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terça-feira, 21 de julho de 2026

Meu emprego dos sonhos

 Saudações, confrades!

acho que esse post era bait, porque já vi essa mesma história sendo publicada em inglês em outra parte do twitter (ver a foto abaixo). Provavelmente é apenas uma copypasta, mas não deixa de ser, de certa forma, "real"!

A versão em inglês da mesma história, em outra rede social, o que praticamente comprova que trata-se de uma Copypasta. Mas, como eu disse acima, essa história tem um fundo de verdade e já devem ter acontecido situações semelhantes inúmeras vezes na vida real!


Motivado por umas discussões que eu vi na internet recentemente acerca da famigerada "ética do trabalho" (vide imagens acima), vou escrever este post apenas como um exercício mental e de imaginação no qual eu tento desenhar como seria o meu emprego dos sonhos, o meu emprego ideal (esse meu emprego imaginário é na secretaria de uma escolinha de cidadezinha de interior ou de uma cidade mediana com no máximo uns 300.000 habitantes) - acredito que as características que eu vou descrever abaixo são as do "emprego dos sonhos" de muitos brasileiros por aí, então os confrades que gostam de ler meu blog, por favor, vejam se por acaso se identificam:


(OBS: a maioria das coisas que descreverei são características físicas do ambiente de trabalho, então se eu montasse uma empresa eu deixaria o ambiente dessa forma em meu estabelecimento)


- Emprego público, preferencialmente municipal, de uma boa cidadezinha média, ou qualquer emprego privado que tenha alta estabilidade numa cidadezinha dessas - e geralmente escolas são empregos mais estáveis do que a média do mercado privado

- Expediente de 8h às 16h30 ou 8h às 17h (podendo vender o almoço ou almoçar rápido no escritório para sair mais cedo) ou de 9h às 17h. (Se em qualquer emprego eu pudesse vender minha hora de almoço para sair mais cedo, eu traria uma "marmita saudável" todo dia e almoçaria de boa na frente do computador que nem os supostos empregados "de alto desempenho" mencionados na história dos prints acima, mas eu não faço isso porque sei que não haverá vantagem nenhuma e não poderei sair mais cedo, então eu sempre faço questão de tirar a minha hora de almoço inteira igual o protagonista dos prints!)

- A cultura do estabelecimento é de que você só precisa cumprir 40h semanais não importando como elas estejam distribuídas, então se der um gás na segunda-feira poderá sair mais cedo na sexta-feira, por exemplo. Eu faria logo umas 12h na segunda-feira e na terça-feira, para folgar na sexta sempre que pudesse. Nas épocas em que eu estivesse mais animado, faria 12h na 2ª, 3ª e 4ª, e meio-expediente na 5ª e folgando 6ª. - Claro que nessas circunstâncias ia ter que ter um rodízio de folgas entre os funcionários pois muitos iriam querer folgar na sexta e óbvio que isso não seria possível - afinal iria deixar o estabelecimento vazio - mas pela minha experiência geralmente quando não há muita intervenção da chefia nesses arranjos entre empregados isso costuma dar certo, então acredito que seria possível ter um rodízio bom com a colaboração de todos os funcionários, talvez sendo controlado por uma tabelinha num mural em uma área comum.

- Esse emprego sempre enforca os feriados (Ponto Bônus: às vezes até mesmo muda os dias de alguns feriados não-religiosos para que caiam numa sexta ou segunda-feira [por exemplo: em determinado ano o dia de Tiradentes caiu numa quarta-feira, então o chefe manda todo mundo trabalhar na quarta porque vai dar o feriado na sexta-feira]) - é normal escolas enforcarem feriados, mas não sei se isso vale para o pessoal do administrativo ou se só para professores, alunos e inspetores.

- O (A) chefe / diretor(a) é um(a) coroa de uns 60 ou 70 e poucos anos que nem sabe usar computador direito e digita só com 1 ou 2 dedos de cada mão, só sabe usar Word e Excel, no máximo arrisca uns slides no Powerpoint, e no excel mal sabe usar a função SOMA() 

O chefe hipotético, há uns 20 anos no cargo, digitando só com 1 dedo de cada mão em um PC velho que ele se recusa a trocar




- O chefe / diretor(a) é avesso a mudanças e inovações (então nunca vai aparecer "do nada" com um sistema novo para implementar, ou inventando uma mudança brusca de processo a cada 6 meses, ou gastando uma fortuna com uma consultoria duvidosa, e nem ficar inventando de fazer obras, trocar móveis ou mudar as salas de lugar "só porque sim", etc.) - eu já tive um "chefe" (eu estava assumindo o lugar dele na época, e ele ia subir) que era o contrário disso: ele certa vez olhou para um armário bonito, de madeira, que estava em uma das salas da firma e me pediu para jogar o armário fora e comprar outro, dizendo que aquele "já estava ultrapassado" (detalhe: o tal armário tinha no máximo 2 anos) - imagino que ele tenha feito isso porque era um jeito fácil de "demonstrar serviço" - por uma questão de princípios eu não fiz o que ele pediu, e até onde eu sei, o armário ainda está lá.

        - Ponto Bônus: o chefe / diretor (a) é "perpétuo(a)", o que significa que o cargo dele não tem grande rotatividade, e ele pode ficar muitos anos por ali, sem aquela chatice de troca de chefe a cada 2 ou 3 anos (quem já passou por troca de chefe sabe como geralmente é um processo doloroso... Tem um post meu lá do começo do meu blog no qual eu relato a minha experiência pessoal com isso!)

- As atividades desempenhadas são aquelas típicas de "secretaria de escolinha" ou de um "escritório pequeno": preencher planilhas, fazer lançamentos em sisteminhas (pontos bônus se forem sistemas feitos em COBOL, Pascal ou outra linguagem mais "antiga" e tiverem aquele jeitão de MS-DOS com a tela preta e as letras verdes ou brancas), organizar pastas de arquivos (físicos), gerenciar o estoque do almoxarifado, controlar correspondências, controlar numeração de documentos, fazer pedidos de materiais, registrar chamadas, etc.

- A maioria dos colegas na faixa entre 40 e 60 anos (casados, com filhos, enfim, um pessoal mais maduro e que não vai querer fazer happy hour até tarde e muito menos happy hour toda semana) e só uns poucos na faixa dos 30 e só 1 ou 2 na casa dos 20 (estagiários)

- Reuniões são raras e ocorrem somente para planejar eventos (por exemplo, se for uma escola, as reuniões seriam só para planejar os eventos que envolvam os alunos, e essa minha "escola ideal" onde fica o meu "emprego ideal" só faria eventos para Páscoa, Festa Junina, dia das mães, dia dos pais, dia de Nossa Senhora (vulgo dia das crianças), e formatura da 4ª e da 8ª série (nesse meu emprego ideal a escola não tem ensino médio) (Pontos Bônus: as reuniões são só de pessoas sentadas ao redor de um mesão e usando papéis, sem powerpoint, sem datashow, e tem gente que não anota nada)


As reuniões são numa mesa assim, e não tem nem como plugar um datashow e nem colocar notebooks na tomada durante as reuniões




- Quando ocorre um evento no final de semana (e no caso de escolas é comum ter esses eventos aos sábados, principalmente festas juninas), há compensação equivalente durante a semana seguinte,  mesmo que haja feriado naquela semana (trabalhou no sábado = não vai trabalhar em algum dia entre segunda e sexta-feira da semana seguinte, a combinar com a chefia e com os demais funcionários; se trabalhou sábado e domingo = não vai trabalhar durante 2 dias da semana seguinte)

- O sinal de internet é ruim no recinto, então tudo é feito por LAN / intranet, usando documentos e pastas compartilhadas na rede, etc. Como consequência, o ritmo de trabalho é mais lento, porém mais dedicado a cada tarefa individual, pois ninguém perde tempo lendo notícias e nem vendo reels. (Pontos Bônus: Há uma norma interna proibindo o uso de whatsapp e outros aplicativos de mensagens instantâneas para se comunicar com funcionários dentro e fora do horário de expediente)



- Outros Pontos bônus: 

    1) ainda há alguns computadores "velhos" no recinto (com monitor de tubo amarelado, máquinas rodando windows 95, 98, 2000 ou XP, mas que ainda são usadas para rodar determinados programas e sistemas legado)

        2) Tem um sistema legado que só roda em disquete, então existe um computador antigo com drive de disquete (quem lembra do drive "(A:)" ?) que é mantido vivo só para rodar esse sistema (e tem gente que também usa para jogar paciência, campo minado e o pinball do windows nele na hora do almoço!)




      3) o piso em algumas salas é de taco ou outro estilo "antigo" (sem usar piso frio), e em alguma área externa o chão é de "caquinho", igual casa de avó.

Isso é um piso de caquinho, para quem não sabe. Na minha opinião uma das coisas mais bonitas da arquitetura brasileira

        

4) Nas salas onde as pessoas trabalham sempre tem uma mesinha improvisada, coberta com uma toalha de renda ou uma dessas toalhas de plástico usadas em festas de criança, e em cima dela fica a garrafa térmica com café (uma garrafa marrom, velha de guerra, daquelas antigas, que nem da foto abaixo) - (ou seja, não tem nenhum "point do café" com puffes, "gaveta de chocolate", luzes neon, quadros com arte moderna abstrata, pôsteres com mensagens motivacionais, nada disso) 


    5) Quando o chefe pergunta se tem algum voluntário para um determinado curso noturno que a matriz/prefeitura/secretaria de estado está oferecendo ou para participar de um congresso em outra cidade no final de semana ou qualquer coisa chata assim que atrapalhe a rotina pessoal, ninguém tem medo de dizer que não é voluntário.

     6) Quando o chefe diz que vai ser preciso fazer uma reunião e que por causa da agenda dele(a) só dá para marcar às 18h e pergunta para os funcionários se está tudo bem fazer uma reunião que provavelmente vai passar das 19h, ninguém tem medo de dizer que não vai poder participar e nem que "sim, tem problema".


 7) Ninguém fica forçando usar termos em inglês no dia-a-dia ("job", "approach", "drive", "funding", "budget", etc.) - o pessoal só fala português no trabalho (a não ser a professora de inglês)


Por enquanto é isso, confrades. Se depois eu lembrar de mais características "ideais" desse emprego imaginário eu posto aqui e atualizo o post.


OBS: relembro a todos que eu sou um aspirante a "Semi-FIRE"(sempre escrevo por aqui que estou em busca da Tranquilidade Financeira (TF), que é praticamente a mesma coisa com outro nome). Então não almejo grandes objetivos profissionais (a não ser me tornar melhor em determinadas habilidades e conhecimentos que eu gosto e  considero importantes, mas isso é mais para satisfação pessoal e para uma futura carreira como autônomo), e nem me deixo levar por esses papinhos de "visão", "missão", etc. - eu realmente me enxergo como um mercenário: eu trabalho em troca do dinheiro e dos benefícios, e só. As realizações pessoais, conquistas, satisfações metafísicas, e tal, eu busco fora do trabalho. E eu acredito que o mundo seria melhor se mais pessoas fossem mais honestas neste sentido e buscassem sua maior satisfação no lado espiritual, e não subindo na hierarquia de uma empresa ou entidade pública. 

Se algum dia eu julgar que atingi a TF, talvez eu procure um concurso público para algum emprego parecido com esse que descrevi no post, ou me candidate a uma vaga semelhante em alguma escolinha particular pequena, "de bairro" - claro que muitas das características acima eu não vou encontrar, até porque são condições "ideais demais" mas acredito que um dia eu consiga algo "parecido". E acho que a maioria das características que eu descrevi são meramente estéticas. Mas o importante mesmo são as atividades desempenhadas, o horário (sair do trabalho antes de escurecer dá aumento enorme na qualidade de vida)  e o ambiente de trabalho (o ambiente psicológico, o clima organizacional, etc.).

E eu também sei que passados alguns anos eu provavelmente não gostaria mais de trabalhar neste lugar que descrevi, pois sempre há problemas, fora o possível "tédio" (se bem que o tédio é que faz aflorar a criatividade, então alguma dose de tédio sempre é boa na vida)

Imagino que muitos achariam este ambiente que eu descrevi extremamente chato e não aguentariam e nem gostariam de trabalhar num lugar assim, mas acho que isso é 50% questão de maturidade e 50% gosto pessoal - para mim, que só quero coletar meu dinheiro e sair no horário, está ótimo -- ou seja, eu só conseguiria trabalhar numa "startup de crescimento acelerado" que nem a da copypasta dos prints acima se fosse por um prazo curto e bem definido (acho que no máximo 1 ou 2 anos), com uma recompensa bem clara no final [preferencialmente em dinheiro ou em dinheiro + ações, mas nunca somente em ações]. 


quinta-feira, 26 de dezembro de 2024

Sobre a transição de CLT/Funcionário Público para Autônomo / Pequeno Empresário

Saudações, confrades!

Espero que todos os meus leitores tenham tido um bom Natal e que tenham recebido muitas bênçãos de Nosso Senhor Jesus Cristo!

Vamos ao (provável) último post de 2024, para dar uma variada nos assuntos do blog e não ficar só nas atualizações patrimoniais, conforme eu havia dito no post anterior.

Uma coisa que me vem à mente em minhas elucubrações diárias a respeito de como sair de meu emprego atual (seja via concurso, via empreendendo, via tornando-me autônomo) é a crescente necessidade de autonomia em cada passo da jornada profissional.

(OBS: quando falo "empresário" neste texto refiro-me ao pequeno empresário autônomo, MEI, EPP, EIRELI*, que trabalha sozinho (loja virtual, confecção individual de alimentos, artesão, etc. que tenha um negócio que seja possível de ser operado sem funcionário nenhum a não ser o próprio dono))

*: acho que EIRELI não existe mais, mas posso estar enganado.


Permitam-me ilustrar usando o McDonald's como exemplo:

Quando você é criança, seus pais te levam ao McDonald's, você pede um lanche e ele aparece na sua frente, sem esforço algum. Você nem vê o dinheiro indo para o caixa, ou o cartão sendo passado na maquininha. As coisas simplesmente "acontecem" sem você fazer esforço algum e por conta disso geralmente as crianças não têm noção de como é a realidade.


Depois você cresce mais um pouco, tem seus 15 anos, e vai sozinho ao fast-food. Faz seu pedido e precisa entregar dinheiro ao balconista. Provavelmente quem te deu o dinheiro foi o seu pai ou a sua mãe, mas você teve que se desfazer dele para ganhar seu lanche. Ainda assim, o lanche "apareceu" na sua frente, embora com algum sacrifício de sua parte - o ato de entregar seu dinheiro. Você já aprende um pouco que é necessário fazer alguma coisa para que as coisas aconteçam. Mas ainda é fácil: você sacrifica um dinheiro pelo qual geralmente você não sacrificou nada, pois seus pais te deram, e o sacrifício foi deles (embora aos 15 você já saiba que as pessoas trabalham para ter dinheiro, se você nunca trabalhou você não tem uma noção verdadeira do que é trabalho)


Então suponha que depois você cresce mais, tem seus 18-19 anos e vai trabalhar no McDonald's. Agora são as outras pessoas que pedem o lanche para você, e pela primeira vez ele não vai "aparecer", você é que vai ter que fazer acontecer.

A maioria das pessoas para nesse estágio do amadurecimento. Elas começam a trabalhar, e então descobrem que elas é que têm que fazer as coisas acontecerem. O hambúrguer foi entregue embalado em cima de uma bandeja na mão do cliente porque todo um time de pessoas se envolveu na preparação na lanchonete, em todas as suas fases produtivas, e antes desse time poder trabalhar, vários outros tiveram que concluir seus trabalhos: os caminhoneiros da empresa de logística que entregou os pães, molhos e hambúrgueres congelados, os pecuaristas que criaram as vacas que forneceram a carne, os açougueiros/trabalhadores de frigoríficos que cortaram a carne, congelaram, embalaram e depois separaram para entrega, e entremeando todos estes processos estão inúmeros gerentes, advogados, contadores e coordenadores que criaram, leram, revisaram, e negociaram os contratos com todas as empresas e funcionários envolvidos, fizeram os pagamentos, registraram os pagamentos, registraram dívidas, cobraram dívidas, emitiram os pedidos, emitiram notas fiscais, emitiram DARFs, corrigiram erros, e por aí vai. Isso sem falar em: marketing, auditoria, consultorias, etc. 

Mas ainda assim, o dinheiro cai todo mês, bastando que estas pessoas continuem trabalhando nos dias em que tiverem que trabalhar. E os clientes vão até a empresa, porque já foi feito todo um trabalho para isso. Ou seja, o dinheiro vai até a empresa graças a todo um trabalho prévio que foi acumulado e que permitiu que isso acontecesse.

O estágio seguinte do "amadurecimento profissional", que eu considero ser o dos profissionais autônomos, é o de não somente fazer acontecer, mas também fazer o dinheiro e os clientes aparecerem.  O dinheiro do autônomo não cai todo automaticamente no primeiro dia útil do mês, ele recebe aos poucos ao longo de seu mês de trabalho, conforme vai atendendo seus clientes e prestando seus serviços ou vendendo seus produtos. E não necessariamente os clientes virão de maneira automática - pelo menos não no início de sua carreira. Ele leva algum tempo criando sua fama e montando uma "carteira de clientes". 

(No caso do McDonald's, já foi feito um trabalho de décadas para criar uma marca reconhecida e que praticamente atrai clientes sozinha, quase sem esforço dos franqueados. O autônomo/pequeno empresário precisa levar em conta esse trabalho de conquistar clientes em seu planejamento - e é por isso que muitos pequenos negócios nascem em paralelo a empregos CLT ou empregos públicos: porque o autônomo precisa ganhar um sustento certo e mais estável enquanto está construindo sua carteira de clientes - quando não é assim, ele herdou o trabalho de seu pai ou de sua mãe, que já fizeram todo esse trabalho de criação de uma carteira de clientes e de um nome - é o caso de muitos escritórios de advocacia, por exemplo)

E mais um passo além no "amadurecimento profissional" é o do empresário que resolva empregar outras pessoas em seu negócio: além de fazer as coisas acontecerem e fazer os clientes e o dinheiro surgirem, terá que se preocupar em fazer o dinheiro aparecer para pagar seus funcionários (salários, benefícios, INSS, FGTS,  etc.) e também para pagar a si próprio!

A pessoa que foi CLT ou funcionário público "a vida toda" está acostumada com a previsibilidade de um salário que cai todo mês no começo do mês (ou no fim do mês anterior, em alguns casos), e consequentemente está acostumada a planejar seus gastos de modo a ir consumindo o salário ao longo do mês, mas com a (quase) certeza de que no mês seguinte outro salário, de igual valor, será depositado em sua conta. 

Imagino que o "choque de realidade" possa ser grande quando essa pessoa se torna autônoma ou empresária. Para começar, não é certo que haverá um valor sendo depositado em conta no início do mês ou no fim do mês anterior.  Principalmente no caso do autônomo prestador de serviços (advogado, contador, psicólogo, dentista, médico, etc.) o dinheiro vai caindo na conta aos poucos ao longo do mês, conforme ele vai trabalhando e atendendo seus clientes, o valor é variável e sujeito a sazonalidades e inúmeros outros fatores totalmente fora do controle do profissional e, com isso, o planejamento das finanças pessoais de um autônomo ou pequeno empresário é bastante diferente do de um empregado CLT / funcionário público.

Por este motivo, imagino que, idealmente, a pessoa que se prepare para ser autônoma precise: 

1) fazer primeiro uma reserva de gastos para alguns meses (digamos, uns 6 meses de gastos pessoais ou, mais idealmente, 1 ano, e essa reserva deverá incluir os custos esperados de seu negócio, como o aluguel de uma sala comercial e o condomínio do prédio onde fica esta sala, por exemplo); 

2) buscar sempre manter seu custo de vida baixo, ou o menor possível, equilibrando conforto e frugalidade, pois não há garantia alguma de que atenderá clientes / prestará serviços / venderá produtos a tempo de pagar contas no prazo (claro que com o passar do tempo adquire-se uma carteira de clientes mais estável, via propaganda boca a boca, indicação, fidelização, etc. que permite um planejamento melhor, mas isso pode demorar a acontecer!);

3) Mesmo após ter adquirido uma certa "estabilidade", sempre manter sua Reserva de Emergência (RE), repondo o mais rápido possível os valores consumidos (se eu fosse autônomo eu teria duas RE: uma "pessoal" e outra "profissional", para bancar custos da empresa como aluguel de sala, anuidades de softwares, seguros, etc. em épocas de vacas magras - o meu foco aqui é evitar aquele velho problema de misturar as finanças pessoais com as da empresa)

E imagino que com o passar do tempo, o autônomo se acostume com a idéia de "receita média mensal" ou "pró-labore médio mensal" e ajuste seus custos de vida a este valor. Acho que uma boa medida seria ajustar seus custos de vida para que sejam cerca de metade do "pró-labore médio mensal" (ou menos, caso possível), tendo em vista que a receita mensal é variável e sujeita a sazonalidades, além do fato de que, como autônomo, se você não trabalhar, você não ganha, simples assim. A metade que for economizada deve ir para aportes, "RE pessoal" e "RE profissional".

E creio também que o mais prudente é usar dinheiro ganho em cada mês seja para bancar os gastos do(s) mês(es) seguinte(s), ao contrário do raciocínio mais comumente aplicado por quem é CLT/funcionário público ("recebi este mês, gastei este mês"). 

Outra coisa importante a se considerar no planejamento é a construção de uma "reserva" para bancar suas férias, e feriados prolongados, pois afinal você provavelmente não vai aguentar ficar trabalhando sem parar durante muito tempo, e conforme eu disse acima, sem trabalho = sem dinheiro, então o autônomo precisa levar em conta que haverá dias em que simplesmente não haverá clientes ou haverá bem poucos porque é feriado, ou feriadão, e por aí vai. Você pode até querer trabalhar em um dia desses, mas pode ser que simplesmente não haja clientes. Então você precisa se preparar para dias assim também. E haverá dias em que você ficará doente, ou estará muito cansado, ou terá alguma coisa pessoal para resolver, etc. Haverá também a sua própria necessidade de descanso. Para todos esses dias você precisará ter uma reserva, pois não ganhará nada por estes "dias de folga".

Por fim, outros "choques de realidade" na transição para a autonomia são a falta do 13º e do adicional de férias, fora outros benefícios que empregadores no geral paguem (Auxílio-creche, Vale-Alimentação, Vale-Transporte, etc.), além da obrigatoriedade de recolhimento de INSS, que não é automática, fora outros tributos. O autônomo / pequeno empresário precisa prover todas essas coisas para si mesmo, e não pode se esquecer de recolher pelo menos o mínimo legalmente exigido para o INSS e os demais impostos para evitar problemas com o governo. 

No caso da falta do 13º, ela ainda é agravada pelo fato de alguns condomínios comerciais (especialmente shoppings) cobrarem o "13º aluguel", então é necessário tomar cuidado com esse custo extra que às vezes fica "nas letras miúdas do contrato". A "RE profissional" deve levar esse aluguel extra em consideração. Alguns tipos de negócio se beneficiam do aumento de vendas em dezembro e com isso dão conta desse 13º aluguel, mas acho que fica mais difícil para os pequenos empresários.


Todas essas coisas acima precisam ser levadas em conta no planejamento da carreira do autônomo / pequeno empresário.


Algum dos confrades têm experiências próprias para relatar? Como foi a mudança de vida saindo da CLT ou do emprego público para se tornar um pequeno empresário? 

Aos leitores autônomos / EPP / MEI: que profissão vocês exercem? Como conseguem clientes? 

Qual é a melhor opção: ser MEI, ser EPP, autônomo PJ ou ser um autônomo pessoa física mesmo? Ainda é possível ser autônomo pessoa física? Ou simplesmente não vale à pena?


Forte abraço, companheiros de trincheira!

Tenham todos um Feliz Ano-Novo, e que 2025 seja melhor do que 2024!

sábado, 16 de novembro de 2024

A polêmica da escala de trabalho: (6x1), (5x2) ou (4x3)?

Saudações, confraria da melhor blogosfera do país e da melhor finansfera do mundo!

Mais um post para quebrar o "jejum" de postagens que não sejam de atualização patrimonial. 

Desta vez estou escrevendo sobre um dos assuntos do momento, o polêmico projeto de lei que visa acabar com a escala 6x1 e implantar a 4x3 (conforme um pequeno extrato do projeto de lei que li na internet). 

As minhas opiniões sobre a escala de trabalho (e também outros assuntos envolvendo relações trabalhistas) são as seguintes:

 1) Concordo 100% que viver trabalhando 6x1 é uma droga, pois você quase não tem tempo para você, para cuidar da sua família, lazer, etc. e também quase não tem tempo para se desenvolver, de modo que quem trabalha nesse ritmo provavelmente ficará preso no ciclo 6x1. Então aquele argumento de "Pede demissão e arruma um emprego melhor se não quiser trabalhar 6x1" é  bastante desonesto, pois quem está inserido na corrida dos ratos da escala 6x1, já com obrigações e responsabilidades (Família), muito dificilmente arranjará algo melhor para poder sair. A maioria não se pode dar o luxo de sair para estudar, se qualificar, etc. 


2) O problema nem é só a carga de trabalho, mas também o tempo gasto no transporte para ir e voltar todos os dias, 6 vezes por semana.  e também o fato de que a escala 6x1 muitas vezes vira 7x0, porque dependendo da empresa, do tipo de negócio, etc. você pode ser chamado para cobrir a falta de alguém no seu dia de folga, e não necessariamente será compensado no dia seguinte. Talvez nem ganhe horas extras, e talvez nem mesmo o tal do "banco de horas" (que costuma ser desrespeitado).


3) Eu considero irreal, pelo menos no momento atual do Brasil, haver uma escala 4x3 mencionada no projeto de lei e que nem a que querem implantar na Europa (ou ao menos é o que dizem). Porém, uma escala 5x2 já melhora bastante a qualidade de vida da pessoa e é a que eu vejo como a "escala normal/padrão de trabalho", pois permite mais tempo com a família, mais tempo para religião, mais tempo de lazer, mais tempo para estudar, para ter hobbies, e por aí vai. E para quem quiser trabalhar mais, também dá mais tempo de se dedicar a bicos, a um negócio paralelo, e por aí vai. Acho que nenhuma empresa merece tanto do nosso tempo, nenhuma empresa merece o nosso 6x1. E como eu já disse outras vezes aqui, para mim a combinação "escala 6x1 + salário mínimo" é uma forma de escravidão moderna. O argumento de que "se não gosta é só pedir demissão" é desonesto porque praticamente não há opção, e para a maioria das pessoas não há mesmo opção.


4) Ao contrário do que dizem por aí, eu acho que o brasileiro trabalha muito e enxergo os nossos feriados e o nosso padrão de férias de 30 dias como uma bênção, dadas as condições do país e as dificuldades que passamos por aqui. Eu já tive um chefe com alguma experiência internacional que, quando conversava comigo, sempre aproveitava para malhar a quantidade de feriado e férias que temos por aqui e citava como exemplo os EUA, em que o normal é você começar na carreira só com algo entre 5 e 10 dias de férias por ano e só quando alcançar um cargo "sênior" é que se ganha uns 20 dias (e ele dizia também que o pessoal "sênior" nunca tirava esses 20 dias porque suas responsabilidades não costumavam permitir, fora o fato de que algum rival dentro da empresa aproveitaria esses 20 dias de ausência para "puxar o tapete") e ele, todo orgulhoso, dizia que "nos EUA o pessoal trabalha até revirar os olhos". Eu acho que ele se esqueceu de levar em conta vários fatores diferentes entre os países - por exemplo, 1 (hum) dólar nos EUA, mesmo hoje na relativa decadência do dólar, rende muito mais do que 1 real aqui - por aqui 1 real não compra quase mais nada, talvez um punhado de bala juquinha - eu lembro de quando elas custavam 1 centavo, hoje em dia deve ser algo entre 20 e 50 centavos; e as coisas lá são muito mais organizadas, limpas, eficientes, seguras, e por aí vai. Eu não acho que sobreviveríamos às bagunças, ineficiências, perigos,  caos, etc. do Brasil com uma rotina americana de trabalho, feriados e férias. Ficaríamos malucos com poucos feriados e poucas férias. Essa é a minha opinião.


5) Por outro lado, entendo que a carga tributária e de benefícios sociais e trabalhistas é deveras pesada principalmente para o pequeno e médio empresário, de modo que muitas vezes a escala só é 6x1 porque é isso que o dono do negócio é capaz de bancar. Sendo assim, uma excelente contrapartida para o fim do 6x1 seria haver uma redução proporcional nos custos tributários e trabalhistas. 

(Entretanto, sei que isso é um pensamento utópico, pois por aqui quando o governo se acostuma a arrecadar determinado valor, é quase impossível convencê-lo a abrir mão dessa arrecadação (até porque ao invés de guardar e fazer reservas, ele já gastou e já se acostumou a gastar). Aliás, noto que um fenômeno praticamente análogo ocorre no comércio brasileiro: quando um produto atinge determinado preço mais alto do que o anterior (por exemplo, por conta de uma safra ruim, de um pico no preço do petróleo que jogou a gasolina lá em cima, etc.) dificilmente o comércio reduz o preço para os patamares de antes, ainda que a causa do aumento do preço já tenha passado. Ou seja, no Brasil os  aumentos de impostos e de preços costumam ser permanentes. Porém, no mínimo os parlamentares que tenham algum interesse em melhorar o Brasil deveriam brigar para incluir essa redução dos custos trabalhistas nesse projeto de lei da escala 6x1. Uma excelente medida seria a redução do desconto do FGTS, tanto do funcionário quanto o patronal).


 6) Acredito que essa permanência dos aumentos de preços no comércio brasileiro seja uma consequência de vivermos em uma sociedade de baixa confiança (falta de confiança tanto no próximo quanto no governo); 


 7) E também é consequência de nossa moeda ser muito inflacionária. Infelizmente as teorias econômicas mais "mainstream" enfiaram na cabeça dos acadêmicos que a deflação é ruim e que deveríamos seguir uma inflação perpétua e baixa, mas eu discordo: ao contrário do que pregam, deveríamos mesmo é perseguir uma Deflação, também perpétua e baixa, na casa dos 2%~3% a.a, ou, ao menos, a manutenção do poder de compra da moeda (inflação zero, deflação também zero).


 8) Em que pese a elevada carga tributária e trabalhista, também acho que haja uma parcela de culpa nos empresários brasileiros, por conta de nossa cultura: aqui predomina a mentalidade controladora, em que se valoriza mais que o empregado esteja ali, no batente, onde pode ser observado e controlado, ao invés de se preocupar se ele está de fato produzindo alguma coisa.


 9) Óbvio que empresas pequenas não têm condições de pagar grandes salários, mas noto que também há no Brasil uma cultura de desvalorizar o trabalho alheio e de pagar pouco, mesmo em empresas grandes. Muito gerente no Brasil, mesmo de empresa multinacional, ganha mais ou menos o que um caixa do Walmart ganha nos EUA. E não duvido que haja mendigos nos EUA que ganhem mais dinheiro com esmolas do que muito funcionário CLT ganha de salário no Brasil. 

Novamente: parte disso é sim por causa dos altos impostos e custos trabalhistas, mas parte também é mesquinharia do "empresário brasileiro médio". Aqui vale muito a famosa metáfora do "balde de caranguejos": ninguém fora da sua família quer que você cresça e evolua, muito pelo contrário! E por esse motivo nosso serviço é desvalorizado e no geral somos todos mal pagos, não temos acesso a bons planos de carreira e crescimento profissional, e geralmente a alta cúpula das empresas médias e grandes são panelinhas e dificilmente dão aumentos de salário a empregados de escalões mais baixos - muito pelo contrário: às vezes encontram meios criativos de reduzir nossos salários (além das clássicas horas extras forçadas, para reduzir o seu salário por hora).      

(Por exemplo, uma pessoa muito próxima a mim na família trabalhava numa empresa (de média para grande) em que havia plano de carreira e todos os funcionários ganhavam PLR, até os que faziam serviços mais simples. A empresa foi vendida para determinado empresário, que colocou sua panelinha nos cargos de direção. As medidas que eles tomaram logo de cara: fim do plano de carreira (ninguém nunca mais seria promovido, e quem estava nos postos mais altos do antigo plano de carreira foi demitido), redução do salário-base (quem foi contratado depois da mudança entrou ganhando menos do que ganharia se tivesse entrado antes da troca de dono) e o fim da distribuição de PLR para todos os funcionários exceto diretores - a panelinha distribuía o lucro somente entre si).


 10) Resumindo: 

    a) As empresas são muito expropriadas via impostos e benefícios trabalhistas obrigatórios e, por conta disso, espremem seus empregados até não sobrar nada;

    b) O Brasil é muito pobre de empresas por conta da burocracia, dos altos custos, do risco jurídico e da nossa "cultura de emprego", então todo empresário sabe que, no geral, para cada funcionário reclamando do serviço tem outros 500.000 na fila implorando pela vaga e até aceitando ganhar menos e trabalhar mais. Por isso que normalmente a idéia da "livre negociação entre empregado e patrão" quase nunca acontece por aqui;

  c) Em um mundo ideal, ninguém seria obrigado a aceitar o 6x1. As pessoas só aceitam porque geralmente não têm opção. Se tivessem opção, recusariam qualquer proposta 6x1 e nenhuma empresa operaria assim. Realmente é desumano trabalhar 6x1, ainda mais ganhando "mil e quinhentão" e sem direito a  PLR, plano de saúde, etc. que é o caso da maioria das pessoas, infelizmente.

 d) O certo seria o salário ser por hora, e não por mês, e de alguma forma vinculado à produção, de forma a incentivar o trabalho e a produtividade. No mínimo, no mínimo, ser vinculado às horas trabalhadas. Aí talvez acabasse o problema das horas extras não pagas e o da escala de trabalho. O padrão brasileiro deveria ser salário por hora.

e) A escala 6x1 não deveria existir, mas para ser abolida na canetada (ser proibida por lei), então que a caneta reduza também os custos trabalhistas, sociais e tributários. (infelizmente acho difícil reduzirem todos esses custos...)

f) Geralmente as discussões sobre essa polêmica da escala estão focando só no lado econômico, mas não passam pelo lado moral / humano da coisa. Eu acho imoral fazer uma pessoa trabalhar 6x1 e pagar salário mínimo - que, ao menos, esses funcionários não fiquem 8 horas no batente, que trabalhem meio expediente, para que tenham tempo para suas famílias e seus estudos. 

f) Independente do que o governo e as empresas vão fazer, devemos todos buscar, no tempo que tivermos disponível, meios de sair da corrida dos ratos (e acho que geralmente o primeiro passo para sair da corrida dos ratos é sair do 6x1, para ganhar tempo, que vale mais do que qualquer dinheiro do mundo)

sexta-feira, 14 de abril de 2023

Sobre a previdência social

Recentemente, na França, foi aprovada na canetada uma reforma que aumenta em 2 anos a idade mínima de aposentadoria dos franceses: de 62 passou para 64 anos. E muitos franceses foram às ruas para protestar e até saíram na porrada contra esta reforma, mas foi tudo em vão. 

E olha que dizem que o brasileiro é que não trabalha, ou que trabalha pouco! Pode até ser que a eficiência aqui seja menor, mas é fato que trabalhamos muito. O povo brasileiro é um dos que mais trabalha no mundo,  em termos de horas.

Alguns reclamam que aqui há muitos direitos trabalhistas. Alguns eu acho justos, outros nem tanto (assunto para futuros textos), mas tenho razões  para acreditar que há mais direitos trabalhistas na França do que no Brasil, e esse é um dos motivos para o desemprego lá ser alto, principalmente entre os jovens. 

Um conhecido meu que já trabalhou na França me disse que a cultura de pequenos negócios familiares é forte por lá justamente por conta disso. Ele deu o exemplo de uma padaria francesa, onde não havia nenhum empregado: todos os que trabalhavam lá eram da família do dono - o dono era o padeiro, e fazia os pães sozinho. A esposa ficava no caixa, e os filhos ficavam de faz-tudo, ora ajudando o pai, ora a mãe,  ora recebendo fornecedores, etc, pois o padeiro não teria condições de bancar funcionários de "carteira assinada" ou seu equivalente francês. Quem mais sofre com isso são os jovens cujas famílias não têm negócios próprios,  pois penam bem mais para conseguir empregos na França.

Aqui, ao menos por enquanto,  vejo muitas padarias com empregados, mas não sei se estes recebem todos os seus direitos trabalhistas, nem se as padarias têm condições de paga-los. Mas também já vi alguns destes lugares perto de onde moro que seguem o modelo francês de contratar somente pessoas da família. Por exemplo, a padaria onde geralmente vou comprar pães pertence a duas irmãs,  e seus filhos trabalham no balcão.  Acho que só uns 2 empregados são de fora da família.  Um bar perto da minha casa me parece ser 100% tocado pela família do dono, pois os funcionários são todos muito parecidos, do cozinheiro aos garçons (óbvio que posso estar errado).  


Mas divaguei. Voltando à previdência social, que é o assunto do post: aqui a idade mínima para aposentadoria vai ser de  65 anos no fim da transição de regimes, com a obrigação de somar 105 com o tempo de contribuição (ou seja, para se aposentar aos 65 tem que ter contribuído por 40 anos - é a realidade que a maioria de nós irá pegar), ou seja, trabalhamos mais tempo que o povo francês. E isso sem falar que lá a semana de trabalho tem menos horas (oficialmente 35 horas, contra 40h daqui - mas óbvio que em ambos os países o tempo efetivo de trabalho para o trabalhador médio é superior ao número legal de horas).

E não duvido nem um pouco que ainda pegaremos outra(s) reforma(s) no futuro que aumentem a idade mínima e o tempo de contribuição. Pode ser que quando chegue a nossa vez, tenhamos que trabalhar até os 90, ou algo assim. Ou a previdência social pode simplesmente acabar.

Mas não creio que pegaremos o fim "oficial" da previdência social em nossas vidas... talvez peguemos um fim "disfarçado" - regras impossíveis de serem cumpridas, ou benefícios irrisórios,  ou descontos absurdos nos benefícios, algo nessa linha.

Os principais problemas que eu enxergo são: 

1) supondo que nada mude e não haja mais reforma nenhuma e o governo não faça nada para cobrir rombo nenhum, e mesmo assim ainda pudermos nos aposentar legalmente aos 65 anos: 99,9% se aposentarão com um salário mínimo,  o qual é ridículo e mal dá para pagar contas básicas... ou seja, a vasta maioria vai ficar na penúria e/ou terá que trabalhar até a morte (como era antigamente, antes de existir previdência social) para conseguir viver na velhice, e/ou ser amparado pela família.

2) se o governo resolver "imprimir dinheiro" para se furtar de fazer uma reforma (pois reforma de previdência é algo politicamente ruim), poderemos até ter aumentos no INSS e mais pessoas recebendo mais de 1 salário mínimo,  porém tais valores serão corroídos pela inflação,  e ficamos na mesma situação do item 1.

3) se o governo fizer mais alguma reforma e aumentar a idade mínima e/ou tempo de contribuição, provavelmente todos teremos que trabalhar até os 80 ~ 90 anos para nos aposentarmos pelo INSS e, mesmo assim, provavelmente para receber somente 1 salário mínimo. Será que vale a pena fazer isso? Trabalhar até os 80 anos para receber um salário mínimo de aposentadoria? Eu acho que não. Ainda mais aqui, onde o trabalhador honesto não é culturalmente valorizado, nem mesmo nas empresas, que dele dependem. Melhor ser autônomo e quando ficar mais velho passar a selecionar clientes e a diminuir o horário de trabalho.

4) nada impede o governo de, a qualquer momento, numa canetada, criar algum desconto nos benefícios de aposentados, com a desculpa de que tal desconto é para cobrir algum rombo (como foi o caso dos fundos de previdência de determinadas estatais, que estão descontando a mais para cobrir imensos passivos, alguns deles gerados por desvios de verbas - imagine você com 85 anos recebendo a notícia que seus proventos de aposentadoria irão diminuir a partir do mês que vem porque alguém roubou dinheiro e agora todos terão que pagar a conta), ou com qualquer justificativa que inventarem ma ocasião.


Vejam que não importa o cenário,  todos nós temos que tomar as seguintes atitudes:

1) Criar uma família e cuidar muito bem dela, para termos apoio, carinho, afeto e amparo durante toda as nossas vidas, não só na velhice;

2) Cuidar da saúde tão bem quanto possível, para termos condições de aproveitar a vida até que nossa hora chegue;

3) Aportar com disciplina todo mês,  o máximo que pudermos, de modo a:

    a) ser possível aposentar antes da idade mínima,  seja ela qual for, caso este seja nosso desejo;

    b) ter a possibilidade de não precisar mais trabalhar por causa do dinheiro, ou ter a liberdade de trabalhar com coisas mais leves e por menos horas por dia; e 

    c) para ter uma chance de viver com mais dignidade na velhice, pois no que depender do governo, teremos só o mínimo do mínimo,  e talvez nem isso. 

Enfim, nobre confraria da finansfera, companheiros de trincheira, estes são alguns de meus pensamentos acerca do espinhoso assunto que é a previdência social. 

O que têm a dizer sobre este tema?


Forte abraço! 

Fiquem com Deus!


sexta-feira, 27 de janeiro de 2023

Sobre estudar para concursos

 Saudações, confraria!

Conforme escrevi no último post, o da retrospectiva, estou me sentindo um tanto desanimado para estudar para concursos. Vou relatar um pouco da minha experiência. Talvez algum colega de finansfera ou algum leitor anônimo do blog se identifique.

Ano passado teve uma época que eu dei um gás, mas é bem complicado na atual fase de minha vida manter a disciplina e estudar uma boa quantidade de horas por dia. 

Tem dias em que simplesmente não dá: ou eu chego muito cansado do trabalho  (às vezes com enxaqueca de ter passado horas na frente de um monitor, me estressando), e obviamente eu sempre preciso dar atenção à minha família - esta é a minha prioridade. 

Tem dias em que não chego cansado, mas há mais coisas para fazer em casa, e tem dias em que simplesmente preciso dar mais atenção que o normal para a família, por um motivo qualquer. 

Por conta disso, o meu horário pós-expediente acaba sendo um tanto aleatório e, como eu disse, ao menos na minha atual fase de vida, está bastante difícil manter um planejamento de estudos.

Sendo assim, o um jeito que eu vislumbro para estudar de maneira consistente para concursos seria se eu acordasse todos os dias por volta das 4h ou 5h e estudasse até a hora de sair pro trabalho (consigo sair entre 7h e 7h30, pois moro relativamente perto de onde trabalho), além de aproveitar o intervalo do almoço para fazer questões ou ler resumos no celular. Uma barreira óbvia é a qualidade do sono, que seria perdida, trazendo algumas consequências para minha saúde. Outra dificuldade é a verdade inconveniente de que smartphones não foram feitos para leituras longas, o que de certa forma inviabiliza estudar por muito tempo usando um.

E aí  encontro outra barreira: a motivação. A maioria dos assuntos estudados para concurso só são úteis para a própria prova do concurso e talvez durante a carreira no serviço público. Salvo poucas exceções (informática, raciocínio lógico, direito tributário), há muita coisa que se aprende só para passar na prova (não que isso seja muito diferente do nosso sistema de ensino), e isso me desanima muito para estudar. 

Para mim, as piores matérias para estudar (as que considero menos úteis para a vida) são a duplinha direito constitucional e direito administrativo, as quais infelizmente caem na maioria dos concursos. Elas fazem eu sentir que estou perdendo tempo de vida ao estudá-las... Mas, fazer o quê,  né? Tenho que estudar essa "dupla dinâmica" se quiser passar.

Outra dificuldade: não posso fazer todo e qualquer concurso. Eu até aceito sair para ganhar um pouco menos (até uns 25% a menos, eu acho), mas o ideal seria que eu saísse para ganhar a mesma coisa ou um pouco mais. Isso já diminui o leque de provas. Outra coisa é que eu também não gostaria de morar em qualquer cidade ou região do país, então concursos para determinadas localidades não me atraem, mesmo pagando bem. Por exemplo, eu não gostaria de morar em Brasília. Isso também elimina algumas provas. Sim, eu sei que concurseiro raiz não se importa com a cidade, só quer passar na prova, etc etc, mas na fase de vida em que me encontro isso faz diferença para mim. 

Outra coisa que eu vejo que muito concurseiro não se importa, mas que eu presto atenção: as atribuições do cargo. De que adianta sair de um trabalho que eu não gosto e cair em outro emprego ruim? Só porque é público? Pra mim, não cola. Isso tem o lado ruim de diminuir meu leque de provas também. É a vida.


Mas, por outro lado, entre o dia em que comecei a escrever esse artigo e a data de sua efetiva publicação,  eu até consegui estudar alguma coisa. 

Não estou acordando mais cedo (talvez eu ainda faça isso), mas tenho conseguido estudar na hora do almoço. Pelo menos esta semana toda eu consegui. Na maioria dos dias almoço sozinho, então aproveito para estudar. E em alguns dias consegui dar uma lida em resumos no caminho de volta para casa (ando de transporte público,  não tenho carro e nem quero ter). E em alguns dias consegui estudar cerca de uma hora em casa. 

Vamos ver se consigo manter essa disciplina. Uma coisa que me motivou foi a seguinte imagem, publicada recentemente no fórum do Bastter:

 


Enfim, confraria, esta é minha situação quanto ao mundo dos concursos. 

Alguém se identifica?

Alguém tem um livro para me indicar? Ou alguém tem um resumão de constitucional / administrativo? Rs

Forte abraço,  companheiros de trincheira!

Fiquem com Deus!


sábado, 20 de março de 2021

Ideias de negócios - soldagem e serralheria

 Saudações confrades e companheiros de jornada!

Um mês sem postar... as coisas têm estado meio pesadas em meu trabalho, o que me deixa cansado e sem muita inspiração para escrever... 

Depois devo fazer um post sobre algumas das coisas que aconteceram no trabalho, pois há certos aspectos psicológicos e sociais interessantes e que creio que valham um post... veremos. É prudente deixar algum tempo passar para que os eventos se distanciem e as ideias amadureçam.

Continuando, trago aqui mais uma postagem com uma ideia para um pequeno negócio. 

Relembrando, meus critérios para "pequeno negócio" são:

- Investimento inicial relativamente baixo;

- Poder trabalhar sozinho e/ou com poucos empregados (mas de preferência sozinho);

- ser dono de meu horário. 

Para quem não leu, aqui vão os links para as postagens anteriores desta série:

1- Loja de penhores 

2- Jornaleiro

3- Barraca de pizza / mini pizzaria

Agora vamos à ideia de hoje:

Uma profissão que eu próprio realmente considero como plano B ou plano C na minha vida é ser soldador e serralheiro e trabalhar com reparo de portões, chapas, portas, etc. e talvez até mesmo fabricando móveis simples de metal (bancos, mesas, etc. - móveis que dá para fazer a baixo custo usando vergalhões, por exemplo).

fonte: um dos sites que eu indiquei no fim da postagem. Visitem todos eles! Vale a pena!

Aliás, está na minha lista pessoal de planejamento profissional um dia fazer um curso de corte e solda no SENAI ou em algum curso privado que ofereça tais conhecimentos. Além do curso, tenho certeza de que existem inúmeros tutoriais no YouTube e em blogs especializados que me ajudariam a complementar e a lapidar meus conhecimentos e habilidades. Se eu encontrar esse curso à noite na minha cidade, certamente reservarei um tempo. Se não tiver à noite, então reservarei alguma época de férias para isso. E se eu fosse demitido do nada, acho que eu começaria imediatamente.

Considero que esta é uma profissão que, sabendo fazer direito e sendo trabalhador, dê para tirar uma boa grana por mês,  ainda mais se você for pontual e organizado,  coisa que, pela minha experiência, muitos destes profissionais que trabalham nessas áreas relativas à construção civil (pedreiros, marceneiros, encanadores, etc.) infelizmente não são, talvez por uma questão de "cultura da brasileira da malandragem". Portanto, está aí uma oportunidade para angariar clientes.

Além disso, ao contrário dos trabalhos "comuns" de escritório  CLT mensalistas em geral, quanto mais você  trabalhar, mais dinheiro irá entrar em seu bolso, então aqui ser workaholic (por um tempo) pode sim compensar.  

Investimento inicial: 

- Curso de corte e solda e de serralheria (eu não me arriscaria nessa profissão só com tutoriais de YouTube e de blogs- pode ser muito perigoso, e não recomendo que ninguém se aventure a mexer com maçaricos e ferramentas elétricas de corte em geral sem preparo e conhecimentos prévios) 

- Maçarico e máquina inversora 

- estoque inicial de eletrodos ("varetas de solda")

- estoque inicial de insumos (tubos, conexões, vergalhões, chapas, etc. - o material exato depende do tipo de trabalho que você deseja fazer)

-Ferramentas básicas (martelo, alicate universal, esmerilhadeira, discos de corte e de polimento)

- EPI (máscara para solda, luvas, avental, botas, óculos de proteção)

- Mala de rodinhas para carregar as ferramentas 

- cartões de visita (para distribuir no seu bairro e em bairros próximos, deixar em lojas de materiais de construção, etc. para ir fazendo seu nome e angariando clientes)

Todas estas coisas acima você encontra facilmente em qualquer loja de ferramentas, é só pesquisar onde for mais barato. Claro que como eu não tenho 100% dos conhecimentos necessários para ser soldador e serralheiro, eu posso estar me esquecendo de alguma coisa, mas o investimento inicial é bem por aí. 

A Loja do Mecânico vende este kit para serralheiro que, a meu ver, é relativamente barato (R$645,00 + frete), o que comprova minha tese do investimento inicial baixo para começar nesta nobre profissão.

Sinceramente, não sei se um soldador autônomo consegue tirar uma boa grana por mês,  mas eu estaria disposto a tentar construir meu nome e ir angariando clientes. (Se algum leitor meu trabalha com solda  por favor comente aí e compartilhe suas experiências profissionais e de vida). 

Uma coisa que eu faria, pelo menos no começo, seria literalmente ir caçar clientes na rua: percorreria as ruas de meu bairro à procura de portões quebrados, tortos, enferrujados, etc. e ofereceria meus serviços, de porta em porta. Eu começaria mesmo estando ainda em meu atual emprego, trabalhando nos fins de semana e feriados e nas férias. Em cada cliente eu deixaria meu cartão de visitas, e assim iria construindo meu nome e eventualmente talvez seria capaz de largar o emprego e viver de serralheria. 

Será que daria certo? Acho que o resultado seria diferente para cada um, e só descobriremos tentando.  

Além disso, por ter várias aplicações na construção civil, creio que sempre haverá trabalho para um serralheiro, basta ter boa vontade e procurar um canteiro de obras, uma empresa de construção, etc. Ou seja, caso o negócio próprio vá mal, ainda dá para se virar como empregado celetista em uma oficina ou trabalhando sob contrato em empreitadas. Óbvio que meu principal objetivo seria ser autônomo, mas sempre precisamos de um plano B (além, claro, da boa e velha reserva de emergência) para evitar ao máximo passar apertos e necessidades.

Outra coisa que eu considero importante seria ter conhecimentos além dos de solda e serralheria: creio que um bom profissional desta área, caso deseje trabalhar como autônomo, deveria ter também uma alguma noção de instalações hidráulicas, instalações elétricas, desenho técnico-industrial, usinagem e tornearia mecânica, de modo a ser alguém bem capacitado para desempenhar várias tarefas para os clientes.

Quem sabe, com o tempo, eu não conseguisse alugar (ou talvez comprar) uma pequena oficina e com isso me tornasse ainda mais confiável e profissional aos olhos do mercado consumidor? Talvez um pequeno terreno baldio sirva, e com pouco dinheiro eu construiria um pequeno galpão que me serviria de oficina. Talvez o que sairia mais caro seriam as instalações elétricas que eu teria de fazer. Um risco neste caso é que geralmente os terrenos baldios estão cheios de pendências jurídicas (disputa entre herdeiros, disputas entre proprietários e seguradoras, etc.), o que dificulta sua compra e a torna muito arriscada. Talvez o ideal seja mesmo comprar ou alugar uma pequena loja ou sala comercial térrea e transformá-la numa oficina. Outra maneira possível seria usar a garagem de casa como oficina, especialmente se ela for ao ar livre (eu não tenho carro e nem pretendo ter, então seria uma maneira de útil de aproveitar o espaço) - mas sempre tomando cuidado e levando em conta o risco de incêndio.

Em minha pesquisa, encontrei estes sites que parecem ser bons e podem ajudar aqueles que quiserem seguir a profissão, contendo dicas de ferramentas, de segurança, de gestão de estoque, e até da parte empresarial da coisa. Recomendo a leitura.

https://casaserralheiro.com.br/blog/

https://blog.oximaq.com.br/

https://www.ferpam.com.br/blog/

https://www.meuserralheiro.com.br/

https://www.profissionaldoaco.com.br/


O que os confrades da blogosfera das finanças acham desta ideia? Se arriscariam nesta profissão? Eu a considero bem interessante porque une criatividade, habilidades manuais e alguns conhecimentos de química, física e matemática. 

Forte abraço! Fiquem com Deus!


sexta-feira, 5 de fevereiro de 2021

Em busca da liberdade terrena, se é que ela existe

Saudações, confraria da blogosfera!


Primeiramente: não se iludam, não existe a liberdade plena neste mundo. Seremos sempre, no mínimo, escravos da Natureza (sempre sujeitos ao clima, às condições físicas em geral do local onde vivemos, etc.), da nossa natureza humana em si (nossas necessidades), e estaremos sempre sujeitos a sofrer violência por parte de outros seres humanos. 

(por exemplo, por mais cuidado que você tome ao dirigir um carro, você não tem como controlar o quão cuidadosos os demais motoristas estão sendo, então o simples fato de dirigir ou até mesmo ser passageiro de um veículo já é um exercício de confiança nas demais pessoas). 

Isso tudo são coisas que ninguém pode controlar. Ao menos, não completamente. 


A "liberdade" a que podemos almejar é aquela relativa às coisas que estão mais ou menos sobre nosso controle. Uma delas é aquilo que escolhemos fazer com o fruto de nosso trabalho: quanto gastamos, quanto economizamos, onde investimos, o que compramos, etc.. Outra é aquilo que fazemos em nosso tempo livre: o que ler, o que aprender, quando e o quanto descansar, o tipo de lazer que temos, e por aí vai.

Muitas coisas ruins acontecem no mundo por causa do cabresto da escravidão econômica. Acho que isso é uma coisa que muitos de nós sabemos até por instinto mas nem sempre conseguimos pôr em palavras. 

Chamei isso de Escravidão Econômica porque, como vocês verão, é um termo mais "genérico", muito embora talvez não seja o termo exato. Para alguns dos casos, talvez eu devesse chamar de "escravidão do conforto" ou "escravidão da vaidade". Digo isto porque há diferentes tons da escravidão econômica. 

Por exemplo, existe o trabalhador que ganha salário mínimo e que, por falta de alternativa, consome mais da metade de sua renda pagando o aluguel, e o restante mal dá para cobrir o custo mínimo de vida (alimentação, conta de luz e de água, transporte, etc.), de modo que ele está a uma consulta médica de distância para entrar no cheque especial (se é que já não está), o que inicia uma bola de neve que se transforma numa dívida que para ele é provavelmente impagável. 

Claro que ele pode dar um jeito e fazer bicos por fora para aumentar sua renda, e com isso pagar por uma formação melhor que lhe permita ao menos se candidatar a vagas de empregos que paguem mais, ou até iniciar seu próprio negócio, mas isso é bem difícil e trabalhoso, de modo que muitos nem tentam. 


Desta forma, o salário mínimo é, a meu ver, uma forma de escravidão econômica.


Por outro lado, existem muitas pessoas que ganham gordos salários e bônus, como os altos executivos, superintendentes, CEOs, etc. que também são de certa forma "escravos", mas por outros motivos. Muitos de nós da blogosfera ficamos impressionados, porque parece que eles não percebem que, muito provavelmente, já têm patrimônios que lhes permitiriam "viver de renda" com conforto durante muito tempo, de modo que ficamos espantados às vezes em como um figurão do mundo corporativo ainda se sujeita a tanto estresse, tantas noites trabalhando até tarde, aos sábados, domingos e feriados, e por aí vai. Muitos de nós, no lugar deles, provavelmente passaríamos o bastão para um sucessor e iríamos nos aposentar, ou trabalhar menos, em atividades mais prazerosas ou com mais significado. 

Uma explicação possível: eles estão em um nível completamente diferente da pirâmide de Maslow (aquela da hierarquia das necessidades humanas). Enquanto nós ainda focamos mais nas necessidades do meio da pirâmide (necessidades de segurança - patrimônio, casa para morar, trabalho para ter sustento, etc -, necessidades de afiliação - amizades, relacionamentos, sentir-se amado, etc. - e também no das necessidades de estima - confiança, respeito dos outros, etc.), estas pessoas vivem com a cabeça mais no último nível (auto-realização). 

Não sei se a pirâmide de Maslow ainda é uma teoria "respeitada" ou se já foi "refutada" por alguém, mas considero que ela oferece uma explicação simples e razoável para algumas faces do comportamento humano.

É claro que praticamente todo mundo, ao menos em alguns momentos, pensa em todos os níveis da pirâmide. Todos temos em maior ou menor grau a necessidade de auto-realização.  

A questão é que os mais ricos entre nós, por terem os níveis mais baixos já amplamente satisfeitos, passam muito mais tempo se dedicando aos níveis mais altos, especialmente o último. Isso ajuda a explicar porque um magnata de qualquer indústria geralmente trabalha até morrer: não é mais pelo dinheiro, porque ele tem o suficiente para que seus bisnetos possam optar por não trabalhar nunca. Também não é para ter uma casa bonita, porque  ele já tem propriedades nas melhores cidades do mundo. É para "deixar um legado", "escrever seu nome na história", derrotar seus rivais da indústria, e por aí vai. (O problema é quando eles começam a agir com "complexo de messias", mas isso é assunto para outro dia). 


Podemos dizer que este grupo é "escravo de si mesmo", escravos de seus egos.  Provavelmente não conseguiriam parar de fazer o que fazem. Talvez para este caso, escravidão nem seja a palavra mais adequada.


Outra explicação, esta muito mais aplicável aos CEO's profissionais e alto-executivos em geral (funcionários do topo da pirâmide corporativa, bem pagos porém não proprietários de porções significativas da firma): o alto salário os transporta para outro círculo social, um em que por algum motivo exige-se certa demonstração de status. 

Assim, é "esperado" que o CEO da empresa tenha um carrão e more numa mansão ou em um mega apartamento de muitos metros quadrados. Também é "esperado" que os diretores, alto-executivos, etc. vistam-se com roupas caras, frequentem os melhores restaurantes na hora do almoço, frequentem locais "de elite", viagem para o exterior todos os anos, etc.  (Como eles não são proprietários da empresa, então tais posses provavelmente estariam acima de sua capacidade, não fosse pela alta remuneração.)

Em parte isso é para demonstrar uma imagem de riqueza e prosperidade, não do indivíduo, mas da empresa ("olhem como a empresa XYZ paga bem, olha o carro que o diretor de marketing dirige!"). Um guerreiro da blogosfera das finanças, em busca da IF, provavelmente teria um carro mais barato e econômico caso estivesse numa posição destas, ou talvez nem tivesse carro (vide o Pobretão) e isto "arriscaria" a imagem da firma ("nossa, o diretor financeiro vai trabalhar de ônibus... aquela empresa deve pagar um salário miserável!"), de modo que ele não duraria muito tempo no cargo, ou talvez nem chegasse lá ("ah, o fulano não tem perfil de diretor, olha como ele se veste, não posso dar a promoção para ele"). Isso é ainda mais verdade aqui no Brasil, onde a ostentação é valorizada, inclusive entre os pobres, por incrível que pareça. 

Em bem pouco tempo, já não é mais pura ostentação, aqueles hábitos se incorporam à vida do indivíduo e ele passa a encarar o luxo como uma necessidade.

Todo este status, o glamour, o luxo, etc. afastam o indivíduo da realidade da vida (ele passa a viver numa bolha, a matrix dos ricos), e ele teme perder todo aquele status conquistado, pois sua perda seria dolorosa, principalmente em um meio repleto de vaidade e narcisismo como o alto escalão das grandes empresas e do governo: qualquer queda no padrão de vida é encarada como uma derrota vergonhosa, a ser evitada quase a qualquer custo.

Assim, o indivíduo está preso em outra forma de escravidão econômica (a "escravidão da vaidade" e, melhor ainda, "escravidão do conforto"), pois ele precisa manter seu alto nível de fluxo de caixa (salários altos, bônus, PL, etc), caso contrário não será mais bem-vindo nos círculos sociais que frequenta, por não conseguir bancar as despesas que tais círculos exigem (o custo de manutenção do status), e por aí vai. Os mais prudentes entre eles têm reservas que garantiriam uma vida confortável mesmo sem estes salários e bônus maravilhosos, mas não o suficiente para saciar sua sede de status e poder, até porque nestes círculos o patrimônio é, de certa forma, secundário (embora não deixe de ser importante): serve mais para cobrir o "custo de manutenção". O que mais importa, neste nível da hierarquia social é o cargo que se ocupa, a autoridade, os contatos a que se tem acesso, etc. 

Desta forma,  quem ingressa neste nível e se acostuma com esta vida, tende a fazer de tudo para se manter (explicado pela "adaptação hedônica"). Acredito que seja por este motivo que muito se fala em "psicopatas no poder". Quanto menos escrúpulos uma pessoa tem, provavelmente mais fácil se torna agir neste sentido (e se manter ou até galgar posições superiores).

(Eu, no lugar destes executivos e CEO's muitíssimo bem remunerados, estaria economizando 90% ou mais do salário e 100% de cada bônus que recebesse, para que eventualmente eu me tornasse independente daquela remuneração e da empresa, e é por isso que eu, talvez, não durasse muito numa posição destas, onde a demonstração de status é de certa forma exigida.  Acredito que muitos dos nossos colegas da blogosfera, senão todos, fariam quase a mesma coisa que eu)

Assim, muita maldade é feita no mundo, nem sempre por conta do mau caráter de quem a comete, mas pela covardia: porque seu perpetrador teme desobedecer uma ordem de um superior e perder seu emprego, o que significaria perder o conforto conquistado, uma posição de prestígio (como um cargo de diretoria, ou um cargo em uma filial privilegiada da empresa ou da repartição pública), e por aí vai. 

Isso, ao menos em parte, ajuda a explicar alguns casos de corrupção dentro e fora do governo, com tanta gente envolvida (lembrem-se dos casos de corrupção entre grandes empreiteiras e o governo: será que todos os envolvidos eram ladrões "de verdade"? Quantos estariam agindo obedecendo ordens, temendo perder cargos de prestígio nas empreiteiras? Claro que eles não deixam de estar errados, pois escolheram se corromper, mas a questão é: quantos destes corruptos agiram desta maneira por serem escravos de seus egos e de sua vaidade?).  

O que quero dizer com isso, confraria?

Quero dizer que, sem exagerar, precisamos tomar cuidado para, dentro do possível, não cairmos na Escravidão Econômica - em nenhuma de suas variantes. Acredito que a maioria da blogosfera das finanças não se encaixe na escravidão do salário mínimo (embora estejamos sempre sujeitos a ela), mas podemos cair na escravidão do conforto e da vaidade caso não tomemos cuidado. Nunca podemos ser dependentes demais destas coisas pueris. Devemos ter sempre a cabeça no lugar e tomar cuidado com as falsas necessidades que a "matrix" tenta nos empurrar e que só nos deixam mais pobres e, no fundo, infelizes, muito embora dêem uma alegria momentânea.

Estas são algumas formas de independência que devemos buscar. 


Forte abraço, confrades, fiquem com Deus!