quarta-feira, 16 de outubro de 2019

Mais sobre ETFs (3) - BOVV11 e BRAX11

Saudações, confrades!

Segue a análise rápida do BOVV11 (link para a página do fundo no Itaú):
                                            
É um fundo bastante recente, tendo sido lançado em 29 de julho de 2016, ou seja, mal completou 3 anos de vida. Aplicando a mesma lógica usada para uma empresa, é muito pouco tempo para análise, em minha opinião. Eu aguardaria pelo menos 5 ou 6 anos de negociação em bolsa para fazer uma análise melhor. O benchmark deste fundo é o IBOVESPA.

> No momento em que analisei:
0) A taxa de administração é de 0,3%a.a, ou seja, quase 6 vezes maior que a do PIBB11.
1) o fundo possuía ações alugadas equivalentes a cerca de 21% de seu patrimônio.
2) Passivo equivalente a 0,08% do patrimônio;
3) Ação com maior participação no fundo: ITUB4 (9%) - obviamente é a maior componente do IBOVESPA;
4) 26% do patrimônio aplicado no setor bancário.
5) Em relação aos relatórios, tenho a mesma crítica do PIBB11: são pouco detalhados, o pdf são as imagens scaneadas de papéis físicos, o que borra algumas letras e números e dificulta a leitura.
6) Diversifica um pouco mais que o PIBB11 (68 ações do Ibovespa, contra 50 do Ibrx-50, ou seja,18 ações a mais), mas acho que isso não compensa a taxa de administração maior. 

Segue a tabela, sem gráficos desta vez (3 anos é pouco):




Agora analisando (também rapidamente) o BRAX11 (Link para a página do fundo) :

0)  Taxa de Administração = 0,2%a.a 
1)  Composto pelas 100 ações mais negociadas na bolsa (será que com 100 ações John Bogle consideraria uma diversificação satisfatória?);
2)  Lançado em 22 de fevereiro de 2010, ou seja, já possui mais de nove anos, então até que vale à pena fazer alguns gráficos, embora o relatório mais antigo que eu tenha encontrado seja referente a 2013;
3) O relatórios são mais bem apresentados do que os do PIBB e do BOVV. Aliás, a página do Blackrock (administradora do fundo) é melhor do que a do Itaú, tem informações mais claras, etc.
4) Passivo corresponde a 0,03% do patrimônio líquido;
5)  Somente as 25 ações de maior participação no patrimônio do fundo têm mais de 1% de participação. A ação com maior participação hoje é, obviamente, ITUB4 (8,26% - aproximadamente 5 milhões de reais). A de menor participação é GFSA3, com 0,01% de participação no capital do fundo (aproximadamente 6.500 reais);
6) Há 75 ações que  representam, cada uma, menos de 1% do patrimônio líquido do fundo,  e entre estas, há 50 que correspondem, cada uma, a menos de 0,5% do patrimônio líquido;
7) As ações do top 10 em termos de participação somam um pouco mais de 50% do patrimônio do fundo; Se ampliarmos isso para o top 25, teremos 70% do patrimônio;
8) Em consequência dos itens 5, 6 e 7, acho que é um tanto falsa essa diversificação em 100 empresas. Essa crítica vale também para o PIBB11: no IBRX-50, as 10 empresas com maior participação correspondem a mais de 60% do índice. 





Minhas conclusões:

- Todos estes ETF cujo benchmark é o Ibovespa ou algum índice correlato (IBRX-50, IBRX-100,etc.) terão praticamente as mesmas ações em suas carteiras. A diferença entre as carteiras deles vai depender da amplitude do índice referencial (então o BRAX11, como replica o IBRX-100, terá todas as 50 ações do PIBB11, que replica o IBRX-50, e mais 50 ações, por exemplo)

- Em consequência do item acima, praticamente a única diferença entre os fundos é a taxa de administração. Sendo assim, eu não vejo muito sentido para a existência do BOVV11 sendo que há o PIBB11. 

- Considerando a alta concentração do capital de todos estes fundos nas 10 ações de maior participação dos índices-referência, praticamente não há diferença entre eles, no que tange às carteiras. A meu ver, mesmo a diversificação maior do BRAX11 empalidece perante os efeitos desta concentração nos resultados do fundo. Qualquer vantagem que o BRAX poderia obter por ter aplicado em alguma small cap esquecida e desprezada e que venha a se valorizar muito em pouco tempo será bastante diluída, porque tal empresa hipotética provavelmente teria uma participação pequena na carteira do fundo, inferior a 0,5%.

- Independente do fundo e da taxa de administração, há um problema inerente a estes índices de referência: o fato de eles dependerem das "N" ações mais negociadas na bolsa - não são as mais lucrativas, as maiores empresas, as de maior receita, etc: São as mais negociadas... Ou seja, bem ou mal, irão necessariamente incluir aquelas ações que estão mais "na boca do povo", como tem sido o caso de PETR4 e VALE3, que são duas ações que praticamente todo mundo que está iniciando na bolsa compra, não necessariamente pelos "motivos certos" (análise fundamentalista da rentabilidade, lucro, passivo, etc.), mas sim porque são empresas que estão sempre na moda e são, digamos, parte da história nacional, ou seja, têm um "apelo nostálgico" no imaginário brasileiro. Na época da moda da OGX, essa ação constava de todos estes índices, porque estava sendo fortemente negociada por especuladores, tanto os malandros quanto os sardinhas, e a OGX também caiu na boca do povo, um monte de gente aplicou em OGX naquela época, então estes fundos também aplicaram em OGX, mesmo que ela nunca tenha dado lucro, mesmo que ela nunca tenha sido muito mais do que uma promessa...  

- Outra face desse problema é que há boas empresas (há anos lucrativas, bem administradas, pouca dívida, etc.) que acabam tendo uma participação pífia na carteira destes fundos porque não têm negociação suficiente na bolsa para ter participação significativa no índice, as revistas e sites "especializados" em ações não comentam a respeito, etc., e isso é uma grande perda de oportunidade para os cotistas.

- Outra face do problema do índice-referência é que quanto mais a participação de uma determinada ação no índice mudar, mais o fundo terá que girar seu patrimônio (comprar e vender ações) para manter a mesma proporção desta ação em sua carteira a fim de replicar o índice. Isto é uma coisa que eu investindo diretamente nas ações não faria. Se eu aplico em ITUB4, eu só iria me desfazer desta ação se a empresa apresentasse alguns anos seguidos de prejuízos, passivo crescente, etc.

Resumindo os itens acima: a metodologia de cálculo dos índices-referência baseados em volume de negociação acaba fazendo com que as carteiras dos nossos ETF sejam muito concentradas em poucas empresas, o que a meu ver vai contra a filosofia do próprio Bogle. De que adianta ser "dono do palheiro todo" se algumas poucas empresas dominam quase tudo,? O resultado não fica excessivamente dependente destas poucas empresas? Isso não acaba sendo paradoxalmente o oposto de diversificar? Para realmente diversificar e capturar valorizações de "cavalos azarões" (que é um dos objetivos implícitos da criação de um ETF) não seria melhor ter uma diversificação mais "aritmética"? - por exemplo: se o fundo aplica em 100 empresas, cada uma corresponde a 1% do patrimônio. 

A pergunta fundamental aqui é: por quê estes índices existem da maneira como são? O que eles medem, afinal? De que adianta sua existência, já que uma empresa péssima pode acabar sendo muito negociada e participando do índice e em consequência do patrimônio destes fundos todos?

Do jeito que está, vale mais à pena aplicar individualmente nas 20 ações com maior participação destes índices do que aplicar nestes ETF, porque aí pelo menos não pagaremos administração, teremos escolha sobre o que fazer com os dividendos e JCP recebidos e teremos a isenção fiscal para  lucros em vendas de até 20 mil por mês, evitando os injustos e pesados 15% de imposto sobre o lucro.

Meus amigos, apenas digo o seguinte: Guardem seu dinheiro! Acumulem patrimônio! Diversifiquem!

Até a próxima! Fiquem com Deus!


sábado, 5 de outubro de 2019

Mais sobre ETFs (2): Bogle na prática - análise do PIBB11

Saudações, confrades.

Vamos à parte 2 de minha série de artigos sobre ETFs.

Primeiramente, apresento uma comparação entre alguns ETF que selecionei:

ETF:                   Benchmark:                        Taxa de Administração:
SMALL11          índice SmallCap                    0,69% a.a (a cada 10K aplicados pago R$ 69,00 a.a)
BOVA11             Ibovespa                                0,54% a.a (54 reais por ano para cada 10K)
BOVV11            Ibovespa                                 0,30% a.a (30 reais por ano para cada 10K)
IVVB11               S&P500                                0,24% a.a (24 reais por ano para cada 10K)
BRAX11             IBrx-100                                0,20% a.a   (R$ 20,00 por ano para cada 10K)
PIBB11               IBrx-50                                  0,059% a.a (R$ 5,90 a.a para cada 10K)

Todos os ETF acima têm taxa de administração bastante inferiores a 1% a.a, o que já é bem abaixo dos padrões brasileiros, a terra das taxas altas, conforme veremos a seguir.
Os mais "interessantes", a meu ver, são o PIBB11, cuja taxa de administração é a menor do Brasil, uma verdadeira anomalia entre os fundos de investimento em operação no país, e o BRAX11, que replica o IBrx-100 e tem a segunda menor taxa de administração entre os ETF acima (mas ainda quase quatro vezes superior à do PIBB11!).

***O IVVB11 é interessante por replicar o índice americano S&P500, mas ainda não o estudei o bastante para realmente opinar a respeito. Irei abordá-lo em um artigo futuro, a pedido de um leitor.

Prosseguindo,  vejam só as taxas de administração de alguns fundos de ações, para fins de comparação com os ETF:

Fundo de ações:                      Taxa de Adm:
BB Ações Petrobras                     2% a.a (200 reais por ano para cada 10K reais aplicados)
BB Construção Civil                    2% a.a (idem)
BB Ações Alocação ETF             1,55% a.a (155 reais por ano, para cada 10K)
Itaú Ações Momento 30 FICFI    2,5% a.a (+taxa de performance) (+ de R$250 para cada 10K a.a)

Como podem ver, os Fundos de Investimentos selecionados cobram bem mais caro que os ETF, e o último da lista ainda cobra taxa de performance (20% do lucro que superar o benchmark, e pelo que encontrei em minha pesquisa, essa é a taxa de performance "padrão").

Para ser justo, há outros fundos de investimento não-ETF que cobram taxas de administração bem menores que as quatro apresentados acima, basta procurar, mas nenhuma é mais baixa que a do PIBB e do BRAX. (o mais baixo que vi em minha pesquisa foi 0,3% a.a >> "Itaú Personalité Privilége RF", um fundo de renda fixa atrelado ao CDI - cuja aplicação inicial mínima é de míseros R$ 1.000.000,00...).

Para aqueles que não captaram a ideia, entendam as taxas de administração de um fundo como sendo uma "rentabilidade negativa" anual. Ou seja, se o seu fundo rendeu 7% neste ano e a taxa de administração é de 1% ao ano, significa que o seu ganho, como investidor, foi de 6%.


Agora vou comparar 3 ETF: PIBB11, BOVV11 e BRAX11. O critério de seleção foram as taxas de administração (0,059%aa, 0,3%aa e 0,2%aa, respectivamente). O primeiro tem como benchmark o IBrx-50, o segundo o Ibovespa e o terceiro tem o IBrx-100. Neste artigo falarei apenas sobre o PIBB11. O próximo será sobre o BOVV11.

A carteira do PIBB11 é composta pelas ações que fazem parte do IBrx-50.
Conforme a página do fundo no site do Itaú, a maior parte está aplicada em ações, e uma parte destas está alugada (13% no momento em que escrevo, mas muda todo dia). Há um valor bem pequeno (0,14%) aplicado em títulos públicos. O fundo aplica em 50 ações,  de 45 empresas diferentes (ele tem ações ON e PN da Petrobras, Bradesco, Eletrobras , além das duas ações diferentes do Itaú (ITUB e ITSA) e da Gerdau (GGBR e GOAU)), distribuídas em 26 setores da economia.
A página do fundo traz alguns detalhes interessantes, como os ativos de maior peso do fundo, os valores a pagar e a receber, os setores de maior peso, etc. Não vou escrever aqui porque estes valores vão mudar conforme as empresas forem entrando e saindo do IBrx-50.Todo mundo que estiver pensando em aplicar seu suado dinheiro no PIBB11 deve olhar esta página. Esta regra, aliás, vale para qualquer fundo de investimento e para qualquer ação. Isso pode parecer óbvio, mas, como digo, o óbvio precisa ser dito. Não invistam às cegas, pessoal! 

Seguem meus comentários e opiniões  pessoais sobre o fundo:

-O fato dele replicar o IBrx-50 faz com que algumas empresas tenham um peso muito grande no portfolio (caso do Itaú,  que representa cerca de 10% da carteira, mas pelo menos é uma empresa boa para se investir - lucros bilionários);
- Que bom que o fundo consegue ganhar uma graninha alugando ações,  isso eu vejo como uso inteligente do patrimônio sem abandonar a gestão  passiva. Notem que ele só  aluga cerca de 13% das ações,  não  sei se por estratégia  ou por não  conseguir alugar mais;
-50 empresas provavelmente não  iriam satisfazer Bogle no quesito diversificação,  mas como o Ibrx-50 está bastante correlacionado ao Ibovespa, então  acho que o fundo acaba passando neste quesito, pelo menos para os padrões do mercado brasileiro, que tem muito menos empresas negociadas em bolsa do que o mercado americano;

Agora, analisando o relatório de demonstrações financeiras [o exercício financeiro do fundo vai de 1º abril a 31 de março, de modo que em 31 de março deste ano foi encerrado o exercício anterior e em 1º de abril deste ano iniciou-se o exercício atual] (link do relatório):

Antes, um esclarecimento:  não adianta ficar analisando os pequenos detalhes da gestão do fundo (e neste caso nem é possível, dadas as poucas informações do relatório). Vou seguir para esta e para todas as análises que eu fizer neste blog o "método Bastter" de análise de empresas: vou focar nos aspectos macro da evolução patrimonial, evolução das receitas, das dívidas e dos lucros. Os detalhes que eu considerar relevantes (ex: remuneração dos administradores) eu vou incluir, mas vou evitar análises muito detalhadas, porque geralmente elas não têm utilidade para o pequeno investidor. 

- O relatório é enxuto (25 páginas), o que geralmente é bom, porém é de difícil visualização (são as imagens scaneadas do relatório físico, reunidas num pdf, o que dificulta a leitura, porque não permite dar ctrl+f para procurar palavras-chave, além de deixar as páginas e letras com aparência borrada, o que prejudica a leitura por parte de investidores com problemas visuais. Por exemplo, o "6" se confunde com o "8") - espero que corrijam isso no futuro (mas duvido....), e senti falta de uma demonstração de fluxo de caixa e da demonstração do "giro" do fundo. Em suma, achei o relatório bem fraco.

- Em relação ao patrimônio do fundo, ele possui valores a pagar (passivo) equivalentes a 0,41% do patrimônio líquido, o que é bom.

- Houve um grande resgate de cotas no exercício findo em 31 de março de 2019 (1.960.000 cotas resgatadas), de modo que o exercício foi encerrado com menos cotas do que o anterior;

- Receita de cerca de 145 milhões, sendo a receita de dividendos no valor de R$ 53 milhões;

- Em relação  aos custos: a maior "despesa" registrada são as perdas com derivativos (13 milhões); R$ 709.000,00 gastos com remuneração da administração (aumento em relação à mesma época de 2018); a despesa total do fundo (14 milhões) representou cerca de 10% das receitas. É necessário comparar com as demonstrações de outros ETF para verificar se os "custos" estão baixos. Futuramente editarei esta parte.

Enquanto escrevia este post, percebi que analisar os fundamentos de um fundo não é tão interessante quanto analisar as ações de empresas individuais, e há uma certa escassez de informações. A página do fundo, no site do Itaú, por exemplo, peca por não ser muito transparente e não ter o básico dos básicos, que são as demonstrações financeiras dos exercícios anteriores, as quais na minha opinião deveriam ficar todas arquivadas para que qualquer investidor pudesse ler. Entretanto, consegui encontrar algumas neste link.  Percebi que os relatórios feitos pela Deloitte são mais bonitos, visualmente falando, e o pdf é mesmo o do arquivo digital. Os que foram feitos pela PWC são aquela porcaria de imagem scaneada de um arquivo físico, o que dificulta muito a leitura, então ponto negativo para a PWC.
 É uma pena que eu não tenha encontrado todos os relatórios desde o lançamento do fundo em 2004. Com base nos que encontrei, fiz a tabela e os gráficos abaixo:







- As "receitas" do PIBB11 são (óbvio) muito fortemente influenciadas pelo Resultado das Ações (valorização ou desvalorização a preços de mercado), e por este motivo é que elas foram negativas em 5 dos 9 anos analisados. Por este ponto de vista, não se pode analisar estas "receitas" da mesma maneira que se analisa as receitas de uma empresa (por exemplo, receitas de vendas de mercadorias). A meu ver, as receitas "de verdade" deste e outros fundos seriam os dividendos, JCP e rendas de aluguéis de ações.

- O valor patrimonial por cota aumentou principalmente por causa da queda livre do número de cotas do fundo (de 21,6 milhões para 7,7 milhões de 2011 para cá), pois o patrimônio líquido do fundo diminuiu no mesmo período. Vejam as 10 ações com maior participação no fundo em 2013 e em 2018, para se ter uma ideia:

2013

2018















- Notem que de lá para cá o fundo se livrou de umas 2 milhões de ações ITUB4 e quase 3 milhões de ações PETR4 e PETR3. Provavelmente isso faz parte do objetivo do fundo, que é seguir o índice IBrx-50. Então estas grandes vendas de ações devem ter sido para ajustar a participação das mesmas no portfolio do fundo conforme a proporção das mesmas no índice-referência.

- Provavelmente o número de cotas é forçosamente diminuído (vide tabela) para manter ou valorizar o valor de mercado das mesmas.

- Que fatores poderiam explicar a diminuição do Patrimônio líquido do fundo? Na minha opinião, são estes os principais:
   - Diminuição do valor de mercado das ações que compõe o portfolio;
   - Diminuição da quantidade de ações no portfolio (conforme visto nas 2 figuras acima)

- Não importa o motivo para o PL ter diminuído, senti falta de explicações para isto nos relatórios financeiros do fundo.

- Apesar desta diminuição do Patrimônio Líquido, o valor das cotas do fundo vem subindo pelo menos desde 2016, depois de ter praticamente andado de lado por 8 anos. Notem também que ele tem conseguido acompanhar seu índice referência, comparando com o outro gráfico abaixo:

Evolução da cotação do PIBB11. Fonte: Investing.com












Evolução do IBrx-50. Fonte: advfn.com


No próximo post, analisarei o BOVV11. Até a próxima!

Forte Abraço!






quarta-feira, 25 de setembro de 2019

Mais sobre ETFs (1) - Resenha do "The little book of Common sense Investing"


Saudações, amigos.

Estou retomando aqui no blog a discussão sobre ETF, porque ainda há coisas que me incomodam sobre o assunto... Uma vez que este blog também me serve como um diário de meus pensamentos econômicos e financeiros, quero deixar aqui registrados e claros os fundamentos da discussão tal qual eu os entendo, e conforme os estudei.
Não acho que possamos simplesmente dispensar qualquer assunto relativo a finanças (e na verdade, a praticamente qualquer área da vida) com a frase "isso é besteira, deixa para lá" ou "tal coisa é lixo, então dane-se": acho importante entendermos os fundamentos por trás das teorias para então, com o julgamento racional, tomarmos nossas próprias decisões, ao invés de seguir cegamente a opinião de fulano ou beltrano.

Esta semana terminei de ler um livro do John Bogle, aquele que já há alguns anos foi recomendado pelo Viver de Renda - "The Little Book of Common Sense Investing" (O pequeno sobre investimentos de senso comum), e vou começar esta série  fazendo aqui uma breve resenha do livro.




Aliás,  não sei se alguém da blogosfera chegou a comentar, mas, infelizmente, John Bogle morreu em janeiro deste ano. Fiquei sabendo disso enquanto fazia minha pesquisa para este post. Que Deus guarde sua alma.

Antes de mais nada, é importante dizer que tanto a vida profissional quanto a vida acadêmica de John Bogle gravitaram em torno de fundos de índice. Na verdade, ele foi o autor da ideia, o pai dos fundos de índice.. Sendo assim, é óbvio que a opinião do autor é bastante enviesada neste sentido e, por isso, recomendo cautela e um pouco de ceticismo a todos os que lerem o livro.
Dito isto, vamos à resenha:

A filosofia de investimentos de John Bogle pode ser resumida nas seguintes  afirmações:

1) Mantenha os custos baixos (taxa de administração, de carregamento, de performance,etc. Busque sempre os menores custos)
2) Mantenha o turnover baixo (ou seja, gire muito pouco o seu patrimônio, não  fique toda hora trocando o dinheiro de lugar, pulando de um ativo para outro)
3) Stay the course (mantenha-se no rumo - ou seja, não mude toda hora a sua estratégia - pense bem nela e mantenha o curso)
4) Mantenha tudo simples (ou seja, não é necessário - e é até prejudicial - usar métodos complicados de investimento, como métodos quantitativos, análises econométricas, fazer operações complicadas na bolsa, aplicar em produtos financeiros ultra sofisticados, etc. No próprio livro há a citação de um blogueiro ["Dividend Growth Investor"] que define o "Keep it Simple" como sendo "tenha ações e alguns títulos")

- O livro em si é um tanto repetitivo - em alguns pontos chega a lembrar os livros do Kyosaki, por conta da repetição de ideias... mas isso até é compreensível por 3 motivos: 1º - Bogle quer "martelar" a ideia na cabeça dos seus leitores, e uma maneira de fazer isso é através da repetição; 2º - conforme eu escrevi acima, a ideia por trás do livro é simples e pode ser resumida em 4 parágrafos, mas Bogle quis escrever um livro, então precisou encher linguiça; e 3º - por mais simples que sejam as ideias, é  necessário  demonstra-las com fatos e números para que tenham mais credibilidade;

- Nos capítulos iniciais Bogle demonstra várias vezes a superioridade de um fundo de índice (que ele denomina "TIF" - Traditional Index Funds) perante qualquer fundo de investimento ativo (fundos ativos são aqueles que tentam superar seus benchmarks, ou seja, o gestor fica fazendo operações na bolsa para superar, por exemplo, o Ibovespa) , e explica que isso se dá principalmente por causa dos custos: os fundos ativos, em sua tentativa de superar seus benchmarks, acabam girando demais seu patrimônio, incorrendo em muitos gastos com corretagens, emolumentos, taxas diversas da B3, etc. Um fundo passivo, por outro lado, como apenas tenta seguir seu benchmark, faz muito menos operações e isso gera custos menores.  Outra explicação é a "Regressão à Média", um termo estatístico que pode ser traduzido como "tudo o que sobe eventualmente desce" - com isso Bogle quer dizer que os fundos com melhor desempenho passado teriam maior propensão a ter rendimentos inferiores no futuro (e isso faz sentido, porque quanto mais um fundo cresce e maior se torna seu patrimônio, mais difícil se torna ter um retorno alto em termos percentuais, e retornos em percentuais declinantes tendem a ativar o comportamento de manada que faz com que a muitos dos investidores queiram sacar seu dinheiro do fundo);

- Outra explicação para o desempenho dos fundos ativos em geral ser pior do que o dos passivos é que o gestor que tenta superar um benchmark se vê obrigado a fazer investimentos mais arriscados, na esperança de acertar "na mosca" e faturar alto em uma tacada, mas o que acontece na maioria das vezes é justamente o contrário;

- Outro mérito do livro é apontar para os custos fiscais dos fundos de investimento. Isso é outro ponto fraco dos fundos ativos (e de qualquer investidor que fique girando demais seu patrimônio): quando o gestor fica "treidando", lucrando alguns centavos por ação em cada operação, parte deste lucro irá para o governo. Outra parte vai para alimentar as terríveis "taxas de performance" e o que sobrar, só aí irá para o patrimônio do investidor. Os fundos passivos, por outro lado, como só estão preocupados em acompanhar seu índice-referência, tendem a não girar tanto o patrimônio, o que significa menos custos com impostos.

-É interessante notar, no capítulo 15, que Bogle fala especificamente dos ETF (Exchange Traded Funds) e os define como sendo uma versão "mais agressiva" dos TIF, o que me leva a crer que aqui no BR não há TIFs na concepção de Bogle.

- Outra característica de alguns dos ETF, citada pelo autor, é a existência de um "tema", uma característica de todas as ações que o compõe e que norteia as aquisições do fundo (ex: um ETF que só investe em ações que tenham dividend yield superir a X%; ou que só invista em ações de empresas de tecnologia, ou só de empresas exportadoras, etc. No BR tem alguns ETF assim: por exemplo, aqui existe o ECOO11, que investe em empresas que adotam "práticas transparentes de eficiência de emissão de gases causadores do efeito estufa", seja lá o que isso signifique, e baseia sua alocação de ativos em "níveis de emissão de gases do efeito estufa") na visão de Bogle (e eu concordo com ele), se o fundo é baseado em um "tema", então ele não está diversificando de verdade, o que torna esta estratégia ineficiente, do ponto de vista da dicotomia Risco X Retorno. 

- Nos capítulos 18 e 19, o autor fala sobre alocação de ativos, nos quais ele defende a estratégia simples, enunciada por Benjamin Graham, de diversificar entre ações e títulos (públicos e privados), de modo que a proporção investida em ações sempre fique entre 25% e 75% do portfolio do investidor. Bogle defende que quanto maior for a expectativa de vida do investidor no momento do investimento, maior deverá ser a alocação em ações. Bogle até mesmo defende que um investidor jovem, no início de sua carreira profissional, fique alocado 100% em ações em seus primeiros anos de investimento , e também não acha uma boa ideia que mesmo um idoso tenha 0% em ações (ele acha isso arriscado) - ele defende que, idealmente, a renda do investidor idoso e aposentado seja proveniente dos dividendos das ações e da própria seguridade social (o nosso INSS), e não da venda dos ativos do portfolio.

- Por fim, uma lição muito importante: em diversos momentos do livro, o autor relembra que todas as estratégias de investimento têm uma falha em comum: todas, em maior ou menor grau, levam em consideração as rentabilidades passadas (das ações, do mercado como um todo, dos títulos públicos, etc.), o que nunca é garantia de rentabilidade futura, e é por isso que Bogle defende a ideia de que "não adianta ficar procurando a agulha no palheiro: compre o palheiro inteiro, que a agulha estará lá"; esta ideia sintetiza o que seria um TIF ideal.

Após ter lido o livro, cheguei às seguintes conclusões:

1) Na minha opinião, dentre os ETF negociados na B3, a princípio os que mais se aproximam dos critérios de investimento defendidos por John Bogle são o PIBB11, BRAX11 e BOVA11. No próximo artigo desta série (que já está no forno), falarei um pouco mais sobre eles.
2) Os fundos ativos só continuam existindo porque a maioria das pessoas têm preguiça de pensar e entender o que são coisas como taxa de administração, taxa de carregamento e taxa de performance, e seus efeitos perversos sobre o patrimônio, e também porque o lobby do setor financeiro no mundo todo é poderoso;
3) Fundos de investimentos, principalmente os ativos, são máquinas de fazer dinheiro... para seus gestores, para os bancos e corretoras, e para o governo, e tudo isso às custas do patrimônio dos cotistas;
4) O único tipo de fundo que eu acho "aceitável" como investimento são os aqueles definidos por Bogle como "TIF" (Traditional Index Fund): gerenciamento passivo, custos bem baixos (não só a taxa de administração, mas também os custos internos das operações do fundo), diversificação grande que tente replicar o índice "do mercado" (de preferência, fundos que tenham literalmente ações de todas as empresas negociadas na bolsa, ou pelo menos de muitas empresas, sem concentrar em setores específicos);
5) Em que pese o item 4, ainda há de se levar em conta o fardo da taxa de administração e, no caso brasileiro, o absurdo imposto de 15% sobre o lucro quando da venda das cotas  (Porém, pensando por outro lado, suponha que você consiga viver de renda, vendendo um pouco das cotas desses fundos periodicamente para se sustentar: se você é assalariado, você provavelmente paga entre  7,5% e 27,5% de IRPF. Mas, se seu sustento viesse não de um salário, mas das vendas das cotas de ETFs que você acumulou ao longo da vida, você acabaria pagando menos IR do que paga hoje, caso hoje você esteja na metade superior das alíquotas do IRPF... ).

Forte abraço, e até a próxima parte!