sábado, 4 de abril de 2020

Os maus hábitos do comércio


Tem coisas que vejo acontecendo em lojas, restaurantes, lanchonetes, enfim, nos "comércios" em geral, que me fazem pensar: "porque raios este cara resolveu abrir uma loja se ele age dessa maneira??"
Antes, um aviso: eu sei bem que aquela famosa frase "o cliente sempre tem razão " é mentirosa, e que existem muitas demandas estúpidas de pessoas estúpidas que geram brigas desnecessárias e processos judiciais imbecis, mas há casos em que os comerciantes, seus funcionários  e autônomos em geral, realmente abusam da boa fé e da paciência dos clientes.
Vejam, meus leitores, se concordam comigo e se já passaram por situações semelhantes. 

Segue agora a lista dos maus hábitos do "comércio":


1) Ignorar totalmente o cliente quando ele entra na loja >> esse acontece direto comigo: eu entro na loja ou vou pra frente de um balcão da lanchonete e o funcionário me ignora, fica mexendo no celular, ou fazendo tarefas burocráticas, contando dinheiro, etc. E fica assim, sem me atender, por um bom tempo. Tem vezes em que, quando ele finalmente se toca que havia um cliente esperando, eu vou embora, só de raiva.



Foto stock de Vendedor ruim tentando convencer a um (editar agora ...

2) incomodar demais o cliente >> este é o extremo oposto do caso anterior: quando tem aquele batalhão de vendedores encostados perto da entrada da loja (acontece muito nas de eletrodomésticos) eu não tenho nem vontade de entrar e sequer de olhar pra dentro da loja, porque sinto que vou ser constrangido a comprar alguma coisa caso ouse entrar (o constrangimento para comprar eu vejo como sendo mais comum em lojas de roupa pequenas e médias, que não sejam de grandes cadeias). Acho que tem que haver um equilíbrio entre o vendedor relapso e desligado e o vendedor hiper-atencioso e irritante.


Vendedor irritante foto de stock. Imagem de casa, vendedor - 3369540

3) Achar que está fazendo um favor ao atender o cliente > essa eu vejo mais comum entre autônomos como pedreiros, encanadores, eletricistas, etc. Você pega o número de um deles por indicação de algum amigo que já usou o serviço, e quando liga, o cara te trata não como cliente, mas como alguém que está enchendo o saco, e parece que faz de tudo para não te atender e não prestar o serviço. Me lembro de um caso marcante em que tentei contratar um eletricista que  parecia um bandido falando pelo telefone: ao invés de agir como profissional e dizer coisas como  "eletricista João, boa tarde" ou "José serviços , bom dia", ele atendia dizendo "Alô!!!", de maneira bem agressiva, e respondia tudo de maneira ríspida.   Quando eu perguntava se era o eletricista fulano, ele ficava dando respostas evasivas e tive que perguntar mais duas vezes até ele responder diretamente que era ele mesmo... por que será?? Estava se escondendo de alguém? De um agiota? Do advogado da ex mulher? Obviamente não contratei. Há N outras situações, geralmente envolvendo balconistas mau humorados, vendedores que não têm paciência de explicar o produto, médicos que nem olham para o paciente, etc. 



4) Não respeitar a fila e atender àqueles que gritam mais alto >> muito comum em lanchonetes onde você paga no caixa e vai pegar o produto em outro balcão, onde muitas vezes não tem fila, e vence quem grita mais alto. A falha deste modelo de negócios é: considerando que geralmente os salgados têm preços diferentes (normalmente tem os mais basicões como joelhos, folheados, etc. e os mais "elaborados" como hambúrguer de forno, que são mais caros), o que fazer quando o cliente paga pelo mais caro, porque na hora de pagar havia no balcão, mas perde no grito para outro cliente e justamente aquele salgado mais caro que ele pediu acaba, porque outros clientes passaram sua frente? Vai deixar o cliente esperando outra fornada? Vai devolver o dinheiro?



5) Fazer serviços de má vontade, principalmente os serviços mais simples > o maior exemplo que consigo pensar pra isso é um caso que aconteceu comigo: perto de onde moro há uma marcenaria, que faz móveis por encomenda e consertos em geral. Certa vez, improvisando uma prateleira para a minha casa, precisei serrar uma tábua em determinadas medidas e seria muito mais fácil usar uma serra circular de bancada, coisa que não tenho em casa (tenho serrote e serra de arco, que demorariam muito para fazer o serviço necessário) então levei na marcenaria para pedir que serrassem por lá. O marceneiro me atendeu com tanta má vontade que quase desisti, mas acabei fazendo, paguei os 5 reais que ele pediu e fui embora, e nunca mais voltei. Entendam: eu não pedi um favor para ele, eu estava disposto a pagar até mesmo 10 reais para ele simplesmente pegar a tábua e serrar na medida certa na serra de bancada, coisa que um marceneiro demora um minuto para fazer com uma serra de bancada, mas ele fez isso com tanta má  vontade que parecia até que eu tinha pedido para que ele que pagasse pelo serviço ou fizesse de graça. Outro exemplo são os taxistas que reclamam de corridas curtas > eu ficaria muito mas muito feliz, se fosse taxista e só pegasse corridas curtas, porque ganharia muito dinheiro com cada bandeirada. Dependendo da cidade, a bandeirada chega a R$5,00 ~ R$ 6,00, ou seja, com apenas duas bandeiradas eu já conseguiria pagar um almoço, o que está de bom tamanho, enquanto que corridas longas me deixariam preso a poucas bandeiradas por dia.



6) demorar uma eternidade para dar orçamentos >> como que uma empresa não tem uma lista dos preços de seus produtos? Como que um marceneiro não tem noção nem do valor base que pode ser cobrado por um móvel "padrão" como uma mesa de 4 lugares? Tem empresas que eu sinceramente não sei como sobrevivem, pois parece que não sabem nem os custos diretos de suas atividades principais... 



7) não colocar preços nos produtos > não sei se é pra economizar com etiquetas e com o HH do funcionário que vai colocar os preços (economia pífia, a meu ver), ou se é pra tentar enganar o cliente, mas se for este o caso, é um golpe muito baixo. Vejo acontecer em lanchonetes, em alguns restaurantes, e muito em farmácias e supermercados. Tem mercados que ao invés de etiquetas nas prateleiras possuem leitores de códigos de barras, mas observo que geralmente estes leitores ficam meio escondidos e muitas vezes estão quebrados. Desconfio que seja de propósito...

ACICG - Exponha Melhor os Produtos em Seu Comércio - ACICG

8) Deixar a loja bagunçada, com produtos encaixotados bloqueando a passagem de clientes e bloqueando o acesso a outros produtos, e também deixar os produtos fora das prateleiras certas, dificultando encontrar o preço (quando tem, vide o item acima)... Tem uma loja famosa com ações listadas na bolsa que tem o péssimo hábito de deixar suas unidades bagunçadas, o que dificulta na hora de encontrar os produtos...

Six Design Mistakes to Avoid in Your Store

9) Loja grande com poucos caixas atendendo >> esse acontece principalmente em supermercados, onde o dono manda instalar 30 caixas, mas geralmente deixa apenas 5 funcionando em dias normais, e em dias de pico (natal, páscoa, etc.) ele alivia para os clientes e abre 8... Sinceramente, eu não entendo porque os supermercados têm tantos caixas se nunca abrem todos, mesmo quando a fila já está batendo na outra parede... Fico imaginando quantos clientes são perdidos por dia, que simplesmente desistem quando vêem as filas imensas e preferem pagar mais caro nos mercadinhos de bairro... 
Promoção em rede de supermercados causa filas e tumulto na ...


Por enquanto são estas as coisas que me lembro como sendo as mais irritantes quando vou a uma loja ou contratar um serviço... Caso algum leitor lembre de mais alguma, deixe nos comentários. Caso haja algum leitor que seja dono de loja ou pense em ter uma loja algum dia, não leve as críticas para o lado pessoal: não escrevi este texto para esculachar os lojistas, autônomos e comerciantes em geral, mas sim para apontar falhas que observo corriqueiramente e que, caso corrigidas, tornarão o atendimento ao cliente muito melhor e fatalmente aumentarão o faturamento do seu negócio. 

Forte abraço, fiquem com Deus! 

segunda-feira, 23 de março de 2020

Lições da Crise

Saudações confrades,

Que situação estamos vivendo, não é mesmo? 
Um termo antes meio restrito ao mundo das finanças e da estatística, "cisne negro", começa a se popularizar, e vejo pessoas diante da pandemia se polarizando entre os histéricos e os totalmente indiferentes. Como sempre, o ideal está no equilíbrio: não podemos ficar apavorados e agir como se o mundo fosse acabar, mas também não podemos ignorar o bom senso e as precauções recomendadas pelas autoridades sanitárias. Temos que continuar vivendo tão normalmente quanto a situação permitir, continuar trabalhando, estudando, cuidando da saúde, fazendo exercícios como pudermos, e seguir as recomendações de higiene, distanciamento social, evitar aglomerações, sair de casa o mínimo possível, não expor parentes idosos, etc.

Deus permite que as crises aconteçam para ajudar a humanidade a desenvolver sua inteligência, bem como para estimular a  prática da caridade, da humildade, para exercitar e testar a fé das pessoas, dentre outras coisas. 

Sendo assim, temos que extrair desta crise as lições necessárias para sairmos mais fortes, mais capazes, mais preparados, e evoluirmos, em diversos aspectos da vida. 

Agora, falando apenas do lado profissional / financeiro / econômico, que é o assunto deste blog, julgo que as lições a serem aprendidas pelas pessoas com os acontecimentos atuais são as seguintes:

1 - a importância da reserva de emergência com liquidez diária,  >> creio que os autônomos que, devido à natureza de suas atividades, não possam prestar serviços on-line, são dos que mais vão sentir com a falta de clientes e a consequente falta de renda. Além deles, tenho certeza que há muitos empregados sendo mandados embora ou que ainda serão por causa da queda do consumo. Sendo assim, aqueles que tiverem conseguido constituir uma boa reserva de emergência serão capazes de atravessar este período com mais tranquilidade. Mas em épocas assim, uma vez que a economia está toda interligada, todos terão que se virar de uma forma ou de outra, uns mais e outros menos;

2 - a importância da frugalidade >> aqui valem dois raciocínios: como os supermercados e demais serviços considerados essenciais não estão parando de funcionar, não é necessário encher o carrinho de compras para se preparar pro apocalipse, então devemos pegar apenas o necessário, como em épocas normais, para evitar pressões desnecessárias nas cadeias de suprimentos e evitar que produtos essenciais faltem nas prateleiras, o que poderia desencadear uma onda de pânico e histeria que provocaria problemas ainda mais sérios.  Principalmente para aqueles que estão com pouca ou nenhuma renda (os autônomos que não podem trabalhar remotamente, acima citados), ser frugal nesta época é importante para prolongar a duração das reservas financeiras constituídas, e para quem está recebendo salário normalmente, também é bom ser frugal nestas épocas de exceção para reforçar as reservas (ou iniciá-las, com urgência) e também para sermos capazes de ajudar aqueles que estiverem necessitados (os desempregados, os moradores de rua, etc);

3 - a importância de ter mais de uma fonte de renda >> eu acho que isso se tornará cada vez mais necessário, mesmo em épocas normais no futuro, e em situações de crise em que vários empregados são dispensados, empresas fecham, etc. ter outras fontes de renda se torna fundamental. Claro que é impossível ter segurança total (por exemplo, você pode ser mandado embora do emprego e seu pequeno negócio pode falir, nada realmente impede que isso aconteça), mas isso não tira a importância de diminuir seus riscos profissionais. Acho importante também que se tenha pelo menos duas fontes de renda provenientes de trabalho, porque se ficarmos "apenas" com o binômio "salário do emprego + dividendos / aluguéis de FII", embora já estejamos muito melhores do que a vasta maioria da população brasileira (quiçá do mundo), ainda assim não estaremos tão seguros, porque em grandes crises econômicas as empresas simplesmente pararão de pagar dividendos, e os FIIs podem acabar não distribuindo aluguéis (por vacância ou inadimplência dos inquilinos, que também são consequências de crises econômicas, ou [acho] por decisão do gestor, que poderia optar por constituir reservas com os aluguéis ao invés de repassá-los aos cotistas >> me corrijam se eu estiver errado e um gestor de FII não puder fazer isso, eu ainda não invisto em FII, então não estudei isso a fundo). Devemos tentar ser úteis à sociedade de várias maneiras, não só para manter nossa empregabilidade, mas também para ajudar os outros. Podemos chamar isto de "reserva de habilidades e competências", e falei sobre o assunto neste outro artigo.

4- a importância de manter os custos fixos baixos, mas mantendo o bom senso >> devemos buscar a melhor relação custo benefício: não acho muito inteligente pagar um aluguel baixíssimo morando a horas de distância do trabalho ou de comércio e serviços essenciais. De qualquer maneira, ter baixos custos fixos de vida potencializa a capacidade de aporte e constituição de patrimônio e faz muita diferença em momentos como este que vivemos. Custos fixos baixos nos permitem suportar melhor eventuais diminuições em nossas rendas, seja por perda de clientes, diminuição de comissões, não distribuição de lucros, etc. 

E o que as empresas e organizações em geral, públicas e privadas, podem tirar de aprendizado nesta crise? Julgo que sejam estas:

1 - Muitas funções hoje em dia podem ser feitas via home office, o que diminui custos (transporte de funcionários, materiais de escritório, luz, água, etc.) e permite alocações mais eficientes de recursos, o que permite diminuir preços e/ou produzir mais, o que é bom para todos. A cultura presencialista do Brasil até hoje tem inibido bastante a proliferação do trabalho remoto. O COVID-19 está forçando as organizações a adotarem esta prática na marra, e isso pode se manter depois da crise - espero que sim; e

2 - É importante ter um planejamento de crise: muitas organizações foram pegas de surpresa pela pandemia - claro que não é algo que se possa prever com facilidade, mas é incrível como muitas empresas, prefeituras, governos de estado, etc. demonstraram não ter planos de contingência e tiveram que se virar do dia para a noite para  se organizar e continuar funcionando, mesmo algumas coisas essenciais que não poderiam nunca parar. Espero que depois dessa todo lugar mantenha um plano "B" de operações. Acho que no mínimo um planejamento de revezar turnos e escalas de trabalho em situações emergenciais todo lugar deveria ter, seja público ou privado, nem que esteja "escrito num papel de pão"

Desejo boa sorte a meus leitores e a todos da finansfera! Que atravessemos esta época de dificuldades com fé e esperança no futuro. Como já escrevi aqui antes, é importante nos prepararmos para o inverno, porque ele sempre vem, isto nos é ensinado desde os tempos bíblicos e também pelo sábio Esopo. Mas o inverno também passa.
Acredito que nenhuma geração viveu neste mundo sem experimentar algum tipo de crise. Creio que por conta da natureza do mundo e dos desígnios de Deus, que quer sempre que a humanidade cresça e evolua, as crises são inevitáveis, fazem parte da vida.

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Forte Abraço!

domingo, 8 de março de 2020

Manual de sobrevivência no trabalho, ou "As Leis dos Escritórios"

Saudações confrades.

Vou escrever aqui uma coletânea  de pensamentos que cunhei nestes anos trabalhando (em empregos que nunca realmente gostei, infelizmente, mas fazer o quê... pelo menos pagam minhas contas - ruim com eles e pior sem eles, como dizem) e que acredito que podem servir de guia para ajudar o brasileiro médio a suportar um pouco melhor a rotina e as agruras no emprego e contribuir para preservar sua saúde  mental. Tudo o que eu escrevi aqui eu acredito que seja aplicável a praticamente qualquer empresa e (acho) também ao serviço público. O tom do post às vezes é meio pessimista, às vezes é jocoso, mas essa é a realidade,  e quanto mais você souber a respeito dela, quanto mais estiver preparado, menos irá sentir, menos irá se decepcionar com o mundo corporativo. (Além disso, pode servir como motivação para que você busque a Tranquilidade Financeira (TF) ou passe a adotar a filosofia FIRE (aposentadoria precoce), o que será muito bom para você, financeiramente falando) - aliás, com a tendência de automatização das coisas, fim dos empregos tradicionais, etc. a meu ver a melhor coisa a se fazer mesmo é adotar este tipo de filosofia em relação às finanças pessoais e buscar acumular o maior patrimônio e renda passiva possíveis.

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Dito isto, vamos ao nosso pequeno manual:

1) Aceite que os melhores cargos e vagas já  foram tomados. Aquele emprego dos sonhos em que você  tem pouca responsabilidade ou a responsabilidade e os horários são relativamente mais tranquilos  já  tem dono. Esta  é a realidade. Você  entrou numa posição  que estava vaga, e ela vagou por algum motivo, geralmente porque o ocupante anterior foi demitido ou pediu demissão. Lógico que há exceções e você pode acabar dando sorte, mas na maioria das vezes, você fica com o que sobra. Um exemplo clássico disso é o contador que sonha em ocupar uma vaga no setor de planejamento ou  de orçamento (onde as responsabilidades são bem mais fluidas e difusas, ou seja, se der algo errado é difícil rastrear quem errou e apurar responsabilidades), mas acaba indo trabalhar processando folhas de pagamento ou na parte tributária (onde seus erros sempre serão atribuídos a você mesmo, e a carga de trabalho é mais pesada). Outro exemplo é o administrador que almeja trabalhar no RH (vaga geralmente reservada para psicólogas, pedagogas, ou conhecidos de algum chefão da empresa, e que não costuma envolver passar noites em claro, ou passar por grandes preocupações relativas ao trabalho), mas acaba indo pro controle de estoque, setor de compras, ou qualquer outro cargo parecido (onde o trabalho é mais pesado e envolve fazer balanços, passar noites em claro apurando saldos, perder cabelos por causa dos problemas e preocupações que surgem todos os dias, etc.) - acho que no mundo do funcionalismo público deva ser assim também, principalmente agora com a escassez de concursos: os funcionários antigos de determinado órgão, por exemplo, farão uma "dança das cadeiras" e os novatos que porventura entrem pelo próximo concurso ficarão com as piores funções, as atividades mais chatas / arriscadas / difíceis e com os piores locais de trabalho;
(mas não pensem que é impossível alcançar posições melhores do que as que temos hoje... apenas é difícil)
Isso não existe para os mortais

2) Em complemento ao item anterior, aceite que existe em toda empresa um sistema de castas implícito (e às vezes bastante explícito). O exemplo mais gritante: se você entrou na empresa pelo site de vagas de emprego, dificilmente você alcançará um cargo muito alto e provavelmente trabalhará como um peão até ser demitido por causa do idade ou por causa do salário "alto demais". Se você entrou pelo programa de trainee, você tem mais chances de subir, mas será esperado muito mais de você (ex: trabalhar aos sábados, domingos e feriados, atender ligações de madrugada, etc.), e às vezes só o fato de você ter passado por determinada função te deixa "marcado" como alguém que "não tem perfil para ser do cargo XYZ" porque tal função é exclusiva de uma casta mais baixa, e já há muito tempo é normal que os cargos mais tops não sejam mais acessíveis ao pessoal da empresa - são preenchidos por "executivos profissionais", CEO profissionais, etc. - às vezes chamam isso de "outsourcing": chamam um ex-CEO de outra empresa para ser o CEO da sua, ao invés de colocar um cara que já é um dos diretores - e às vezes isso chega até nos cargos medianos, simplesmente contratam alguém de fora ao invés de promover alguém da casa a gerente. Às vezes quando acontece alguma anomalia, alinhamento dos astros, ou coisa parecida e você acaba indo trabalhar com pessoas de uma "casta" diferente da sua, prepara-se para enfrentar resistência, má-vontade e até mesmo tentativas de sabotagem. A meu ver, em qualquer organização, seja privada ou pública, há basicamente duas grandes castas: as pessoas que planejam e dão as ideias (e geralmente não têm que lidar diretamente com as consequências destas ideias) e as pessoas que efetivamente põe a mão na massa executando o que foi planejado (e lidam diretamente com as consequências das ideias dadas pelo primeiro grupo) - mudar de "casta" não é impossível, mas é muito difícil; 

3) Avaliações de desempenho são apenas "pro forma", e só servem para justificar uma demissão, nunca para motivar promoções. Mesmo que seu avaliador escreva (ou diga que vai escrever) que está te recomendando para o cargo X, Y ou Z, provavelmente não dará em nada, pois quem decide isso geralmente não é quem está te avaliando, e conforme o item 1, o tal cargo X, melhor que o seu cargo atual, já tem dono, mesmo que esteja temporariamente vago (E caso vocês se tornem chefes, nem que seja de um grupo pequeno, e tenham que avaliar seu pessoal, saibam que é uma tarefa extremamente ingrata);

4) Na maioria das vezes, aquele cara que realmente trabalha, sabe de tudo ou quase tudo de sua função e ainda ajuda os colegas, não é promovido. O promovido é aquele cara mediano que passa mais tempo conversando e menos trabalhando, mas é bom de lábia, ou fez amizade com algum chefe, ou é o mais falastrão no happy hour, ou é "amigo de bar" de algum gerente (por alguma razão a maioria das pessoas pensa que um pré-requisito para ser líder é ser falastrão);

5) Por mais que os livros de auto-ajuda, coachs, artigos de psicologia, etc. digam que o funcionário às vezes tem que saber dizer "não" para ter uma vida profissional saudável e mais produtiva, saiba que se você recusar qualquer coisa (inclusive, às vezes, recusar ir almoçar com "o pessoal da equipe") sua chances de ficar "queimado" são altíssimas, e você será incluído na "lista negra" do chefe. Aliás, este é um excelente teste para saber qual é a sua casta dentro da empresa: se você recusar alguma coisa importante e não acontecer nada de grave com você dentro de um ano, então parabéns, você não é um "impuro"- e talvez seja até promovido. Esta lei dos escritórios é bastante capciosa, entretanto: ao mesmo tempo que você fica queimado se recusar algumas coisas, você também pode acabar sendo visto como um otário se disser sim para absolutamente tudo o que te empurrarem no trabalho e será tratado como um capacho... ou seja, você tem que saber dosar os sims e os nãos, e esta habilidade só se adquire na prática;

6) Essas coisas de "missão da empresa", "valores" e "visão" geralmente são mentiras. A missão óbvia de toda empresa é ganhar dinheiro (não entendo porque simplesmente dizer a verdade não é aceitável...), os "valores" são um conjunto genérico de palavras bonitinhas que se repetem em toda empresa, mas que geralmente são ignorados no dia-a-dia, principalmente aqueles relativos ao pessoal ("valorizamos o nosso pessoal", "nosso pessoal vem em primeiro lugar" e outras mentiras), e o mesmo se aplica à "visão". Estes termos servem para os "gurus" da administração venderem livros e cursos, e para acadêmicos citarem em seus trabalhos, palestrantes venderem palestras em "feiras de empreendedorismo" e nada mais;

7) Em complemento ao item 3, não importa se em toda avaliação você tira a nota máxima, ou quase máxima, porque no primeiro vacilo sua imagem será manchada, às vezes irremediavelmente. Um dia você tem um problema e chega atrasado, e perde o início de uma reunião importante, sendo que sua avaliação sempre tinha sido muito boa. Na próxima avaliação, não vão pensar "esse é o fulano, que é bem avaliado, bateu as metas em todos os semestres, foi funcionário do mês em janeiro, etc. etc." Vão pensar "este é o fulano, que  chegou atrasado naquela reunião com o diretor... não posso avaliar bem alguém que não tem compromisso com o horário" .

8) Iniciativa demais pode te matar. É incrível como que uma das frases mais clichê que se escuta nos corredores das empresas é a famosa "você precisa ter iniciativa". Porém, se alguma coisa que você fizer tomando a iniciativa desagradar o chefe, ele vai esquecer completamente da recomendação que te deu. Uma boa ideia é sempre avisar antes de fazer qualquer coisa, mandar por e-mail para ter o registro por escrito, etc. O melhor dos mundos é quando o chefe te manda uma ordem por e-mail. E seja moderado na iniciativa.

9) Chefes têm  memória  curta  quando suas ordens levam a consequências ruins. Eu já levei esporro algumas vezes por causa disso: eu fazia exatamente o que o gerente mandava fazer, e quando o resultado demorava a aparecer ou era muito diferente do esperado, ele fingia que não tinha mandado fazer aquilo. Reforçando o que escrevi acima, o ideal é ter sempre as ordens por escrito. Uma variante dessa regra é que não importa o quanto você avise com antecedência que determinada situação ruim irá acontecer (ex: a empresa ficar no vermelho, o produto não vender dentro do esperado, uma entrega atrasar, etc.) parece que você nunca avisou o suficiente. Para evitar problemas, nunca avise nada "de boca", registre tudo por e-mail, memorandos internos, etc. para sempre ter como provar que não foi por falta de aviso que determinada coisa deu errado.

10) Nunca diga para um colega a sua verdadeira opinião sobre nenhuma pessoa ou sobre nenhum assunto, a não ser que seja boa. Há muitos puxadores de tapete nos ambientes de trabalho, e há olhos e ouvidos por todo lugar, e uma frase retirada de contexto pode resultar numa demissão e talvez até mesmo num processo civil. Adote posturas neutras, na pior das hipóteses. Não converse sobre política, religião, etc. a não ser que seja para falar sobre coisas boas, e mesmo assim é melhor tomar cuidado.

11) Mesmo que você não tenha grandes ambições de carreira, você precisa fingir que tem. Por uma razão que, sinceramente, eu não entendo, é inaceitável numa empresa você afirmar que não tem a intenção de um dia ser superintendente, gerente, diretor, ou, conforme o caso, de trabalhar na filial / matriz que fica no exterior. Você meio que é obrigado a ter estes cargos como objetivo principal de vida, e nenhum chefe vai realmente te entender se você  cair na asneira de dizer que não sonha com estas coisas, e como consequência você será mal avaliado e muito cotado para ser demitido no próximo corte de custos, pois aos olhos da chefia "você não tem comprometimento, não veste a camisa da empresa".

12) Evite falar de projetos pessoais aos colegas. Por alguma razão, muitas pessoas tendem a desejar o mal daqueles que tentam melhorar de vida e que fazem coisas que destoam do comportamento de manada, e isso se aplica principalmente ao desejo pela independência financeira. Não conte para ninguém que você junta dinheiro para algum dia abrir um negócio, ou para se aposentar, ou para procurar um emprego mais tranquilo, pois por algum motivo misterioso buscar uma vida mais tranquila no lado profissional é inaceitável para algumas pessoas e é um imenso tabu nas empresas, e também faz os chefes pensarem que você "não tem comprometimento". Assim, colegas mal intencionados podem usar estas informações para te prejudicar em avaliações.

Resultado de imagem para não conte para ninguém dos seus planos

13) Se todo mundo está fazendo uma vaquinha para comprar um presente de aniversário para algum chefe, você tem que participar, mesmo que não goste dele e/ou que ele seja um babaca. Eu considero os R$10 ou R$15 que geralmente tenho que pagar numa vaquinha dessas como um preço que pago para não me encherem o saco, praticamente uma apólice de seguro, e não um presente. É melhor pensar assim e desembolsar essa grana do que depois alguém fazer fofoca dizendo que você foi o único que não pagou e você ficar mal visto. Economizar estes 15 reais é o barato que sai caro. Só sou a favor de recusar esta "contribuição" quando o valor for muito alto, tipo 50, 100 reais (nunca vi acontecendo, mas já ouvi histórias);

14) Se todo mundo está fazendo um bolão da mega-sena, você também tem que participar, mesmo que acredite que a mega-sena ou qualquer outra loteria são fraudes. Vai que o pessoal ganha, fica milionário e você foi o único que não participou? Como você vai se sentir indo pro trabalho sozinho no dia seguinte, tendo que acumular as funções de todo mundo que foi embora?

15) Não deixe de se qualificar, não pare no tempo. Saiba muito bem a sua função mas saiba também um pouco da função de outras pessoas. Saiba o máximo de informática que puder, procure aprender o máximo possível quando alguém for resolver um problema no seu computador, estude por fora. Domine o inglês e, se puder, um outro idioma. Saiba realmente usar as ferramentas que tiver no trabalho, não fique preso somente ao básico ou ao necessário à sua função;

16) Não tenha pena da empresa, pois ela não terá pena de você. As pessoas de bom coração e naturalmente altruístas tendem a se sacrificar no trabalho mais do que o normal e necessário, porque não se sentem bem em fazer coisas mal feitas, em criar problemas para outros resolverem, etc. Mas eu acho que todos devemos colocar nossas vidas em primeiro lugar e parar de sacrificar nossa saúde no trabalho, porque na grande maioria das vezes tais sacrifícios não são reconhecidos e nem mesmo notados.

Por enquanto é  isso, pessoal. Se eu lembrar de mais alguma coisa, edito este post. Se algum leitor tiver algo a acrescentar à minha lista, fique à vontade para escrever nos comentários. Críticas construtivas também são bem-vindas.

Forte abraço, fiquem com Deus!