segunda-feira, 14 de setembro de 2020

Os maus hábitos do comércio - parte 2

Saudações, caros leitores! 


Retomando o meu post sobre os maus hábitos do comércio, que foi um dos que o pessoal mais gostou, trago agora a 2ª parte, onde vou escrever mais alguns maus hábitos que já vi sendo praticados por muitos comerciantes, só que desta vez focando em problemas que percebo em negócios específicos:

1) Hamburguerias gourmet e food trucks em geral: uma coisa que eu sempre notei nesse tipo de negócio (que há pouco tempo eram modinha) é que geralmente há muito pouca variedade de lanches. Na minha rua havia uma hamburgueria dessas, estilo "gourmet", que no cardápio só havia 3 sanduíches, e os três eram em um padrão que eu vejo em praticamente qualquer hamburgueria gourmet: um hamburger basicão (ingredientes: 1 hamburger de "blend" de carnes, 01 (uma) fatia de queijo, 01 (uma) folha de alface, um punhado de cebola caramelizada, pão de brioche ou algum pão escuro para dar aquele ar de coisa sofisticada) que parece que só está lá para encorajar os clientes a comprarem os outros 2 do cardápio; o 2º hamburger igual ao primeiro, só que com 2 carnes (às vezes com bacon em cubinhos); e o terceiro geralmente feito de costela de porco desfiada (e os mesmos adicionais dos outros dois). Geralmente o cardápio fica em um papel pintado de preto, com as letras brancas (cores escuras dão ar de sofisticação em restaurantes, reparem só) e os preços seguem o seguinte padrão:

      - Hamburger basicão: R$ XX,00

      - Hamburger basicão, só que com 2 carnes: R$ XX + 6,00

      - Hamburger de costela de porco desfiada: R$ XX + 10,00

      - Batata "Rústica": + R$ 8,00 (geralmente vem um punhado num cone de papel ou numa canequinha de metal)

      - Onion Rings: + R$ 8,00 (geralmente vem umas 5 ou 6 unidades)

      - Refrigerante (lata de 350ml): + R$ 6,00

Obviamente, os preços variam conforme o custo de vida em cada cidade, então para um cardápio desses em SP, por exemplo, trocamos o "R$ XX" por "R$ 35", "R$ 40", dependendo do bairro. O mesmo vale para Brasília, Rio de Janeiro, BH, etc. e eu vejo esse padrão sendo praticado até em foodtrucks, e aí é pior ainda, porque você acaba gastando mais de 50 reais para comer, literalmente, na rua (o que é estranho, porque o custo desse negócio deveria ser baixo)

Hambúrguer Gourmet com Fritas - ST Burger (São Paulo - Sul e Oeste) - Peixe  Urbano
foto meramente ilustrativa

Starting a Profitable Food Truck Business | Бизнес, Айт











Óbvio que há exceções, mas eu infelizmente vejo essa gourmetização (dos preços) em muito lugar por aí. Isso é ruim porque na grande maioria dos casos esse preço alto não condiz com a qualidade e com o sabor da comida, então esses negócios acabam fechando em relativamente pouco tempo, fazendo com que os funcionários fiquem desempregados, fazendo o dono perder a grana investida e, quando são lojas, o imóvel fica vago, e se demorar muito tempo para outro negócio tomar o lugar, pode acabar sendo invadido e virando casa de mendigos, esconderijo de bandidos, etc., o que é muito ruim para quem mora naquela rua. 

A da minha rua, que eu citei no início do texto, já fechou faz alguns anos, e outra hamburgeria "gourmet" já tomou o lugar dela, mas está resistindo porque é realmente melhor (mas ainda assim é careira).

 Notem que no exemplo das hamburguerias e dos foodtrucks, além do cardápio pouco variado e dos preços inflados, há outro exemplo de um mau hábito do "comércio" brasileiro: a tendência do empresário brasileiro de querer lucrar vendendo pouco, mas vendendo caro, ao invés de querer lucrar vendendo barato mas vendendo muito (eu acho que o nosso padrão é o contrário do padrão do empresário dos EUA, acho que lá eles valorizam mais cobrar preços baixos para vender muito, mas isto é só a minha opinião baseada em minhas observações... posso estar errado)


2) Sebos: eu gosto muito de comprar livros em sebo, acho que uns 40% dos livros que eu tenho eu comprei assim, porque geralmente é só nesses lugares que se consegue encontrar obras que não sejam "best sellers", além de livros sobre assuntos mais específicos e/ou técnicos. Infelizmente as nossas grandes livrarias (as que ainda restam) falharam e muito em oferecer variedade de livros, quase não há livrarias "de nicho" no Brasil, livrarias técnicas, etc. O problema que eu vejo em todos os sebos que frequento é esse: os livros são muito mal organizados. Conheço um que o dono nem se importa, deixa tudo empilhado no chão e nas prateleiras de qualquer maneira, tem que procurar muito para achar alguma coisa. Um outro que frequento pelo menos organiza os livros por assunto, mas não os coloca em ordem alfabética, e por aí vai. Outro problema dos sebos (pelo menos todos os que eu fui eram assim) é que geralmente o dono não faz um inventário dos livros, então ele não tem controle nenhum sobre quais livros possui em estoque e muitas vezes também não vende pela estante virtual ou outro site semelhante, o que dificulta a vida dos clientes e faz com que ele perca vendas (eu sei que um pouco de desorganização pode até ser uma estratégia de negócio para livrarias e sebos: enquanto procuro um certo livro, acabo encontrando outros que posso acabar querendo comprar também, mas a desorganização tem que ter um limite, além do qual ela fica contraproducente).

Super Sebo | VEJA SÃO PAULO



3) Livrarias: pegando um gancho no que eu falei acima, o problema das livrarias no Brasil é que elas praticamente só vendem "best sellers" (aí ficam com as prateleiras entulhadas com 50 cópias dos mesmos livros), livros estúpidos (tipo os de alguns youtubers, e também "biografias" de "celebridades" ainda vivas - para mim, não tem muito sentido escrever biografias de pessoas vivas, principalmente se forem jovens) e algumas delas parecem muito mais papelarias do que livrarias propriamente ditas, e há uns dois anos entraram com tudo na modinha dos "livros de colorir para adultos". Outro mau hábito, só que das editoras de livros,  é o de colocar capas muito feias nas obras, ou então quando o livro dá origem a algum filme, as editoras insistem em colocar a capa com o cartaz do filme. Na minha opinião, capas de livro têm que ser atemporais, e as que reproduzem cenas do filme com o tempo perderão o sentido, ou podem até espantar leitores, caso o filme tenha sido ruim.


4) lojas de ferramentas: o principal problema que vejo aqui é que em geral elas vendem pouca variedade de ferramentas, e é difícil encontrar peças extras e acessórios para as ferramentas elétricas/eletrônicas e mecânicas (diferentes discos de corte para esmerilhadeiras, pontas diferentes para furadeiras e micro-retíficas, etc.). Eu entendo que a demanda para coisas mais específicas não seja alta e que algumas ferramentas são para mercados mais restritos, mas a maioria das lojas de ferramentas me parece que nem tenta oferecer coisas melhores, ter um diferencial, etc. Claro que hoje em dia dá para encontrar muito mais coisa on-line, mas eu preferiria comprar em lojas físicas, porque posso ver a qualidade, ver se não está quebrada, além de não pagar frete (que tem estado muito caro). Outro problema é que normalmente elas não têm todos os tamanhos de peças (tubos, conexões, parafusos, etc. geralmente só tem meia dúzia dos tamanhos que mais saem). 

Passo loja de Ferramentas elétricas, manuais e material elétrico. COMPLETA  - PassaPonto


Amigos, por enquanto é isso. Caso eu me lembre de mais coisas, eu publico uma parte 3 para esta série. Como eu falei no primeiro post desta série, caso você, leitor, seja dono de um dos tipos de negócio que apresentei aqui, não se sinta ofendido, encare tudo como críticas construtivas.

Vocês sabem de mais algum "mau hábito" dos nossos comércios aqui no Brasil? 

Forte abraço! Fiquem com Deus!


sexta-feira, 4 de setembro de 2020

A "cultura de emprego" brasileira faz parte do problema

Eu sempre achei estranho e um tanto vergonhoso, em todos os lugares que trabalhei, ver um chefe meu, geralmente um cara mais velho, casado e com filhos, levar esporros monstruosos e engolir sapos terríveis de seus chefes, estes geralmente diretores, vice presidentes, gerentes gerais, etc., além de serem "obrigados" a fazer várias coisas que não agregam nada ao trabalho, mas que servem apenas para agradar os chefões (ficar até bem mais tarde só esperando o chefe voltar de uma reunião, por exemplo, ou perder horas fazendo um powerpoint cheio de firulas e gracinhas ao invés de focar só na informação em si, ou ser obrigado a almoçar com o diretor todo dia, ou ir a eventos sociais representando a empresa, etc.) - e quanto maior for a empresa, mais coisas deste tipo acontecem, principalmente se for multinacional, tudo com grandes níveis de estresse. Eu sempre que presencio uma coisa dessas fico pensando "Como ele aguenta? Pelo nível de salário desse cara, era pra ter um mega reserva financeira, um grande patrimônio, que lhe desse tranquilidade para não aturar essas coisas ou então pelo menos levar tudo mais tranquilamente". Óbvio que ele aguenta porque ele quer manter o nível de salário e o status, mas essa vida de executivo /superintendente/coordenador regional é um outro nível da corrida dos ratos, e muitas vezes nem esses funcionários de alto nível de empresas top construíram um patrimônio decente,  e isso os obriga a se manterem na luta para continuarem em seus cargos altos, e lá a disputa é ainda mais acirrada, porque a concorrência é de nível mais alto (tanto em competência quanto em habilidades bajulatórias sociais).

Agora falando dos trabalhadores brasileiros em geral, especialmente os das cidades, dificilmente eles têm um patrimônio que os deixe tranquilos e protegidos de alguma forma contra crises e desemprego, e este é apenas um dos motivos pelos quais tanta gente engole tanto sapo todo dia no trabalho (eu sei que engolir sapos faz parte da vida, tendo patrimônio alto ou não, mas há de se concordar que tendo um patrimônio alto o número de sapos a serem engolidos seria bem menor, ou então no mínimo eles seriam mais fáceis de engolir). Como muitos aceitam muita coisa no trabalho, acaba que todos temos que aceitar também. A Teoria dos Jogos, principalmente o Dilema do Prisioneiro, ajuda a explicar o porquê - por exemplo, como existe alguém que está disposto a sair bem mais tarde do trabalho, seja isso necessário ou não, isso lhe dá aos olhos dos chefes um "diferencial" em relação aos outros que não estão dispostos a saírem mais tarde, então todos passam a ter que sair mais tarde para se manter na competição dentro da empresa, porque sair no horário passa a ser arriscado e porque sair tarde é um diferencial "fácil" de se obter, então ele passa a ser o mínimo esperado de cada empregado).

Uma outra coisa que contribui para isso é o que eu vou chamar neste texto de "cultura de emprego". Vou explicar o que quero dizer com isso.

Creio que a maioria que lê meus textos e frequenta a blogosfera das finanças irá concordar que o roteiro profissional "padrão" do "brasileiro urbano médio" é:

Formação >>> emprego  >>>  ???  >>>  aposentadoria (INSS)

Dentro da zona misteriosa ("???") fica a "carreira" do indivíduo dentro de uma empresa - uma coisa cada vez mais rara: antigamente, era normal passar 30 anos trabalhando na mesma empresa, e se esta empresa fosse grande e rica o bastante, ela ainda cuidaria de você na aposentadoria através de planos próprios de previdência privada, associações de ex-funcionários, etc. É o caso, por exemplo, da IBM e da Shell.

Hoje em dia passar 30 anos numa empresa é quase impossível, o normal para muita gente é ser chutado em uns 5 ou 6 anos caso você não seja promovido e, dependendo da área, até em menos tempo. Não dá para "construir uma carreira" no sentido antigo do termo na maioria das empresas atualmente. A carreira hoje em dia é a soma de nossas experiências profissionais e o conhecimento/know-how acumulado e também o famigerado network (nossa, como eu odeio essa palavra). E quanto mais velhos ficamos, mais facilmente somos demitidos (as empresas no Brasil em geral, quiçá no mundo, têm algo contra pessoas acima de 35 anos) e mais difícil se torna nossa recolocação (pelo mesmo motivo),  e isto torna todos mais "medrosos" e faz com que se sujeitem a muita coisa que em outras condições não se sujeitariam para manter o emprego. 

Sendo curto e grosso: por causa do medo de perder o emprego, muita gente acaba abaixando a cabeça para muita coisa que acontece no trabalho, e por isso muitos abusos acontecem e isso ajuda a explicar porque hoje em dia doenças como depressão, ansiedade e burnout são cada vez mais comuns. 

A própria blogosfera das finanças é, de certa forma, um sintoma disso: muitos dos blogueiros e dos comentaristas (eu incluso) são pessoas insatisfeitas com seus trabalhos e que buscam uma esperança de mudança de vida através da frugalidade, do mercado financeiro, do desenvolvimento pessoal, etc. e encontram ecos de seus pensamentos na blogosfera das finanças. 

A insatisfação com a vida profissional é algo generalizado atualmente. Creio que isso seja em parte culpa da "cultura do filho doutor" e também em parte culpa da nossa "cultura de emprego".

O que quero dizer com isso é: nossa cultura profissional não deveria ser focada em emprego, porque ela nos torna mais submissos a hierarquias, chefes, etc., além do emprego funcionar como um tipo de cabresto,  constantemente usado para nos  ameaçar e intimidar.  

Na minha opinião, a nossa "cultura de emprego" deveria ser focada em autonomia, ou seja, deveria ser uma "cultura de autonomia": o roteiro padrão esperado deveria ser trabalhar para alguém só até certa idade, e depois se tornar autônomo ou empresário, desta maneira:

Formação >>> Emprego (aquisição de experiência e recursos) >>> "Carreira solo" >> Tranquilidade Financeira

Se o normal fosse esse, as coisas por aqui seriam um pouco melhores, pelo menos nos seguintes aspectos: 

1) Haveria menos desemprego, porque seria normal trabalhar em empresas só até certa idade, então essa rotatividade de funcionários seria maior, não por cortes de custos, mas porque os próprios funcionários decidiriam sair para iniciarem suas próprias jornadas;

2) Com mais autônomos e pequenos/médios empresários, haveria mais vagas de empregos também (autônomos poderiam contratar assistentes, estagiários, etc. e seria bom para jovens adquirirem experiência) e mais produção, o que significa maior oferta, o que reduziria os preços de produtos e serviços;

3) Com mais empresas e mais empregos, o trabalhador teria mais poder de barganha (seria fácil sair da empresa e arranjar outro emprego, levando embora conhecimentos e experiências que servirão à concorrência, o que faria com que os salários tendessem a ser mais altos para reter funcionários - ao contrário de hoje em dia, em que há 500 mil desempregados para cada vaga de emprego, então quase todas pagam 1 salário mínimo,  sem VT, sem hora extra e sem PL); e

4) Tudo isso contribuiria para a diminuição das doenças psiquiátricas que afligem esta nossa estranha era (depressão, ansiedade, neurose, etc. são em grande parte provocadas por pressões no trabalho) e a sociedade teria um pouco mais de felicidade.

Não vou ser hipócrita - eu também faço parte da "cultura de emprego": assim como muitos, fui formado assim, cresci acostumado com esta ideia, e agora vejo as consequências. A verdade é que em muitos aspectos é mais fácil e mais confortável ser empregado CLT e isso também ajuda a explicar essa cultura de emprego, porque você de alguma forma sente que a empresa está "cuidando de você", mas isto na verdade é uma ilusão perigosíssima: na verdade, você está é terceirizando muitas decisões importantes de sua vida para o seu chefe: ele escolhe qual vai ser o seu plano de saúde (não se iludam, sai do seu salário, mesmo que não apareça nenhuma coparticipação na folha de pagamento), ele aplica parte de sua renda numa previdência privada que a empresa escolheu, ele escolhe o que fazer com seu horário, ele que tem a palavra final de quando serão suas férias, dependendo da empresa é ele que decide o que você vai fazer no final de semana, ele determina onde você vai morar, etc. Com isso, uma boa fatia da sua vida está nas mãos de um terceiro que geralmente te enxerga apenas como um custo e não como um ser humano. 

Óbvio que a vida de um empresário ou autônomo também está em muitos aspectos regida por terceiros - os clientes - mas o nível de controle destes profissionais sobre seus trabalhos e suas vidas é bastante superior ao do empregado CLT comum.

Realmente é mais difícil ser autônomo ou ser empresário do que ser CLT, não só por causa da concorrência no mercado, mas também porque isso envolve assumir os riscos e as decisões que normalmente terceirizamos quando somos empregados de alguém, conforme expliquei acima. Mas por outro lado, passaremos a sermos mais donos de nossos destinos.


Por causa da doutrinação esquerdista que recebemos na escola já há décadas, o brasileiro médio tem a tendência de enxergar o empresário como um FDP explorador. Óbvio que alguns são isso mesmo, principalmente os maiores, que usam seus recursos para influenciar o Estado e financiar movimentos revolucionários e com isso matar a concorrência desde o berço para se manterem no topo da pirâmide. Mas na grande maioria dos casos, o empresário é um cara "classe média" ou até mesmo "pobre" e que tem muito mais a perder do que o empregado e trabalha muito mais horas por dia e geralmente sem férias e sem feriados. Então aquela ideia que os soças vendem do "empresário malvadão explorador dos pobrezinhos" não é verdadeira em 99,999% dos casos, mas essa ideia que foi implantada em nossas mentes infelizmente também colabora para fortalecer a "cultura de emprego" na mentalidade brasileira e sabotar a nossa busca por autonomia.

Acho que nesse ponto os brasileiros têm muito a aprender com os árabes e os portugueses - estes dois grupos têm essa mentalidade de autonomia muito mais desenvolvida, tanto que seus estereótipos são caricaturas de pequenos comerciantes e empresários (o árabe vendedor de tapetes e especiarias e o "seu" Manoel da padaria) - geralmente pessoas destas duas etnias não são empregadas de ninguém, a não ser de outros árabes e portugueses, e mesmo assim só enquanto não juntam recursos para abrirem seus próprios negócios.

O que vocês acham da nossa cultura de emprego? Acham que as coisas seriam melhores se fizéssemos uma mudança para uma cultura mais focada em autonomia? 


Forte abraço, amigos, fiquem com Deus!

domingo, 16 de agosto de 2020

Sobre a blackpill da inteligência artificial


A humanidade, desde que o mundo é mundo, parece ter uma propensão a imaginar cenários pessimistas e de grande desolação. Talvez seja um dos sintomas do Paraíso perdido.

Deve ter sido assim na época da peste negra na Europa: muita gente deve ter imaginado que o mundo ia acabar e que todos morreriam doentes. Na época da gripe espanhola deve ter sido a mesma coisa. Acredito também que na época do nazismo, muitos tenham imaginado que o 3º reich se tratava literalmente do exército do anticristo marchando sobre a Terra, e que hitler conquistaria o mundo, trazendo assim os últimos dias. Na época da Guerra Fria (que aliás, não acabou), o grande medo que assolava os corações de muita gente era o da guerra nuclear, quando EUA e URSS disparariam seus mísseis e mergulhariam o mundo em um inferno radioativo (os mísseis teoricamente ainda existem, mas as pessoas pararam de se preocupar tanto com eles, e arranjaram outras fontes de preocupação, como o aquecimento global, agora chamado de climate change). Atualmente, com a rapidez e acessibilidade das informações, a imaginação do ser humano corre mais solta do que nunca, e acabou agravando essa questão dos cenários pessimistas. Já há alguns anos, foi cunhado na internet o termo "blackpill", o qual é derivado da "redpill" cuja origem é o filme Matrix. A redpill é uma metáfora para uma informação que, assim que passamos a conhecer, nos liberta de alguma forma, nem que seja "apenas" nos libertar de uma mentira. A sua derivada "blackpill", por outro lado, é uma informação que nos deixa deprimidos e pessimistas tão logo passamos a conhecê-la. Muitas "redpills" divulgadas são na verdade blackpills disfarçadas.
Atualmente uma blackpill que é amplamente divulgada é a respeito da inteligência artificial (IA).

Praticamente tudo o que se escreve a respeito de IA tem um tom depressivo no fundo, porque a maioria dos artigos fala a respeito de como muitos empregos vão acabar porque haverá "robôs" e sistemas inteligentes que substituirão seres humanos, e quase todos os artigos falam da necessidade de as pessoas se atualizarem para se manterem empregáveis - o problema é que nesses artigos isso soa como um contra-senso, pois pelo tom do próprio artigo "tudo será automatizado", então meio que não há para onde correr, e alguns dos trabalhos mais fáceis de serem automatizados são justamente os da área de TI. 

Grosso modo, uma IA é como um modelo matemático que se retroalimenta de dados coletados na vida real para se aperfeiçoar continuamente. A ideia em si da IA já é bem antiga, mas só recentemente é que ela se tornou possível de ser implementada por causa da melhora nas tecnologias de armazenamento: é necessário um imenso volume de dados para treinar e para operar uma IA, e era inviável reunir tantos dados assim nos tempos do disquete e mesmo depois nos tempos dos pendrives de 300mb que custavam cinquenta reais e as taxas de transmissão e processamento eram frações do que existe hoje. 

Outra maneira de explicar: uma IA é como um modelo econométrico em que os coeficientes angulares das variáveis explicativas (os "betas") são continuamente ajustados para se encaixarem cada vez melhor aos resultados observados na realidade. Como a realidade é moldada em parte por seres humanos (e seres humanos são em muitos aspectos imprevisíveis) e em uma parte muito maior pelo restante da natureza (cujas leis ainda estamos longe de realmente compreender), nunca haverá um sistema que explique perfeitamente a realidade de qualquer coisa. Além disso, a realidade não é 100% lógica: há diversas situações (inclusive em finanças) em que a decisão mais racional não necessariamente será matematicamente perfeita, e pode até mesmo ser desvantajosa do ponto de vista matemático, mas possui um motivo mais profundo, na área emocional, que a justifica. É o que faz uma pessoa vender ações com prejuízo porque precisa do dinheiro, ou comprar uma casa assumindo uma dívida de 30 anos mesmo que fosse mais barato pagar aluguel, por exemplo.

Muitos textos que circulam na internet descrevem um mundo bastante apocalíptico em que 99% das pessoas ficaram desempregadas por causa da IA e se tornaram mendigos, enquanto  1% se divide entre os donos de IAs e os poucos empregados remanescentes, ultra especializados (mas já destinados a se tornarem obsoletos, segundo as regras deste mundo hipotético). Pouco depois, só sobrariam os donos de IAs e uma multidão de mendigos como se jamais viu. Assumindo que tudo isso seja verdade, o que poderia acontecer nesse mundo?

- Será que dentre esses bilhões de mendigos ninguém tem nenhuma posse, nenhum patrimônio? Todo mundo que era dono de um imóvel,  por exemplo, vendeu a casa para aumentar seu tempo de sobrevida? Donos de carros venderam seus carros também? Para quem? Será que os donos de IAs seriam os donos de todos os bens do mundo?

- Se quase todo mundo está desempregado, então as empresas (que são operadas por IAs) vendem seus produtos e serviços para quem? De onde essa massa de mendigos tira dinheiro? De onde vem o lucro das empresas? Dinheiro faria sentido em um sistema em que a vasta maioria das pessoas está excluída dele?

- Será que os mendigos viveriam de uma "renda mínima universal"? Se for, então no fundo são todos empregados dos donos da IA (os únicos que produzem riqueza), e o "emprego" deles consiste em ser mendigo e girar o dinheiro dessa renda mínima. Se for possível economizar alguma parte do dinheiro desta renda, comprar ações das empresas, etc., então eventualmente os mendigos se tornariam proprietários também. Se não for possível este tipo de melhora, então eventualmente essa ordem seria rompida, caso a vida destes mendigos seja muito ruim. Além disso, provavelmente os mendigos formariam uma sociedade paralela para sobreviver. (Na verdade, durante uma boa parte da idade média (pelo menos na Europa), a grande maioria dos camponeses e servos nem lidava com dinheiro e a riqueza na época era representada principalmente por terras e não por moedas. Até mesmo os nobres não usavam muito o dinheiro. Por um bom tempo moedas foram coisas relativamente raras, e os camponeses mal tinham acesso aos "centavos" da época e nem precisavam. As pessoas comuns trabalhavam pela subsistência, e impostos eram cobrados em víveres - futuramente escreverei sobre isso)

- Note que se houver uma renda mínima universal,  ela só pode vir através de impostos ou de contribuições voluntárias, e como somente os donos das empresas operadas por IAs estariam produzindo, estes valores viriam deles. De um jeito ou de outro, ela não faria muito sentido em um mundo como o descrito, pois o dinheiro sairia de um lugar para voltar para o mesmo lugar, grosso modo

- Aquele cara que escreveu os livros "sapiens"e "homo deus" descreve que o dinheiro ainda faria sentido em um mundo como esse porque as empresas operadas por IAs fariam transações entre si, mas para mim não faz sentido haver dinheiro porque, também segundo o autor, as "pessoas comuns" não teriam acesso a ele. O que ele descreveu, na verdade, seria um sistema contábil onde as empresas registraram que produtos e serviços estão devendo unas às outras e traduzindo isso na forma de números, e não dinheiro, o qual seria irrelevante. Haveria na verdade um "escambo automatizado" entre as empresas operadas por IAs. Se houvesse dinheiro e este ainda fosse relevante e as pessoas comuns neste cenário apocalíptico não tivessem acesso a tal dinheiro por serem "inempregáveis" da maneira como o autor definiu, então muito provavelmente surgiria uma sociedade paralela com moedas próprias ou simplesmente escambo. (Além disso, o próprio autor destes livros não é 100% confiável porque em seus escritos reduziu a experiência humana apenas aos aspectos econômicos e faz algumas comparações esdrúxulas para justificar seus pontos de vista) 

- Mesmo em um mundo onde você se tornou "inempregável", se você tem um imóvel você pode alugá-lo, morar em um lugar com aluguel mais barato e embolsar a diferença. O mesmo vale se você for dono de um carro, de um barco, de qualquer bem com utilidade econômica que possa ser alugado para um terceiro. A renda de um proprietário não estaria ameaçada por IAs. Esse é uma coisa (ser proprietário de algo) em que é indiferente ser humano ou ser IA. 

- a maior parte das "IA" hoje em dia são meros geradores de lero lero melhorados. Muitas são chatbots que dão a resposta estatisticamente mais provável que um ser humano esperaria para determinada pergunta (e se um número suficiente de pessoas resolver sabotar uma IA, inventando respostas absurdas, ela pode passar com o tempo a dar as respostas erradas - foi o que aconteceu com uma IA da Microsoft) - não existe e nunca existirá um sistema infalível. Se atualmente há pessoas que se dedicam horas por dia para descobrir glitches em jogos para melhorarem seus tempos em speed runs, não acho difícil que surjam pessoas dedicadas a encontrar e explorar falhas em sistemas operados por IAs com os mais diversos propósitos.

- outro papo que costuma ser levantado por muitos deslumbrados é o de que eventualmente as IAs reescreverão seus próprios códigos e com isso suas performances "iriam decolar". Acho que isso não rola. Primeiro que uma IA não conseguiria se reescrever sozinha, ela precisaria de outra IA que lhe fosse superior para fazer isso por ela. Além disso, há um limite para a capacidade de melhora em reescrever um código. A primeira reescrita poderia até dar uma grande melhorada mas a partir daí as próximas melhorias seriam mais incrementais. E no fim o software será sempre limitado pelo hardware e pelas próprias leis da física.

-  Máquinas escrevendo códigos também não é novo: já existem há uns 30-40 anos programas que "escrevem sozinhos" as partes mais básicas de algoritmos, o que na verdade economiza o tempo dos programadores e nem de longe acabou com o emprego deles. 

- Num cenário em que não há mão de obra humana e absolutamente tudo é produzido por máquinas, então o preço de quase todas as mercadorias e serviços tenderia a zero. Não seria zero porque os recursos continuariam escassos então ainda persistiria a necessidade de um mecanismo de preços para equilibrar oferta e demanda, mas sem o custo de mão de obra em todas as atividades econômicas, tudo seria muito barato. Isso considerando, é óbvio, um cenário em que existe concorrência entre empresas.

- As consequências possíveis da automatização não são somente o desemprego: estando as pessoas desocupadas de funções que foram automatizadas /mecanizadas, podem muito bem surgir novas necessidades humanas (que são infinitas) para atividades que nem existem ainda, e aí serão aproveitadas as pessoas que foram substituídas por máquinas. Numa época em que toda a produção agrícola dependia de muita mão de obra humana, as pessoas não tinham nem tempo para pensar em outras coisas que não fossem a lavoura, o estoque para o inverno e as pragas. Não havia nem gente suficiente para tornar viáveis outros serviços possíveis. Tendo sido liberadas do campo pela mecanização da agricultura e pelo consequente aumento da eficiência de sua produção, muitas ocupações antes inimagináveis foram inventadas (por exemplo, era impensável alguém ser escritor em tempo integral, ou cuidador de idosos, ou revisor de textos, ou operador de trator, ou mecânico de tratores, ou vendedor de combustível para tratores, ou frentista de posto, ou planejador de supply chain, etc. etc.) . Porque o mesmo não ocorreria com as automatizações de hoje em dia?

- Por fim, a verdadeira inteligência vem da alma, e não do cérebro. O cérebro é um emissor e receptor, e não a fonte da inteligência. E a humanidade não é capaz de criar almas. 

Fiquem com Deus!