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terça-feira, 15 de novembro de 2022

O dinheiro é uma abstração, e isso inclui o ouro

 





Os metais preciosos em geral (e neste texto eu uso o ouro como metonímia) têm sido aceitos como meio de troca pela humanidade há milhares de anos.

O homem da Antiguidade aceitava a ideia de armazenar ouro porque sabia que poderia trocar tal ouro por, por exemplo, comida. E isto porque certamente o outro homem aceitaria trocar o tempo de vida que gastou caçando, coletando ou plantando para produzir comida por ouro. Este por sua vez aceitava trocar seu tempo gasto produzindo alimento por ouro justamente porque sabia que um terceiro também aceitaria dar outras coisas em troca de ouro, e assim por diante. É uma cadeia de confiança, inicialmente não-escrita, orgânica, e que eventualmente acabou resultando nas moedas de curso forçado que temos atualmente.

O ouro, assim como qualquer forma de dinheiro, seja físico seja digital, com lastro ou sem lastro, é no fundo uma abstração para o tempo. O dinheiro desde sempre funciona como uma "bateria de tempo", um jeito de armazená-lo: permite que você se especialize em fazer uma só coisa (ou poucas coisas) em troca destas "baterias", para que não precise gastar tempo fazendo atividades que outras pessoas se dispuseram a realizar, elas também gastando seu tempo de vida em troca de "baterias". E, como escrevi anteriormente, isto só funciona na base da confiança. Se em dado momento a confiança em determinada "bateria" acabar, todas as suas cópias se tornam praticamente inúteis.

E nós passamos por várias camadas de abstração para chegarmos onde estamos hoje em relação ao que entendemos como dinheiro. 

O resumo deste caminho seria mais ou menos assim:

1) No início não existia dinheiro, não havia maneira simples e padronizada de "armazenar" tempo, então todos apenas satisfaziam suas necessidades imediatas e as da tribo, e no máximo estocavam coisas não perecíveis (peles, ossos, ferramentas, cerâmicas, etc.) mas sem pensar muito em trocas - estocavam principalmente porque era necessário para sobreviver (ao inverno, à seca, etc.) ;


2) Eventualmente chegou-se a um acordo não-escrito em que determinados objetos poderiam ser trocados por alimentos, água e por outros objetos (escambo);


3) Chegou-se a uma "conclusão coletiva" de que seria mais fácil e prático usar pedaços de ouro para fazer trocas, e novamente chegou-se a um acordo não-escrito de que isto seria aceito - esta foi a meu ver primeira camada de abstração,  pois foi adotado como meio de troca algo que não tem utilidade imediata em termos de sobrevivência - o ouro. Aceitou-se armazenar esforço e tempo de vida em pedaços de metal;

4) Com o surgimento de Estados (nada mais que a consolidação do domínio das "tribos" mais fortes), ao invés de meros pedaços de ouro passa-se a cunhar moedas (para padronizar o peso e tamanho de cada pedaço de ouro) e o soberano de cada Estado garante que a moeda de ouro é realmente de ouro e tem aquele peso determinado (por isso que as moedas têm os rostos dos governantes e os símbolos do governo) - e cada soberano também força o curso de sua moeda em seus domínios, bem como detém o monopólio de cunhagem da moeda (ou vende tais direitos para um aliado) - chegamos a mais um grau de abstração, pois para que valesse a pena cunhar moedas de ouro, o valor de cada moeda deveria ser superior ao valor do ouro nela contido - havia em cada moeda um valor imaginário: a diferença entre o valor extrínseco e o intrínseco;




5) Um belo dia, percebeu-se que seria mais prático carregar recibos e comprovantes de depósitos de ouro em bancos do que carregar sacos de moedas, e com isto surgiu o papel-moeda. Nesta época era indiferente usar o recibo ou a moeda de ouro, e qualquer um que entregasse um recibo em um banco receberia o ouro em troca, e vice-versa: o dinheiro ainda tinha lastro. Outro grau de abstração foi alcançado: não apenas a moeda vale mais do que o ouro nela contido, o papel que diz que eu possuo determinada quantidade de moedas de ouro guardadas num cofre dentro de um estabelecimento bancário vale tanto quanto as tais moedas. Ou seja, aceitou-se armazenar tempo de vida e esforço em pedaços de papel timbrados, pois tais papéis poderiam ser trocados por ouro.

dizem que os primeiros exemplares de papel-moeda foram notas promissórias chinesas



6) Eventualmente, por decisão unilateral estatal (ao menos nos casos em que conheço), abandona-se o lastro do dinheiro: o papel-moeda deixa de ser conversível em ouro. Por um tempo, esse dinheiro de papel convive com moedas de ouro, mas eventualmente isso terminou e todos passaram a usar só os papéis. Isto foi mais um grau de abstração alcançado: aceitou-se armazenar tempo em pedaços de papel timbrados pois o governo garante que tais papéis serão aceitos como meio de troca. O governo consegue forçar o uso do papel através da força da lei, mas não consegue controlar completamente o valor de tais papéis,  os quais dependem da confiança que os usuários depositam neles, e é por isso que a isto se chama "moeda fiduciária". Se a população perde a confiança no valor do papel-moeda, seu valor diminui,  e esta diminuição quebra ainda mais a confiança,  num ciclo vicioso.

7) Aos poucos, com a crescente digitalização da economia, o papel moeda físico vai sumindo e vai dando lugar a transações com cartões de crédito e débito,  transferências bancárias totalmente eletrônicas, e etc. O PIX facilitou ainda mais o processo. Isto foi mais uma camada de abstração alcançada: não é nem mesmo em um pedaço de papel - o tempo de vida e o esforço das pessoas está sendo armazenado em baterias totalmente virtuais: lançamentos contábeis eletrônicos em sistemas digitais de bancos.

Se criptomoedas vingarem como meio de troca (não sei e ninguém sabe se isso vai acontecer), então acho que isto representaria mais uma camada de abstração: armazenar tempo de vida em baterias virtuais geradas por algoritmos, sendo que alguns "garantem" uma escassez artificial (limite ao número de unidades mineráveis, como o BTC, BCH, etc.) e outras não (ETH). Claro que para isto funcionar, um número suficiente de pessoas precisa aceitar que isto funciona, senão as criptos continuarão sendo apenas bilhetes de loteria e objetos de especulação. 

Notemos que, apesar de a humanidade estar entrando em camadas de abstração cada vez mais etéreas e profundas acerca do que é dinheiro, o escambo não desapareceu completamente (e nem acredito que desaparecerá), e nem as moedas de ouro (também acredito que não irão desaparecer). 

No meu resumo acima, eu foquei no que é explicitamente dinheiro e deixei de lado outras abstrações que também funcionam como dinheiro (o mercado de crédito e o de derivativos, que são mais antigos do que muitos imaginam), para evitar que o texto ficasse longo demais. Talvez eu escreva mais sobre estes outros mecanismos em futuros posts.

A lição central aqui é: o dinheiro, mesmo o ouro, só funciona porque um número suficiente de pessoas concorda que funciona. A vantagem do ouro é que ele é usado há milênios pela humanidade, mas no fundo ele precisa ser aceito por um número suficiente de pessoas para funcionar. Como é usado há milênios, ele tende a ser sempre aceito, mas pode haver cenários em que talvez não seja.

Eu acho que, se não existisse o artifício do dinheiro (armazenar tempo): 

 - ou a principal ocupação da maioria das pessoas seria a de suprir o básico (alimento e água) com as próprias mãos para si mesmo e suas famílias (tal como era no estado natural do homem) - no regime feudal era assim... os camponeses geralmente passavam a vida inteira sem ver dinheiro, só cuidando da terra em troca de proteção do senhor feudal, ou pelo menos é o que nos diz o falecido historiador Jacques Legoff; ou 

- haveria uma divisão de trabalho em troca de outra coisa que não seria dinheiro (honra, favores, reputação, ou algo assim). 


O que acham disso, confrades? 

Que outras reflexões poderíamos tirar a respeito das camadas de abstração do dinheiro?

Forte abraço! 

Fiquem com Deus!

sexta-feira, 4 de dezembro de 2020

O dinheiro na idade média

 Saudações,  confrades 

        Hoje vou escrever bem resumidamente sobre o uso do dinheiro na idade média, conforme descrito pelo historiador Jacques Le Goff, autor de A Idade Média e o Dinheiro (além de vários outros livros sobre a idade média - para quem gosta do assunto, recomendo!), livro que serviu de base para este post. Resolvi escrever este artigo a título de curiosidade, porque gosto do assunto (sou colecionador de moedas e aprecio a arte numismática), e também  porque pode servir para enriquecer um pouco a cultura de meus leitores.

   



    Como é um assunto longo e detalhado, ao invés de escrever o post na forma de um texto como normalmente faço, vou colocá-lo na forma de vários tópicos dos assuntos que julguei mais interessantes do livro:

- Durante boa parte da idade média, a riqueza era representada principalmente por terras. Demorou um pouco até que o uso de moedas ressurgisse (com a queda do império romano, as moedas  "sumiram" por causa do relativo caos social da época, e por algum tempo após seu "ressurgimento", as pessoas ainda usavam algumas das moedas romanas que haviam sobrado, porque os conhecimentos acerca de cunhagem de moedas não foram aprendidos pela vasta maioria das tribos bárbaras que destruíram o império romano). 

- Como a vida era fortemente rural, muitos camponeses podiam passar a vida inteira praticamente sem nem ver moedas, porque viviam pela lavoura, e até os impostos aos senhores feudais eram pagos em víveres. Uma pequena parte que era paga em dinheiro, e mesmo assim não era em todo lugar que isso ocorria.

- Naquela época as moedas eram usadas principalmente pelos comerciantes (por conta da necessidade de transportar riqueza de maneira portátil e cômoda - o escambo é inviável para o comércio em médias e  grandes distâncias) e pelos nobres (mas, como eu disse antes, a riqueza vinha principalmente da posse de terras, e também de imóveis). 

- O uso do dinheiro foi sendo impulsionado por causa do aumento das populações das cidades, porque nelas seria inconveniente pagar as despesas em víveres, tendo em vista que não havia espaço para todos plantarem.  Assim, os habitantes das cidades adquiriam comida, bens e serviços em troca de dinheiro assim como é hoje. Estima-se que cerca de 60 a 70% dos rendimentos dos habitantes da camada mais pobre das cidades eram gastos para comprar comida (principalmente grãos). Outro motivo para o aumento do uso do dinheiro foi o ressurgimento do comércio.

- a oferta monetária era bastante dependente do comércio, principalmente do comércio exterior - como o dinheiro era 100% físico e lastreado em metal precioso (moedas de ouro e de prata), quanto mais exportações para outros países, mais moedas entrariam na economia local. Essa lógica também valia para o comércio interno, de modo que a oferta monetária poderia ser bastante diferente entre duas cidades do mesmo reino, e creio que sua localização influenciava bastante nessa questão (cidades próximas ao mar ou a outros tipos de acesso a rotas comerciais tenderiam a ser mais ricas, por exemplo, porque teriam um comércio bem mais forte)



- além da oferta monetária, o crescimento do comércio também provocava aumento da demanda por moedas. Como o processo de fabricação de moedas era bem mais demorado que hoje em dia (cada moeda era cunhada individualmente, martelando-se uma chapa do metal que formaria a moeda entre 2 "carimbos", um para o verso e outro para o anverso da moeda, e havia vários trabalhadores envolvidos na produção: o moedeiro em si, o cortador de chapas, o cara que fazia as chapas, o fiscal da qualidade das peças produzidas, etc.),  também surgiu a necessidade de moedas de maior valor  (moedas de ouro ou de prata maiores, com mais metal, etc.) para que fosse conveniente carregar quantias maiores de riqueza na estrada e também para comprar bens mais caros (terras, casas, jóias) com menos moedas, para ser mais prático.

Era assim que as moedas eram feitas, uma por uma, marteladas entre 2 carimbos de bronze ou ferro e posteriormente de aço. Não existia uma "padronização"  das moedas da forma como entendemos hoje, então havia uma margem bem ampla de erros  tolerados na fabricação de moedas. É por isso que as moedas medievais que ainda existem são tão diferentes uma da outra, mesmo sendo do mesmo país e da mesma época. Esse processo de fabricação só era possível porque ouro, prata e cobre são metais bem macios.

- Como uma coisa puxa a outra, o aumento do uso do dinheiro fez surgir uma necessidade também crescente por moedas de baixo valor, que eram chamadas de "moedas de esmola", "meios- denários", "óbolos" (lembram da parábola d'O óbolo da viúva?) ou "moedas negras" (como eram feitas de cobre, logo ficavam escuras - o cobre oxida em contato com o ar atmosférico) e eram usadas para as pequenas despesas do dia-a-dia (o autor do livro menciona que uma moeda de cobre era o preço de 1 pão em muitas cidades na época) e também para literalmente dar esmolas (o rei São Luís, da França, foi um célebre distribuidor de parisis - o "denário da esmola")


um exemplar da moeda "Parisis" - o denário da esmola


- as moedas recebiam o selo da autoridade local. O selo era uma prova de que a moeda era verdadeira e que seu teor de metal precioso era o definido em lei, e por isso uma moeda teria um valor intrínseco superior ao valor do metal precioso nela contido (até porque a oficina moedeira tinha que ter lucro, e no caso do rei era daí que vinha a "senhoriagem", que era a diferença entre o valor de face da moeda e o valor do metal nela contido - esta diferença é até hoje uma das fontes de receita pública)

- Nem sempre o rei tinha o monopólio da emissão de moedas - às vezes essa autorização era vendida para oficinas particulares, ou era delegada a nobres, de modo que cada condado/ducado/feudo/cantão poderia ter sua própria moeda em algumas nações europeias - isso por um lado dificultava um pouco o comércio entre nações, por conta da variação cambial (provavelmente o câmbio devia ser 100% baseado no peso das moedas, mas o teor de metal precioso devia variar bastante entre as moedas de cada local, de modo que podia haver distorções caso o comerciante não conhecesse o da moeda que estivesse avaliando na hora. - talvez houvesse moedas que não eram bem aceitas em determinados locais, por exemplo)

- além das moedas, também eram usados como forma de pagamento  lingotes de metais preciosos (principalmente de prata).  Tais lingotes também recebiam selos de autoridades que atestavam seu teor de pureza. 

- Obviamente, falsificações já existiam, e além das moedas falsas, as pessoas encontravam outros jeitinhos de burlar a lei: cortavam ou limavam as bordas das moedas para ir juntando os pedaços e eventualmente derrete-los e usar o metal para fabricar outras moedas ou lingotes; ou juntar todas as moedas em um saquinho e ficar agitando o saco para que o atrito entre uma moeda e outra funcionasse como uma lima, acumulando o pozinho de ouro ou prata no fundo do saco até que valesse a pena derreter o pó acumulado e transformá-lo em um lingote ou em outra moeda. Essas malandragens explicam ao menos em parte o porquê da maioria  das moedas medievais  que sobreviveram até os dias de hoje estarem tão danificadas. Aliás, é por causa deste golpe de limar ou cortar as bordas das moedas que até hoje elas têm bordas serrilhadas ou com alguma marca, mesmo que não sejam mais de ouro ou prata.


A  título de curiosidade, a última moeda de prata que circulou no Brasil foi a de 5.000 réis, de 1936, que tinha o rosto de Santos Dumont no verso e uma asa aberta no anverso. Ou seja, historicamente falando, não faz tanto tempo assim que deixamos de usar moedas de verdade - moedas de metais preciosos.



E vocês, caros leitores, o que acham do assunto? Gostam de Numismática? Gostam de História? Eu gosto de estudar estes detalhes da vida cotidiana da humanidade de outros tempos. Ajuda a entender algumas coisas de hoje em dia, além de nos dar perspectiva do longo caminho percorrido para chegarmos até aqui. 

Se souberem de alguma outra curiosidade sobre o dinheiro na idade média, comentem aí! 

Forte abraço, fiquem com Deus!

segunda-feira, 20 de julho de 2020

A busca pelo milhão deveria ser uma busca por valor e não por dinheiro

Se vocês refletirem um pouco, a inflação já corroeu tanto o poder aquisitivo do Real que o cobiçado "um milhão de reais", um dos santos graais da blogosfera, já não é mais o que era. É bastante difícil juntar um milhão de reais para quem é assalariado, e embora esta quantia ainda dê uma grande melhora na vida pessoal em termos de tranquilidade e segurança relativas ao trabalho, ela já há um bom tempo não é capaz de trazer a IF, no máximo uma TF (tranquilidade financeira), mas ainda assim é algo arriscado. 
Nos tempos de taxa Selic a mais de 14%, havia quem pensasse ser capaz de viver sem precisar trabalhar tendo um milhão investidos em renda fixa, mas mesmo naquela época (2016) isso ainda era muito arriscado, pois a inflação alta camuflava o rendimento real, que era bastante abaixo dos 14% nominais, de modo que sacar os rendimentos deste milhão aplicado em uma renda fixa, por exemplo, só faria corroer mais depressa o valor do principal. Sacar menos do que os juros auferidos era obviamente uma opção melhor, mas ainda arriscada para quem almejasse parar de trabalhar. Com o tempo, a inflação poderia corroer o valor do principal, e caso vivamos um caso extremo como o da Alemanha do pós-guerra, este investidor que até então havia "atingido" a IF se tornaria um "mendigo milionário".
Não é exagero!

notas e moedas: Pick#110 - 500 Milhões de Marcos, 1-9-1923
Nota de 500 milhões de marcos alemães, de 1923, provando que todo mundo era multimilionário na Alemanha pós-Grande Guerra!! É um pouco difícil de ler, mas realmente está escrito Fünfhundert millionen Mark


Infelizmente, a inflação é um problema intrínseco do atual sistema monetário mundial - o qual se baseia em moedas fiduciárias (sem lastro) e no sistema de reservas fracionárias (bancos não precisam ter em caixa valores que garantam 100% dos depósitos, ou seja, bancos criam moeda literalmente do nada) e ao menos no curto prazo isso parece que não vai mudar. Nem mesmo as criptomoedas são ainda uma alternativa viável - elas ainda estão longe de serem adotadas pelo "tiozinho da padaria" e pela "dona marocas da escolinha", e somente quando isso acontecer é que elas serão realmente moedas, pois serão um meio de troca amplamente aceito (atualmente as criptos cumprem mal e porcamente apenas as funções de unidade de conta e reserva de valor, mas devido às grandes oscilações diárias e às dificuldades operacionais de usá-las no dia a dia, tais funções não são eficientemente cumpridas, na minha opinião).

Vejam em números o massacre do Real pela inflação: conforme a calculadora do cidadão, disponível no site do Banco Central, 1 milhão de reais do início do Plano Real (1994) equivalem a mais de 6 milhões de reais atualmente:



O Real perdeu muito valor desde seu início. Temos que multiplicar o milhão de reais por 6 só para empatar com seu poder de compra original. Até mesmo olhando para o passado recente a perda é chocante. Vejam quanto precisamos ter hoje em dia para empatar o poder aquisitivo de 1 milhão de reais de 2016, época da SELIC a 14,25%, na qual havia quem acreditasse poder viver com a renda desse milhão:



Precisaríamos ter quase 200 mil reais a mais só para manter o poder de compra, quase um quinto do valor. Quem tinha 1 milhão e aplicou na renda fixa e passou a viver dos juros provavelmente perdeu dinheiro, no sentido de perder poder aquisitivo.

Será que algum dia seremos capazes de desfazer este massacre financeiro? Será que algum dia o Real prosperará e se tornará uma moeda forte? 
Só o tempo dirá. 
Enquanto isso, os números incríveis de nossa inflação mostram que ao contrário de outras épocas, em que o dinheiro tinha lastro, ou seja, tinha valor intrínseco (moedas de ouro e prata, certificados de depósito de ouro, etc.) não é tão bom negócio juntar dinheiro. Óbvio que precisamos de dinheiro no dia a dia para trocarmos por bens e serviços,  e conforme já expliquei no post anterior, é inegável a importância de se ter uma reserva de emergência de pronto uso, então algum dinheiro é bom sempre termos. Esses tempos histéricos da pandemia, repletos de desmandos e arbitrariedades estatais e de empresas mancomunadas com o Estado, reafirmaram a importância da reserva de emergência.


Certificado de Ouro - Está escrito: 100 dólares EM MOEDAS DE OURO pagáveis ao portador sob demanda

Porém, o ideal é que, após constituída a reserva de emergência, comecemos a diversificar nosso patrimônio de modo que ele tenha mais valor do que dinheiro, porque o que tem valor é sempre ou quase sempre protegido contra a inflação. 

Onde encontraremos valor? Onde compramos valor? Resposta: Comprando ações de boas empresas (fundamentos sólidos, vários anos seguidos de lucros, com dívidas equilibradas ou sem dívidas, com boa participação no mercado, etc.), comprando cotas de bons fundos imobiliários (bem geridos, com imóveis bem localizados, bons imóveis, de preferência com mais de um imóvel, etc.), comprando bons imóveis (bem localizados, sem problemas judiciais) e comprando bens que tenham valor (metais preciosos, jóias, moedas, obras de arte, terrenos bem localizados e férteis, etc). 
Porém, há uma outra diversificação ainda mais importante,  e que deve ser feita todo dia, em qualquer época: a diversificação de conhecimentos e habilidades, ou seja, o investimento em você mesmo. Aumente o seu valor. Estude além do que é necessário para desempenhar sua profissão, estude para melhorar seu desempenho nela e tornar-se uma referência, pelo menos entre seus colegas. Estude e pratique outras atividades fora de sua profissão para ser versátil, primeiramente como hobbies - e quem sabe elas não podem acabar virando outras fontes de renda? Quem sabe elas não possam um dia se tornar sua principal fonte de renda? Quem sabe elas não te salvam de uma enrascada, como ser demitido? 
Além disso, nunca deixe de ler ou estudar certos assuntos só porque supostamente "não há mercado" para tais conhecimentos - aumente sua cultura, leia os clássicos da literatura, estude outros idiomas além do inglês, produza algum tipo de arte, etc. Tudo isso contribuirá, no mínimo, para aumentar sua confiança em si mesmo e para expandir sua criatividade, e estas são coisas das quais você nunca se arrependerá, e também aumentarão seu valor como pessoa. Hoje em dia é possível encontrar tantos bons livros de graça ou quase de graça, assim como inúmeros tutoriais de uma infinidade de assuntos no YouTube, em fóruns especializados, cursos on line de praticamente qualquer assunto, e por aí vai. Nunca deixe de investir em você mesmo. Não viva para juntar dinheiro, viva para melhorar a si mesmo e para melhorar a vida dos que estão à sua volta, fazendo sempre o bem.

Forte abraço!  Fiquem com Deus!


terça-feira, 9 de julho de 2019

Mais sobre o padrão-ouro: os mecanismos da Deflação


Retomando o assunto do padrão ouro, do qual sou entusiasta, como já disse.

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Vamos explorar um pouco mais a questão da diminuição dos preços da economia (deflação), a qual seria uma consequência bastante provável no caso da adoção de um padrão ouro no país.

(Cabe ressaltar que a  probabilidade de deflação aumentaria ainda mais com a eventual abolição do salário mínimo (ou seja, se deixássemos o mercado ditar o "salário mínimo", e não uma lei) - esta questão abordarei em outro artigo).

Pode ser que com uma eventual volta do padrão ouro, talvez ocorresse uma "febre do ouro", aumentando o ritmo das atividades de mineração, por exemplo, expandindo a oferta. Tal aumento da oferta do metal, se chegasse a se tornar excessivo, faria seu preço diminuir de modo a tornar proibitivo o custo de mineração, desestimulando novos aumentos da oferta, reestabilizando o preço e suavizando a curva de evolução da oferta de ouro para patamares mais, digamos, aceitáveis.

A possibilidade de deflação se encontra na razão entre a variação da oferta de ouro (que seria igual à oferta monetária desta nova economia) e a taxa de crescimento da economia. Se a oferta de ouro crescesse no mesmo ritmo que a economia, os preços se manteriam bastante estáveis (e a economia provavelmente estaria crescendo bem devagar). Se a oferta de ouro crescesse num ritmo mais lento que a economia (o que é de se esperar, dado que, até onde sabemos, o ouro é um metal raro), os preços em geral tenderiam a diminuir, porque com o crescimento da oferta de bens e serviços, o ouro se tornaria relativamente mais escasso frente à produção total da economia. Em outras palavras, a mesma quantidade de ouro compraria um número maior de bens e serviços, porque estes estão se tornando mais abundantes mais rapidamente do que aquele. Vejam que "ouro" neste texto não deve ser necessariamente entendido em sentido literal: basta que o lastro da moeda seja um bem  suficientemente escasso, com oferta inelástica (ou quase inelástica), de uso aceito pela sociedade e que dê confiança. Podem ser diamantes, rubis, prata, platina, ródio, paládio, ou até mesmo uma cesta destes e vários outros bens dotados das características mencionadas e que cumpram as três funções da moeda (unidade de conta, reserva de valor e meio de troca). O ruim é a moeda fiduciária (sem valor intrínseco, ou seja, o valor é mera questão de fé e confiança), que é o caso de praticamente todas (senão todas) as moedas do mundo atual.

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Vejam como o Real está sendo destruído pela inflação. Como isso pode estar certo?


Conforme disse em meu outro post sobre padrão-ouro, as consequências disso para quem poupa seu dinheiro seriam ótimas: até o dinheiro guardado em casa seria um investimento pois a deflação faria com que ele se valorizasse em relação aos bens cotados em ouro. Sendo assim, até mesmo se você guardasse regularmente uma parte do seu dinheiro "num colchão", sua velhice estaria paga, pois 50 anos depois uma moeda teria seu valor multiplicado pela deflação. Bastaria poupar para ter um bom patrimônio e se aposentar sem ter que pensar em aplicações financeiras complicadas. Cada moeda estaria valendo mais, fora qualquer renda passiva que se conseguisse. Isso dá ensejo a mais um argumento favorável ao padrão-ouro: o incentivo à poupança. Tal incentivo traz como benefício o aumento do estoque de dinheiro disponível para empréstimos, o que torna o custo de tais empréstimos mais barato, ou seja, juros mais baixos. A consequência de juros mais baixos é o aumento dos investimentos (o que em economia tem um significado diferente do mundo das finanças; em "economês" investimento significa compra de capital, ou seja, aquisição de máquinas, equipamentos, fábricas, ferramentas, etc., ou seja, aquisição de bens produtivos com finalidade empreendedora). O aumento dos investimentos, por sua vez, gera mais empregos (mais fábricas significa no mínimo maior demanda por pessoas para vender, transportar, entregar, supervisionar a produção, controlar a qualidade, fazer marketing, etc.) e aumenta a produção, o que por sua vez aumenta a oferta do bem fabricado, o que contribui para reduzir sua escassez e, consequentemente, diminuir seu preço - mais bens para uma quantidade estável de moeda, ou seja, cada unidade monetária adquire uma quantidade cada vez maior de bens. Viram como uma moeda com lastro (ou pelo menos uma moeda de oferta inelástica) pode, ajudar a criar ciclos virtuosos que beneficiam toda a sociedade, sem a necessidade de nenhum plano econômico mirabolante ou produtos financeiros complicados? Uma economia saudável gera preços decrescentes, que contribuem para diminuir o custo de vida, o que por sua vez contribui para aumentar a liberdade econômica dos indivíduos. A deflação, na forma como a descrevi acima, é algo bom e desejável.

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Mas, por incrível que pareça, o que é ensinado por aí é bem diferente.

Na minha pós-graduação (que tive que fazer por causa do trabalho, há dois anos...), eu tive uma cadeira de economia, e o professor dizia que a deflação era uma coisa ruim (me parece uma ideia keynesiana, uma vez que nesta teoria a inflação é que é vista como uma coisa boa para a economia... vai entender). A explicação dada por ele era a seguinte: em um cenário deflacionista, a economia desaceleraria com a queda do consumo, porque todo mundo iria esperar os preços diminuírem para consumir. Na minha humilde opinião, tal pensamento é no máximo meio certo. De fato o consumo de alguns produtos supérfluos diminuiria porque algumas pessoas esperariam alguma diminuição do preço para consumir, mas isso não iria zerar o consumo! As pessoas não param de consumir só porque sabem que os preços vão diminuir. Notem que isso já poderia acontecer hoje em dia: todo mundo sabe que o preço do iPhone XR, vai diminuir quando o iPhone 11 for lançado. Segundo o raciocínio de quem acha que a deflação é ruim, ninguém compraria o iPhone XR porque sabe que ano que vem será lançado o iPhone 11. É isso o que observamos na realidade? Claro que não! E estamos falando de bens supérfluos. Algumas pessoas podem até esperar o preço abaixar, mas o consumo estará longe de ser zero. Em relação aos bens normais, principalmente os de primeira necessidade, este argumento contra a deflação se torna ainda mais esdrúxulo. Pensem no arroz. Só porque eu sei que daqui a um mês o arroz vai ficar mais barato, eu vou deixar de comer arroz hoje? Claro que não!  Em relação a bens de primeira necessidade, mesmo num cenário de deflação o consumo seria quase inalterado. Não vejo cabimento na teoria de que as pessoas adiariam o consumo de alimentos e remédios para esperar mais uma queda nos preços.  O consumo de bens normais continuaria, digamos, normal. Sinceramente, não sei como o professor não pensou em como o argumento que ele usou era fraco. Talvez ele só tenha ouvido na época em que fez a faculdade dele e agora repete, que nem um papagaio.

Sei que hoje em dia uma moeda com lastro parece um sonho distante, principalmente com lastro em metais preciosos, mas sonhar não custa nada... Quem sabe o mundo, um dia, não desperte da ilusão que é o dinheiro fiduciário...

Forte abraço!

domingo, 26 de maio de 2019

Considerações sobre o padrão-ouro



Eu sou entusiasta do padrão-ouro.
Creio que todos compartilham o desejo de uma moeda estável e forte, pois o que o ser humano mais deseja em sua vida é o conforto ou, pelo menos, a redução de seu próprio desconforto inicial. Com uma moeda estável, o sério problema dos ciclos econômicos seria resolvido, melhorando enormemente o padrão de vida (leia-se o conforto) de toda a sociedade. Posteriormente explicarei o motivo disso. Na opinião dos estudiosos das teorias liberais, o melhor caminho para uma moeda estável é adotar o padrão-ouro, ou seja, lastrear a emissão de moeda em ouro. Assim era feito antigamente, quando da invenção da cunhagem de moedas. O ouro, por ser durável, facilmente reconhecível, suficientemente escasso, maleável e de fácil cunhagem, foi o meio de troca voluntariamente aceito pela sociedade. Só em 1971, quando Nixon quebrou o acordo de Bretton-Woods é que o padrão-ouro foi totalmente abandonado. Ou seja, o atual sistema financeiro (sem lastro) só existe há menos de 50 anos. Em termos históricos, isto não é nada, e a meu ver o estrago já é grande. 
Atualmente, há quem acredite que o mundo caminha para uma crise ainda mais severa que a de 2008, devido à eventual falência do modelo de desenvolvimento nacional baseado no endividamento do Estado. Há quem afirme que, para combater a inflação que e tornar menos piores as consequências da grande crise, o melhor caminho seria a volta do uso do ouro como lastro do dinheiro. Com o advento do bitcoin e outras criptomoedas, alguns consideram que já não seria mais necessário uma moeda com lastro em algum ativo físico, e que as moedas digitais supririam perfeitamente esta função de “moeda forte”. Sinceramente, não sei se concordo com isso (Quando eu tiver estudado mais sobre criptomoedas, vou expor minhas opiniões aqui. Creio que ainda não estudei o bastante para opinar sobre elas).

Eu concordo plenamente que uma moeda estável e forte traz muito conforto e segurança para a sociedade, além de praticamente eliminar o problema da aposentadoria (bastaria saber poupar o dinheiro para garantir alguma renda decente nos anos de inatividade) e a necessidade de um sistemas de aposentadoria públicos. O planejamento financeiro se torna muito mais fácil se não houver o fantasma da inflação escurecendo o futuro... Sinceramente, eu gosto da ideia de moedas com lastro em metais preciosos. Elas me passam a sensação de que são dinheiro "de verdade". É triste saber que nossa moeda não vale praticamente nada e que até mesmo nos demais países latino-americanos não é bem aceita. Não sei quanto a vocês, mas quando penso em como o Real está fraco, sinto que meu salário é uma enganação: sou da classe média no Brasil, até porque aqui o Real é de curso forçado -ou seja, no Brasil todos têm que aceitar reais como pagamento e instrumento de quitação de dívidas, por força de lei -  mas em qualquer lugar desenvolvido eu seria praticamente um mendigo, meus reais não valem nada. Triste a nossa realidade. 

Eu gostaria muito que nossa moeda fosse forte, e de preferência com lastro em ouro. 

 O meu único porém é a respeito da quantidade de ouro necessária para sustentar o volume de negócios atual. Será que há ouro suficiente no mundo para atender à demanda? Seria possível cunhar moedas de ouro suficientes? Ou será que voltaríamos ao padrão-ouro clássico, no qual guardava-se o metal precioso num banco, que por sua vez emitia um título comprovando o depósito, documento este resgatável em ouro (esta foi a origem do papel-moeda) e que seria usado nas trocas do dia-a-dia? Sendo este o caso, o governo deveria ficar “de olho” nos bancos, para evitar que eles emitissem mais títulos do que a quantidade de ouro que havia no cofre, o que de fato aconteceu em nossa história, e ainda acontece, dando origem ao sistema de reservas fracionárias – ou seja, os bancos só têm em suas reservas uma fração do total da soma de todas as contas-correntes. Justamente por isso, um boato bastante convincente de que tal banco está indo à falência pode fazer com que ele de fato quebre, pois quando todos os correntistas forem, ao mesmo tempo, correndo para sacar seu dinheiro, o banco não terá o suficiente para atender a todos e ficará sem dinheiro nenhum. Os correntistas que “chegarem atrasados” e não conseguirem sacar a tempo também ficarão sem o seu dinheiro, e provavelmente processarão o banco, o qual eventualmente terá que liquidar todos os seus ativos para honrar suas dívidas e, com isso, deixará de existir.
Dizem os liberais que não haveria problema quanto à quantidade de ouro, pois o mercado se adaptaria à quantidade de dinheiro disponível. Assim, quando houvesse poucas moedas de ouro disponíveis no país (o que seria provocado, por exemplo, por um excesso de importações em relação às exportações), os preços encolheriam, uma vez que ninguém teria dinheiro em quantidade física suficiente para custear valores altos. Os comerciantes poderiam até demorar um pouco a reduzir seus preços, mas seriam eventualmente obrigados a fazer isto, tendo em vista que não conseguiriam vender nada aos preços antigos, de quando havia moedas em maior quantidade. Por outro lado, um grande aumento nas exportações que gerasse superávit na balança comercial faria com que a quantidade de ouro disponível aumentasse. Havendo mais moedas em circulação, isso permitiria aos comerciantes aumentarem os preços de seus produtos e serviços. Segundo os liberais, estas variações nos preços nada têm a ver com a ideia keynesiana de inflação/deflação, pois o dinheiro não teve seu valor alterado. Vou tentar explicar porquê: antigamente, quando o padrão-ouro era seguido no mundo inteiro, os nomes das moedas – dólares, libras esterlinas, francos, francos-suíços, marcos, etc. – eram simplesmente nomes diferentes para diferentes quantidades de ouro (assim como “um metro” é outro nome para “cem centímetros”), ou seja, eram meras unidades de medida. Por exemplo, uma libra esterlina equivalia a aproximadamente 0,25 onça de ouro. A grosso modo, para tornar mais simples o entendimento, os ingleses diziam “isto custa uma libra esterlina” ao invés de dizer “isto custa um quarto de onça de ouro”. Não havendo fraudes no processo de cunhagem das moedas, mesmo que os preços das mercadorias aumentassem ou diminuíssem, uma libra esterlina continuaria valendo 0,25 onça de ouro. Um metro são sempre cem centímetros, da mesma maneira que uma libra esterlina sempre equivalia a um quarto de onça de ouro. O que poderia mudar era a quantidade de ouro necessária para comprar uma casa, por exemplo.
Uma confusão que pode ser feita a partir deste raciocínio diz respeito à definição de inflação. Para os keynesianos, a inflação é uma alta contínua e generalizada dos preços da economia. Para os liberais, a inflação é, basicamente, a perda de valor da moeda (consequentemente, isto também gerará uma elevação nominal nos preços, mas este é o efeito, e não a causa da inflação). Aplica-se o raciocínio contrário para a deflação (ganho de valor da moeda, que gera uma diminuição de preços). Portanto, nos exemplos dados acima (de déficit e de superávit na balança comercial), não houve inflação, uma vez que a moeda não perderia seu valor em ouro. Uma libra esterlina continuaria valendo 0,25 onça de ouro (novamente, assumindo que não houvesse fraude na cunhagem das moedas). Afinal, trata-se de uma unidade de medida. Não seria absurdo que se estabelecesse que, em um metro, há uma quantidade variável de centímetros, às vezes 100, às vezes 202?
Explicando melhor, sendo a moeda lastreada em ouro, e o ouro sendo uma commodity, seu valor também é determinado pela lei da oferta e da demanda. Por isso, no caso de um superávit comercial, haveria mais ouro na economia. Esta abundância do metal precioso forçaria o seu valor para baixo (ou seja, o ouro seria menos valorizado pelas pessoas; seria encarado como um bem mais comum. Portanto, não se conseguiria cobrar um preço muito alto pelo ouro), e isso é que provocaria um aumento nos preços – a quantidade de moedas necessárias para se comprar o mesmo produto seria maior, ou seja, aumentaria a quantidade de ouro necessária (note que as moedas ainda seriam equivalentes à mesma quantidade de ouro!). Caso houvesse numa economia ouro suficiente para tornar seu valor irrisório (digamos, ouro praticamente nascendo em árvores), a quantidade de moedas de ouro necessárias para se comprar um pão, por exemplo, seria tão grande que não valeria à pena carregá-la até a padaria, por vários motivos: esforço físico (caso fossem moedas metálicas ou lingotes), praticidade, risco de perder o dinheiro no caminho, risco de ser roubado, etc. Neste cenário, o ouro provavelmente seria abandonado como meio de troca e outra coisa substituiria o ouro como lastro para as moedas. Este substituto poderia ser qualquer um que a sociedade aceitasse voluntariamente e que fosse suficientemente escasso para que seu uso valesse à pena. Poderia ser outro metal precioso, como por exemplo a prata, o paládio, o nióbio ou a platina; poderia ser alguma pedra preciosa (diamantes, rubis, etc.), poderia ser também alguma commodity agrícola, como o trigo (mas há neste caso o risco da superprodução de trigo, o que provocaria outra mudança de meio de troca); já houve na História até mesmo o exemplo do lastro em terras (a não ser que houvesse uma expansão do território, não haveria como criar mais terras. Portanto, isso a tornava “escassa o suficiente”)... Enfim, se fosse necessário, o ouro seria substituído por outra coisa, pela própria vontade da sociedade, sem necessidade de imposição exógena. O próprio mercado (que é a sociedade como um todo) encontraria a solução para este problema, pois as pessoas precisam de bens e serviços. Portanto, “o show tem que continuar”.
Entretanto, um cenário tal qual o descrito acima é praticamente impossível de ocorrer em um padrão-ouro, uma vez que este metal é suficientemente escasso para impedir que sua acumulação chegue a tal ponto. O exemplo dado é muito mais provável de acontecer com uma moeda lastreada em grãos de areia, em folhas de goiabeira ou em moedas sem lastro algum (o que infelizmente é o caso de praticamente todos, senão todos, os países do mundo hoje em dia).
O caso das moedas sem lastro (ou moedas fiduciárias, ou seja, que necessitam puramente da confiança e da fé da sociedade em seu valor para serem usadas como meio de troca) merece muita atenção, pois aí está uma das principais causas de todas as crises que ocorreram no século XX e no início do XXI, além de todas as outras que ainda virão enquanto o mundo persistir neste erro: o fato (mencionado acima) de os bancos poderem emprestar mais dinheiro do que têm em suas reservas faz com que eles praticamente “imprimam” dinheiro, aumentando rapidamente e artificialmente a oferta de moeda na economia. Como o valor de um bem é determinado por sua escassez, a progressiva abundância de dinheiro faz com que cada unidade monetária valha cada vez menos, o que pressiona os preços de todos os bens e serviços para cima e causa empobrecimento da população, uma vez que os salários não costumam aumentar na mesma proporção e nem na mesma velocidade. Numa economia que adota o padrão-ouro (ou que lastreie sua moeda em algum bem suficientemente escasso), isso é muito mais difícil de ocorrer, uma vez que os bancos precisariam adquirir alguma quantidade de ouro para lastrear suas emissões de dinheiro (mesmo que adotem as reservas fracionárias). A desvalorização da moeda, se ocorrer (caso da adoção das reservas fracionárias), seria muito menor e exponencialmente mais lenta do que no caso atual do mundo, no qual o dinheiro não tem lastro algum.