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segunda-feira, 27 de junho de 2022

Um olhar crítico sobre nosso sistema de ensino

A questão da educação e do ensino no Brasil, nossa querida Terra de Santa Cruz,  é algo problemático já há algumas décadas. 

Não sei quando o problema começou,  de fato, e sei através de relatos de parentes e amigos que exercem o magistério, que hoje em dia está muito pior do que quando ocupei os bancos escolares. 

Também sei que na minha época já estava pior do que na de meus pais, mas acredito que na época deles as coisas estavam melhores do que na de meus avós. Então creio que o problema tenha começado mesmo por volta dos anos 60 ou 70, embora suas sementes provavelmente já estivessem plantadas há muito mais tempo. O problema não é só administrativo, mas também cultural, mas este assunto fica para outro post.

Se vocês pesquisarem, verão que a degradação do ensino não é um fenômeno exclusivo do Brasil... até as famosas e caríssimas universidades da "Ivy League" estão degradadas e decadentes, embora ainda sirvam para enfeitar currículos mundo afora...

Mas isto também  é assunto para um futuro post. Neste aqui me aterei apenas ao Brasil.

Vejam se a experiência que vocês passaram nos anos de escola não é parecida com o que vou descrever:

O nosso sistema de ensino se divide em basicamente 4 fases: primário,  ginásio,  ensino médio e faculdade (uso a nomenclatura da minha época de aluno).


É no ensino  primário que aprendemos o básico e , no fundo, aquilo que é mais útil pra vida: ler e escrever em português, as 4 operações fundamentais de matemática, frações, porcentagens, e o basicão de ciências, geografia e história. É o mínimo para ser funcional em praticamente qualquer emprego, e também julgo necessário saber o mínimo de biologia para viver (pelo menos onde estudei, aprendíamos até a quarta série o básico do funcionamento do corpo humano, o básico sobre plantas e animais, alguns cuidados que temos que ter com a comida, etc.). 

E, embora a maioria das pessoas nunca vá usar os conhecimentos de geografia e história para ganhar dinheiro, não acho que seria bom que em uma sociedade a maioria das pessoas não soubesse absolutamente nada de geografia e de história do mundo e da história de seu próprio país. Acho que todos temos que saber alguma coisa destes assuntos, pois é essencial ter um mínimo de cultura! 

Não concordo com as ideias, defendidas por alguns, de que somente devemos aprender o que for útil para o trabalho, pois assim seríamos reduzidos a meros "burros de carga", seres incultos que só sabem coisas relativas a suas próprias profissões, como formigas operárias. Isto reduziria o ser humano a algo só um pouco acima dos animais, em minha opinião.

pena que salas de aula arrumadinhas assim sejam exceção no Brasil...


Quando chegamos ao Ginásio e depois ao Ensino Médio as coisas estão estruturadas de maneira que é praticamente só um repeteco mais aprofundado do que vimos no primário, com a inclusão de algumas poucas coisas novas (física e química, principalmente) e entra muita coisa que é só decoreba pro vestibular, principalmente a parte de história, geografia e filosofia no ensino médio. Claro que algumas coisas aprendidas nesta fase são úteis, mas é cada vez mais notório que o objetivo é só preparar os alunos para o ENEM, numa espécie de "linha de montagem" (além da doutrinação vermelha).

Depois do ensino médio, infelizmente, o normal na época de fazer os vestibulares é estudar tudo de novo, em um cursinho preparatório (às vezes esse cursinho é feito durante o terceiro ano do ensino médio e algumas escolas oferecem esse curso no contra-turno do aluno). O cursinho pré-vest simplesmente condensa em uns 7 ou 8 meses tudo o que foi transmitido nos 3 anos de ensino médio, fazendo uma grande "paçoca" de conhecimentos, muitos dos quais são decorados.

Na hora do vestibular, o aluno "vomita" na prova todas as informações acumuladas em tantos anos de repetição e decoreba na época de escola e no cursinho pré-vestibular, e via de regra esquece a maioria das matérias logo depois.


Ironicamente, o aprendizado mais útil da época do ginásio e do ensino médio são os idiomas (geralmente as escolas ensinam inglês e/ou espanhol, e umas poucas ainda ensinam francês como matéria optativa), mas os alunos em geral tratam essas matérias como simples decorebas ou nem aprendem, e as escolas quase sempre permitem que eles passem automaticamente de ano, pois por aqui já algum tempo há uma cultura muito forte de "ah, você não vai fazer o aluno repetir de ano por causa de inglês,  né??". E fica por isso mesmo. O público meio que já se acostumou com a ideia de que "inglês de escola é ruim".

(Por exemplo, na minha época de ensino médio, na minha escola havia um sistema de monitoria, e eu fui o monitor de inglês da minha turma durante os 3 anos do ensino médio. Eu dava aulas de reforço para diversos colegas que não só não sabiam nada de inglês, mas também não queriam nem se esforçar para aprender. Fiz dezenas de redações para que meus colegas de turma decorassem-nas e as "vomitassem" na prova, não importando qual de fato seria o tema da redação da prova...bizarro demais! Os caras se dispunham a decorar redações de 20 linhas, mas não a aprender inglês!)

Durante a faculdade, há muitas matérias que não acrescentam em nada nem para a profissão que está sendo aprendida e nem para a cultura geral do aluno, e estão lá somente porque o MEC determinou que os cursos de bacharelado devem obrigatoriamente ter 8 períodos e determinada carga horária mínima, como se todos os cursos fossem exatamente iguais (eu sei que tem faculdades que permitem puxar "N" matérias, de modo que tem gente que consegue se formar em 3 anos, mas estes casos são exceção)

Uma coisa interessante que eu noto principalmente nas redes sociais e em sessões de comentários de sites em geral: é muito engraçado ver como hoje em dia em qualquer discussão na internet tem gente dando "carteirada de diploma", e às vezes até dando carteirada de "estar cursando" determinado curso. 

Tendo em vista que o perfil médio do universitário brasileiro é aquele cara que foi para a faculdade só pra ir em chopada e frequentar o barzinho local, matava aula direto (só tomando cuidado para não ser reprovado por falta), estudava só de véspera e passava raspando na maioria das matérias  (isso quando não pedia para o professor dar mais meio ponto) e pagou alguém para fazer o TCC, então há uma boa chance de que aquela pessoa que está te dando carteirada com o diploma numa discussão ter sido esse tipo de universitário. 

Afinal, com que autoridade uma pessoa dessas dá carteirada? Só porque tem um pedaço de papel mal e porcamente merecido? Será que essa pessoa fez algum trabalho realmente relevante em sua área de conhecimento ou será que produziu por obrigação mais um TCC de 20 ou 30 páginas que nunca será lido por ninguém (talvez nem pelo orientador)? 

Acho que algumas ideias para para resolver um monte desses problemas, ou ao menos dar o pontapé inicial seriam:

1) Somente o ensino primário ser obrigatório (para todo mundo saber ler, escrever e pelo menos as 4 operações fundamentais) ou pelo menos somente as matérias que mais se aproximam daquelas do "trivium" e, mais tarde, do "quadrivium", serem obrigatórias, com o restante das cadeiras sendo eletivas e cada aluno montando sua grade ao longo dos anos de escola conforme o interesse e o pendor de cada um;

2) Focar o ensino primário em leitura, interpretação de texto, raciocínio lógico e matemática (que são áreas muito defasadas no nosso Brasilzão de Deus) 

3) Diminuir o número de vagas da maioria dos cursos superiores (muitos cursos formam um número de profissionais muito superior à demanda do nosso mercado, o que achata os salários) 

- edit (9/8/22): aumentar o número de vagas pros cursos de medicina, pois apesar do que dizem, há poucos médicos no Brasil, e muito concentrados nas capitais;

- edit (27/3/2023): diminuir também o número de vagas para o ensino médio, e direcionar aqueles que não fossem cursá-lo para cursos profissionalizantes, para que aprendessem ofícios.

4) Acabar com qualquer forma de aprovação automática em todas as etapas do ensino;

5) Focar em abrir mais escolas técnicas / profissionalizantes, e não em abrir universidades (no Brasil tem muito "doutor" e pouco eletricista, encanador, mecânico, etc. que sejam realmente técnicos);

6) Acabar com o currículo obrigatório (exceto talvez para o trivium e quadrivium), e permitir que cada escola tenha o seu próprio currículo personalizado para as peculiaridades locais de cada região e/ou de seu público;

Edit (27/3/2023): 

7) impor uma idade máxima para cada série (e com isso acabar com o absurdo de, por exemplo, adolescentes de 15 anos ou mais na quarta série, dividindo a sala de aula com crianças de 10 anos, que vemos em algumas escolas)

8) em complemento ao item 7, impor um número máximo de reprovações aos alunos (prevendo a expulsão de quem repetir de ano mais do que, por exemplo, duas vezes)

9) Tornar obrigatória a apresentação de algum comprovante de trabalho (carteira de trabalho, contrato de PJ, recibos de autônomo, etc) para frequentar EJAs;

10) direcionar os alunos expulsos das escolas (por conta dos itens 7 e 8), bem como quaisquer alunos e demais pessoas interessadas, para programas de ensino profissionalizante, para que aprendam ofícios.

Edit (16/9/2024):

11) Criar um "vestibular" ou "exame" para dar acesso ao ginásio, com número limitado de vagas (digamos, de cada 100 crianças do primário, apenas umas 60~70 deveriam poder ir pro ginásio). E depois, outro "exame" para o ensino médio, com menos vagas (das 60 que fizeram ginásio, só umas 40 deveriam poder cursar o ensino médio) - os alunos que não conseguissem passar nestes exames seriam direcionados para cursos profissionalizantes, para aprenderem ofícios.

12) Supletivos deveriam ter idade mínima (30~35 anos) e deveriam ter a matrícula condicionada a apresentação de comprovantes de trabalho/emprego, à semelhança de como deveriam ser os EJAs

13) Criar exigência de experiência profissional mínima para poder cursar Mestrado e Doutorado (para acabar com esse negócio de emendar faculdade com mestrado e doutorado, e com isso não formarmos mais  mestres e doutores que nunca colocaram a mão na massa e possuem uma visão apenas teórica sobre suas áreas de conhecimento) 

14) Criar exigência de idade mínima para cursos de Mestrado e Doutorado (eu acho muito estranho quando vejo um doutor de 30 ~35 anos! Doutor deveria ter uns 50, 60 anos, por aí. Mestres deveriam ter uns 40 anos, no mínimo. Isso faria com que somente pessoas com experiência de vida fossem para estes cursos, e não jovens recém-formados)


Não posso afirmar se as ideias acima, caso seguidas à risca, resolveriam os problemas de educação no Brasil, mas acredito que ajudariam bastante no longo prazo. Usei apenas o bom senso para pensar nestas ideias.

Enfim, confraria, estas são algumas de minhas opiniões sobre o nosso sistema de ensino. Será que exagerei alguma coisa? Talvez, mas não acho que escrevi nada muito fora da realidade. Pelo menos foram essas as coisas que vi em meus tempos de formação.


Forte abraço!

Fiquem com Deus!

Fora da caridade não há salvação!

sábado, 3 de abril de 2021

O drama de ter que fazer um TCC

 

Um dos grandes erros de nossa academia é o excesso de preocupação com a forma dos trabalhos que são feitos e a quase absoluta falta de preocupação com o conteúdo e com os efeitos práticos que as conclusões de tais trabalhos alcançam.

Basta observar que em qualquer TCC o que mais se cobra são as regrinhas da ABNT e não o conteúdo e a qualidade do texto em si. O irônico é que praticamente toda faculdade, não importa se de humanas ou de exatas, tem uma matéria só para ensinar essas regras ("metodologia da pesquisa"), mas esta matéria geralmente é tão árida (e muitas vezes mal ensinada) que quase todo mundo tem que ficar pesquisando na internet como fazer citações do jeito certo e outras regrinhas bobas (ou pagar alguém por fora para formatar o trabalho - aliás, está aí uma boa ideia de pequeno negócio para um universitário ganhar uma renda extra, caso tenha paciência, desde fique só na formatação e não envolva fazer o trabalho inteiro para os outros.)

Conforme disse em outro post sobre educação, descreverei aqui algumas das minhas experiências ruins com este tipo de trabalho. Provavelmente alguns de vocês irão se identificar:

1) No TCC da faculdade, acabei escolhendo um tema que infelizmente era meio complicado de encontrar bibliografia - acho que só tinha uns 3 ou 4 livros em português, e eu comprei todos para fazer o trabalho. O problema é que eles não são atualizados há muito tempo (o mais recente era uma edição de 2005) e o professor ficou cobrando que eu colocasse citações de mais livros e de livros mais recentes, sem entender que a bibliografia era escassa. Para sossegá-lo, procurei dissertações de mestrado sobre o tema (também raras) e coloquei citações delas só para encher linguiça. 

Na verdade, nenhuma das citações que eu coloquei contribuía de fato para o trabalho, mas infelizmente nossa academia entende que somos obrigados a citar autores só porque sim, como se nenhum de nós fosse inteligente o bastante para ter raciocínios próprios. 

Para os meus leitores que porventura ainda estão na faculdade e não chegaram ao TCC, coloco um exemplo bem hipotético para ilustrar o que os aguarda:

-Você entrega o primeiro rascunho do trabalho assim: 

"O céu é azul, o sol está brilhando, e os passarinhos cantam... a primavera chegou."

-Então o professor te devolve o rascunho com a seguinte correção:

"O céu é azul [quem disse que o céu é azul? colocar citação], o sol está brilhando [novamente, você está fazendo uma afirmação não embasada. Sugiro colocar uma citação de autor consagrado para dar força ao seu argumento] , e os passarinhos cantam... [faltou citação, e não use reticências em trabalhos científicos. Recomendo usar ponto e vírgula para este tipo de separação] a primavera chegou." [a conclusão está partindo de premissas não embasadas em autores confiáveis. Sugiro verificar isso e mudar o tipo de verbo usado na conclusão. Também deixo como sugestão usar mais de um tipo de citação para enriquecer o trabalho]

-Então, você, que não quer perder pontos e nem perder tempo, devolve o trabalho assim:

"Segundo Ramos (2018) "o céu possui tonalidade azul cerúlea que fica mais intensa nos meses mais quentes do ano". Para Almeida e Gonçalves (apud Pedroso, 2015):

o sol brilha forte no alto do céu nas 

estações da primavera e do verão.                                                       

É comum que as aves saiam de seu                                                   

 período relativamente silencioso                                                          

observado nos meses mais frios.

(Pedroso, 2015, p. 394)

Partindo dos pontos de vista apresentados acima, é bastante seguro afirmar que, através da observação do céu quando este apresenta tonalidade azul mais intensa, assim como da observação do aumento da intensidade da luz solar, que o local observado encontra-se na primavera. Para reforçar a conclusão, há também a evidência do aumento na frequência do cantar das aves, conforme definido acima por Almeida e Gonçalves.

-E provavelmente depois de entregar esta versão, ainda corre-se o risco do professor dizer que a referência a Almeida e Gonçalves está datada, porque é de 6 anos atrás, ou que não são autores consagrados, e então exigir uma citação do professor doutor Lindomar. 

O exemplo que dei acima foi bastante esdrúxulo, mas acredito que ilustra muito bem a estrutura de um típico TCC nas universidades brasileiras: gastamos linhas e linhas com citações para chegarmos a conclusões óbvias ou semi-óbvias. Gastamos muito tempo e energia fazendo textos que talvez nem o orientador irá ler direito, e que depois será arquivado e esquecido para sempre.


2) Outro causo do TCC da faculdade: o primeiro feedback do professor orientador foi de "isso que você apontou como problema para propor uma solução eu realmente não enxergo como um problema, então sugiro que você mude o tema do seu trabalho" - sendo que faltava dois meses para entregar. Como eu sempre tive dificuldade em escolher o tema de qualquer trabalho em que o tema era livre, ignorei o conselho dele e continuei mandando os rascunhos com o mesmo tema, na cara de pau. Eu acho meio exagerada essa coisa de que o TCC de uma faculdade tem que propor uma "solução" para um "problema" - até porque o limite costuma ser de 20 páginas, com espaçamento 1,5 e sendo obrigatório encher o texto de citações só porque sim. Como realisticamente propor uma "solução" para um "problema" em 20 páginas?

E o pior: muitas vezes somos forçados a inventar um "problema" que não existe e a propor uma "solução" imaginária.

Infelizmente, temos essa mania de "brincar de pesquisador" em todas as nossas faculdades. Esse modelo obviamente não deveria ser aplicado a todos os cursos. Na minha opinião, os TCC de nível de graduação nem deveriam existir, mas já que o MEC faz questão, então eles deveriam ser somente resenhas de livros consagrados de cada área ou simplesmente estudos de caso, e com limite maior de páginas. Tem vários assuntos em que 20 páginas é muito, e vários assuntos em que 20 páginas é muito pouco, ainda mais em se tratando de "problemas" que muitas vezes nem existem. 

Acho que soluções de verdade para problemas de verdade estão mais no nível do doutorado e do pós-doutorado, com muito mais tempo para pesquisar e muito mais páginas para escrever.


3) Na pós-graduação que fiz, havia algumas matérias com  trabalhinhos de 1 ou 2 páginas que valiam 1 ponto cada. Geralmente eram 3 ou 4 perguntas e era só enviar um arquivo de Word com as repostas para o e-mail do professor. Como era fácil, cada resposta tendo no máximo 1 ou 2 parágrafos, eu simplesmente respondia e mandava sem grandes preocupações. Acontece que na primeira vez um dos professores me devolveu o trabalho corrigido dizendo que eu não havia deixado as respostas no formato padrão da ABNT. Ele estava cobrando que eu colocasse citações de autores e colocasse tudo com as margens, fontes e espaçamentos corretos para responder àquelas perguntinhas simples. Fiquei pasmo com isso.

A minha vontade era dizer que para um trabalhinho de 1 ponto simplesmente não valia a pena perder tempo cumprindo as regras da ABNT, afinal eu gastaria mais tempo formatando o texto e procurando citações para encher linguiça do que de fato respondendo as perguntas, mas como eu tinha mais a perder do que a ganhar fazendo essa reclamação, deixei para lá. Continuei mandando os trabalhinhos sem me preocupar com a formatação e dane-se. Na terceira vez eles pararam de me recomendar que colocasse no padrão da ABNT e ao invés de eu tirar 1 eu tirava 0,8 ou 0,7 na nota. Que lástima, não é?

4) Ainda sobre a minha pós-graduação, uma reclamação memorável  que recebi de um dos professores daquelas matérias com trabalhinhos de 1 ponto era que eu não estava colocando citações nas respostas e, palavras dele: "no nível de pós-graduação, é esperado que as respostas sejam bastante embasadas, afinal não estamos mais no ensino médio, precisamos pesquisar para responder bem cada pergunta que é feita, então é esperado que cada aluno use o máximo de recursos acadêmicos para orientar seus estudos".

Por um lado eu entendo que o uso de citações é uma ferramenta para evitar que os trabalhos sejam feitos com base em "achismo", mas por outro lado, vejo que há um grande exagero em nossa academia em relação à exigência de citações, como podemos observar neste exemplo, em que o professor cobrava citações em respostas que teriam no máximo 2 parágrafos. Até parece que os alunos da pós-graduação não podem pensar por conta própria... Nesse quesito o ensino médio está melhor servido, pois o aluno é livre para escrever usando seu próprio raciocínio sem ter a cobrança por citações, enquanto que o pós-graduando está amarrado a esta obrigação que a meu ver é muito mais estética do que legítima. 


Dito isto, atualmente tenho sentimentos mistos em relação a fazer um mestrado em minha área de interesse. A principal razão para me deixar com um pé para trás são estas cobranças fúteis de nosso academicismo. Porém, não nego que ter um mestrado me ajudaria a alcançar uma carreira de professor, o que me permitiria eventualmente deixar meu atual emprego. Confesso que já estive mais empolgado com esta ideia, mas ainda acho que vale a pena ao menos ter esta carta na manga, como um plano "B" da vida. Vou continuar pensando com carinho nesta ideia.

É uma pena que nossas universidades e escolas (inclusive as particulares) já há muitos anos tenham sido tomadas por ideologias nefastas e inimigas da humanidade, embora posem de defensoras dos pobrezinhos. O trabalho para reverter este quadro será árduo e demorado, mas precisa começar, de algum jeito, ainda que de fora da academia. Já há alguns professores bem intencionados lutando o bom combate, discretamente, tijolinho por tijolinho.


Enfim, cavalheiros da blogosfera, mesmo que eu algum dia consiga ter uma carreira acadêmica, sempre escreverei com muito mais sinceridade e autenticidade aqui do que em artigos acadêmicos, pois aqui - ou em qualquer outra plataforma onde eu eventualmente vá escrever alguma coisa sob este ou outro pseudônimo - este relativo anonimato e total informalidade me deixam mais livre e confortável para expressar minhas ideias.

Embora isso seja só um meme, tem um fundo de verdade

Feliz Páscoa a todos!

Fiquem com Deus!

domingo, 24 de janeiro de 2021

Comentários sobre a educação e o ensino no Brasil

 Saudações, confrades!

Aproveitando que hoje foi o último dia do ENEM, vou escrever sobre a baixa qualidade (em geral) do ensino no Brasil, com ênfase no ensino superior, um assunto amplamente debatido na nossa querida blogosfera das finanças.

Como vocês devem estar carecas de saber, já faz muitos anos que a qualidade do nosso ensino vem caindo (eu diria que há pelo menos uns 40 ou 50 anos), e a era PT no governo só acelerou a decadência.

Isso, na minha opinião, é de propósito, e tem o intuito de  nos transformar em gado obediente e 100% dependente do Estado. O conhecimento ajuda a trazer liberdade, tanto financeira quanto das amarras mentais de ideologias (o pior tipo de escravidão, na minha opinião), e os governos em geral (assim como algumas grandes empresas, que cada vez mais se confundem com o Estado, ou até mesmo como um novo tipo de Estado) não gostam da ideia de homens livres: querem que você seja só um pobre coitado que nem sabe ler direito e dependa do Estado para tudo, até para decidir o que comer na hora do almoço (não é à toa que cada vez mais ficam forçando a barra com bobagens do tipo "pegada de carbono", comer insetos para não precisar criar gado, controle populacional, etc.)

Voltando ao assunto principal do post: vejam, porém, que não é só o governo o culpado pela derrocada do ensino no Brasil: a própria mentalidade do povo colabora com isto. Parte do problema é o pensamento incutido no imaginário popular brasileiro de que o acesso ao  curso superior é um direito e, não apenas isto, mas que fazer faculdade  é uma etapa obrigatória da vida. 

Claro que isso se aplica muito mais à vida nas grandes e médias cidades, que é onde estão as empresas e órgãos públicos mais importantes, que são os lugares onde normalmente se exige maior qualificação da mão de obra. (Se bem que acho que até hoje tem gente no interiorzão rural que ainda nutre esperanças de "ir pra faculdade pra não ser peão de roça"... e acaba virando "peão de escritório"). 

Como há muita demanda por praticamente qualquer ensino superior, o mercado não ficou parado e criou a "indústria do diploma", com a abertura de inúmeras faculdades particulares. E o governo, sempre faminto por capital político, ampliou o ensino superior público. Todas estas coisas aconteceram sem um bom planejamento, e assim temos muito mais diplomados do que o mercado precisa em diversas áreas. Infelizmente, a economia no Brasil não é tão desenvolvida a ponto de precisar de tantos profissionais formados todo ano. O resultado disso é o achatamento geral dos salários e muito desemprego. É graças a aplicativos de entrega, uber, cabify, etc. que a situação não está pior ainda.




E para piorar, a qualidade do ensino (público ou privado) em geral é péssima.

Claro também que para algumas profissões é mesmo necessário um nível maior de estudos, o que justifica a necessidade do nível superior, mas o problema é que esta necessidade se generalizou, e muitos empregos que antes não exigiam diploma hoje exigem, porque, como "todo mundo tem diploma", não ter passa a ser uma desvantagem, e acaba sendo uma maneira fácil para o RH de qualquer empresa eliminar candidatos às vagas de emprego.

Um exemplo que ocorreu na minha família: um parente meu era gerente do departamento de ações de um banco nos anos 70-80, e isso sem nem ter o ensino médio! Ele só tinha o primário! Como ele eventualmente "ficou caro" para o banco, foi demitido e foi se virar trabalhando como corretor autônomo da bolsa, e trabalhou com isso por muitos anos, até bem pouco tempo, e isso só com o diploma da quarta série. Foi só a partir de 2007-2008 que a CVM inventou do nada uma regra estúpida de que os corretores deveriam ter no mínimo o ensino médio completo. Esse meu parente era uma prova de que tal regra era desnecessária, mas fazer o quê, aqui é o Brasil, então ele foi obrigado a fazer a prova do ENEM  para ter o direito de continuar trabalhando. Detalhe: ele passou na prova do ENEM sem nem estudar, só com o conhecimento "de vida". Não acho que ele passaria para medicina, mas ele tirou a pontuação mínima exigida para que pudesse usar o resultado como um "diploma" do ensino médio. 

(E tem muito adolescente com a matéria ainda "fresca" na cabeça que não passa.)

Baseado nesta história e em outras que já vi, digo com segurança que, em termos de conhecimentos e capacidade de se virar no trabalho, muita gente só com o primário e/ou com ensino  médio de antigamente certamente dá um banho em 90% das pessoas com mestrado/doutorado/Phd de hoje em dia. 

Sei do que estou falando. Tenho mais de um professor na família, tanto na área pública quanto na iniciativa privada, e através deles sei como andam essas coisas. A qualidade de tudo vem caindo: professores recém-formados, materiais produzidos, e até a dos alunos.

Infelizmente, nossa "academia" é muito apegada à teoria e aos formalismos (saibam que toda faculdade, não importa a área, tem uma matéria chamada "metodologia da pesquisa" que praticamente só serve para "ensinar" a fazer o TCC, e o próprio TCC é uma coisa besta: o que mais importa não é o conteúdo, é seguir as regrinhas da ABNT, muitos avaliadores nem lêem). Nossa "academia" quase não dá valor à prática. Então vemos, por exemplo, na área de economia, administração e contabilidade, cursos 100% teóricos, em que não se ensina nem a mexer no excel e no powerpoint (que até hoje constituem uns 90% do trabalho de escritório), que dirá tópicos mais avançados. Vemos licenciaturas com aulas que mais parecem propaganda político-partidária e demagogia do que realmente ensinam os futuros professores a ensinar. Até mesmo as faculdades de medicina me parecem que estão formando "leitores de manual" ao invés de médicos, conforme já escrevi por aqui.

E digo mais: a maioria dos diplomas não são realmente necessários para suas respectivas áreas profissionais - isso é um fato para o qual cada vez mais pessoas estão despertando, mas ainda demorará um tempo até que o mercado de trabalho deixe de se importar com diplomas. Talvez a "pejotização" acelere isso. Lá fora, nos EUA, com todo aquele drama causado pelas imensas dívidas estudantis (as universidades por lá, pelo menos as famosas, são bem caras, custando mais de 50 mil dólares por semestre), me parece que também está havendo um despertar para o fato de que há algum tempo os cursos superiores não estão com essa bola toda.

Eu mesmo tinha muita vontade de fazer mestrado na minha área, mas de uns tempos para cá desanimei bastante - confesso que em boa parte por causa da perspectiva de ter que fazer mais um TCC, só que um com muito mais páginas - talvez um dia eu escreva um post falando só sobre o drama que é fazer esse tipo de trabalho e compartilhando algumas experiências pessoais. 

Porém, eu sei que serei "obrigado" a fazer pelo menos um mestrado caso consiga virar professor, por questões de sobrevivência profissional e para ampliar minha empregabilidade (no serviço público, porque escolas e cursos particulares às vezes rejeitam candidatos com muita qualificação, pelo que fiquei sabendo, de modo que muitos omitem estes cursos de seus currículos...)

Recomendo a todos os que se interessam pela área de ensino a leitura dos livros do saudoso professor Pier Luigi (Aprendendo Inteligência, Ensinando Inteligência e Estimulando Inteligência).

O que os confrades acham disso? Fizeram faculdade? Como foi sua experiência? Pretendem fazer mestrado, doutorado, etc?  

Forte abraço! Fiquem com Deus e tenham uma excelente semana!

quarta-feira, 14 de outubro de 2020

A importância de deixar uma herança para os filhos

 Saudações,  confrades!

Escrevi este post inspirado neste bizarro tweet do perfil bloomberg opinion:


Vejam que atitude destrutiva estes "analistas" estão incentivando (pelo menos na manchete): gastar quase todo o patrimônio em vida e não passar quase nada para os filhos, ao invés disso dar-lhes apenas "experiências".

(O texto linkado ao tweet não é tão sensacionalista quanto a manchete, lá pelo meio do artigo ele fala em "dar dinheiro aos poucos" aos filhos para evitar mordidas do imposto de renda, mas como a maioria das pessoas só vai ler a manchete, a ideia que vai ficar é a de "não passar herança, porque isso não faz mais sentido no mundo atual")

Claro que não é saudável ser um pai avarento que nunca dá nada pros filhos. Óbvio que faz parte da criação proporcionar (dentro das possibilidades de cada um) boas experiências, lições e conselhos que ajudem os filhos a se desenvolverem como pessoas, estas coisas valem, sim, mais do que dinheiro, mas daí para torrar a grana e passar zero (ou pior, passar uma dívida) para os filhos eu já acho um imenso e perigoso exagero.

Também sei que cada um é dono de seu patrimônio e portanto cada um decide o que for melhor para si nesta questão de deixar ou não uma herança pros filhos. Se uma pessoa decide que quer usufruir de seu patrimônio até o último centavo, e faz esta escolha livremente, aí é de cada um.

Como sempre, defendo o equilíbrio.

A herança serve para que no longo prazo a família desfrute de alguma segurança, para que possa aproveitar as oportunidades que surgirem (imóveis, negócios, etc.), para que possam se dedicar a coisas além do trabalho e de correr atrás do sustento. Uma família sem herança tem que começar "do zero" em cada geração, e dificilmente irá para a frente, provavelmente será pobre para sempre (até que surja um gênio empreendedor que alavanque o patrimônio da família, mas por definição isso é bem raro).

Por quê playboys e patricinhas têm a chance de ir para a faculdade estudar coisas como artes, teatro, etc., para as quais o mercado é mais duro e fazer um sucesso mediano é bastante difícil, ou se dedicar a pequenos negócios e atividades de retorno duvidoso, coisas que um filho de um pobre normalmente não poderia fazer? Porque eles têm um patrimônio familiar que lhes dá tranquilidade suficiente para não se preocuparem em necessariamente ter que se dedicar a atividades com retorno financeiro mais certo. Eles têm um "Continue" no jogo da vida. Se tudo der errado para a patricinha e a carreira de desenhista não der certo, sua família pode bancar uma faculdade de emprego mais fácil, como medicina, por exemplo, ou um mestrado/pós-graduação numa instituição de prestígio que lhe abra algumas portas no mundo corporativo - fora os contatos que os pais provavelmente têm. E se mesmo assim tudo der errado, os filhos dos ricos terão um grande patrimônio deixado de herança que os sustentará, mesmo que só consigam subempregos ou seus pequenos negócios só rendam lucros minúsculos.

(vejam que não estou criticando estas pessoas: se existe a patricinha, é porque alguém antes dela ralou e suou muito a camisa em um emprego ou negócio. Desta forma, não acho certo o haterismo que existe em cima de playboys e patricinhas só pelo fato de estes terem dinheiro)

Por quê o filho do pobre é obrigado a ter empregos "de verdade" e a colocar a mão na massa, muitas vezes em atividades insalubres e extenuantes? Por que ele não tem escolha. Ele "só tem munição para 1 tiro", e tem que acertar, então normalmente ele não pode tentar ganhar a vida como pintor de quadros, ou dançarino de balé clássico, ou cantor, etc. Quer dizer, ele pode sim tentar fazer essas coisas, mas só no tempo livre: ele precisa de um emprego (ou de um negócio) "normal", com uma renda mais estável, que lhe dê dinheiro para as necessidades básicas. Claro que também é possível um pobre prosperar nestas coisas, mas as chances são bastante pequenas.

Sendo assim, uma família pobre terá chances de sair da pobreza através do trabalho e do acúmulo de patrimônio. E este acúmulo de patrimônio através de gerações pode eventualmente acabar com a pobreza de uma família (e por "acabar com a pobreza" eu quero dizer permitir aos descendentes não se preocuparem mais em faltar dinheiro para pagar o aluguel, não se preocuparem em faltar dinheiro para comprar comida, etc. Ou seja, não estou falando de luxos, estou falando em satisfazer com mais segurança as necessidades dos níveis mais baixos da pirâmide de Maslow). Sendo assim, eu vejo a herança como uma coisa essencial e importante, algo que não pode ser negligenciado, nem tratado levianamente.

E o "sistema" (a "matrix", chamem do que quiserem) sempre nos incentivará a fazer o contrário disso: nos incentivará a gastar o máximo possível, inventará falsas necessidades, luxos desnecessários, nos estimulará a girar o patrimônio, pagar muitas taxas, muitas comissões, muitos impostos, etc., em suma, o sistema sempre tentará nos manter presos na corrida dos ratos. A manchete que mostrei no início do post é só mais um exemplo disso. Cabe a cada um de nós nos disciplinarmos e buscarmos o equilíbrio financeiro, para que um dia possamos desfrutar da tranquilidade financeira e, se Deus permitir, transmitir algo além de conselhos e experiências para os filhos.


domingo, 28 de abril de 2019

Escolaridade no Brasil - a cultura do "filho doutor", achatamento dos salários, e outros problemas

Saudações, caros leitores

Espero que tenham tido uma boa Páscoa! A propósito, esqueci de dizer no meu post anterior, mas muito obrigado pelas mais de 1.000 visualizações no blog! No momento em que escrevo estas linhas, já passou das 1.500, e o post anterior foi o mais visualizado até agora, conforme as estatísticas do blogger! Tudo isso me dá motivação para continuar escrevendo e estudando mais. Aliás, todos devemos estudar mais e tentar evoluir sempre.

(ainda estou devendo aquele "post mais técnico" que disse que estava escrevendo no meu texto sobre a oficina mecânica onde trabalhei...)

Dito isto, vamos ao post de hoje:

Nos maravilhosos dias do feriadão da Semana Santa, estive conversando com um parente que está naquela fase de cursinho pré-vestibular. Perguntei,  por alto, para quais cursos o pessoal da turma dele queria prestar o vestibular. Como era de se esperar, a maioria queria medicina e em segundo lugar, direito (pelo visto essa turma não chegou a conhecer o Pobretão). Fiquei surpreso com o fato de ninguém da turma dele querer engenharia, além de haver alguns casos isolados de alunos querendo cursos muito específicos (alguns que eu nem sabia que existia faculdade, como "pintura", "dança", etc.) e outros que só vejo caminho profissional no mundo dos concursos públicos (que estão cada vez mais raros e mais difíceis de passar). Além disso, ninguém queria administração ou ciências contábeis, o que também é, de certa forma, surpreendente, visto que são dois cursos "clássicos".
A impressão que a conversa me causou é que as pessoas continuam saindo da escola sem realmente saber o que querem fazer da vida, o que, aliás, não me surpreendeu. Não acredito, por exemplo, que todos os que querem fazer o vestibular de medicina realmente tenham vocação para ser médico. Acredito que muitos tenham escolhido medicina pelo status, pelo salário e alguns só porque "é o que se espera". Direito continua sendo bem procurado, mesmo com a relativa escassez de concursos públicos. Será que todos irão trabalhar em escritórios de advocacia? Será que a maioria vai virar autônoma e conseguir criar "do zero" suas carreiras? E quanto ao pessoal dos cursos mais específicos? Onde será que trabalharão? Eu penso o seguinte: se as pessoas que vão para estes cursos muito específicos (principalmente os das áreas mais artísticas) o fazem pensando em arranjar empregos, provavelmente irão se decepcionar, pois não há muitos empregos para pintores (no sentido artístico do termo) ou para dançarinos - o que não quer dizer que não haja trabalho. Acho que se tais pessoas entraram nestes cursos pensando em atuar como autônomos ou empreender de alguma forma nestas áreas, então pode ser que tenham mais chances, mas não acredito que aprendam na faculdade aquilo que é necessário para empreender, visto que provavelmente seus futuros professores não são empreendedores.

Outras perguntas que essa conversa me trouxe: quantas vagas existem para estes cursos? Será que todos os anos todas são preenchidas?
A principal pergunta: realmente vale a pena que tais cursos sejam de nível superior e sigam o modelo padrão de bacharelado, ou seja, 8 semestres, com TCC no final e uma porção de matérias que só existem por exigência do MEC?

Eu acredito que, ao longo de décadas, foi vendida no Brasil a ilusão de que "todos precisam ter ensino superior". Uma explicação para isso, creio, é que antigamente, no tempo de nossos avós:
   
     1) Quase todo mundo era analfabeto ou só tinha o curso primário (hoje, 7,2% dos brasileiros são analfabetos, conforme o IBGE, mas a realidade é pior, pois a pesquisa não considera os analfabetos funcionais);
      2) Quase todo mundo era muito pobre (mas por outro lado, conseguiam criar um monte de filho, juntar um dinheirinho e ainda acabavam comprando terrenos e construindo casas)
      3) A grande maioria vivia de trabalhos braçais ou empregos do tipo vendedor, caixa de mercado, entregador, etc. (para se ter uma ideia, ser caixa de banco já foi considerado um emprego "top dos tops", de alto status e prestígio social)

Em parte por causa das condições listadas acima, o sonho de nossos avós era que seus filhos fossem "doutores", ou seja, que fizessem faculdade (desde aquela época a preferência era a tríade Medicina-Direito-Engenharia) e trabalhassem "de terno e gravata" para não sofrerem as agruras e desconfortos dos trabalhos braçais e ajudarem a família a escapar da pobreza (hoje em dia, os trabalhadores de escritório sofrem tanto quanto ou mais do que os braçais, só que de maneira diferente)
Desde aquela época, o número de faculdades aumentou, bem como a variedade de cursos superiores (alguns pela especialização dos conhecimentos, como é o caso da biologia e das engenharias, que são bem ramificadas; mas houve outros cursos superiores que, me parece, foram simplesmente "inventados", não sei com que objetivo, além de cursos técnicos que, por alguma razão, foram "elevados" à alçada de curso superior).
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O que o IBGE tem a nos dizer a respeito dos resultados das políticas públicas de educação (e quais são as possíveis falhas destas informações)? 
     
         1) Surpreendentemente, apenas 15% dos brasileiros têm nível superior completo (https://www.jornalopcao.com.br/ultimas-noticias/apenas-15-dos-brasileiros-tem-ensino-superior-completo-mostra-ibge-113091/), o que daria uns 30 milhões de diplomas, altamente concentrados nas capitais - e ainda temos que considerar os efeitos perniciosos da proliferação de "uniesquinas", bem como a má qualidade de várias das faculdades públicas (senão de todas);
          2) Cerca de 26% têm ensino médio completo (https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-sala-de-imprensa/2013-agencia-de-noticias/releases/18992-pnad-continua-2016-51-da-populacao-com-25-anos-ou-mais-do-brasil-possuiam-apenas-o-ensino-fundamental-completo), o que daria por volta de 52 milhões de pessoas - novamente, temos que considerar que isto é apenas um dado numérico que não atesta a qualidade do ensino médio das pessoas.
          3) Cerca de 51% dos adultos têm ensino fundamental (https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-sala-de-imprensa/2013-agencia-de-noticias/releases/18992-pnad-continua-2016-51-da-populacao-com-25-anos-ou-mais-do-brasil-possuiam-apenas-o-ensino-fundamental-completo) - apenas um dado numérico, que no fundo não quer dizer muita coisa, pois de que adianta ter o fundamental completo se a pessoa for analfabeta funcional ou ter dificuldades até para somar e subtrair? A pesquisa não reflete isso
     

Dito isto, vamos ver que hoje a situação dos brasileiros não mudou muito:
   
       1) A maioria da população sabe ler e escrever, mas muitos não sabem interpretar o que estão lendo ou escrevendo (esta é a definição de analfabetismo funcional, para quem não sabe, e isso nunca está refletido nas pesquisas sobre analfabetismo)
       2) A maioria ainda é pobre (com padrão de vida mais "confortável" [questionável!] do que o de antigamente, no geral, mas por outro lado, muitos não conseguem mais comprar terrenos e construir casas)
       3) A grande maioria ainda trabalha em empregos do tipo caixa de mercado, vendedor, entregador, motorista, etc. e quase não há vagas que exijam mais competências técnicas e intelectuais.

Acredito que uma das explicações para o número 3, acima, seja a seguinte: como a economia brasileira nunca experimentou um verdadeiro boom de surgimento de empresas, principalmente nas áreas de  uso intensivo de capital e empresas de tecnologia (afinal, até hoje só temos praticamente "1 companhia de petróleo, 1 mineradora, 5 bancos, 6 empreiteiras e 200 milhões de patos"), acontece que a maioria dos empregos é gerada por empresas pequenas, o que faz com que a maioria deles seja de baixa capacitação: não é necessário nenhum curso para ser vendedor, caixa, estoquista, repositor de produtos, recepcionista, atendente, etc. O problema é que a cultura do "doutor" criou na cabeça das pessoas (e, consequentemente, na dos políticos) de que é imprescindível ter nível superior e que fazer faculdade é um "direito sagrado" de cada cidadão. O governo (notoriamente os de esquerda), faminto por capital político, atende a este anseio da população por direitos, e autorizou através do ministério da educação a criação de diversos cursos superiores e abertura de várias faculdades públicas, sem realmente planejar esse processo.
   
   Um resultado disso é que todo ano se forma uma quantidade de profissionais de nível superior maior do que o mercado pode absorver, em diversas áreas. Mesmo que o percentual de brasileiros com nível superior pareça ser baixo (15%), o fato de existirem poucos empregos que realmente exijam mais conhecimentos e qualificação contribui para o achatamento dos salários para profissionais deste nível. Ou seja, a oferta de mão de obra qualificada (número de formandos) na maioria das áreas é superior à demanda (vagas de empregos para pessoas qualificadas). Sabendo que há um "exército" de profissionais sendo formados todos os anos, as empresas são incentivadas a pagar o menor valor possível - afinal, se o profissional estiver insatisfeito com o salário, ele que vá embora, pois há mais de mil querendo aquela mesma vaga, e muitos até aceitariam ganhar menos. Essa é uma das razões para os salários no Brasil serem, na média, bem baixos. Acho que este é bem o caso dos advogados: muitos se formando todos os anos, e poucos escritórios para absorver essa mão de obra abundante.

Uma explicação possível para o item 2, acima, reside no fato de que, como eu disse antes, a maioria dos empregos gerados no país não requer muita formação profissional, acadêmica, técnica, etc. Quando as exigências são baixas, o número de pessoas capazes de desempenhar as tarefas da vaga aumenta muito, ou seja, a oferta de mão de obra é ainda maior, superando em muito a demanda. Novamente, o empresário sabe que para cada funcionário reclamando do salário, tem uns 100 mil disponíveis no mercado que aceitariam trabalhar até por menos, o que faz com que muitos destes empregos paguem apenas o salário mínimo. O resultado disso é muita pobreza.

Uma outra razão para os salários baixos e a pobreza são os direitos trabalhistas: cada empregado custa cerca de duas vezes o próprio salário para seu empregador >> o que, grosso modo, significa que ele poderia ganhar "o dobro" ou que a empresa poderia contratar mais um para dividir o trabalho, caso tais direitos não existissem. Não acho que todos os direitos trabalhistas sejam um mal, apenas acho que alguns deles precisam ser revistos, mas esta é uma questão complexa demais para que a solução seja  do tipo "é só cortar os direitos" ou "é só criar mais direitos, proibir isso e aquilo"

Se a realidade aqui fosse diferente e, por exemplo, tivéssemos mais empresas de uso intensivo de capital (por exemplo, mais montadoras de carros, mais siderúrgicas, metalúrgicas, fundições, petroquímicas, fábricas em geral) ou de alta tecnologia (por exemplo, se tivesse surgido no Brasil alguma empresa parecida com a IBM, Apple, etc.), acredito que teríamos, sim, muito mais vagas para engenheiros de diversas áreas, para profissionais de TI, químicos, etc. E quanto mais avançadas fossem as máquinas usadas na produção, e quanto mais houvesse empresas grandes e ricas o suficiente para possuir verdadeiros departamentos de Pesquisa e Desenvolvimento (P&D), maior qualificação seria exigida do profissional, de modo que não seria tão fácil para a empresa encontrar um substituto, o que empurraria para cima os salários desse pessoal qualificado.

Outra coisa preocupante dessa mentalidade brasileira de "preciso ter curso superior" é que muitos dos que não conseguem passar para suas áreas de interesse no vestibular vão para a segunda, terceira ou quarta opção, mesmo que esta não tenha nada a ver com a primeira, só porque "têm que ir pra faculdade", pois "é o que a sociedade espera", e aí vemos bizarrices como, por exemplo, pessoas que tentam medicina, não passam, mas têm nota para cursar história da arte e então vão por este caminho; ou pessoas que tentaram alguma engenharia, não tiveram nota suficiente, e vão cursar administração. Isso é mais comum do que parece. Porque a pressa? Só para ter um diploma?  É necessidade de arrumar emprego para ajudar os pais? Alguns argumentam que começam a cursar a faculdade que tiveram nota para passar para "não perder tempo", mas isso geralmente é ilusão: provavelmente vão perder 4 anos estudando coisas que não queriam (e para realmente aprender qualquer coisa é preciso querer!) e para as quais, talvez, não haja mercado, o que poderá fazê-las penar por anos em sub-empregos ou empregos de baixo salário. Isso não é perder tempo? E, convenhamos, a maioria dos universitários não são alunos exemplares, e só estão lá para cumprir as exigências do MEC e pegar o diploma. Chega a ser assustador, se pensarmos bem, mas é mais uma verdade que precisa ser dita: muitas pessoas preferem ter um diploma ao invés de quererem realmente aprender a produzir, criar, gerar valor, etc. e isso só pode ser prejudicial para cada indivíduo e, uma vez que todas as variáveis sociais e econômicas estão interrelacionadas, nos prejudica a todos como sociedade: do ponto de vista puramente material, quanto menos pessoas realmente souberem fazer coisas, criar, produzir, etc. menos riqueza será produzida na sociedade, menos soluções serão encontradas, etc. E do ponto de vista moral/espiritual, temos mais pessoas frustradas (ainda que a nível subconsciente), desmotivadas, depressivas, etc. o que também é péssimo para a sociedade, afinal as pessoas têm que encontrar felicidade e motivação.

E agora temos essa polêmica envolvendo o Presidente Bolsonaro e os cursos de humanas. Para mim ele está certo, temos que redirecionar recursos públicos para cursos que agreguem mais valor aos  indivíduos que neles estudam. Obviamente, já tem gente reclamando disso (mais um sintoma da mentalidade do "é meu direito sagrado ir para a faculdade"), como se as nossas faculdades de filosofia (ou qualquer outra no mundo) realmente formassem filósofos - e não bacharéis em filosofia (e, para piorar as coisas, aqui no Brasil e em boa parte do ocidente, as faculdades de humanas em geral se tornaram "lacrolândias", onde nada de bom sai).

Realmente, sou forçado a acreditar que a cultura do "filho doutor", bem como a do "direito sagrado de fazer faculdade" e a maneira como a educação é conduzida no Brasil são grandes vícios do povo brasileiro, verdadeiros monstros fomentados ao longo de décadas, e ainda sofreremos e trabalharemos muito para combatê-los. Não esperem que venha um salvador da pátria, ou um "super-ministro da educação", para resolver estes problemas, pois consertar sozinho e em pouco tempo este estrago de décadas é humanamente impossível, por melhor que seja a intenção de quem se disponha a cumprir tal empreitada.

A valorização da verdadeira educação, a busca por conhecimento e aperfeiçoamento, o resgate da alta cultura são iniciativas individuais. Cada um tem que fazer sua parte.