terça-feira, 7 de maio de 2019

Trabalhar não é ruim - o ruim é o emprego

Boa noite, amigos.

Semana passada foi bem dura para mim, tanto que não tive saco para escrever no domingo, como tenho feito desde que comecei o blog. Usei o final de semana para realmente descansar, tanto física quanto mentalmente.

Tive a ideia desse post (um misto de desabafo com constatação da realidade) enquanto assistia a um episódio de uma série ("Chicago Med" - uma série meio legalzinha, mas que claramente segue uma agenda esquerdosa, assim como todas as produzidas pelo Dick Wolf) que assisto de vez em quando (na verdade, nem gosto de séries, mas praticamente só tem isso para ver aos domingos, então vejo mais para me distrair mesmo). No episódio em questão, um médico é forçado a sair no meio de uma cirurgia porque recebe uma ligação de um suposto bandido, dizendo que sequestrou sua noiva e queria o resgate (na verdade era um golpe), e deixa a operação nas mãos da médica assistente. Acontece que o paciente em questão era algum ricaço (paciente VIP), e assim que uma secretária / peguete / sei lá o quê dele (não vi o episódio todo) fica sabendo do abandono do médico, ela vai, ameaçadora, conversar com a diretora do hospital, dizendo que se a cirurgia não fosse perfeita, ela garantiria que, além de levar um processo, o tal médico ainda perderia o emprego, e disse também que daria um jeito de a diretora do hospital também ser demitida.

Não vou discutir aqui se o médico agiu certo ou errado. O meu ponto é o seguinte: o emprego de uma pessoa é frequentemente usado como recurso para ameaças. Já vi isso em muitos filmes (uma frase relativamente comum é a clássica "você nunca mais vai trabalhar nessa cidade!!!") e já vi e ouvi falar de coisas pavorosas na vida real. Se pararmos para pensar, nossos empregos são também, de certa forma, fontes de fraquezas e vulnerabilidades, principalmente quando dependemos deles. Conforme diversos nomes da blogosfera das finanças já escreveram (especialmente o "falecido" Pobretão), nos ambientes de trabalho há muitas ameaças, explícitas e implícitas, e vivemos com a sensação de estarmos constantemente na corda bamba, à sombra da demissão, que pode chegar literalmente a qualquer momento. E quanto mais alto você "sobe" na carreira (se tiver uma), mais vulnerável você está, uma vez que o custo de perder o emprego se torna cada vez maior, bem como a recolocação no mercado se torna mais difícil
Praticamente não importa o quanto ou o quão bem trabalhemos, ou o quanto sejamos competentes e bons no que fazemos, é quase inevitável que eventualmente escutemos frases como essas abaixo:

- "Sou eu que coloco comida na sua mesa"
- "Sou eu que pago a escola do seu filho"
- "A porta da rua é serventia da casa"
- "Não gostou, pede demissão" (essa eu já perdi a conta de quantas vezes já ouvi!)
- "Não quer vestir a camisa não???"
- "Já vai sair?"
- "Não quer vir no sábado? Tem um monte de gente lá fora querendo" e etc.

Isso tudo é triste, porém real. Gostaria que fosse diferente e que os ambientes de trabalho fossem mais harmônicos, com menos pressão, menos puxadas de tapete, e mais amizade, mais respeito, mais consideração pelo próximo, etc. mas a realidade não é assim. O mercado, mesmo um  extremamente oligopolizado como o brasileiro, é altamente competitivo, então a pressão e o estresse são quase inevitáveis. Somando tais ambientes de estresse e pressão com o que falei no meu post sobre a escolaridade no Brasil, além da dificuldade de se abrir empresas (e mantê-las), e o alto custo dos direitos trabalhistas, o resultado só poderia ser esse: empregos mais escassos e frágeis. Além disso, como a CLT faz cada empregado custar caro, as empresas tentam compensar isso empurrando-lhes mais trabalho e obrigando-os a ficarem mais horas. Se o número de tarefas aumenta, a pressão para dar conta aumenta, e o risco de errar sobe também.

No lado do gerente/supervisor/diretor as coisas também não são fáceis. Conforme o exemplo do hospital, acima, é normal o chefe levar a culpa por erros dos subordinados e, dependendo da gravidade do erro, ser punido junto, como se ele tivesse tempo e capacidade de controlar/orientar todos os atos de todos os subordinados o tempo todo. Além disso, estar num cargo intermediário (meu caso) é como estar entre a bigorna e o martelo: ouvir todo dia reclamações dos dois lados, receber as metas insanas dos chefes e repassá-las para o setor, implantar processos/sistemas novos, fazer relatórios por whatsapp, reuniões intermináveis (e muitas vezes inúteis), etc. Ou seja, muita pressão, muito risco de errar e muito estresse.

Outra coisa ruim dos empregos é que, uma vez neles,  parece que sua família sente medo por você: caso nunca tenha feito isso, tente, uma vezinha só, comentar num almoço de domingo, por exemplo, que você não está gostando do emprego e cogita procurar outro e pedir demissão. Em 99% das vezes sua família vai te "agourar", dizendo que você não pode fazer isso, porque as coisas estão difíceis (e quando não estiveram??) e que você tem que pensar muito bem, repensar mil vezes sua decisão, tentar tirar umas férias para esfriar a cabeça, etc. etc., como se fosse certo que o novo emprego dará errado, e você será demitido no primeiro mês e acabará morando debaixo de uma ponte.  Já tive várias conversas assim...

Em suma, todas essas coisas desagradáveis que escrevi acima reforçam o que eu disse no meu post de 19 de abril (https://magoeconomista.blogspot.com/2019/04/as-coisas-nao-estao-faceis-algumas.html): devemos, hoje mais do que nunca, diversificar nossas fontes de renda. Isso nos dará mais tranquilidade e confiança no dia a dia, pois o medo de ser demitido e "ir morar debaixo da ponte" diminui, afinal ainda teremos outro(s) lugar(es) onde ganhar dinheiro, e com isso a pressão sentida no emprego diminui também e, acredito, paradoxalmente (?), passamos a trabalhar melhor.
Sei que nem todos têm pendor (ou vontade) para isso, mas acredito que todos deveriam, pelo menos uma vez na vida, tentar empreender, criar um negócio "do nada" e ver no que dá. Eu não sei se tenho pendor, mas tenho vontade, e um dia criarei o meu. Estou trabalhando nisso. Se der certo, no mínimo, me ajudará na diversificação das fontes de renda e pode ser que, eventualmente, me ajude a sair do emprego, e me permita apenas trabalhar.

Trabalhar não é ruim. Não imagino (e não desejo) uma vida sem trabalho, pois é através do trabalho que realmente nos desenvolvemos física, intelectual e moralmente. Uma vida de ócio seria uma vida jogada fora, uma oportunidade perdida.
Ruim é emprego, CLT, chefes, formalidades desnecessárias, dress code, reuniões, horários, metas absurdas, confraternizações forçadas após o expediente, horas extras forçadas e não pagas em dinheiro, etc.

Forte abraço!

Microeconomia - alocações eficientes e a questão do "Preço Sombra"


      Este é o tal "post mais técnico" que prometi há algumas semanas. Sei que nem todos vão se interessar, e é um assunto que os estudantes de economia vêem mais no mestrado ou doutorado, mas gosto de escrever sobre essas coisas. De vez em quando vou tentar escrever de forma resumida em meu blog minhas leituras nestes assuntos acadêmicos. Relembro a todos os meus leitores que não sou um economista formado, mas gosto de estudar sozinho a respeito . Tenho plena consciência de que várias coisas que são escritas nas áreas de economia e finanças são, pelo menos superficialmente, de pouca ou nenhuma utilidade prática no "mundo real", principalmente para nós, meros mortais. Entretanto, nem por isso é certo pensar que tais assuntos são perda de tempo. Muito pelo contrário. Não sabemos as implicações futuras de muitas das coisas que estudamos; poucos são aqueles que sequer conseguem sonhar com as tecnologias que existirão no futuro, e muitos menos fazem ideia dos conhecimentos que, hoje aparentemente inócuos, serão um dia necessários e "triviais".  Dito isto, vou conduzir os mais leigos no assunto, explicando alguns termos fundamentais para a compreensão do texto.

     "Utilidade" é um conceito criado por economistas para denominar o grau de "o quão bom" o consumo de determinado conjunto de bens é percebido pelo consumidor. Quanto mais "satisfeito" ele fica, maior é a "utilidade" desse conjunto (normalmente o conjunto de bens é denominado "Cesta", nos livros-texto de economia). Também pode ser dito "satisfação",  no lugar de "utilidade". Pode-se dizer que a "utilidade" é uma tentativa de quantificar a felicidade de um consumidor.

     "Agente" ou "agente econômico" é como os economistas chamam as pessoas e entidades que influenciam a economia: consumidores, empresas, governos, etc.

      Uma alocação eficiente no sentido de Pareto (também dita "Pareto-eficiente") é aquela em que um agente terá sua utilidade maximizada, dada a utilidade de outro agente (ou seja, é aquela situação em que não tem como a situação de A melhorar sem acabar piorando a de B, porque os recursos já estão alocados da melhor maneira possível entre os dois agentes - ou seja, a utilidade de A está em seu maior valor possível, dada a utilidade de B - presumida fixa para fins de abstração - o que significa que pressupõe-se que a quantidade de bens não irá aumentar).

      Dentro da Teoria dos Preços,  há um fenômeno chamado "Preço Sombra" (Shadow price), que influencia a formação dos preços. É uma daquelas ideias econômicas que geralmente não se encontra nos livros-texto de economia, estando mais restritas às dissertações de mestrado e teses de doutorado, além é claro dos livros dos autores realmente consagrados no assunto (aqueles que, digamos, criam novos conhecimentos, como Friedman, Walras, Sargent, etc.), e não os daqueles que "só" escrevem para a academia (que replicam e transmitem as ideias).
      Achei interessante a ideia do Preço-Sombra, e foi por isso que resolvi escrever sobre ela, de forma bem resumida. Para entender melhor, imaginem que há uma pequena fábrica de carros de luxo, que só produz poucos carros por ano, e normalmente sob encomenda. Imaginem que ela só produz 100 carros por ano, não por uma razão de exclusividade, mas sim por uma questão de limitação da produção: ele só tem capacidade para produzir até 100 unidades por ano. Quem compra esses carros exclusivos? Segundo a teoria, apenas os 100 consumidores que estivessem dispostos a oferecer os 100 maiores preços pelos carros é que os levariam: por exemplo, o cliente que mais quer o carro estaria disposto a pagar 100 mil, o segundo a pagar 99 mil e quinhentos, e assim por diante, até o último cliente, o centésimo, que estaria disposto a pagar, por exemplo, até 70 mil pelo carro. O "centésimo primeiro cliente", ou seja, o primeiro a ficar de fora da compra (chamado na teoria de "consumidor supramarginal"), estaria disposto a pagar até 69 mil por um carro daquela fábrica. O consumidor que comprou o último carro (o 100º), é chamado pela teoria de "consumidor marginal". O preço de equilíbrio do mercado será algo entre 70 mil e 69 mil. Notem que foi o consumidor supramarginal (relembrando, o 101º) quem definiu o preço mínimo a partir do qual o preço de equilíbrio do mercado será definido entre o empresário e o 100º consumidor, pois para comprar um carro (e participar deste mercado) seria necessário oferecer um preço maior do que aquele que o consumidor supramarginal está disposto a oferecer.
Para fabricar o tal 101º carro, a fábrica incorreria num custo, digamos, de 30 mil reais. O preço sombra (no caso, o preço sombra da capacidade da fábrica) é a diferença entre o valor que o consumidor supramarginal está disposto a pagar e o custo para fabricar este item a mais. No caso do exemplo, o preço sombra é 39 mil reais. Ele também representa o custo de oportunidade da empresa (o quanto ela deixou de ganhar por não ser capaz de produzir um carro a mais)
     Temos que levar em conta o seguinte: para que valha a pena produzir o 101º carro, no exemplo dado, o custo de aumentar a capacidade de produção instalada deverá ser inferior ao preço sombra (no caso, 39 mil), para que a empresa continue lucrando. Se for superior, não valerá a pena aumentar a capacidade produtiva da fábrica, a qual continuará sendo capaz de produzir apenas 100 carros.
    Que conclusões os economistas tiraram deste raciocínio?
1) O preço de equilíbrio (que é o preço de mercado) depende do consumidor supramarginal (o primeiro que não consegue consumir), pois ele definirá o piso a partir do qual o preço de equilíbrio será negociado;
2) O preço sombra é o custo de oportunidade da empresa por não ter uma capacidade produtiva maior;
3) Como é o preço que o consumidor supramarginal que determina o preço-sombra, e o preço-sombra determinará o custo máximo que o produtor arcará para expandir sua capacidade produtiva, vemos que é o preço que determina o custo da expansão, e não o contrário (ou seja, não é o custo de expansão da fábrica que determinará o preço, ao menos em teoria: o empresário tentará planejar a expansão da capacidade produtiva com base no que ele considera que seja o preço sombra).

Há várias nuances nesse assunto, e alguma álgebra em alguns pontos, mas, grosso modo, preço-sombra é isso. O assunto é árido, mas acho interessante.

domingo, 28 de abril de 2019

Escolaridade no Brasil - a cultura do "filho doutor", achatamento dos salários, e outros problemas

Saudações, caros leitores

Espero que tenham tido uma boa Páscoa! A propósito, esqueci de dizer no meu post anterior, mas muito obrigado pelas mais de 1.000 visualizações no blog! No momento em que escrevo estas linhas, já passou das 1.500, e o post anterior foi o mais visualizado até agora, conforme as estatísticas do blogger! Tudo isso me dá motivação para continuar escrevendo e estudando mais. Aliás, todos devemos estudar mais e tentar evoluir sempre.

(ainda estou devendo aquele "post mais técnico" que disse que estava escrevendo no meu texto sobre a oficina mecânica onde trabalhei...)

Dito isto, vamos ao post de hoje:

Nos maravilhosos dias do feriadão da Semana Santa, estive conversando com um parente que está naquela fase de cursinho pré-vestibular. Perguntei,  por alto, para quais cursos o pessoal da turma dele queria prestar o vestibular. Como era de se esperar, a maioria queria medicina e em segundo lugar, direito (pelo visto essa turma não chegou a conhecer o Pobretão). Fiquei surpreso com o fato de ninguém da turma dele querer engenharia, além de haver alguns casos isolados de alunos querendo cursos muito específicos (alguns que eu nem sabia que existia faculdade, como "pintura", "dança", etc.) e outros que só vejo caminho profissional no mundo dos concursos públicos (que estão cada vez mais raros e mais difíceis de passar). Além disso, ninguém queria administração ou ciências contábeis, o que também é, de certa forma, surpreendente, visto que são dois cursos "clássicos".
A impressão que a conversa me causou é que as pessoas continuam saindo da escola sem realmente saber o que querem fazer da vida, o que, aliás, não me surpreendeu. Não acredito, por exemplo, que todos os que querem fazer o vestibular de medicina realmente tenham vocação para ser médico. Acredito que muitos tenham escolhido medicina pelo status, pelo salário e alguns só porque "é o que se espera". Direito continua sendo bem procurado, mesmo com a relativa escassez de concursos públicos. Será que todos irão trabalhar em escritórios de advocacia? Será que a maioria vai virar autônoma e conseguir criar "do zero" suas carreiras? E quanto ao pessoal dos cursos mais específicos? Onde será que trabalharão? Eu penso o seguinte: se as pessoas que vão para estes cursos muito específicos (principalmente os das áreas mais artísticas) o fazem pensando em arranjar empregos, provavelmente irão se decepcionar, pois não há muitos empregos para pintores (no sentido artístico do termo) ou para dançarinos - o que não quer dizer que não haja trabalho. Acho que se tais pessoas entraram nestes cursos pensando em atuar como autônomos ou empreender de alguma forma nestas áreas, então pode ser que tenham mais chances, mas não acredito que aprendam na faculdade aquilo que é necessário para empreender, visto que provavelmente seus futuros professores não são empreendedores.

Outras perguntas que essa conversa me trouxe: quantas vagas existem para estes cursos? Será que todos os anos todas são preenchidas?
A principal pergunta: realmente vale a pena que tais cursos sejam de nível superior e sigam o modelo padrão de bacharelado, ou seja, 8 semestres, com TCC no final e uma porção de matérias que só existem por exigência do MEC?

Eu acredito que, ao longo de décadas, foi vendida no Brasil a ilusão de que "todos precisam ter ensino superior". Uma explicação para isso, creio, é que antigamente, no tempo de nossos avós:
   
     1) Quase todo mundo era analfabeto ou só tinha o curso primário (hoje, 7,2% dos brasileiros são analfabetos, conforme o IBGE, mas a realidade é pior, pois a pesquisa não considera os analfabetos funcionais);
      2) Quase todo mundo era muito pobre (mas por outro lado, conseguiam criar um monte de filho, juntar um dinheirinho e ainda acabavam comprando terrenos e construindo casas)
      3) A grande maioria vivia de trabalhos braçais ou empregos do tipo vendedor, caixa de mercado, entregador, etc. (para se ter uma ideia, ser caixa de banco já foi considerado um emprego "top dos tops", de alto status e prestígio social)

Em parte por causa das condições listadas acima, o sonho de nossos avós era que seus filhos fossem "doutores", ou seja, que fizessem faculdade (desde aquela época a preferência era a tríade Medicina-Direito-Engenharia) e trabalhassem "de terno e gravata" para não sofrerem as agruras e desconfortos dos trabalhos braçais e ajudarem a família a escapar da pobreza (hoje em dia, os trabalhadores de escritório sofrem tanto quanto ou mais do que os braçais, só que de maneira diferente)
Desde aquela época, o número de faculdades aumentou, bem como a variedade de cursos superiores (alguns pela especialização dos conhecimentos, como é o caso da biologia e das engenharias, que são bem ramificadas; mas houve outros cursos superiores que, me parece, foram simplesmente "inventados", não sei com que objetivo, além de cursos técnicos que, por alguma razão, foram "elevados" à alçada de curso superior).

O que o IBGE tem a nos dizer a respeito dos resultados das políticas públicas de educação (e quais são as possíveis falhas destas informações)? 
     
         1) Surpreendentemente, apenas 15% dos brasileiros têm nível superior completo (https://www.jornalopcao.com.br/ultimas-noticias/apenas-15-dos-brasileiros-tem-ensino-superior-completo-mostra-ibge-113091/), o que daria uns 30 milhões de diplomas, altamente concentrados nas capitais - e ainda temos que considerar os efeitos perniciosos da proliferação de "uniesquinas", bem como a má qualidade de várias das faculdades públicas (senão de todas);
          2) Cerca de 26% têm ensino médio completo (https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-sala-de-imprensa/2013-agencia-de-noticias/releases/18992-pnad-continua-2016-51-da-populacao-com-25-anos-ou-mais-do-brasil-possuiam-apenas-o-ensino-fundamental-completo), o que daria por volta de 52 milhões de pessoas - novamente, temos que considerar que isto é apenas um dado numérico que não atesta a qualidade do ensino médio das pessoas.
          3) Cerca de 51% dos adultos têm ensino fundamental (https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-sala-de-imprensa/2013-agencia-de-noticias/releases/18992-pnad-continua-2016-51-da-populacao-com-25-anos-ou-mais-do-brasil-possuiam-apenas-o-ensino-fundamental-completo) - apenas um dado numérico, que no fundo não quer dizer muita coisa, pois de que adianta ter o fundamental completo se a pessoa for analfabeta funcional ou ter dificuldades até para somar e subtrair? A pesquisa não reflete isso
     

Dito isto, vamos ver que hoje a situação dos brasileiros não mudou muito:
   
       1) A maioria da população sabe ler e escrever, mas muitos não sabem interpretar o que estão lendo ou escrevendo (esta é a definição de analfabetismo funcional, para quem não sabe, e isso nunca está refletido nas pesquisas sobre analfabetismo)
       2) A maioria ainda é pobre (com padrão de vida mais "confortável" [questionável!] do que o de antigamente, no geral, mas por outro lado, muitos não conseguem mais comprar terrenos e construir casas)
       3) A grande maioria ainda trabalha em empregos do tipo caixa de mercado, vendedor, entregador, motorista, etc. e quase não há vagas que exijam mais competências técnicas e intelectuais.

Acredito que uma das explicações para o número 3, acima, seja a seguinte: como a economia brasileira nunca experimentou um verdadeiro boom de surgimento de empresas, principalmente nas áreas de  uso intensivo de capital e empresas de tecnologia (afinal, até hoje só temos praticamente "1 companhia de petróleo, 1 mineradora, 5 bancos, 6 empreiteiras e 200 milhões de patos"), acontece que a maioria dos empregos é gerada por empresas pequenas, o que faz com que a maioria deles seja de baixa capacitação: não é necessário nenhum curso para ser vendedor, caixa, estoquista, repositor de produtos, recepcionista, atendente, etc. O problema é que a cultura do "doutor" criou na cabeça das pessoas (e, consequentemente, na dos políticos) de que é imprescindível ter nível superior e que fazer faculdade é um "direito sagrado" de cada cidadão. O governo (notoriamente os de esquerda), faminto por capital político, atende a este anseio da população por direitos, e autorizou através do ministério da educação a criação de diversos cursos superiores e abertura de várias faculdades públicas, sem realmente planejar esse processo.
     
   Um resultado disso é que todo ano se forma uma quantidade de profissionais de nível superior maior do que o mercado pode absorver, em diversas áreas. Mesmo que o percentual de brasileiros com nível superior pareça ser baixo (15%), o fato de existirem poucos empregos que realmente exijam mais conhecimentos e qualificação contribui para o achatamento dos salários para profissionais deste nível. Ou seja, a oferta de mão de obra qualificada (número de formandos) na maioria das áreas é superior à demanda (vagas de empregos para pessoas qualificadas). Sabendo que há um "exército" de profissionais sendo formados todos os anos, as empresas são incentivadas a pagar o menor valor possível - afinal, se o profissional estiver insatisfeito com o salário, ele que vá embora, pois há mais de mil querendo aquela mesma vaga, e muitos até aceitariam ganhar menos. Essa é uma das razões para os salários no Brasil serem, na média, bem baixos. Acho que este é bem o caso dos advogados: muitos se formando todos os anos, e poucos escritórios para absorver essa mão de obra abundante.

Uma explicação possível para o item 2, acima, reside no fato de que, como eu disse antes, a maioria dos empregos gerados no país não requer muita formação profissional, acadêmica, técnica, etc. Quando as exigências são baixas, o número de pessoas capazes de desempenhar as tarefas da vaga aumenta muito, ou seja, a oferta de mão de obra é ainda maior, superando em muito a demanda. Novamente, o empresário sabe que para cada funcionário reclamando do salário, tem uns 100 mil disponíveis no mercado que aceitariam trabalhar até por menos, o que faz com que muitos destes empregos paguem apenas o salário mínimo. O resultado disso é muita pobreza.

Uma outra razão para os salários baixos e a pobreza são os direitos trabalhistas: cada empregado custa cerca de duas vezes o próprio salário para seu empregador >> o que, grosso modo, significa que ele poderia ganhar "o dobro" ou que a empresa poderia contratar mais um para dividir o trabalho, caso tais direitos não existissem. Não acho que todos os direitos trabalhistas sejam um mal, apenas acho que alguns deles precisam ser revistos, mas esta é uma questão complexa demais para que a solução seja  do tipo "é só cortar os direitos" ou "é só criar mais direitos, proibir isso e aquilo"

Se a realidade aqui fosse diferente e, por exemplo, tivéssemos mais empresas de uso intensivo de capital (por exemplo, mais montadoras de carros, mais siderúrgicas, metalúrgicas, fundições, petroquímicas, fábricas em geral) ou de alta tecnologia (por exemplo, se tivesse surgido no Brasil alguma empresa parecida com a IBM, Apple, etc.), acredito que teríamos, sim, muito mais vagas para engenheiros de diversas áreas, para profissionais de TI, químicos, etc. E quanto mais avançadas fossem as máquinas usadas na produção, e quanto mais houvesse empresas grandes e ricas o suficiente para possuir verdadeiros departamentos de Pesquisa e Desenvolvimento (P&D), maior qualificação seria exigida do profissional, de modo que não seria tão fácil para a empresa encontrar um substituto, o que empurraria para cima os salários desse pessoal qualificado.

Outra coisa preocupante dessa mentalidade brasileira de "preciso ter curso superior" é que muitos dos que não conseguem passar para suas áreas de interesse no vestibular vão para a segunda, terceira ou quarta opção, mesmo que esta não tenha nada a ver com a primeira, só porque "têm que ir pra faculdade", pois "é o que a sociedade espera", e aí vemos bizarrices como, por exemplo, pessoas que tentam medicina, não passam, mas têm nota para cursar história da arte e então vão por este caminho; ou pessoas que tentaram alguma engenharia, não tiveram nota suficiente, e vão cursar administração. Isso é mais comum do que parece. Porque a pressa? Só para ter um diploma?  É necessidade de arrumar emprego para ajudar os pais? Alguns argumentam que começam a cursar a faculdade que tiveram nota para passar para "não perder tempo", mas isso geralmente é ilusão: provavelmente vão perder 4 anos estudando coisas que não queriam (e para realmente aprender qualquer coisa é preciso querer!) e para as quais, talvez, não haja mercado, o que poderá fazê-las penar por anos em sub-empregos ou empregos de baixo salário. Isso não é perder tempo? E, convenhamos, a maioria dos universitários não são alunos exemplares, e só estão lá para cumprir as exigências do MEC e pegar o diploma. Chega a ser assustador, se pensarmos bem, mas é mais uma verdade que precisa ser dita: muitas pessoas preferem ter um diploma ao invés de quererem realmente aprender a produzir, criar, gerar valor, etc. e isso só pode ser prejudicial para cada indivíduo e, uma vez que todas as variáveis sociais e econômicas estão interrelacionadas, nos prejudica a todos como sociedade: do ponto de vista puramente material, quanto menos pessoas realmente souberem fazer coisas, criar, produzir, etc. menos riqueza será produzida na sociedade, menos soluções serão encontradas, etc. E do ponto de vista moral/espiritual, temos mais pessoas frustradas (ainda que a nível subconsciente), desmotivadas, depressivas, etc. o que também é péssimo para a sociedade, afinal as pessoas têm que encontrar felicidade e motivação.

E agora temos essa polêmica envolvendo o Presidente Bolsonaro e os cursos de humanas. Para mim ele está certo, temos que redirecionar recursos públicos para cursos que agreguem mais valor aos  indivíduos que neles estudam. Obviamente, já tem gente reclamando disso (mais um sintoma da mentalidade do "é meu direito sagrado ir para a faculdade"), como se as nossas faculdades de filosofia (ou qualquer outra no mundo) realmente formassem filósofos - e não bacharéis em filosofia (e, para piorar as coisas, aqui no Brasil e em boa parte do ocidente, as faculdades de humanas em geral se tornaram "lacrolândias", onde nada de bom sai).

Realmente, sou forçado a acreditar que a cultura do "filho doutor", bem como a do "direito sagrado de fazer faculdade" e a maneira como a educação é conduzida no Brasil são grandes vícios do povo brasileiro, verdadeiros monstros fomentados ao longo de décadas, e ainda sofreremos e trabalharemos muito para combatê-los. Não esperem que venha um salvador da pátria, ou um "super-ministro da educação", para resolver estes problemas, pois consertar sozinho e em pouco tempo este estrago de décadas é humanamente impossível, por melhor que seja a intenção de quem se disponha a cumprir tal empreitada.

A valorização da verdadeira educação, a busca por conhecimento e aperfeiçoamento, o resgate da alta cultura são iniciativas individuais. Cada um tem que fazer sua parte.