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sábado, 16 de novembro de 2024

A polêmica da escala de trabalho: (6x1), (5x2) ou (4x3)?

Saudações, confraria da melhor blogosfera do país e da melhor finansfera do mundo!

Mais um post para quebrar o "jejum" de postagens que não sejam de atualização patrimonial. 

Desta vez estou escrevendo sobre um dos assuntos do momento, o polêmico projeto de lei que visa acabar com a escala 6x1 e implantar a 4x3 (conforme um pequeno extrato do projeto de lei que li na internet). 

As minhas opiniões sobre a escala de trabalho (e também outros assuntos envolvendo relações trabalhistas) são as seguintes:

 1) Concordo 100% que viver trabalhando 6x1 é uma droga, pois você quase não tem tempo para você, para cuidar da sua família, lazer, etc. e também quase não tem tempo para se desenvolver, de modo que quem trabalha nesse ritmo provavelmente ficará preso no ciclo 6x1. Então aquele argumento de "Pede demissão e arruma um emprego melhor se não quiser trabalhar 6x1" é  bastante desonesto, pois quem está inserido na corrida dos ratos da escala 6x1, já com obrigações e responsabilidades (Família), muito dificilmente arranjará algo melhor para poder sair. A maioria não se pode dar o luxo de sair para estudar, se qualificar, etc. 


2) O problema nem é só a carga de trabalho, mas também o tempo gasto no transporte para ir e voltar todos os dias, 6 vezes por semana.  e também o fato de que a escala 6x1 muitas vezes vira 7x0, porque dependendo da empresa, do tipo de negócio, etc. você pode ser chamado para cobrir a falta de alguém no seu dia de folga, e não necessariamente será compensado no dia seguinte. Talvez nem ganhe horas extras, e talvez nem mesmo o tal do "banco de horas" (que costuma ser desrespeitado).


3) Eu considero irreal, pelo menos no momento atual do Brasil, haver uma escala 4x3 mencionada no projeto de lei e que nem a que querem implantar na Europa (ou ao menos é o que dizem). Porém, uma escala 5x2 já melhora bastante a qualidade de vida da pessoa e é a que eu vejo como a "escala normal/padrão de trabalho", pois permite mais tempo com a família, mais tempo para religião, mais tempo de lazer, mais tempo para estudar, para ter hobbies, e por aí vai. E para quem quiser trabalhar mais, também dá mais tempo de se dedicar a bicos, a um negócio paralelo, e por aí vai. Acho que nenhuma empresa merece tanto do nosso tempo, nenhuma empresa merece o nosso 6x1. E como eu já disse outras vezes aqui, para mim a combinação "escala 6x1 + salário mínimo" é uma forma de escravidão moderna. O argumento de que "se não gosta é só pedir demissão" é desonesto porque praticamente não há opção, e para a maioria das pessoas não há mesmo opção.


4) Ao contrário do que dizem por aí, eu acho que o brasileiro trabalha muito e enxergo os nossos feriados e o nosso padrão de férias de 30 dias como uma bênção, dadas as condições do país e as dificuldades que passamos por aqui. Eu já tive um chefe com alguma experiência internacional que, quando conversava comigo, sempre aproveitava para malhar a quantidade de feriado e férias que temos por aqui e citava como exemplo os EUA, em que o normal é você começar na carreira só com algo entre 5 e 10 dias de férias por ano e só quando alcançar um cargo "sênior" é que se ganha uns 20 dias (e ele dizia também que o pessoal "sênior" nunca tirava esses 20 dias porque suas responsabilidades não costumavam permitir, fora o fato de que algum rival dentro da empresa aproveitaria esses 20 dias de ausência para "puxar o tapete") e ele, todo orgulhoso, dizia que "nos EUA o pessoal trabalha até revirar os olhos". Eu acho que ele se esqueceu de levar em conta vários fatores diferentes entre os países - por exemplo, 1 (hum) dólar nos EUA, mesmo hoje na relativa decadência do dólar, rende muito mais do que 1 real aqui - por aqui 1 real não compra quase mais nada, talvez um punhado de bala juquinha - eu lembro de quando elas custavam 1 centavo, hoje em dia deve ser algo entre 20 e 50 centavos; e as coisas lá são muito mais organizadas, limpas, eficientes, seguras, e por aí vai. Eu não acho que sobreviveríamos às bagunças, ineficiências, perigos,  caos, etc. do Brasil com uma rotina americana de trabalho, feriados e férias. Ficaríamos malucos com poucos feriados e poucas férias. Essa é a minha opinião.


5) Por outro lado, entendo que a carga tributária e de benefícios sociais e trabalhistas é deveras pesada principalmente para o pequeno e médio empresário, de modo que muitas vezes a escala só é 6x1 porque é isso que o dono do negócio é capaz de bancar. Sendo assim, uma excelente contrapartida para o fim do 6x1 seria haver uma redução proporcional nos custos tributários e trabalhistas. 

(Entretanto, sei que isso é um pensamento utópico, pois por aqui quando o governo se acostuma a arrecadar determinado valor, é quase impossível convencê-lo a abrir mão dessa arrecadação (até porque ao invés de guardar e fazer reservas, ele já gastou e já se acostumou a gastar). Aliás, noto que um fenômeno praticamente análogo ocorre no comércio brasileiro: quando um produto atinge determinado preço mais alto do que o anterior (por exemplo, por conta de uma safra ruim, de um pico no preço do petróleo que jogou a gasolina lá em cima, etc.) dificilmente o comércio reduz o preço para os patamares de antes, ainda que a causa do aumento do preço já tenha passado. Ou seja, no Brasil os  aumentos de impostos e de preços costumam ser permanentes. Porém, no mínimo os parlamentares que tenham algum interesse em melhorar o Brasil deveriam brigar para incluir essa redução dos custos trabalhistas nesse projeto de lei da escala 6x1. Uma excelente medida seria a redução do desconto do FGTS, tanto do funcionário quanto o patronal).


 6) Acredito que essa permanência dos aumentos de preços no comércio brasileiro seja uma consequência de vivermos em uma sociedade de baixa confiança (falta de confiança tanto no próximo quanto no governo); 


 7) E também é consequência de nossa moeda ser muito inflacionária. Infelizmente as teorias econômicas mais "mainstream" enfiaram na cabeça dos acadêmicos que a deflação é ruim e que deveríamos seguir uma inflação perpétua e baixa, mas eu discordo: ao contrário do que pregam, deveríamos mesmo é perseguir uma Deflação, também perpétua e baixa, na casa dos 2%~3% a.a, ou, ao menos, a manutenção do poder de compra da moeda (inflação zero, deflação também zero).


 8) Em que pese a elevada carga tributária e trabalhista, também acho que haja uma parcela de culpa nos empresários brasileiros, por conta de nossa cultura: aqui predomina a mentalidade controladora, em que se valoriza mais que o empregado esteja ali, no batente, onde pode ser observado e controlado, ao invés de se preocupar se ele está de fato produzindo alguma coisa.


 9) Óbvio que empresas pequenas não têm condições de pagar grandes salários, mas noto que também há no Brasil uma cultura de desvalorizar o trabalho alheio e de pagar pouco, mesmo em empresas grandes. Muito gerente no Brasil, mesmo de empresa multinacional, ganha mais ou menos o que um caixa do Walmart ganha nos EUA. E não duvido que haja mendigos nos EUA que ganhem mais dinheiro com esmolas do que muito funcionário CLT ganha de salário no Brasil. 

Novamente: parte disso é sim por causa dos altos impostos e custos trabalhistas, mas parte também é mesquinharia do "empresário brasileiro médio". Aqui vale muito a famosa metáfora do "balde de caranguejos": ninguém fora da sua família quer que você cresça e evolua, muito pelo contrário! E por esse motivo nosso serviço é desvalorizado e no geral somos todos mal pagos, não temos acesso a bons planos de carreira e crescimento profissional, e geralmente a alta cúpula das empresas médias e grandes são panelinhas e dificilmente dão aumentos de salário a empregados de escalões mais baixos - muito pelo contrário: às vezes encontram meios criativos de reduzir nossos salários (além das clássicas horas extras forçadas, para reduzir o seu salário por hora).      

(Por exemplo, uma pessoa muito próxima a mim na família trabalhava numa empresa (de média para grande) em que havia plano de carreira e todos os funcionários ganhavam PLR, até os que faziam serviços mais simples. A empresa foi vendida para determinado empresário, que colocou sua panelinha nos cargos de direção. As medidas que eles tomaram logo de cara: fim do plano de carreira (ninguém nunca mais seria promovido, e quem estava nos postos mais altos do antigo plano de carreira foi demitido), redução do salário-base (quem foi contratado depois da mudança entrou ganhando menos do que ganharia se tivesse entrado antes da troca de dono) e o fim da distribuição de PLR para todos os funcionários exceto diretores - a panelinha distribuía o lucro somente entre si).


 10) Resumindo: 

    a) As empresas são muito expropriadas via impostos e benefícios trabalhistas obrigatórios e, por conta disso, espremem seus empregados até não sobrar nada;

    b) O Brasil é muito pobre de empresas por conta da burocracia, dos altos custos, do risco jurídico e da nossa "cultura de emprego", então todo empresário sabe que, no geral, para cada funcionário reclamando do serviço tem outros 500.000 na fila implorando pela vaga e até aceitando ganhar menos e trabalhar mais. Por isso que normalmente a idéia da "livre negociação entre empregado e patrão" quase nunca acontece por aqui;

  c) Em um mundo ideal, ninguém seria obrigado a aceitar o 6x1. As pessoas só aceitam porque geralmente não têm opção. Se tivessem opção, recusariam qualquer proposta 6x1 e nenhuma empresa operaria assim. Realmente é desumano trabalhar 6x1, ainda mais ganhando "mil e quinhentão" e sem direito a  PLR, plano de saúde, etc. que é o caso da maioria das pessoas, infelizmente.

 d) O certo seria o salário ser por hora, e não por mês, e de alguma forma vinculado à produção, de forma a incentivar o trabalho e a produtividade. No mínimo, no mínimo, ser vinculado às horas trabalhadas. Aí talvez acabasse o problema das horas extras não pagas e o da escala de trabalho. O padrão brasileiro deveria ser salário por hora.

e) A escala 6x1 não deveria existir, mas para ser abolida na canetada (ser proibida por lei), então que a caneta reduza também os custos trabalhistas, sociais e tributários. (infelizmente acho difícil reduzirem todos esses custos...)

f) Geralmente as discussões sobre essa polêmica da escala estão focando só no lado econômico, mas não passam pelo lado moral / humano da coisa. Eu acho imoral fazer uma pessoa trabalhar 6x1 e pagar salário mínimo - que, ao menos, esses funcionários não fiquem 8 horas no batente, que trabalhem meio expediente, para que tenham tempo para suas famílias e seus estudos. 

f) Independente do que o governo e as empresas vão fazer, devemos todos buscar, no tempo que tivermos disponível, meios de sair da corrida dos ratos (e acho que geralmente o primeiro passo para sair da corrida dos ratos é sair do 6x1, para ganhar tempo, que vale mais do que qualquer dinheiro do mundo)

sexta-feira, 14 de abril de 2023

Sobre a previdência social

Recentemente, na França, foi aprovada na canetada uma reforma que aumenta em 2 anos a idade mínima de aposentadoria dos franceses: de 62 passou para 64 anos. E muitos franceses foram às ruas para protestar e até saíram na porrada contra esta reforma, mas foi tudo em vão. 

E olha que dizem que o brasileiro é que não trabalha, ou que trabalha pouco! Pode até ser que a eficiência aqui seja menor, mas é fato que trabalhamos muito. O povo brasileiro é um dos que mais trabalha no mundo,  em termos de horas.

Alguns reclamam que aqui há muitos direitos trabalhistas. Alguns eu acho justos, outros nem tanto (assunto para futuros textos), mas tenho razões  para acreditar que há mais direitos trabalhistas na França do que no Brasil, e esse é um dos motivos para o desemprego lá ser alto, principalmente entre os jovens. 

Um conhecido meu que já trabalhou na França me disse que a cultura de pequenos negócios familiares é forte por lá justamente por conta disso. Ele deu o exemplo de uma padaria francesa, onde não havia nenhum empregado: todos os que trabalhavam lá eram da família do dono - o dono era o padeiro, e fazia os pães sozinho. A esposa ficava no caixa, e os filhos ficavam de faz-tudo, ora ajudando o pai, ora a mãe,  ora recebendo fornecedores, etc, pois o padeiro não teria condições de bancar funcionários de "carteira assinada" ou seu equivalente francês. Quem mais sofre com isso são os jovens cujas famílias não têm negócios próprios,  pois penam bem mais para conseguir empregos na França.

Aqui, ao menos por enquanto,  vejo muitas padarias com empregados, mas não sei se estes recebem todos os seus direitos trabalhistas, nem se as padarias têm condições de paga-los. Mas também já vi alguns destes lugares perto de onde moro que seguem o modelo francês de contratar somente pessoas da família. Por exemplo, a padaria onde geralmente vou comprar pães pertence a duas irmãs,  e seus filhos trabalham no balcão.  Acho que só uns 2 empregados são de fora da família.  Um bar perto da minha casa me parece ser 100% tocado pela família do dono, pois os funcionários são todos muito parecidos, do cozinheiro aos garçons (óbvio que posso estar errado).  


Mas divaguei. Voltando à previdência social, que é o assunto do post: aqui a idade mínima para aposentadoria vai ser de  65 anos no fim da transição de regimes, com a obrigação de somar 105 com o tempo de contribuição (ou seja, para se aposentar aos 65 tem que ter contribuído por 40 anos - é a realidade que a maioria de nós irá pegar), ou seja, trabalhamos mais tempo que o povo francês. E isso sem falar que lá a semana de trabalho tem menos horas (oficialmente 35 horas, contra 40h daqui - mas óbvio que em ambos os países o tempo efetivo de trabalho para o trabalhador médio é superior ao número legal de horas).

E não duvido nem um pouco que ainda pegaremos outra(s) reforma(s) no futuro que aumentem a idade mínima e o tempo de contribuição. Pode ser que quando chegue a nossa vez, tenhamos que trabalhar até os 90, ou algo assim. Ou a previdência social pode simplesmente acabar.

Mas não creio que pegaremos o fim "oficial" da previdência social em nossas vidas... talvez peguemos um fim "disfarçado" - regras impossíveis de serem cumpridas, ou benefícios irrisórios,  ou descontos absurdos nos benefícios, algo nessa linha.

Os principais problemas que eu enxergo são: 

1) supondo que nada mude e não haja mais reforma nenhuma e o governo não faça nada para cobrir rombo nenhum, e mesmo assim ainda pudermos nos aposentar legalmente aos 65 anos: 99,9% se aposentarão com um salário mínimo,  o qual é ridículo e mal dá para pagar contas básicas... ou seja, a vasta maioria vai ficar na penúria e/ou terá que trabalhar até a morte (como era antigamente, antes de existir previdência social) para conseguir viver na velhice, e/ou ser amparado pela família.

2) se o governo resolver "imprimir dinheiro" para se furtar de fazer uma reforma (pois reforma de previdência é algo politicamente ruim), poderemos até ter aumentos no INSS e mais pessoas recebendo mais de 1 salário mínimo,  porém tais valores serão corroídos pela inflação,  e ficamos na mesma situação do item 1.

3) se o governo fizer mais alguma reforma e aumentar a idade mínima e/ou tempo de contribuição, provavelmente todos teremos que trabalhar até os 80 ~ 90 anos para nos aposentarmos pelo INSS e, mesmo assim, provavelmente para receber somente 1 salário mínimo. Será que vale a pena fazer isso? Trabalhar até os 80 anos para receber um salário mínimo de aposentadoria? Eu acho que não. Ainda mais aqui, onde o trabalhador honesto não é culturalmente valorizado, nem mesmo nas empresas, que dele dependem. Melhor ser autônomo e quando ficar mais velho passar a selecionar clientes e a diminuir o horário de trabalho.

4) nada impede o governo de, a qualquer momento, numa canetada, criar algum desconto nos benefícios de aposentados, com a desculpa de que tal desconto é para cobrir algum rombo (como foi o caso dos fundos de previdência de determinadas estatais, que estão descontando a mais para cobrir imensos passivos, alguns deles gerados por desvios de verbas - imagine você com 85 anos recebendo a notícia que seus proventos de aposentadoria irão diminuir a partir do mês que vem porque alguém roubou dinheiro e agora todos terão que pagar a conta), ou com qualquer justificativa que inventarem ma ocasião.


Vejam que não importa o cenário,  todos nós temos que tomar as seguintes atitudes:

1) Criar uma família e cuidar muito bem dela, para termos apoio, carinho, afeto e amparo durante toda as nossas vidas, não só na velhice;

2) Cuidar da saúde tão bem quanto possível, para termos condições de aproveitar a vida até que nossa hora chegue;

3) Aportar com disciplina todo mês,  o máximo que pudermos, de modo a:

    a) ser possível aposentar antes da idade mínima,  seja ela qual for, caso este seja nosso desejo;

    b) ter a possibilidade de não precisar mais trabalhar por causa do dinheiro, ou ter a liberdade de trabalhar com coisas mais leves e por menos horas por dia; e 

    c) para ter uma chance de viver com mais dignidade na velhice, pois no que depender do governo, teremos só o mínimo do mínimo,  e talvez nem isso. 

Enfim, nobre confraria da finansfera, companheiros de trincheira, estes são alguns de meus pensamentos acerca do espinhoso assunto que é a previdência social. 

O que têm a dizer sobre este tema?


Forte abraço! 

Fiquem com Deus!


domingo, 6 de novembro de 2022

Os maus hábitos do comércio - parte 5

Saudações,  confrades!

Vamos a mais um post desta série, na qual eu discorro sobre práticas comerciais do dia a dia que eu considero ruins, improdutivas e prejudiciais tanto para os clientes quanto para o próprio estabelecimento em si.

Para quem não leu os posts anteriores e se interessa pelo assunto,  seguem os links:

Os maus hábitos do comércio 

Os maus hábitos do comércio parte 2

Os maus hábitos do comércio parte 3

Os maus hábitos do comércio parte 4

Agora vamos ao post propriamente dito:

Cardápios em QR Code - acho isso desnecessário e incômodo. Estou com o pessoal mais velho nessa. Acho um saco ter que pegar o celular e ler o QR Code para depois ficar arrastando a página do cardápio pra cima e pra baixo com o dedo na tela do celular. Acho que isso não economiza nada (se o restaurante precisa economizar dinheiro não imprimindo os cardápios,  então das duas uma: ou o cardápio muda todo dia ou então o restaurante já faliu e esqueceram de avisar o dono!) e ainda deixa o restaurante com um jeitão de "modernete metido a besta". 

Até hoje só fui em 2 restaurantes que só tinham cardápio em QR Code, e nos dois eu levantei e fui embora sem comprar nada. 

Um deles era uma dessas hamburguerias "gourmet" (que de gourmet só têm o preço mesmo) que só têm 3 hambúrgueres diferentes no menu, excessivamente caros, e o outro era uma cafeteria, e este foi recentemente. Nesse último eu quase me rendi e cheguei a escanear o bendito QR Code, mas a internet estava ruim e o cardápio não carregou (ou o arquivo era pesado demais para o meu telefone, sei lá). E também foi ruim ouvir a balconista com aquele jeitão de "problema seu" dizendo que não tinha cardápio em papel. Desisti e fui embora, e acho que sempre farei isso quando me deparar com cardápio que só existe num QR Code... 

Eu acho que hoje em dia muitas empresas ficam forçando a barra para que os clientes instalem apps e/ou usem o smartphone para fazer coisas triviais. Esse tipo de coisa só faz sentido quando a tecnologia envolvida realmente facilita o trabalho do cliente. Mas do jeito como muitas empresas fazem (como é o caso do cardápio em QR Code), acaba acrescentando mais um obstáculo para o consumidor alcançar o produto, e acrescentando mais uma etapa no processo do negócio onde é possível acontecer alguma falha que faça a empresa perder uma venda (por exemplo, no caso dos cardápios: internet fora do ar, telefone sem bateria, sinal ruim, etc.). 



Só porque uma tecnologia existe, não quer dizer que devemos usá-la o tempo todo e nem que a mesma deva ser incorporada a coisas corriqueiras.

Promoções que não são promoções - há pouco tempo recebi na rua o panfleto de uma loja que estava fazendo essa promoção bizarra: se você fizesse compras acima de 500 reais você ganharia um cupom que te dava a chance de ser sorteado para ganhar um prêmio de "até 10 mil reais". Como sempre, tinha um asterisco que levava para as letrinhas miúdas do contrato: na verdade eram  vários sorteios, alguns de 500 reais, outros de 1.000, e um de 5.000, e o prêmio não era em dinheiro, mas sim em vale-compras que deveriam ser usados na mesma loja e somente até um certa data limite (acho que março do ano que vem). Na minha opinião, se for para fazer uma "promoção" assim, melhor nem fazer, pois acho que pega mal para a imagem da loja. 

Acho que esse tipo de promoção, dando vale-compra, só vale a pena se for de super-mercado ou outro tipo de comércio em que você vá com frequência.

Outro exemplo disso são restaurantes que dão cartões-fidelidade que não trazem nenhum desconto de verdade, ou em que é quase impossível ganhar o desconto. Por exemplo, tem um perto de onde eu trabalho que a cada 10 refeições você ganha 20% de desconto na 11ª e o cartão só vale por três semanas. Acho que estes cartões poderiam ser vitalícios, ou ter validades maiores (1 ano).


E vocês, confrades, o que acham disso? Também se incomodam quando precisam usar o smartphone para ler um cardápio? Participam de promoções de lojas?


Forte abraço! Fiquem com Deus!

quinta-feira, 18 de novembro de 2021

No Brasil não é normal darem descontos


Percebam que  aqui no Brasil, por alguma razão (impostos? Inflação? Margem de lucro mais alta? Não sei, mas provavelmente uma mistura destes e de outros fatores que não identifiquei) as empresas raramente dão descontos e, quando isso acontece, nunca é que nem nos EUA, em que se pode pegar cupons de desconto em jornais, revistas e até na internet e se consegue comprar coisas até de graça, por conta de vários descontos acumulados.

O desconto mais comum de se achar, e mesmo assim não é em todo lugar, são aqueles 10% para pagamentos à vista (e tem lojas que só dão 5% quando o pagamento é  no débito e só dão  os 10% se for no dinheiro e, hoje em dia, no pix). Geralmente se consegue este tipo de desconto em lojas menores ou de atendimento mais personalizado que dependa de um vendedor. Lojas grandes, como as Americanas, Casa e Vídeo, etc. nunca dão esse desconto, pois o atendimento é impessoal, então não tem como.

Outra característica do comércio brasileiro: quando dão descontos,  eles nunca ou quase nunca acumulam. Por exemplo, se você chegar na loja com um (raro) cupom promocional, provavelmente não conseguirá os 10% que teria se pagasse a vista, e se negociar os 10% a vista, provavelmente o cupom não será utilizado. E geralmente os cupons têm prazos bem curtos, e às vezes vem nas letras miúdas  que eles não são aceitos em todas as filiais da empresa. Pelo menos na minha experiência, sempre foi assim. Não sei como é em outros lugares do Brasil, mas onde moro é assim.

Vou relatar aqui algumas promoções esdrúxulas que vi por aí ou recebi, para ilustrar meu argumento:

 - vi o Shopee (aquela loja das propagandas horrorosas - aliás, quase todas as propagandas são horríveis hoje em dia) oferecendo  50% de desconto em compras, só que limitados a 10 reais (vi num anúncio no youtube)... ou seja, estão dando no máximo 10 reais de desconto e a propaganda diz 50% só pra chamar atenção.

- em uma loja de móveis  onde comprei um armário, veio de brinde um cartão de desconto de 20 reais, mas que só valia por 7 dias e não podia ser usado para abater o valor do frete, só no preço do móvel mesmo, e ainda vinha com uma cartinha da empresa falando de como a empresa era boa e quase uma família. Aham...

- o pseudo desconto da Cacau Show - aquelas barrinhas de chocolate de 20g custavam 2,90 ou 2,70 dependendo do recheio (ou seja, já eram caras). Agora o preço aumentou para R$ 3,30, mas se você for cadastrado na loja, você  ganha um desconto e elas passam a custar R$2,90 ou R$2,70, dependendo do recheio... ou seja, o mesmo preço de antes. Eles aumentaram o preço para incentivar as pessoas a se cadastrarem. Não gosto de me cadastrar em empresas  então simplesmente parei de comprar. 

Iinfelizmente, acredito que a tendência seja eventualmente todas as empresas passarem a ter cadastro de clientes, mas sinceramente acho que os descontos que dão são muito baixos para que eu aceite prostituir vender meus dados. Vejo que as lojas americanas estão indo pelo mesmo caminho, oferecendo alguns descontos só para clientes cadastrados no "Ame". Pode ser que no futuro só haja descontos se você for cadastrado em alguma plataforma ou use algum serviço desses. E mesmo assim, como no caso da Cacau Show, não são descontos de verdade: eles simplesmente aumentam o preço e cobram o preço antigo para quem tem cadastro. Mais uma tática suja.

- Há muitos restaurantes com cartão fidelidade que tem prazo de validade - perto de onde trabalho tem vários assim, com a validade do cartão bem pequena. Não sei se isso é negociável e se é possível ganhar o desconto se você passar 1 dia ou 2 da validade, mas mesmo assim acho que poderiam não ter prazo.

Acredito que essas coisas aconteçam porque o Brasil é um país muito inflacionário, de modo que a diferença de poder de compra de um ano para o outro já é notável. 

No fundo é uma estratégia de sobrevivência (se boa ou não, aí já é outra história):  maximizar a receita cobrando preços altos, ao invés de tentar vender barato e ganhar no volume de vendas. Pelo menos aqui no Brasil me parece que o padrão é esse. O problema é que os clientes em geral aceitam pagar caro! Não deveríamos aceitar. Tem muito preço que  é alto porque as empresas sabem que as pessoas vão pagar de qualquer jeito, mesmo sendo coisas supérfluas. Isso é outro aspecto de nossa cultura que precisa mudar...

O que acham, confrades?


Fiquem com Deus!

quarta-feira, 25 de agosto de 2021

O que está acontecendo com as empresas de jogos?

Saudações, confrades!


Um assunto que vejo às vezes sendo debatido pela internet é a situação triste em que se encontra o mercado de jogos atualmente. Nos 80, 90 e até a primeira década dos anos 2000 era um mercado vibrante e que produziu muito valor. Alguns jogos  daquela época são jogados até hoje e muitos são sempre lembrados mesmo que quase ninguém os jogue mais.

Eu joguei muito Age of Empires (jogo até hoje, mas bem menos), Rollercoaster Tycoon (idem), Age of Mythology, Mario, Zelda, Sonic, etc. Todos estes que citei foram feitos naquela época e se tornaram franquias de sucesso, lançando jogos até hoje.

Mas de uns tempos para cá alguma coisa mudou e as empresas de jogos parecem ter perdido a maior parte de sua genialidade e criatividade. 



Está certo que o principal esporte praticado por nós, seres humanos, é reclamar de qualquer coisa. Mas é fato que muitas coisas mudaram para pior no mercado de jogos, comparando com aquela "época de ouro". 



Algumas empresas estão se tornando infames e parecem ter dado uma guinada de 180º em relação ao que eram antes. Creio que o maior exemplo disso seja a Blizzard, dona da franquia Warcraft. Recentemente houve o fiasco de Warcraft III - Reforged: um lançamento cheio de promessas, mas com uma entrega muito ruim (e que até onde sei não foi consertado até hoje, parece que foi abandonado). Outro fiasco desta empresa foi o controverso lançamento de Diablo Mobile (que decepcionou muitos fãs, que não queriam um jogo para celular, mas a Blizzard agora está focando no mercado chinês, onde os jogos de celular são mais populares). 

(ironicamente, mesmo com esses recentes fiascos e com o progressivo abandono de World of Warcraft, as ações da Blizzard vem subindo)

clique para ampliar. Créditos na própria imagem.


Uma coisa que me chama a atenção é que antes os jogos eram sempre vendidos completos. Você pagava o preço e comprava o jogo pronto (no máximo com alguns erros que eram corrigidos com patches que você baixava de graça no site da fabricante). Dependendo do jogo, as empresas lançavam pacotes de expansão, mas ainda assim o jogo original sempre vinha completo. As coisas eram assim e as empresas tinham lucro e prosperavam. O negócio dava certo. 

Será que hoje não dá mais certo agir assim?

Hoje em dia,  muitos jogos parecem ser vendidos nem na versão beta, mas na versão alfa, porque logo depois do lançamento já existem DLCs (pagos) para completar o jogo. Em alguns casos, o jogo vem incompleto mesmo, na cara de pau, como foi o caso de No Man's Sky e Cyberpunk 2077, provavelmente porque as empresas prometeram que lançariam o jogo em um prazo impossível de ser cumprido pela equipe de desenvolvimento (clássico caso do conflito entre o departamento de Relações Públicas e o de Operações - um promete o impossível e o outro é que tem que executar) e provavelmente têm vergonha de voltar atrás em suas palavras. 


Esse meme já ronda a internet faz alguns anos... 


Muitas das empresas adotaram também as infames mecânicas de Lootbox (que você paga para ter acesso a determinadas coisas no jogo, geralmente meramente cosméticas, mas às vezes coisas importantes) e Pay-to-Win (em que você paga para ter acesso às melhores coisas de um jogo, que fazem a diferença entre ganhar e perder). Com essas mecânicas de microtransações é como se você, além de pagar para comprar o jogo, ainda tivesse que ficar pagando um "aluguel" para continuar jogando. 

Será que o mercado de jogos mudou a ponto de hoje em dia se as empresas de jogos não fizerem isso elas simplesmente não lucram? 

Ou será isto mais um movimento explicável pela teoria dos jogos - "se a minha empresa não fizer isso, a concorrente vai fazer, e vai lucrar mais do que a minha, e vai poder investir mais e se tornar ainda maior, roubar minha fatia do mercado, etc.,etc."?

Acho que hoje em dia as empresas como um todo (não só as de jogos), mesmo as que são gigantescos monopólios ou que fazem parte de oligopólios, estão mais covardes e centralizadoras. Parece que mais nenhuma quer se arriscar com um produto novo (por mais que tenham bilhões em caixa para bancar fracassos), então acabam apostando em formas de ganhar dinheiro rápido e tirar o time de campo logo em seguida.

No caso das empresas de jogos, uma estratégia comum tem sido anunciar algum jogo novo prometendo um monte de coisas para gerar muita hype, fazer uma pré-venda para aumentar a empolgação do mercado, lançar o jogo (mesmo inacabado e cheio de bugs) , arrecadar a grana da venda, e então abandonar o jogo, praticamente ignorando a repercussão negativa. E partir para o próximo lançamento (e os trouxas continuam comprando...). Antes o negócio era focar em fazer um jogo muito bom e colher os frutos no longo prazo, caso o jogo fizesse sucesso e tivesse o potencial de se tornar uma franquia.

Não deixa de ser uma estratégia semelhante a de muitos IPO de empresas que ocorreram nos últimos anos.

Outra coisa em que eu acho que as empresas de jogos pisam muito na bola é que elas desperdiçam o potencial criativo dos fãs. 

Há dezenas de mods e hacks muito bem feitos de diversos jogos clássicos. Para alguns deles já existem até softwares dedicados para mods (como é o caso do Lunar Magic, para fazer mods de Super Mario World, e Banjo's Backpack, para fazer mods de Banjo-Kazooie) o que facilita muito o trabalho. 

Os criadores destes mods e hacks, na minha opinião, merecem ganhar dinheiro por seu trabalho, mas infelizmente é perigoso até mesmo montar um site para divulgar uma carteira de BTC ou uma conta no pay pal para receber doações dos jogadores das mods, pois as empresas donas dos jogos podem processá-los. Alguns projetos muito bons, como esta bela versão em 2D de Zelda Ocarina of Time, são forçados a fechar por ameaças de processos, mesmo que não sejam monetizados e os criadores não estejam ganhando nada com isso. 

Na minha opinião, as empresas de jogos estão perdendo uma excelente oportunidade de lucrarem com a criatividade de seus fãs. Porque não montam um market place onde os mods e as hacks possam ser vendidos legalmente, ficando a empresa com uma parte dos royalties? Que custo isso teria? A meu ver, seria "dinheiro de graça" para elas, e uma oportunidade de desenvolvedores independentes ganharem um dinheiro e divulgarem seus talentos.


Será que é por vaidade que a Nintendo não cria um market place para os fãs venderem suas próprias mods?


Com tantos vacilos que as grandes desenvolvedoras têm dado, será que o futuro dos jogos está nos "indie games"? Aliás, aí está uma boa ideia para trabalhar como autônomo... Quem sabe?

O que acham do assunto, confrades? 

Jogam algum jogo? Têm birra com alguma empresa desenvolvedora?

Forte abraço! 

Fiquem com Deus!




sexta-feira, 4 de dezembro de 2020

O dinheiro na idade média

 Saudações,  confrades 

        Hoje vou escrever bem resumidamente sobre o uso do dinheiro na idade média, conforme descrito pelo historiador Jacques Le Goff, autor de A Idade Média e o Dinheiro (além de vários outros livros sobre a idade média - para quem gosta do assunto, recomendo!), livro que serviu de base para este post. Resolvi escrever este artigo a título de curiosidade, porque gosto do assunto (sou colecionador de moedas e aprecio a arte numismática), e também  porque pode servir para enriquecer um pouco a cultura de meus leitores.

   



    Como é um assunto longo e detalhado, ao invés de escrever o post na forma de um texto como normalmente faço, vou colocá-lo na forma de vários tópicos dos assuntos que julguei mais interessantes do livro:

- Durante boa parte da idade média, a riqueza era representada principalmente por terras. Demorou um pouco até que o uso de moedas ressurgisse (com a queda do império romano, as moedas  "sumiram" por causa do relativo caos social da época, e por algum tempo após seu "ressurgimento", as pessoas ainda usavam algumas das moedas romanas que haviam sobrado, porque os conhecimentos acerca de cunhagem de moedas não foram aprendidos pela vasta maioria das tribos bárbaras que destruíram o império romano). 

- Como a vida era fortemente rural, muitos camponeses podiam passar a vida inteira praticamente sem nem ver moedas, porque viviam pela lavoura, e até os impostos aos senhores feudais eram pagos em víveres. Uma pequena parte que era paga em dinheiro, e mesmo assim não era em todo lugar que isso ocorria.

- Naquela época as moedas eram usadas principalmente pelos comerciantes (por conta da necessidade de transportar riqueza de maneira portátil e cômoda - o escambo é inviável para o comércio em médias e  grandes distâncias) e pelos nobres (mas, como eu disse antes, a riqueza vinha principalmente da posse de terras, e também de imóveis). 

- O uso do dinheiro foi sendo impulsionado por causa do aumento das populações das cidades, porque nelas seria inconveniente pagar as despesas em víveres, tendo em vista que não havia espaço para todos plantarem.  Assim, os habitantes das cidades adquiriam comida, bens e serviços em troca de dinheiro assim como é hoje. Estima-se que cerca de 60 a 70% dos rendimentos dos habitantes da camada mais pobre das cidades eram gastos para comprar comida (principalmente grãos). Outro motivo para o aumento do uso do dinheiro foi o ressurgimento do comércio.

- a oferta monetária era bastante dependente do comércio, principalmente do comércio exterior - como o dinheiro era 100% físico e lastreado em metal precioso (moedas de ouro e de prata), quanto mais exportações para outros países, mais moedas entrariam na economia local. Essa lógica também valia para o comércio interno, de modo que a oferta monetária poderia ser bastante diferente entre duas cidades do mesmo reino, e creio que sua localização influenciava bastante nessa questão (cidades próximas ao mar ou a outros tipos de acesso a rotas comerciais tenderiam a ser mais ricas, por exemplo, porque teriam um comércio bem mais forte)



- além da oferta monetária, o crescimento do comércio também provocava aumento da demanda por moedas. Como o processo de fabricação de moedas era bem mais demorado que hoje em dia (cada moeda era cunhada individualmente, martelando-se uma chapa do metal que formaria a moeda entre 2 "carimbos", um para o verso e outro para o anverso da moeda, e havia vários trabalhadores envolvidos na produção: o moedeiro em si, o cortador de chapas, o cara que fazia as chapas, o fiscal da qualidade das peças produzidas, etc.),  também surgiu a necessidade de moedas de maior valor  (moedas de ouro ou de prata maiores, com mais metal, etc.) para que fosse conveniente carregar quantias maiores de riqueza na estrada e também para comprar bens mais caros (terras, casas, jóias) com menos moedas, para ser mais prático.

Era assim que as moedas eram feitas, uma por uma, marteladas entre 2 carimbos de bronze ou ferro e posteriormente de aço. Não existia uma "padronização"  das moedas da forma como entendemos hoje, então havia uma margem bem ampla de erros  tolerados na fabricação de moedas. É por isso que as moedas medievais que ainda existem são tão diferentes uma da outra, mesmo sendo do mesmo país e da mesma época. Esse processo de fabricação só era possível porque ouro, prata e cobre são metais bem macios.

- Como uma coisa puxa a outra, o aumento do uso do dinheiro fez surgir uma necessidade também crescente por moedas de baixo valor, que eram chamadas de "moedas de esmola", "meios- denários", "óbolos" (lembram da parábola d'O óbolo da viúva?) ou "moedas negras" (como eram feitas de cobre, logo ficavam escuras - o cobre oxida em contato com o ar atmosférico) e eram usadas para as pequenas despesas do dia-a-dia (o autor do livro menciona que uma moeda de cobre era o preço de 1 pão em muitas cidades na época) e também para literalmente dar esmolas (o rei São Luís, da França, foi um célebre distribuidor de parisis - o "denário da esmola")


um exemplar da moeda "Parisis" - o denário da esmola


- as moedas recebiam o selo da autoridade local. O selo era uma prova de que a moeda era verdadeira e que seu teor de metal precioso era o definido em lei, e por isso uma moeda teria um valor intrínseco superior ao valor do metal precioso nela contido (até porque a oficina moedeira tinha que ter lucro, e no caso do rei era daí que vinha a "senhoriagem", que era a diferença entre o valor de face da moeda e o valor do metal nela contido - esta diferença é até hoje uma das fontes de receita pública)

- Nem sempre o rei tinha o monopólio da emissão de moedas - às vezes essa autorização era vendida para oficinas particulares, ou era delegada a nobres, de modo que cada condado/ducado/feudo/cantão poderia ter sua própria moeda em algumas nações europeias - isso por um lado dificultava um pouco o comércio entre nações, por conta da variação cambial (provavelmente o câmbio devia ser 100% baseado no peso das moedas, mas o teor de metal precioso devia variar bastante entre as moedas de cada local, de modo que podia haver distorções caso o comerciante não conhecesse o da moeda que estivesse avaliando na hora. - talvez houvesse moedas que não eram bem aceitas em determinados locais, por exemplo)

- além das moedas, também eram usados como forma de pagamento  lingotes de metais preciosos (principalmente de prata).  Tais lingotes também recebiam selos de autoridades que atestavam seu teor de pureza. 

- Obviamente, falsificações já existiam, e além das moedas falsas, as pessoas encontravam outros jeitinhos de burlar a lei: cortavam ou limavam as bordas das moedas para ir juntando os pedaços e eventualmente derrete-los e usar o metal para fabricar outras moedas ou lingotes; ou juntar todas as moedas em um saquinho e ficar agitando o saco para que o atrito entre uma moeda e outra funcionasse como uma lima, acumulando o pozinho de ouro ou prata no fundo do saco até que valesse a pena derreter o pó acumulado e transformá-lo em um lingote ou em outra moeda. Essas malandragens explicam ao menos em parte o porquê da maioria  das moedas medievais  que sobreviveram até os dias de hoje estarem tão danificadas. Aliás, é por causa deste golpe de limar ou cortar as bordas das moedas que até hoje elas têm bordas serrilhadas ou com alguma marca, mesmo que não sejam mais de ouro ou prata.


A  título de curiosidade, a última moeda de prata que circulou no Brasil foi a de 5.000 réis, de 1936, que tinha o rosto de Santos Dumont no verso e uma asa aberta no anverso. Ou seja, historicamente falando, não faz tanto tempo assim que deixamos de usar moedas de verdade - moedas de metais preciosos.



E vocês, caros leitores, o que acham do assunto? Gostam de Numismática? Gostam de História? Eu gosto de estudar estes detalhes da vida cotidiana da humanidade de outros tempos. Ajuda a entender algumas coisas de hoje em dia, além de nos dar perspectiva do longo caminho percorrido para chegarmos até aqui. 

Se souberem de alguma outra curiosidade sobre o dinheiro na idade média, comentem aí! 

Forte abraço, fiquem com Deus!

quarta-feira, 21 de outubro de 2020

Os piores impostos que existem

 Saudações, confrades.

Hoje vou falar de um assunto que ninguém gosta, exceto, talvez, contadores, advogados tributaristas e autores de livros destas duas áreas: impostos.

Um típico brasileiro de classe média indo trabalhar

Não gosto de nenhum imposto, e acho que todos os que me lêem concordam comigo: todo imposto é ruim, na melhor das hipóteses seriam um "mal necessário", e acho que a alíquota máxima de qualquer tributo deveria ser 1%. 

Há alguns que, na minha opinião, são piores que os outros. Vou falar sobre eles neste artigo:

IPTU - na minha opinião o mais sujo e imoral dos impostos é o IPTU, porque seu fato gerador é a mera posse do imóvel, o que obriga o dono a pagar este tributo pelo resto da vida caso mantenha o imóvel em questão em seu patrimônio - ou seja, o IPTU funciona como um "imposto sobre ganhos não realizados", ou seja, um imposto sobre um lucro fictício, pois ele é reajustado conforme a reavaliação do imóvel - então se o imóvel valorizar (na avaliação da prefeitura) o IPTU vai aumentar e não necessariamente a renda do proprietário aumentou, então ele fica mais pobre. E a dívida de IPTU pode acarretar em suas últimas consequências  o despejo do dono do imóvel, o que é um absurdo, pois o Estado ganha um imóvel de graça e o dono pode acabar indo morar na rua (e se tornando, talvez, mais um a necessitar de assistência estatal, ou seja, o despejo tem o potencial de aumentar a despesa pública, então não é uma jogada inteligente - não é à toa que outras sanções e tentativas de renegociação e parcelamento da dívida são feitas antes do efetivo despejo, mas ainda assim acho que a hipótese de despejar o dono do imóvel não deveria nem existir...)

 Até dá pra forçar a barra e encarar o IPTU como sendo um "aluguel" de um pedacinho do país para não se sentir tão lesado, mas ainda assim acho bastante injusto. Na minha opinião, o IPTU deveria ter um prazo que nem o IPVA e deixar de ser cobrado de acordo com a idade do imóvel, por exemplo, e não "pela eternidade". 

No meu caso, eu junto um dinheiro a mais todo mês para quando chegar janeiro conseguir pagar o IPTU à vista e ter algum desconto (que poderia ser bem maior, convenhamos...).




ITCMD - imposto sobre transmissão causa mortis e doações,  o famigerado imposto sobre a herança.  O ITCMD tem efeitos perniciosos porque vilipendia o patrimônio que um pai de família construiu a vida inteira com muito esforço, sendo que durante toda a construção deste patrimônio ele já pagou inúmeros impostos, ou seja, o patrimônio herdado já foi em muito subtraído,  já é uma fração do que poderia ser. É, ao meu ver, um claro caso de Multi-tributação que os legisladores saíram pela tangente alegando que o fato gerador é a transmissão da herança.

A multi-tributação é tão descarada nesse imposto que no caso de um dos herdeiros receber a herança mas depois abrir mão de sua parte em favor dos demais, o ITCMD será  pago duas vezes: a primeira por ser uma herança,  e a segunda porque o fato do herdeiro ter dado sua parte em favor dos outros herdeiros caracteriza uma doação (se tiver algum advogado tributarista lendo isso, peço que me corrija se eu estiver errado!).

O limite para isenção de imposto para doações,  pelo que pesquisei, está em média na casa dos 55 mil reais, ou seja, se um pai der esse valor para seu filho, ele não precisará pagar o imposto, mas ainda assim precisará declarar que está doando o valor ao fisco de seu estado, por que ele precisa comprovar que o valor doado está dentro da faixa de isenção. Eu acho essa obrigação um absurdo, porque viola a privacidade da família, além de ser mais um tempo gasto indo a um cartório/repartição que poderia ser melhor aproveitado (se já tiver como fazer isso on-line, comentem aí). Este é mais um efeito pernicioso do ITCMD (aliás, é um efeito pernicioso de todo imposto: precisamos gastar nosso tempo calculando, declarando, enviando declarações, preenchendo papéis, etc.) 

Existe no direito tributário um princípio que veda a bitributação, mas ele é amplamente ignorado pelos legisladores,  que sempre encontram saídas retóricas para emplacarem bitributação e até mesmo multi-tributação, conforme vimos no exemplo acima (alegam que o fato gerador não é o mesmo, então metem outro tributo na cara de pau)

Existe também na nossa constituição uma regra (art. 150, inciso IV) que fala que os tributos não poderão ter caráter de confisco, ou seja,  não podem ser excessivos, mas o problema é que ninguém  até hoje definiu o que é "excessivo" e nem qual o limite entre "tributação normal" e "confisco" e por isso  hoje estamos aí com essa carga tributária  de 40%  em média. 

Eu digo que qualquer alíquota de imposto acima de 1% já é excessiva. 

Aliás,  esse problema de definir coisas, definir o significado de palavras, etc. é uma das principais dificuldades no direito e é fonte de muitas distorções e verdadeiras maldades cometidas por nossos legisladores, juízes e políticos em geral, e deveria ser o principal motivo para que as leis nunca divergissem tanto do direito natural - como é difícil definir significados exatos de algumas palavras (devido à natureza limitada do vocabulário humano), quanto mais leis tivermos em um país, de mais leis iremos precisar para tentar (acho que em vão) cobrir todas as zonas cinzentas de indeterminação etimológica.

Por quê não colocam um tributo só federal, outro estadual e outro municipal, todos com alíquota de 1%? O Brasil viraria um paraíso fiscal, atrairia todas as empresas do mundo para cá, geraria muito emprego e riqueza e a arrecadação estatal nas 3 esferas seria bem maior mesmo cobrando apenas 1%, dada a riqueza que seria gerada!

Quais suas opiniões sobre estes tributos? E sobre os impostos em geral? E sobre a nossa constituição?

Forte abraço! Fiquem com Deus!

quarta-feira, 15 de abril de 2020

Os pequenos comércios de bairro


Saudações, quarentenados e sobreviventes! Como estão passando? Espero que estejam todos conseguindo trabalhar e tirar seu sustento!

Escrevo agora a "continuação" do artigo anterior inspirado neste tweet:





(Esse cara às vezes diz umas coisas sensatas, é interessante ler de vez em quando, e também tem um canal no youtube sobre mecânica, que pode ser útil para quem estuver aprendendo ou pretende ser mecânico.)

Sou totalmente a favor da ideia de valorizar o comércio de bairro, valorizar o pequeno comerciante, e eu tento seguir esse pensamento o máximo possível, dando preferência a comprar algumas coisas em mercadinhos, lojas de rua, vendedores ambulantes, etc. ao invés de comprar em grandes redes. Acho que é importante para contribuir com a prosperidade de todos, porque quanto mais pequenos negócios, mais oferta e mais empregos (uma vez que as grandes empresas são muito mais sujeitas a enxugar pessoal, centralizar atividades e automatizar processos). E quanto mais empregos, mais renda, e por aí vai, num ciclo virtuoso. Por exemplo, eu procuro fazer pelo menos algumas compras em mercadinhos e comprar suprimentos de escritório em papelarias pequenas sempre que possível, dou preferência às pequenas farmácias, dentre outras coisas.
(Particularmente, eu evito ao máximo comprar coisas nas grandes empresas "lacradoras" e que tentam empurrar agendas globalistas, esquerdistas, etc. goela abaixo do povo. Infelizmente ainda não é possível evitá-las totalmente, porque nosso país ainda é dominado por oligopólios, mas quem sabe um dia...)
   
Mercadinhos de bairro: pequenos notáveis - Blog Comunidade Urbana

Por outro lado, realmente existe o problema do alto preço cobrado em alguns comércios pequenos.

Por quê eles às vezes cobram tão caro? Imagino que pelos seguintes motivos:

- Se forem muito pequenos, geralmente  não conseguem o desconto de compras em grandes lotes dados pelos fornecedores >> se a loja é pequena, provavelmente não tem espaço para guardar grandes estoques, então o comerciante é obrigado a comprar aos poucos, o que aumenta o custo unitário das mercadorias e também leva a gastos mais altos com fretes (como compra um pouco de cada vez, tem que comprar mais vezes, o que gera mais fretes) > pensando no exemplo dos supermercados: eles são capazes de sustentar seu negócio tendo um lucro de alguns poucos centavos (ou até de frações de centavos) por cada unidade vendida devido ao grande volume diário de vendas, capacidade que um mercadinho de bairro não dispõe por causa da menor capacidade de atender clientes e do menor espaço físico na loja.

- Não têm acesso aos mesmos fornecedores que as grandes lojas têm >> a capacidade de produção de um fornecedor não é infinita, então uma estratégia usada por grandes empresas para evitar ou dificultar o surgimento de concorrentes é comprar toda a produção de seus fornecedores, pelo menos a dos melhores fornecedores. Sendo assim, as empresas menores não têm acesso aos mesmos fornecedores que as grandes, tendo que comprar as produções dos menos eficientes e/ou de menor qualidade
Brumado: Farmácia Meira a melhor opção em seu Bairro na compra de ...


- Como têm uma projeção menor de clientes por dia, tentam garantir seu lucro com menos vendas, o que de certa forma os obriga a cobrar mais caro por cada produto;

- Devido à menor escala de atividades, as empresas pequenas têm menor poder de barganha em relação a fornecedores, o que empurra para cima seus custos (têm menos chance de conseguir descontos, ou de conseguir prazos maiores para quitar suas dívidas com fornecedores, ou são obrigadas a pagar tudo à vista, o que gera a necessidade de ter permanentemente muito dinheiro em caixa - este último caso vale principalmente para aqueles que se abastecem nas lojas maiores e não com fornecedores atacadistas)

Creio que o motivos acima ajudem a explicar a diferença de preços. Além disso, pagando mais caro em um mercadinho, por exemplo, você também está pagando pela conveniência de não pegar a fila de um supermercado, ou pelo menos é o que se costuma dizer, e geralmente é verdade, mas também há, infelizmente, pequenos comerciantes que alopram no preço, a meu ver desnecessariamente e até mesmo com preguiça de correr atrás de fornecedores melhores e mais baratos, ou até por pura ganância. Me pergunto se não valeria mais à pena cobrar mais barato para conseguir vender mais e girar mais o estoque... 

Infelizmente é normal acontecer o exemplo mencionado no tweet acima: no supermercado o preço é R$ 3,50 e no mercadinho é R$ 7,00... Como nunca fui dono de mercadinho, não posso saber se daria certo, mas se eu fosse dono, eu tentaria arranjar um fornecedor melhor que cobrasse mais barato em cada produto, enxugaria custos onde pudesse e caso eu realmente não conseguisse fornecedores "de verdade" e fosse obrigado a me abastecer nos supermercados grandes, eu não cobraria o dobro do preço, o meu ágio seria menor... 

Digamos, se no Extra a Heineken custa R$3,50, eu cobraria R$ 4,50 ou R$ 5,00 na unidade caso me abastecesse no Extra. E ainda basearia minha propaganda nas filas grandes do Extra e demais supermercados, colocaria cartazes e distribuiria panfletos com coisas como "Fuja das filas, compre aqui" e tentaria descobrir produtos e marcas que o Extra não vende e tentar oferecer na minha loja, além de atender muito bem cada cliente, coisa que empresas grandes têm dificuldade em fazer (e vários comércios pequenos falham também, conforme relatei no meu último artigo)... 

O que vocês acham dos mercadinhos e demais pequenos negócios de bairro? Comentem aí...

Que suspendam logo essa quarentena! 

Forte abraço, fiquem com Deus!  

sábado, 4 de abril de 2020

Os maus hábitos do comércio


Tem coisas que vejo acontecendo em lojas, restaurantes, lanchonetes, enfim, nos "comércios" em geral, que me fazem pensar: "porque raios este cara resolveu abrir uma loja se ele age dessa maneira??"
Antes, um aviso: eu sei bem que aquela famosa frase "o cliente sempre tem razão " é mentirosa, e que existem muitas demandas estúpidas de pessoas estúpidas que geram brigas desnecessárias e processos judiciais imbecis, mas há casos em que os comerciantes, seus funcionários  e autônomos em geral, realmente abusam da boa fé e da paciência dos clientes.
Vejam, meus leitores, se concordam comigo e se já passaram por situações semelhantes. 

Segue agora a lista dos maus hábitos do "comércio":


1) Ignorar totalmente o cliente quando ele entra na loja - esse acontece direto comigo: eu entro na loja ou vou pra frente de um balcão da lanchonete e o funcionário me ignora, fica mexendo no celular, ou fazendo tarefas burocráticas, contando dinheiro, etc. E fica assim, sem me atender, por um bom tempo. Tem vezes em que, quando ele finalmente se toca que havia um cliente esperando, eu vou embora, só de raiva.



Foto stock de Vendedor ruim tentando convencer a um (editar agora ...

2) incomodar demais o cliente - este é o extremo oposto do caso anterior: quando tem aquele batalhão de vendedores encostados perto da entrada da loja (acontece muito nas de eletrodomésticos) eu não tenho nem vontade de entrar e sequer de olhar pra dentro da loja, porque sinto que vou ser constrangido a comprar alguma coisa caso ouse entrar (o constrangimento para comprar eu vejo como sendo mais comum em lojas de roupa pequenas e médias, que não sejam de grandes cadeias). Acho que tem que haver um equilíbrio entre o vendedor relapso e desligado e o vendedor hiper-atencioso e irritante.


Vendedor irritante foto de stock. Imagem de casa, vendedor - 3369540

3) Achar que está fazendo um favor ao atender o cliente - essa eu vejo mais comum entre autônomos como pedreiros, encanadores, eletricistas, etc. Você pega o número de um deles por indicação de algum amigo que já usou o serviço, e quando liga, o cara te trata não como cliente, mas como alguém que está enchendo o saco, e parece que faz de tudo para não te atender e não prestar o serviço. Me lembro de um caso marcante em que tentei contratar um eletricista que  parecia um bandido falando pelo telefone: ao invés de agir como profissional e dizer coisas como  "eletricista João, boa tarde" ou "José serviços , bom dia", ele atendia dizendo "Alô!!!", de maneira bem agressiva, e respondia tudo de maneira ríspida.   Quando eu perguntava se era o eletricista fulano, ele ficava dando respostas evasivas e tive que perguntar mais duas vezes até ele responder diretamente que era ele mesmo... por que será?? Estava se escondendo de alguém? De um agiota? Do advogado da ex mulher? Obviamente não contratei. Há N outras situações, geralmente envolvendo balconistas mau humorados, vendedores que não têm paciência de explicar o produto, médicos que nem olham para o paciente, etc. 



4) Não respeitar a fila e atender àqueles que gritam mais alto - muito comum em lanchonetes onde você paga no caixa e vai pegar o produto em outro balcão, onde muitas vezes não tem fila, e vence quem grita mais alto. A falha deste modelo de negócios é: considerando que geralmente os salgados têm preços diferentes (normalmente tem os mais basicões como joelhos, folheados, etc. e os mais "elaborados" como hambúrguer de forno, que são mais caros), o que fazer quando o cliente paga pelo mais caro, porque na hora de pagar havia no balcão, mas perde no grito para outro cliente e justamente aquele salgado mais caro que ele pediu acaba, porque outros clientes passaram sua frente? Vai deixar o cliente esperando outra fornada? Vai devolver o dinheiro?



5) Fazer serviços de má vontade, principalmente os serviços mais simples - o maior exemplo que consigo pensar pra isso é um caso que aconteceu comigo: perto de onde moro há uma marcenaria, que faz móveis por encomenda e consertos em geral. Certa vez, improvisando uma prateleira para a minha casa, precisei serrar uma tábua em determinadas medidas e seria muito mais fácil usar uma serra circular de bancada, coisa que não tenho em casa (tenho serrote e serra de arco, que demorariam muito para fazer o serviço necessário) então levei na marcenaria para pedir que serrassem por lá. O marceneiro me atendeu com tanta má vontade que quase desisti, mas acabei fazendo, paguei os 5 reais que ele pediu e fui embora, e nunca mais voltei. Entendam: eu não pedi um favor para ele, eu estava disposto a pagar até mesmo 10 reais para ele simplesmente pegar a tábua e serrar na medida certa na serra de bancada, coisa que um marceneiro demora um minuto para fazer com uma serra de bancada, mas ele fez isso com tanta má  vontade que parecia até que eu tinha pedido para que ele que pagasse pelo serviço ou fizesse de graça. Outro exemplo são os taxistas que reclamam de corridas curtas - eu ficaria muito mas muito feliz, se fosse taxista e só pegasse corridas curtas, porque ganharia muito dinheiro com cada bandeirada. Dependendo da cidade, a bandeirada chega a R$5,00 ~ R$ 6,00, ou seja, com apenas duas bandeiradas eu já conseguiria pagar um almoço, o que está de bom tamanho, enquanto que corridas longas me deixariam preso a poucas bandeiradas por dia.



6) demorar uma eternidade para dar orçamentos - como que uma empresa não tem uma lista dos preços de seus produtos? Como que um marceneiro não tem noção nem do valor base que pode ser cobrado por um móvel "padrão" como uma mesa de 4 lugares? Tem empresas que eu sinceramente não sei como sobrevivem, pois parece que não sabem nem os custos diretos de suas atividades principais... 



7) não colocar preços nos produtos - não sei se é pra economizar com etiquetas e com o HH do funcionário que vai colocar os preços (economia pífia, a meu ver), ou se é pra tentar enganar o cliente, mas se for este o caso, é um golpe muito baixo. Vejo acontecer em lanchonetes, em alguns restaurantes, e muito em farmácias e supermercados. Tem mercados que ao invés de etiquetas nas prateleiras possuem leitores de códigos de barras, mas observo que geralmente estes leitores ficam meio escondidos e muitas vezes estão quebrados. Desconfio que seja de propósito...



8) Deixar a loja bagunçada - com produtos encaixotados bloqueando a passagem de clientes e bloqueando o acesso a outros produtos, e também deixar os produtos fora das prateleiras certas, dificultando encontrar o preço (quando tem, vide o item acima)... Tem uma loja famosa com ações listadas na bolsa que tem o péssimo hábito de deixar suas unidades bagunçadas, o que dificulta na hora de encontrar os produtos...

Six Design Mistakes to Avoid in Your Store

9) Loja grande com poucos caixas atendendo - esse acontece principalmente em supermercados, onde o dono manda instalar 30 caixas, mas geralmente deixa apenas 5 funcionando em dias normais, e em dias de pico (natal, páscoa, etc.) ele alivia para os clientes e abre 8... Sinceramente, eu não entendo porque os supermercados têm tantos caixas se nunca abrem todos, mesmo quando a fila já está batendo na outra parede... Fico imaginando quantos clientes são perdidos por dia, que simplesmente desistem quando vêem as filas imensas e preferem pagar mais caro nos mercadinhos de bairro... 
Promoção em rede de supermercados causa filas e tumulto na ...


Por enquanto são estas as coisas que me lembro como sendo as mais irritantes quando vou a uma loja ou contratar um serviço... Caso algum leitor lembre de mais alguma, deixe nos comentários. Caso haja algum leitor que seja dono de loja ou pense em ter uma loja algum dia, não leve as críticas para o lado pessoal: não escrevi este texto para esculachar os lojistas, autônomos e comerciantes em geral, mas sim para apontar falhas que observo corriqueiramente e que, caso corrigidas, tornarão o atendimento ao cliente muito melhor e fatalmente aumentarão o faturamento do seu negócio. 

Forte abraço, fiquem com Deus! 

segunda-feira, 23 de março de 2020

Lições da Crise

Saudações confrades,

Que situação estamos vivendo, não é mesmo? 
Um termo antes meio restrito ao mundo das finanças e da estatística, "cisne negro", começa a se popularizar, e vejo pessoas diante da pandemia se polarizando entre os histéricos e os totalmente indiferentes. Como sempre, o ideal está no equilíbrio: não podemos ficar apavorados e agir como se o mundo fosse acabar, mas também não podemos ignorar o bom senso e as precauções recomendadas pelas autoridades sanitárias. Temos que continuar vivendo tão normalmente quanto a situação permitir, continuar trabalhando, estudando, cuidando da saúde, fazendo exercícios como pudermos, e seguir as recomendações de higiene, distanciamento social, evitar aglomerações, sair de casa o mínimo possível, não expor parentes idosos, etc.

Deus permite que as crises aconteçam para ajudar a humanidade a desenvolver sua inteligência, bem como para estimular a  prática da caridade, da humildade, para exercitar e testar a fé das pessoas, dentre outras coisas. 

Sendo assim, temos que extrair desta crise as lições necessárias para sairmos mais fortes, mais capazes, mais preparados, e evoluirmos, em diversos aspectos da vida. 

Agora, falando apenas do lado profissional / financeiro / econômico, que é o assunto deste blog, julgo que as lições a serem aprendidas pelas pessoas com os acontecimentos atuais são as seguintes:

1 - a importância da reserva de emergência com liquidez diária,  >> creio que os autônomos que, devido à natureza de suas atividades, não possam prestar serviços on-line, são dos que mais vão sentir com a falta de clientes e a consequente falta de renda. Além deles, tenho certeza que há muitos empregados sendo mandados embora ou que ainda serão por causa da queda do consumo. Sendo assim, aqueles que tiverem conseguido constituir uma boa reserva de emergência serão capazes de atravessar este período com mais tranquilidade. Mas em épocas assim, uma vez que a economia está toda interligada, todos terão que se virar de uma forma ou de outra, uns mais e outros menos;

2 - a importância da frugalidade >> aqui valem dois raciocínios: como os supermercados e demais serviços considerados essenciais não estão parando de funcionar, não é necessário encher o carrinho de compras para se preparar pro apocalipse, então devemos pegar apenas o necessário, como em épocas normais, para evitar pressões desnecessárias nas cadeias de suprimentos e evitar que produtos essenciais faltem nas prateleiras, o que poderia desencadear uma onda de pânico e histeria que provocaria problemas ainda mais sérios.  Principalmente para aqueles que estão com pouca ou nenhuma renda (os autônomos que não podem trabalhar remotamente, acima citados), ser frugal nesta época é importante para prolongar a duração das reservas financeiras constituídas, e para quem está recebendo salário normalmente, também é bom ser frugal nestas épocas de exceção para reforçar as reservas (ou iniciá-las, com urgência) e também para sermos capazes de ajudar aqueles que estiverem necessitados (os desempregados, os moradores de rua, etc);

3 - a importância de ter mais de uma fonte de renda >> eu acho que isso se tornará cada vez mais necessário, mesmo em épocas normais no futuro, e em situações de crise em que vários empregados são dispensados, empresas fecham, etc. ter outras fontes de renda se torna fundamental. Claro que é impossível ter segurança total (por exemplo, você pode ser mandado embora do emprego e seu pequeno negócio pode falir, nada realmente impede que isso aconteça), mas isso não tira a importância de diminuir seus riscos profissionais. Acho importante também que se tenha pelo menos duas fontes de renda provenientes de trabalho, porque se ficarmos "apenas" com o binômio "salário do emprego + dividendos / aluguéis de FII", embora já estejamos muito melhores do que a vasta maioria da população brasileira (quiçá do mundo), ainda assim não estaremos tão seguros, porque em grandes crises econômicas as empresas simplesmente pararão de pagar dividendos, e os FIIs podem acabar não distribuindo aluguéis (por vacância ou inadimplência dos inquilinos, que também são consequências de crises econômicas, ou [acho] por decisão do gestor, que poderia optar por constituir reservas com os aluguéis ao invés de repassá-los aos cotistas >> me corrijam se eu estiver errado e um gestor de FII não puder fazer isso, eu ainda não invisto em FII, então não estudei isso a fundo). Devemos tentar ser úteis à sociedade de várias maneiras, não só para manter nossa empregabilidade, mas também para ajudar os outros. Podemos chamar isto de "reserva de habilidades e competências", e falei sobre o assunto neste outro artigo.

4- a importância de manter os custos fixos baixos, mas mantendo o bom senso >> devemos buscar a melhor relação custo benefício: não acho muito inteligente pagar um aluguel baixíssimo morando a horas de distância do trabalho ou de comércio e serviços essenciais. De qualquer maneira, ter baixos custos fixos de vida potencializa a capacidade de aporte e constituição de patrimônio e faz muita diferença em momentos como este que vivemos. Custos fixos baixos nos permitem suportar melhor eventuais diminuições em nossas rendas, seja por perda de clientes, diminuição de comissões, não distribuição de lucros, etc. 

E o que as empresas e organizações em geral, públicas e privadas, podem tirar de aprendizado nesta crise? Julgo que sejam estas:

1 - Muitas funções hoje em dia podem ser feitas via home office, o que diminui custos (transporte de funcionários, materiais de escritório, luz, água, etc.) e permite alocações mais eficientes de recursos, o que permite diminuir preços e/ou produzir mais, o que é bom para todos. A cultura presencialista do Brasil até hoje tem inibido bastante a proliferação do trabalho remoto. O COVID-19 está forçando as organizações a adotarem esta prática na marra, e isso pode se manter depois da crise - espero que sim; e

2 - É importante ter um planejamento de crise: muitas organizações foram pegas de surpresa pela pandemia - claro que não é algo que se possa prever com facilidade, mas é incrível como muitas empresas, prefeituras, governos de estado, etc. demonstraram não ter planos de contingência e tiveram que se virar do dia para a noite para  se organizar e continuar funcionando, mesmo algumas coisas essenciais que não poderiam nunca parar. Espero que depois dessa todo lugar mantenha um plano "B" de operações. Acho que no mínimo um planejamento de revezar turnos e escalas de trabalho em situações emergenciais todo lugar deveria ter, seja público ou privado, nem que esteja "escrito num papel de pão"

Desejo boa sorte a meus leitores e a todos da finansfera! Que atravessemos esta época de dificuldades com fé e esperança no futuro. Como já escrevi aqui antes, é importante nos prepararmos para o inverno, porque ele sempre vem, isto nos é ensinado desde os tempos bíblicos e também pelo sábio Esopo. Mas o inverno também passa.
Acredito que nenhuma geração viveu neste mundo sem experimentar algum tipo de crise. Creio que por conta da natureza do mundo e dos desígnios de Deus, que quer sempre que a humanidade cresça e evolua, as crises são inevitáveis, fazem parte da vida.

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Forte Abraço!