusula de correção pelo IPCA. O dinheiro para comprar uma casa, por outro lado, pode ser aplicado em um título de 10 anos, por exemplo, porque espera-se que o prazo para atingir este objetivo seja mais curto do que o para se aposentar. 

2) Renda Fixa não produz renda, é só correção do valor, ou seja, aqui é só para guardar o dinheiro. Aqui é o pé de meia. Nada de gastar os juros, senão o patrimônio não cresce. Na época em que a Selic estava bem alta, tinha muita gente pensando que seria possível viver de renda tendo um ou dois milhões aplicado em um título de renda fixa, usando os juros para cobrir as despesas mensais. Se alguém fizesse isso e gastasse totalmente os juros,  quando chegasse ao final do prazo do título, terminaria com seu milhão corroído pela inflação 30 anos depois.

3) É necessário tomar cuidado com os títulos de "banquinhos": geralmente são bancos que você nunca ouviu falar e cujos títulos de dívida pagam mais de 100% do CDI. Há um motivo para eles pagarem juros mais altos que a média, e certamente não é porque são bonzinhos e generosos, e sim porque eles precisam dar algo em troca, senão ninguém emprestaria dinheiro para eles. Os "bancões" pagam menos de 100% do CDI em seus títulos porque eles são grandes e poderosos, então o risco de emprestar dinheiro para eles é bem menor, e com isso eles não precisam recompensar tanto assim o risco de investir neles. Bem, praticamente todo ano tem algum banquinho que vai à falência, e por mais que exista o FGC, você vai ter dor de cabeça para recuperar sua grana (no mínimo vai ficar ansioso e estressado, com medo que justamente na sua vez dê tudo errado e o dinheiro suma). Mas é necessário tomar cuidado e verificar, pois nem tudo está protegido pelo FGC. 

4) Por mais que a renda seja "fixa", lembre-se que com a inflação e com o risco de calotes, inclusive do governo, ela ainda é uma aposta no futuro. Claro que se o governo der calote e não honrar seus títulos de dívida pública, todo o mercado vai sofrer (provavelmente só os metais preciosos, moedas estrangeiras e as criptos é que subiriam de valor, protegendo uma parte de nosso patrimônio), mas não podemos considerar que a renda fixa é algo "garantido" e livre de riscos (por mais que a literatura de finanças chame alguns títulos de renda fixa de "risk free", como na fórmula do CAPM);

5) Há investidores que fazem trade com títulos do tesouro, e já ouvi muitas conversas no trabalho sobre comprar títulos no Tesouro Direto em tal dia e revender em determinada data do mês, porque sempre sobe e etc e tal. Bem, se você fizer desse jeito, deixa de ser renda fixa e você poderá até perder dinheiro com a oscilação do preço do título. Você só vai ganhar o valor acordado (IPCA + X%) se segurar o título até o vencimento.

6) Por mais que os ditos "especialistas" e os sites e revistas "de finanças" e alguns supostos "gurus financeiros" esculachem a poupança e digam que deixar dinheiro na poupança é jogar dinheiro fora, eu acho o seguinte: é a melhor escolha pra reserva de emergência (RE) porque não tem burocracia, pode sacar a hora que quiser, pode movimentar para a conta-corrente na hora que quiser, não paga imposto, não tem que preencher formulário de nada pra movimentar, não tem que esperar abrir o mercado, e por aí vai. Além disso, quem só aporta na caderneta de poupança já ganha um rendimento superior ao de 99,9% dos traders e sem gastar um centavo com cursinhos on-line ou montando setups ou pagando softwares de gráficos. 

Dito isto, pretendo separar meus aportes de renda fixa em 3 "potes" diferentes:

A) Reserva de Emergência (poupança), com meta de 12 meses de salário líquido;

B) Tesouro IPCA com o prazo mais longo possível (mas ainda tenho dúvidas quanto a isso, não me sinto muito confortável aplicando em títulos de prazos tão longos...eu sinceramente julgo um título desses mais arriscado do que ações de boas empresas...);

C) Tesouro SELIC ou IPCA com prazo de 10 anos, para futuramente adquirir outro imóvel para morar (e deixar o atual alugado, rendendo uma grana extra).

Ao menos por enquanto, minha estratégia com a renda fixa é essa. Pode ser que com o passar do tempo minhas prioridades mudem, pode ser que eu dê muita sorte e não precise juntar por 10 anos para comprar outro imóvel e por aí vai. O futuro a Deus pertence.

Forte abraço, companheiros da finansfera!

Fiquem com Deus!

quarta-feira, 4 de novembro de 2020

Como o governo poderia se financiar sem impostos?

 

Saudações, confrades.

Com este artigo vou fechar minha série sobre impostos (pelo menos por enquanto, porque quero escrever sobre outras coisas). 

Reafirmando o que já escrevi nos posts anteriores: creio que mesmo o estatista mais empedernido irá ao menos pensar que impostos são "um mal necessário". No mínimo os impostos deveriam ser os menores possíveis, de modo a não subtrair riqueza do povo, principalmente dos pobres.  

Como já falei muito por aqui, defendo uma alíquota máxima de 1% em qualquer imposto, e acho que só deveriam existir impostos sobre o consumo de bens e serviços não-essenciais (ou seja, alimentos naturais, remédios, água e serviços médicos deveriam ser isentos).

Agora, e se os impostos não fossem.. bem... "impostos"? E se fossem totalmente voluntários? Ao meu ver isso melhoraria muito o governo, que passaria a ser sustentado por voluntários e, portanto, com uma Espada de Dâmocles ainda mais afiada que o normal sob sua cabeça, sempre em xeque, pois suas fontes de financiamento seriam extremamente voláteis e poderiam a qualquer momento evaporar, visto que não seria crime deixar de ser financiador voluntário do governo. Creio que com isso o poder de Estado seria melhor exercido, pois seria, reforçando, sustentado por voluntários, por homens livres. 

Será, então, que seria possível a um país ter um governo sustentado totalmente por contribuições voluntárias?

Para fins de exercício mental, vou propor aqui alguns exemplos de contribuições voluntárias que, a meu ver, poderiam muito bem substituir os impostos e com isso moralizar o governo e multiplicar a atividade econômica, gerando renda, riqueza e prosperidade para todos os brasileiros:

1) Loteria - esta forma já existe, parte da arrecadação da mega-sena, lotofácil, etc. vai para os cofres públicos e o prêmio divulgado já está descontado deste montante. Ou seja, se a mega-sena está todo mês acumulando alguns milhões de reais, então a loteria seria a meu ver uma boa fonte de receita voluntária, e num cenário em que o governo dependa de voluntários e não possa obrigar ninguém a lhe pagar nada, então o jogo tenderia a ser honesto (se bem que mesmo com todos os boatos de fraudes as pessoas continuam jogando, mas vocês entenderam o que eu quis dizer);

2) Taxas de estacionamento - é uma ideia que já vi por aí: o governo seria o dono de todas as vagas em ruas (contanto que estacionamentos privados existissem também) e o valor pago para estacionar seria receita pública, e totalmente voluntária, afinal ninguém é obrigado a usar o carro e nem a estacionar na rua (poderia usar um estacionamento particular, por exemplo). Com a tecnologia atual, nem precisaria de um "fiscal" ou "guardinha" para recolher o dinheiro, poderia haver parquímetros que descontariam o valor do estacionamento automaticamente da conta bancária do dono de cada carro que estacionasse, à semelhança do que já ocorre em alguns pedágios. Esta fonte pode se estender também a taxas de atracação de navios em píeres e aviões em hangares que porventura fossem estatais (desde que não fosse proibido à iniciativa privada construir píeres e hangares, de modo que ninguém seria obrigado a usar os estatais);

3) Aluguel de imóveis públicos - Se a máquina pública fosse enxugada de verdade, haveria muitos imóveis governamentais que ficariam ociosos. Porque não alugá-los para a iniciativa privada? Se não houvesse intervenção e os aluguéis destes imóveis seguissem a lei da oferta e da procura (ou seja, se cobrassem aluguel condizente com a localização, metragem quadrada e facilidades do imóvel), provavelmente nunca ficariam vagos e o governo teria sempre uma receita de aluguéis, totalmente voluntária, afinal ninguém seria obrigado a ser inquilino do governo;

4) Venda de cotas de FIIs lastreados em imóveis públicos - além de alugar seus imóveis, o governo poderia abrir mão de um percentual de seu direito de propriedade (menos da metade, para manter o voto majoritário) e transformar grupos de imóveis públicos em FIIs e vender cotas destes fundos em bolsa. Novamente, compra quem quer, e o governo teria todo o interesse na eficiência destes FIIs e em manter as cotas com bom valor no mercado;

5) Venda de moeda estrangeira (especulação cambial?) - o governo poderia adquirir dólares, euros, libras, etc. em uma época e vendê-los com lucro em outra época (não dizem, brincando, que foi isso que o ministro Paulo Guedes fez?). Obviamente esta operação tem risco, mas considero que pode sim ser uma fonte de receita pública, e totalmente voluntária - só compra dólar do governo quem quer;

6) Exploração Turística de imóveis e terrenos públicos - alguns edifícios históricos poderiam atrair turistas, e o governo poderia cobrar ingresso para a entrada, além de instalar lojas, restaurantes, etc. nos arredores (quer dizer, na verdade isso já é feito, mas poderia ser levado mais a sério). Também é uma fonte voluntária de receita, ninguém é obrigado a visitar estes lugares,  e o grosso do dinheiro arrecadado aqui serviria para a manutenção de nossas construções históricas e monumentos, o que é bom para valorizar nossa história, a qual aliás é bastante desvalorizada;

7) Pedágios de vias públicas - liberando a construção de estradas pela iniciativa privada, o governo poderia abrir rotas alternativas e pagar pedágio pelo uso delas, também não vejo nada de errado aqui, uma vez que ninguém seria obrigado a usá-las;

8) venda de taxas de registro de navios - é algo que a Libéria já faz e lhe gera alguma renda.  O governo do Brasil poderia vender tais registros e com isso adquirir mais uma fonte de receita voluntária;

9) Serviço de penhores - atualmente a Caixa Econômica exerce a função de casa de penhor (embora haja um projeto de lei em trâmite para quebrar este monopólio, conforme escrevi neste artigo ). Liberando esta atividade para a iniciativa privada, não vejo problema no governo continuar atuando nos penhores, seria apenas mais um concorrente, desde que respeitasse a lei da oferta e da procura e não praticasse concorrência desleal; 

10) Impressão de moeda de outros países (considerando que a casa da moeda continue estatal) - mantendo uma boa qualidade de impressão de notas e cunhagem de moedas, poderíamos oferecer esse serviço para Nações que  não disponham da estrutura necessária, bem como para empresas privadas que desejem imprimir notas, títulos, cunhar moedas e medalhas comemorativas, etc.

11) Senhoriagem - se o Brasil voltasse a adotar moeda lastreada em metais preciosos (ouro, prata, etc.) e com isso voltasse a cunhar moedas destes metais, o governo arrecadaria com a diferença de valor entre o custo de emissão da moeda e o valor de face das moedas (na prática isso já acontece, mas eu me refiro a esta prática em um cenário ideal em que além do padrão-ouro, a moeda do governo não fosse de curso forçado - ou seja, em um cenário em que não seria proibido usar moedas diferentes do real para comprar, vender, receber salários, etc., ou seja, em que por aqui houvesse uma moeda estatal de uso voluntário). Se a moeda não fosse de curso forçado,  o governo teria um enorme incentivo para que ela fosse a mais valiosa possível, para que fosse usada pela população e assim o governo pudesse lucrar com a senhoriagem.  

12) Dividendos e Venda de ações (especulação?) - à semelhança da compra e venda de moedas estrangeiras, o governo poderia comprar ações de qualquer empresa e usar os dividendos e o dinheiro da venda para se financiar (aqui caberia uma observação: seria imprescindível haver uma lei que impedisse o governo de adquirir participações significativas em empresas, para evitar que o governo com isso "criasse" estatais através de aquisições predatórias. Por exemplo, esta lei hipotética poderia fixar que o Estado não poderia nunca ser dono de parcela superior a 1% do capital votante de qualquer empresa).

13) Doações diretas - estando o governo totalmente dependente de voluntários, então poderia também abrir canais diretos de doação, para que os interessados lhes repassassem recursos, como pessoas comuns já fazem (apoia.se, vakinha, patreon, etc.). A doação direta poderia ser para projetos específicos, por exemplo (manutenção  de pontos turísticos, custeio de hospitais públicos, etc.)

14) venda de cidadania - por fim, não havendo impostos, creio que a atividade e a liberdade econômica no país seriam bastante elevadas, de modo que seria muito interessante se tornar cidadão. O governo poderia cobrar uma taxa  de cidadania dos estrangeiros interessados, e, quanto melhor fosse o país, mais cara poderia ser a taxa cobrada para se adquirir a cidadania, e isto poderia ser uma boa fonte de receita, e totalmente voluntária.


O meu artigo parece utópico? Sim, mas tudo começa no mundo das ideias. Quem sabe um dia, com uma humanidade mais livre e mais evoluída não seja assim que as coisas irão se organizar?

E vocês? Acreditam que um governo poderia manter uma estrutura mínima sendo financiado somente por voluntários? Eu acredito. 

Forte abraço,  fiquem com Deus!

quinta-feira, 29 de outubro de 2020

Sobre o IGF

Saudações, confrades!

Dando continuidade ao meu post anterior sobre tributos, vou falar hoje sobre um fantasma que assombra a economia brasileira pelo menos desde 1988, o imposto sobre grandes fortunas (IGF).

O IGF é um tributo que infelizmente está previsto na nossa constituição "cidadã", e é um assunto que de quando em quando vem à tona em debates políticos, principalmente na época de campanhas eleitorais federais. 

Assim como qualquer matéria de caráter legal no nosso Brasilzão, nossa querida Terra de Santa Cruz, o IGF tem diversos problemas decorrentes das dificuldades de definição do significado das palavras:

1) Só para começar, o que é uma "grande fortuna"? Aliás, o que é uma "fortuna"? Se existe a "grande fortuna" então deve existir a "média fortuna" e a "pequena fortuna".

2) Quem determina o que é uma grande fortuna? É o congresso? É o poder judiciário? 

3) O critério escolhido para "grande fortuna" será atualizado pela inflação ou vai permanecer o mesmo por décadas a fio?

4) Quem tem 1 centavo a menos que o critério vai escapar de pagar?

5) O critério será baseado em renda ou patrimônio? Ou em alguma combinação destes ?

6) Irá incidir somente sobre pessoas físicas? Ou empresas também podem ter "grandes fortunas"?

7) Caso empresas possam ter "grandes fortunas" o critério será o mesmo que o usado para as pessoas físicas?

8) O IGF será um valor a ser pago de uma só vez ou o detentor de uma "grande fortuna" será condenado a pagar todo ano, que nem o IPTU?

9) o imposto será um percentual da "grande fortuna" ou haverá outra forma de cálculo?

A julgar pela realidade do Brasil, eu imagino 2 cenários possíveis para o IGF:

A) como em nosso país o salário médio e o patrimônio e renda médias são bastante baixos, pode ser que o critério determinado para a "grande fortuna" seja um valor relativamente baixo, como o nosso querido 1 milhão de reais da blogosfera, ou até mesmo 100 mil reais, ou 50 mil, o que faria dele um "imposto sobre pequenas e minúsculas fortunas"; 

ou

B) Pode ser que o critério seja mesmo uma "grande fortuna", digamos, 20 milhões de reais. Neste caso só afetaria alguns empresários e (talvez) alguns políticos.

Sinceramente, eu não acredito muito no cenário B, acho que se conseguirem meter mais este imposto vai acontecer o cenário A. Em épocas em que eu era mais ingênuo, eu acreditava que este imposto nunca, jamais seria criado e ficaria para sempre como uma ameaça, porque eu realmente acreditava que os mais afetados pelo IGF seriam os políticos e seus padrinhos do mundo empresarial, e eles não iriam querer se prejudicar com mais um imposto. 
      Mas hoje em dia eu tenho minhas dúvidas e acho até plausível que o IGF um dia venha a existir, principalmente quando eu li notícias a respeito do patrimônio (declarado) dos candidatos a prefeito em algumas cidades do Brasil. 
    Alguns dos candidatos são políticos relativamente famosos e veteranos, e seu patrimônio declarado muitas vezes é irrisório ou nulo. Um político  veterano ter um patrimônio irrisório ou nulo me faz pensar que ou há desonestidade  nesse patrimônio (não ter nada no nome dele é uma estratégia para sempre estar 1 passo a frente da justiça no caso de um eventual bloqueio de bens, e também indica que o patrimônio verdadeiro provavelmente está no nome de terceiros ("laranjas") ou oculto em outro país) ou então, na melhor das hipóteses,  que a pessoa é tão incompetente para administrar suas finanças pessoais que talvez seja um erro deixá-la administrar finanças públicas ou legislar sobre seu uso.  Acredito que ter um patrimônio pessoal declarado irrisório ou nulo seja a realidade de muitos políticos. 
    Sendo assim, creio que haja uma chance de que o critério do que seria uma "grande fortuna" suscetível ao IGF provavelmente venha a ser um valor bem baixo,  de modo que muitas pessoas que são consideradas classe média ou até mesmo pobres seriam obrigadas a pagar. Não estavam considerando que 2 salários mínimos tornam alguém da classe média?   Então o malabarismo mental para considerar 50 mil reais uma grande fortuna não está tão longe disso.  

De qualquer maneira, se este imposto for criado, muito provavelmente será inócuo para as finanças públicas pelos seguintes motivos:

1) a não ser que o critério de "grande fortuna" seja absurdamente baixo (conforme descrevi acima), acho que nem 5% da população brasileira pagaria este imposto. A arrecadação não seria tão grande assim, mesmo considerando que todo contribuinte pagasse direitinho. Não faria muita diferença para as finanças públicas;

2) como qualquer imposto, haveria um imenso incentivo à sonegação, então muita gente daria um jeitinho de burlar o IGF, seja transferindo patrimônio para outros países sem declarar à receita, ou distribuindo-o para pessoas de confiança de modo que cada parcela do patrimônio seja inferior ao critério de "grande fortuna";

3) A exemplo do que já ocorreu em outros países (por exemplo, a França, que instituiu um IGF draconiano e depois teve que suavizá-lo por causa da grande fuga de capitais que se sucedeu), muitos dos ricaços dariam um jeito de fugir com suas fortunas, talvez transferindo tudo para contas no exterior, talvez mudando as sedes de suas empresas para outros países. E tenho certeza de que há "N" outras maneiras disponíveis aos verdadeiramente ricos para protegerem seus patrimônios, maneiras estas que não estão disponíveis à classe média e nem aos pobres (a mais óbvia é a compra de outra nacionalidade em algum país onde não tenha IGF e/ou que tenha tributos menores - foi o que Gerárd  Depardieu e muitos outros multimilionários franceses fizeram);

4) Com os ricaços locais fugindo do país, os ricaços estrangeiros também não iriam querer trazer suas fortunas para cá, ou seja, resultaria em menos investimentos em nossa economia, menos empregos, menos renda e menos consumo (e em consequência, menos arrecadação para o governo... o cachorro morderia o próprio rabo!);

5) Caso venha a existir, o IGF seria somente mais um caso de multitributação no horroroso direito tributário brasileiro. Pensem só: o rico já paga o IPTU sobre seu(s) imóvel(is), já paga IR e CSLL sobre os lucros de sua(s) empresa(s), já paga IR sobre seu pro labore, etc. e isso tudo faz parte de seu patrimônio. O IGF estaria tributando novamente este mesmo patrimônio, mais uma vez usando como "justificativa" o malabarismo retórico típico dos legisladores  - "ah, não é bitributação porque o fato gerador do IGF é diferente" ... Primeiro, esta "diferença" é bastante controversa: a posse do patrimônio classificado como "grande fortuna" é diferente da posse do imóvel que faz parte desta mesma grande fortuna? Como que a auferição do lucro da empresa, que vai ser incorporado ao patrimônio da mesma e já foi tributado, é diferente da "posse" do patrimônio da mesma empresa para fins do IGF? E mesmo que alguém possa argumentar de maneira convincente (e não vai) de que o fato gerador seja mesmo diferente, eu digo: e daí que é diferente? O efeito prático não é o mesmo? 

    Em minha pesquisa para escrever este post, me deparei com as seguintes notícias, que mostram que já há alguns projetos de lei em trâmite na Câmara dos Deputados para regulamentar este imposto. Vejam aqui e aqui. Neste link encontra-se o texto do projeto de lei 215/2020 para o IGF.

    Resumidamente, a primeira notícia fala especificamente sobre o projeto de lei, e que o objetivo é taxar quem tiver patrimônio líquido acima de R$ 50 milhões de reais, e a alíquota (2,5%) incidirá sobre os "bens suntuários" (imóveis acima de 5 milhões de reais, e veículos acima de R$ 500 mil, no caso de transporte terrestre; acima de 1 milhão no caso de barcos, e acima de cinco milhões no caso de aeronaves).  Obviamente se o IGF chegar a ser implantado nestes moldes, não irá atingir diretamente uns 99% da população brasileira, mas é certo que atingirá alguns ricos e atingirá também várias empresas (está escrito que incidirá sobre pessoas físicas e jurídicas) e em consequência irá atingir indiretamente todos os brasileiros, pois de um jeito ou de outro os custos tributários das empresas são repassados aos clientes. 

    O segundo link também fala a respeito de outros projetos de lei em tramitação (PL 112/2020 e PL 88/2020). O primeiro fala sobre a criação de um "empréstimo compulsório" (nome bonito, né?) sobre grandes fortunas, para ser destinado ao combate da pandemia, e o outro fala sobre a criação do IGF ("imposto") mesmo.  Ambos classificam "Grande Fortuna" como patrimônio líquido a partir de 20 milhões de reais. O "empréstimo compulsório" tem data de validade (supostamente seria aplicado só em 2020) e teoricamente* seria devolvido aos contribuintes em 4 prestações anuais, a partir de 2024 e corrigido pelo IPCA. Além disso, o "empréstimo compulsório" pode ser aplicado "de supetão", sem obedecer os princípios da noventena e da anterioridade, ou seja, assim que publicada a lei que o regulamenta, ele já seria obrigatório para seus ""contribuintes"". 

    Se vocês pesquisarem o assunto, encontrarão várias discussões e vários outros projetos de lei, cada um definindo o que é uma grande fortuna por um valor diferente. O mais baixo que vi definia que era 5 milhões de reais, o que embora seja ainda bastante dinheiro, não é nem de longe uma grande fortuna (atualmente não chega nem a 1 milhão de dólares). Em outros países, o caso mais chocante que vi foi o do Uruguai: um patrimônio de 2,21 milhões de pesos (equivalente hoje a uns 300 mil reais) já torna o cidadão contribuinte do IGF deles, com alíquota a partir de 0,7% (fonte).

    No primeiro destes projetos de lei que mencionei neste post (PL 215/2020), verifiquei uma coisa que considero ainda mais preocupante que o próprio imposto em si: seu autor menciona no texto que os recursos arrecadados serão destinados a " projetos para construção de unidades de ensino ou de saúde credenciados pelo Governo Federal, pelos Estados ou pelos Municípios.".  Notem que o autor do projeto de lei quer que os recursos arrecadados sejam destinados a coisas que no fim só aumentarão o custo do Estado e que provavelmente demandarão a criação de novos impostos ou o aumento dos já existentes, afinal novas unidades de ensino e de saúde demandarão mais profissionais estatais de ensino e saúde, além de gastos extras com luz, água, gás, seguros, manutenção predial, veículos, combustíveis, etc. 
   
 Por quê, raios, não surge um projeto de lei para diminuir o tamanho do Estado, ou pelo menos cortar algumas despesas? A triste realidade é que a todo momento surgem projetos de lei que visam aumentar os gastos do governo (nas 3 esferas - federal, estadual e municipal), sempre com fins politiqueiros (as promessas de sempre - mais dinheiro para educação, para segurança, etc), mas os autores destes projetos parecem nunca se preocupar com a origem dos recursos que custearão tais gastos. Na prática estão passando a conta, na "melhor" das hipóteses, para as gerações seguintes. Um dia a bomba estoura. Estamos cansados de saber disso.

    Se algum político estivesse realmente interessado em fazer "justiça social", brigaria pela diminuição de impostos para todos, ricos e pobres, pela simplificação das regras tributárias, pela desburocratização da abertura de empresas e pela dissolução das regulações desnecessárias em todos os setores da economia, dentre outras coisas.

O que vocês acham do IGF, especificamente? No post anterior, alguns leitores se manifestaram tanto contra quanto a favor, mas gostaria de saber mais opiniões a respeito.

E o que vocês acham da irresponsabilidade fiscal implícita nas promessas "milagrosas" de vários candidatos que estamos vendo nas atuais eleições e praticamente todas as outras?

Forte abraço, fiquem com Deus!


*: Segundo esta notícia (de 2018), até hoje o governo está devendo a devolução de empréstimos compulsórios tomados nos anos 80. Então, creio que caso a União institua mais este, ele provavelmente não será devolvido.