segunda-feira, 23 de março de 2020

Lições da Crise

Saudações confrades,

Que situação estamos vivendo, não é mesmo? 
Um termo antes meio restrito ao mundo das finanças e da estatística, "cisne negro", começa a se popularizar, e vejo pessoas diante da pandemia se polarizando entre os histéricos e os totalmente indiferentes. Como sempre, o ideal está no equilíbrio: não podemos ficar apavorados e agir como se o mundo fosse acabar, mas também não podemos ignorar o bom senso e as precauções recomendadas pelas autoridades sanitárias. Temos que continuar vivendo tão normalmente quanto a situação permitir, continuar trabalhando, estudando, cuidando da saúde, fazendo exercícios como pudermos, e seguir as recomendações de higiene, distanciamento social, evitar aglomerações, sair de casa o mínimo possível, não expor parentes idosos, etc.

Deus permite que as crises aconteçam para ajudar a humanidade a desenvolver sua inteligência, bem como para estimular a  prática da caridade, da humildade, para exercitar e testar a fé das pessoas, dentre outras coisas. 

Sendo assim, temos que extrair desta crise as lições necessárias para sairmos mais fortes, mais capazes, mais preparados, e evoluirmos, em diversos aspectos da vida. 

Agora, falando apenas do lado profissional / financeiro / econômico, que é o assunto deste blog, julgo que as lições a serem aprendidas pelas pessoas com os acontecimentos atuais são as seguintes:

1 - a importância da reserva de emergência com liquidez diária,  >> creio que os autônomos que, devido à natureza de suas atividades, não possam prestar serviços on-line, são dos que mais vão sentir com a falta de clientes e a consequente falta de renda. Além deles, tenho certeza que há muitos empregados sendo mandados embora ou que ainda serão por causa da queda do consumo. Sendo assim, aqueles que tiverem conseguido constituir uma boa reserva de emergência serão capazes de atravessar este período com mais tranquilidade. Mas em épocas assim, uma vez que a economia está toda interligada, todos terão que se virar de uma forma ou de outra, uns mais e outros menos;

2 - a importância da frugalidade >> aqui valem dois raciocínios: como os supermercados e demais serviços considerados essenciais não estão parando de funcionar, não é necessário encher o carrinho de compras para se preparar pro apocalipse, então devemos pegar apenas o necessário, como em épocas normais, para evitar pressões desnecessárias nas cadeias de suprimentos e evitar que produtos essenciais faltem nas prateleiras, o que poderia desencadear uma onda de pânico e histeria que provocaria problemas ainda mais sérios.  Principalmente para aqueles que estão com pouca ou nenhuma renda (os autônomos que não podem trabalhar remotamente, acima citados), ser frugal nesta época é importante para prolongar a duração das reservas financeiras constituídas, e para quem está recebendo salário normalmente, também é bom ser frugal nestas épocas de exceção para reforçar as reservas (ou iniciá-las, com urgência) e também para sermos capazes de ajudar aqueles que estiverem necessitados (os desempregados, os moradores de rua, etc);

3 - a importância de ter mais de uma fonte de renda >> eu acho que isso se tornará cada vez mais necessário, mesmo em épocas normais no futuro, e em situações de crise em que vários empregados são dispensados, empresas fecham, etc. ter outras fontes de renda se torna fundamental. Claro que é impossível ter segurança total (por exemplo, você pode ser mandado embora do emprego e seu pequeno negócio pode falir, nada realmente impede que isso aconteça), mas isso não tira a importância de diminuir seus riscos profissionais. Acho importante também que se tenha pelo menos duas fontes de renda provenientes de trabalho, porque se ficarmos "apenas" com o binômio "salário do emprego + dividendos / aluguéis de FII", embora já estejamos muito melhores do que a vasta maioria da população brasileira (quiçá do mundo), ainda assim não estaremos tão seguros, porque em grandes crises econômicas as empresas simplesmente pararão de pagar dividendos, e os FIIs podem acabar não distribuindo aluguéis (por vacância ou inadimplência dos inquilinos, que também são consequências de crises econômicas, ou [acho] por decisão do gestor, que poderia optar por constituir reservas com os aluguéis ao invés de repassá-los aos cotistas >> me corrijam se eu estiver errado e um gestor de FII não puder fazer isso, eu ainda não invisto em FII, então não estudei isso a fundo). Devemos tentar ser úteis à sociedade de várias maneiras, não só para manter nossa empregabilidade, mas também para ajudar os outros. Podemos chamar isto de "reserva de habilidades e competências", e falei sobre o assunto neste outro artigo.

4- a importância de manter os custos fixos baixos, mas mantendo o bom senso >> devemos buscar a melhor relação custo benefício: não acho muito inteligente pagar um aluguel baixíssimo morando a horas de distância do trabalho ou de comércio e serviços essenciais. De qualquer maneira, ter baixos custos fixos de vida potencializa a capacidade de aporte e constituição de patrimônio e faz muita diferença em momentos como este que vivemos. Custos fixos baixos nos permitem suportar melhor eventuais diminuições em nossas rendas, seja por perda de clientes, diminuição de comissões, não distribuição de lucros, etc. 

E o que as empresas e organizações em geral, públicas e privadas, podem tirar de aprendizado nesta crise? Julgo que sejam estas:

1 - Muitas funções hoje em dia podem ser feitas via home office, o que diminui custos (transporte de funcionários, materiais de escritório, luz, água, etc.) e permite alocações mais eficientes de recursos, o que permite diminuir preços e/ou produzir mais, o que é bom para todos. A cultura presencialista do Brasil até hoje tem inibido bastante a proliferação do trabalho remoto. O COVID-19 está forçando as organizações a adotarem esta prática na marra, e isso pode se manter depois da crise - espero que sim; e

2 - É importante ter um planejamento de crise: muitas organizações foram pegas de surpresa pela pandemia - claro que não é algo que se possa prever com facilidade, mas é incrível como muitas empresas, prefeituras, governos de estado, etc. demonstraram não ter planos de contingência e tiveram que se virar do dia para a noite para  se organizar e continuar funcionando, mesmo algumas coisas essenciais que não poderiam nunca parar. Espero que depois dessa todo lugar mantenha um plano "B" de operações. Acho que no mínimo um planejamento de revezar turnos e escalas de trabalho em situações emergenciais todo lugar deveria ter, seja público ou privado, nem que esteja "escrito num papel de pão"

Desejo boa sorte a meus leitores e a todos da finansfera! Que atravessemos esta época de dificuldades com fé e esperança no futuro. Como já escrevi aqui antes, é importante nos prepararmos para o inverno, porque ele sempre vem, isto nos é ensinado desde os tempos bíblicos e também pelo sábio Esopo. Mas o inverno também passa.
Acredito que nenhuma geração viveu neste mundo sem experimentar algum tipo de crise. Creio que por conta da natureza do mundo e dos desígnios de Deus, que quer sempre que a humanidade cresça e evolua, as crises são inevitáveis, fazem parte da vida.

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Forte Abraço!

domingo, 8 de março de 2020

Manual de sobrevivência no trabalho, ou "As Leis dos Escritórios"

Saudações confrades.

Vou escrever aqui uma coletânea  de pensamentos que cunhei nestes anos trabalhando (em empregos que nunca realmente gostei, infelizmente, mas fazer o quê... pelo menos pagam minhas contas - ruim com eles e pior sem eles, como dizem) e que acredito que podem servir de guia para ajudar o brasileiro médio a suportar um pouco melhor a rotina e as agruras no emprego e contribuir para preservar sua saúde  mental. 

Tudo o que eu escrevi aqui eu acredito que seja aplicável a praticamente qualquer empresa e (acho) também ao serviço público. 

O tom do post às vezes é meio pessimista, às vezes é jocoso, mas essa é a realidade,  e quanto mais você souber a respeito dela, quanto mais estiver preparado, menos irá sentir, menos irá se decepcionar com o mundo corporativo. (Além disso, pode servir como motivação para que você busque a Tranquilidade Financeira (TF) ou passe a adotar a filosofia FIRE (aposentadoria precoce), o que será muito bom para você, financeiramente falando) - aliás, com a tendência de automatização das coisas, fim dos empregos tradicionais, etc. a meu ver a melhor coisa a se fazer mesmo é adotar este tipo de filosofia em relação às finanças pessoais e buscar acumular o maior patrimônio e renda passiva possíveis.


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Dito isto, vamos ao nosso pequeno manual:

Cláusula Pétrea  - o mundo do trabalho, da forma como é hoje, é injusto mesmo. Aparência, lábia, e contatos contam muito mais do que inteligência,  talento e competência.  Suas virtudes no máximo diminuirão suas chances de ser demitido ou aumentarão um pouco suas chances de ser promovido (até determinado ponto). Infelizmente não há nada que possamos fazer em relação a isso. O jeito é  aceitarmos e irmos, por fora, investindo em nós mesmos para nos tornarnos cada vez mais qualificados em habilidades que gerem valor e  ir aportando parte de nossos salários todo mês para acumularmos o maior patrimônio possível para que um dia, talvez, possamos sair do ambiente tóxico que o mundo do trabalho se tornou.

1) Aceite que os melhores cargos e vagas já  foram tomados. Aquele emprego dos sonhos em que você  tem pouca responsabilidade ou a responsabilidade e os horários são relativamente mais tranquilos  já  tem dono. Esta  é a realidade. Você  entrou numa posição  que estava vaga, e ela vagou por algum motivo, geralmente porque o ocupante anterior foi demitido ou pediu demissão. Lógico que há exceções e você pode acabar dando sorte, mas na maioria das vezes, você fica com o que sobra.

Um exemplo clássico disso é o contador que sonha em ocupar uma vaga no setor de planejamento ou  de orçamento (onde as responsabilidades são bem mais fluidas e difusas, ou seja, se der algo errado é difícil rastrear quem errou e apurar responsabilidades), mas acaba indo trabalhar processando folhas de pagamento ou na parte tributária (onde seus erros sempre serão atribuídos a você mesmo, e a carga de trabalho é mais pesada). 

Outro exemplo é o administrador que almeja trabalhar no RH (vaga geralmente reservada para psicólogas, pedagogas, ou conhecidos de algum chefão da empresa, e que não costuma envolver passar noites em claro, ou passar por grandes preocupações relativas ao trabalho), mas acaba indo pro controle de estoque, setor de compras, ou qualquer outro cargo parecido (onde o trabalho é mais pesado e envolve fazer balanços, passar noites em claro apurando saldos, perder cabelos por causa dos problemas e preocupações que surgem todos os dias, etc.) - acho que no mundo do funcionalismo público deva ser assim também, principalmente agora com a escassez de concursos: os funcionários antigos de determinado órgão, por exemplo, farão uma "dança das cadeiras" e os novatos que porventura entrem pelo próximo concurso ficarão com as piores funções, as atividades mais chatas / arriscadas / difíceis e com os piores locais de trabalho;
(mas não pensem que é impossível alcançar posições melhores do que as que temos hoje... apenas é difícil)
Isso não existe para os mortais

2) Em complemento ao item anterior, aceite que existe em toda empresa um sistema de castas implícito (e às vezes bastante explícito). O exemplo mais gritante: se você entrou na empresa pelo site de vagas de emprego, dificilmente você alcançará um cargo muito alto e provavelmente trabalhará como um peão até ser demitido por causa do idade ou por causa do salário "alto demais". 

Se você entrou pelo programa de trainee, você tem mais chances de subir, mas será esperado muito mais de você (ex: trabalhar aos sábados, domingos e feriados, atender ligações de madrugada, etc.), e às vezes só o fato de você se vestir de determinada maneira, dirigir tal modelo de carro, ou ter passado por determinada função te deixa "marcado" como alguém que "não tem perfil para ser do cargo XYZ" porque tais características são exclusivas de uma casta mais baixa, e além disso já há muito tempo é normal que os cargos mais tops não sejam mais acessíveis ao pessoal da empresa - são preenchidos por "executivos profissionais", CEO profissionais, etc. - às vezes chamam isso de "outsourcing": chamam um ex-CEO de outra empresa para ser o CEO da sua, ao invés de colocar um cara que já é um dos diretores - e às vezes isso chega até nos cargos medianos, simplesmente contratam alguém de fora ao invés de promover alguém da casa a gerente. 

Às vezes quando acontece alguma anomalia, alinhamento dos astros, ou coisa parecida e você acaba indo trabalhar com pessoas de uma "casta" diferente da sua, prepara-se para enfrentar resistência, má vontade e até mesmo tentativas de sabotagem. 

A meu ver, em qualquer organização, seja privada ou pública, há basicamente duas grandes castas: as pessoas que planejam e dão as ideias (e geralmente não têm que lidar diretamente com as consequências destas ideias, principalmente com o trabalho e os riscos necessários para sua implementação) e as pessoas que efetivamente põe a mão na massa executando o que foi planejado (e lidam diretamente com as consequências das ideias dadas pelo primeiro grupo) - mudar de "casta" não é impossível, mas é muito difícil; 

3) Avaliações de desempenho são apenas "pro forma", e só servem para justificar uma demissão, nunca para motivar promoções. Mesmo que seu avaliador escreva (ou diga que vai escrever) que está te recomendando para o cargo X, Y ou Z, provavelmente não dará em nada, pois quem decide isso geralmente não é quem está te avaliando, e conforme o item 1, o tal cargo X, melhor que o seu cargo atual, já tem dono, mesmo que esteja temporariamente vago (E caso vocês se tornem chefes, nem que seja de um grupo pequeno, e tenham que avaliar seu pessoal, saibam que é uma tarefa extremamente ingrata);

4) Na maioria das vezes, aquele cara que realmente trabalha, sabe de tudo ou quase tudo de sua função e ainda ajuda os colegas, não é promovido. O promovido é aquele cara mediano que passa mais tempo conversando e menos trabalhando, mas é bom de lábia, ou fez amizade com algum chefe, ou é o mais falastrão no happy hour, ou é "amigo de bar" de algum gerente (por alguma razão a maioria das pessoas pensa que um pré-requisito para ser líder é ser falastrão);

5) Por mais que os livros de auto-ajuda, coachs, artigos de psicologia, etc. digam que o funcionário às vezes tem que saber dizer "não" para ter uma vida profissional saudável e mais produtiva, saiba que se você recusar qualquer coisa (inclusive, às vezes, recusar ir almoçar com "o pessoal da equipe") sua chances de ficar "queimado" são altíssimas, e você será incluído na "lista negra" do chefe. Aliás, este é um excelente teste para saber qual é a sua casta dentro da empresa: se você recusar alguma coisa importante e não acontecer nada de grave com você dentro de um ano, então parabéns, você não é um "impuro"- e talvez seja até promovido. Esta lei dos escritórios é bastante capciosa, entretanto: ao mesmo tempo que você fica queimado se recusar algumas coisas, você também pode acabar sendo visto como um otário se disser sim para absolutamente tudo o que te empurrarem no trabalho e será tratado como um capacho... ou seja, você tem que saber dosar os sims e os nãos, e esta habilidade só se adquire na prática;

6) Essas coisas de "missão da empresa", "valores" e "visão" geralmente são mentiras. A missão óbvia de toda empresa é ganhar dinheiro (não entendo porque simplesmente dizer a verdade não é aceitável...), os "valores" são um conjunto genérico de palavras bonitinhas que se repetem em toda empresa, mas que geralmente são ignorados no dia-a-dia, principalmente aqueles relativos ao pessoal ("valorizamos o nosso pessoal", "nosso pessoal vem em primeiro lugar" e outras mentiras), e o mesmo se aplica à "visão". Estes termos servem para os "gurus" da administração venderem livros e cursos, e para acadêmicos citarem em seus trabalhos, palestrantes venderem palestras em "feiras de empreendedorismo" e nada mais;

7) Em complemento ao item 3, não importa se em toda avaliação você tira a nota máxima, ou quase máxima, porque no primeiro vacilo sua imagem será manchada, às vezes irremediavelmente. Um dia você tem um problema e chega atrasado, e perde o início de uma reunião importante, sendo que sua avaliação sempre tinha sido muito boa. Na próxima avaliação, não vão pensar "esse é o fulano, que é bem avaliado, bateu as metas em todos os semestres, foi funcionário do mês em janeiro, etc. etc." Vão pensar "este é o fulano, que  chegou atrasado naquela reunião com o diretor... não posso avaliar bem alguém que não tem compromisso com o horário" .


8) Iniciativa demais pode te matar. É incrível como que uma das frases mais clichê que se escuta nos corredores das empresas é a famosa "você precisa ter iniciativa". Porém, se alguma coisa que você fizer tomando a iniciativa desagradar o chefe, ele vai esquecer completamente da recomendação que te deu. Uma boa ideia é sempre avisar antes de fazer qualquer coisa, mandar por e-mail para ter o registro por escrito, etc. O melhor dos mundos é quando o chefe te manda uma ordem por e-mail. E seja moderado na iniciativa.


9) Chefes têm  memória  curta  quando suas ordens levam a consequências ruins. Eu já levei esporro algumas vezes por causa disso: eu fazia exatamente o que o gerente mandava fazer, e quando o resultado demorava a aparecer ou era muito diferente do esperado, ele fingia que não tinha mandado fazer aquilo. Reforçando o que escrevi acima, o ideal é ter sempre as ordens por escrito. Uma variante dessa regra é que não importa o quanto você avise com antecedência que determinada situação ruim irá acontecer (ex: a empresa ficar no vermelho, o produto não vender dentro do esperado, uma entrega atrasar, etc.) parece que você nunca avisou o suficiente. Para evitar problemas, nunca avise nada "de boca", registre tudo por e-mail, memorandos internos, etc. para sempre ter como provar que não foi por falta de aviso que determinada coisa deu errado.


10) Nunca diga para um colega a sua verdadeira opinião sobre nenhuma pessoa ou sobre nenhum assunto, a não ser que seja boa. Há muitos puxadores de tapete nos ambientes de trabalho, e há olhos e ouvidos por todo lugar, e uma frase retirada de contexto pode resultar numa demissão e talvez até mesmo num processo civil. Adote posturas neutras, na pior das hipóteses. Não converse sobre política, religião, etc. a não ser que seja para falar sobre coisas boas, e mesmo assim é melhor tomar cuidado.

11) Mesmo que você não tenha grandes ambições de carreira, você precisa fingir que tem. Por uma razão que, sinceramente, eu não entendo, é inaceitável numa empresa você afirmar que não tem a intenção de um dia ser superintendente, gerente, diretor, ou, conforme o caso, de trabalhar na filial / matriz que fica no exterior. Você meio que é obrigado a ter estes cargos como objetivo principal de vida, e nenhum chefe vai realmente te entender se você  cair na asneira de dizer que não sonha com estas coisas, e como consequência você será mal avaliado e muito cotado para ser demitido no próximo corte de custos, pois aos olhos da chefia "você não tem comprometimento, não veste a camisa da empresa".

12) Evite falar de projetos pessoais aos colegas. Por alguma razão, muitas pessoas tendem a desejar o mal daqueles que tentam melhorar de vida e que fazem coisas que destoam do comportamento de manada, e isso se aplica principalmente ao desejo pela independência financeira. Não conte para ninguém que você junta dinheiro para algum dia abrir um negócio, ou para se aposentar, ou para procurar um emprego mais tranquilo, pois por algum motivo misterioso buscar uma vida mais tranquila no lado profissional é inaceitável para algumas pessoas e é um imenso tabu nas empresas, e também faz os chefes pensarem que você "não tem comprometimento". Assim, colegas mal intencionados podem usar estas informações para te prejudicar em avaliações.


Resultado de imagem para não conte para ninguém dos seus planos

13) Se todo mundo está fazendo uma vaquinha para comprar um presente de aniversário para algum chefe, você tem que participar, mesmo que não goste dele e/ou que ele seja um babaca. Eu considero os R$10 ou R$15 que geralmente tenho que pagar numa vaquinha dessas como um preço que pago para não me encherem o saco, praticamente uma apólice de seguro, e não um presente. É melhor pensar assim e desembolsar essa grana do que depois alguém fazer fofoca dizendo que você foi o único que não pagou e você ficar mal visto. Economizar estes 15 reais é o barato que sai caro. Só sou a favor de recusar esta "contribuição" quando o valor for muito alto, tipo 50, 100 reais (nunca vi acontecendo, mas já ouvi histórias);

14) Se todo mundo está fazendo um bolão da mega-sena, você também tem que participar, mesmo que acredite que a mega-sena ou qualquer outra loteria são fraudes. Vai que o pessoal ganha, fica milionário e você foi o único que não participou? Como você vai se sentir indo pro trabalho sozinho no dia seguinte, tendo que acumular as funções de todo mundo que foi embora?

15) Não deixe de se qualificar, não pare no tempo. Saiba muito bem a sua função mas saiba também um pouco da função de outras pessoas. Saiba o máximo de informática que puder, procure aprender o máximo possível quando alguém for resolver um problema no seu computador, estude por fora. Domine o inglês e, se puder, um outro idioma. Saiba realmente usar as ferramentas que tiver no trabalho, não fique preso somente ao básico ou ao necessário à sua função;

16) Não tenha pena da empresa, pois ela não terá pena de você. As pessoas de bom coração e naturalmente altruístas tendem a se sacrificar no trabalho mais do que o normal e necessário, porque não se sentem bem em fazer coisas mal feitas, em criar problemas para outros resolverem, etc. Mas eu acho que todos devemos colocar nossas vidas em primeiro lugar e parar de sacrificar nossa saúde no trabalho, porque na grande maioria das vezes tais sacrifícios não são reconhecidos e nem mesmo notados.

EDIT -17) Se o seu chefe estiver estressado por algum motivo qualquer, e você não estiver, então você precisa urgentemente fingir que também está estressado, pois se chefes já  não gostam de ver funcionários felizes em situações normais (afinal, se você está "felizinho", só pode ser porque sua vida está muito mansa e você não está  suando a camisa o suficiente, não é? A empresa não está "espremendo o suficiente o seu suco" para justificar o custo que você representa na planilha), então  quando estão irritados com alguma coisa a sua alegria será praticamente uma ofensa pessoal para ele. Por algum motivo, muitas pessoas em posições de chefia confundem as coisas e tendem a pensar que ter zelo pelo trabalho significa necessariamente arrancar os cabelos, ligar estressado para outros departamentos cobrando coisas, enviar milhares de e-mails, falar com os outros de maneira ríspida, ligar depois do horário ou ligar muito antes do horário, etc.

EDIT - 18) Mesmo que a sua parte em alguma tarefa/projeto já esteja feita e não haja mais nada que você possa fazer para adiantar mais ainda o negócio, isso nunca será o suficiente para você ficar tranquilo, afinal você é geralmente enxergado apenas como um custo para a empresa, e esse custo parece ser sempre maior do que o que você é  capaz de contribuir, então tente ajudar os colegas em dificuldades, ou faça um pouco de controle interno, revisão de processos, etc. Ou pelo menos finja estar fazendo isso,  pois em decorrência do item 17, sua felicidade e relativa tranquilidade podem acabar sendo encaradas como ofensas pessoais. De qualquer maneira, lembre sempre do item 16, sua saúde é a prioridade, não tenha pena da empresa,  pois ela nunca terá de você.

EDIT - 19) em toda empresa há basicamente 2 tipos de funções: aquelas ligadas às atividades - meio (tarefas administrativas) e as ligadas às atividades-fim (ligadas à natureza do negócio da empresa). Geralmente os funcionários das atividades fim são mais "valorizados" (são enxergados um pouco menos como um custo e um pouco mais como seres humanos). Se for trabalhar CLT, busque preferencialmente trabalhar na atividade-fim da empresa.

EDIT - 20)  Em complemento ao item 19, o pessoal das atividades-meio tende a trabalhar mais e receber menos. Isso porque eles eventualmente podem ser chamados a contribuir  com a atividade fim (por exemplo, participar de um eventual plantão de vendas, se for uma empresa do comércio) mas os funcionários das atividades-fim raramente terão que contribuir com as tarefas das atividades-meio.

Por enquanto é  isso, pessoal. Se eu lembrar de mais alguma coisa, edito este post. Se algum leitor tiver algo a acrescentar à minha lista, fique à vontade para escrever nos comentários. Críticas construtivas também são bem-vindas.

Forte abraço, fiquem com Deus!

segunda-feira, 2 de março de 2020

Considerações sobre ficar depois do horário e as formas de remuneração

Escrevo este post reafirmando minha opinião que escrevi neste aqui, publicado em maio do ano passado. 

Para começar, aqui vai o meu top 5 das coisas que considero ruins num emprego, e que são a realidade de muitas empresas:

5- Dress code (eu queria muito poder ir trabalhar mais à vontade, de bermuda e camiseta, usar chinelo nos dias quentes, ou até mesmo poder trabalhar de gola polo, calça "semi-social" e sapatênis... acho que produziria mais)

4- Reuniões (gastam tempo que poderia ser melhor aproveitado adiantando o trabalho, não resolvem as coisas que dizem que vão resolver, geralmente não culminam em tomadas de decisões)

3- Happy hours forçados, nos quais você fica "mal visto" se não participar (você é automaticamente taxado de antissocial, chato, quadrado, etc.)

2- Grupo de whatsapp do trabalho perturbando até de madrugada, e quaisquer cobranças relativas ao que foi escrito no whatsapp

1- Não ter hora para sair (se pagar hora extra, tudo bem, mas raramente é o caso. Para mim, a pior coisa é ficar depois da hora quando não é necessário)

Conforme eu disse antes: não existem trabalhos ruins, pois eles nos ajudam a crescer mental e socialmente e até mesmo fisicamente, conforme o caso.  Uma vida de ócio é uma vida desperdiçada.

O ruim é ser obrigado a trabalhar o "emprego", e por emprego eu quero dizer as relações trabalhistas entre empregador e empregado, relações estas que são, a meu ver, azedadas por conta da mera existência da CLT. Como a empresa é obrigada por lei a bancar muitas coisas para o empregado (férias, repouso remunerado, licença gravidez, licença paternidade, etc.), então ela tenta compensar isso contratando menos funcionários do que o ideal e também artificialmente diminuindo nosso salário por hora, nos obrigando a permanecer no trabalho além do horário estabelecido em contrato,  mesmo que não haja nada para fazer ou que seja indiferente fazer naquele dia ou no próximo. Óbvio, se tiver algo para fazer, e este algo tiver um prazo apertado, fiquemos trabalhando até resolver, porque somos responsáveis. Para mim isso não é o problema. Óbvio também, não é sempre que o chefe literalmente fala que você não pode ir embora, mas é possível sentir a pressão sempre que se tenta sair exatamente na hora ou só um pouco depois, fora o medo de ser mal avaliado. Eu já tive chefes que quase não me deixavam nem ir ao médico, quanto mais ir embora no horário. Posso contar nos dedos o número de vezes que consegui sair exatamente no término do expediente até hoje, desde que comecei a trabalhar. 

Chego até a pensar se ainda faz sentido haver um "expediente", uma vez que ele só é respeitado no horário de entrada... Sinceramente, se fosse possível flexibilizar, eu aceitaria ganhar proporcionalmente menos e ter uma ou duas horas a menos em cada "expediente". Mas como não é...Vida que segue.

Para quem é mensalista (meu caso), é bem real esse truque de diminuir o salário por hora. Por exemplo, há meses de muita demanda em que eu trabalho umas duas horas a mais que o normal, e há meses de menor demanda em que eu trabalho o tempo normal, e em ambos os casos recebo a mesma coisa por mês. Claro que eu poderia enxergar do ponto de vista inverso e considerar que o meu salário na verdade foi pensado para aqueles meses de maior demanda e que nos meses mais tranquilos eu na verdade estaria ganhando a mesma coisa em troca de menos trabalho, ou seja, haveria na verdade um "bônus" nos meses de menor demanda, mas infelizmente não é assim que a psicologia humana funciona: o que eu enxergo é que há épocas em que eu faço um esforço "10" e épocas em que  o esforço precisa ser "20" e eu recebo a mesma recompensa pelos dois, não importa o quanto me esforce, e isso gera frustração e desmotivação. Acredito que seja assim com todo mundo.

Acho que o mais justo seria se todos ganhassem por hora trabalhada, de maneira que os horários fossem flexíveis: se precisar ir no médico ou resolver qualquer problema e para isso precisar sair 1h mais cedo, receberia 1h a menos de salário naquele dia, mas por outro lado, se tiver que ficar até mais tarde, receberia as horas que ficou até mais tarde. É mais justo do que ser mensalista e receber a mesma coisa todo mês independentemente do volume de trabalho. Pode haver casos em que este arranjo não é totalmente justo, mas julgo que seja melhor e mais justo do que o regime mensalista atual.

Agora, porque isso não pega no Brasil? Porque o padrão aqui é ser mensalista (me corrijam se eu estiver errado)? A economia comportamental e a teoria dos jogos ajudam a explicar: como a malandragem está enraizada na psiquê do brasileiro médio (observem nossa produção literária, musical, etc. e verão que muitas obras refletem uma aversão ao trabalho, aversão a ganhar a vida honestamente, etc.), creio que choveria funcionários fazendo corpo mole nas tarefas mais banais do dia-a-dia para forçar a necessidade de horas extras, ou seja, a situação se inverteria, porque o funcionário teria todo o incentivo para trabalhar por mais horas mesmo que isso não fosse necessário. E creio que isso não ocorreria só no Brasil. Até em países mais "certinhos" como (acho) a Suíça os trabalhadores se valeriam deste artifício para ganhar mais.

Uma alternativa ainda mais justa seria a vinculação total do salário à produção: o funcionário ganharia conforme produzisse. Em algumas áreas profissionais é fácil criar uma métrica para produção. Por exemplo, um advogado que fosse empregado de um escritório poderia ganhar um valor "X" por caso em que estivesse trabalhando (todo autônomo ganha assim então porque não um celetista?). Ou um operário numa fábrica poderia ganhar "Y" por peça que produzisse, e por aí vai. Claro que neste cenário, ao mesmo tempo em que haveria um incentivo para que se produzisse mais, poderia haver num primeiro momento uma queda na qualidade: o advogado poderia pegar um número excessivo de casos e não conseguir atuar bem em nenhum (ocorre com muitos autônomos); o operário poderia produzir algumas peças defeituosas por causa da pressa de produzir uma quantidade maior, etc. 
     - Também há a dificuldade de se criar uma métrica para produção em outras profissões cujo produto seja mais abstrato (como medir a produção de um professor? E de um gerente? De um contador?) - talvez para estes casos realmente não caiba uma remuneração por produção, ou a métrica dependa de uma tecnologia que ainda não inventaram...

Mas, a meu ver, nada impediria a coexistência entre os 3 sistemas de remuneração, ou até mesmo a existência de sistemas híbridos (por exemplo, ganhar um mínimo mensal e ter bônus de produtividade e pagamento de horas extras vinculadas à produtividade) mas infelizmente nossas leis trabalhistas não permitem flexibilizar muito a maneira como a empresa remunera e se relaciona com seus empregados, então isso dificulta o surgimento de inovações nesta área que, convenhamos, carece muito de inovações. Pode haver outras maneiras de remunerar um trabalho que nós nem imaginamos ainda, que futuras tecnologias tornem possíveis, por quê não? 

Aguardemos com esperança que um dia as coisas melhorem.

Forte abraço e fiquem com Deus!