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terça-feira, 15 de novembro de 2022

O dinheiro é uma abstração, e isso inclui o ouro

 





Os metais preciosos em geral (e neste texto eu uso o ouro como metonímia) têm sido aceitos como meio de troca pela humanidade há milhares de anos.

O homem da Antiguidade aceitava a ideia de armazenar ouro porque sabia que poderia trocar tal ouro por, por exemplo, comida. E isto porque certamente o outro homem aceitaria trocar o tempo de vida que gastou caçando, coletando ou plantando para produzir comida por ouro. Este por sua vez aceitava trocar seu tempo gasto produzindo alimento por ouro justamente porque sabia que um terceiro também aceitaria dar outras coisas em troca de ouro, e assim por diante. É uma cadeia de confiança, inicialmente não-escrita, orgânica, e que eventualmente acabou resultando nas moedas de curso forçado que temos atualmente.

O ouro, assim como qualquer forma de dinheiro, seja físico seja digital, com lastro ou sem lastro, é no fundo uma abstração para o tempo. O dinheiro desde sempre funciona como uma "bateria de tempo", um jeito de armazená-lo: permite que você se especialize em fazer uma só coisa (ou poucas coisas) em troca destas "baterias", para que não precise gastar tempo fazendo atividades que outras pessoas se dispuseram a realizar, elas também gastando seu tempo de vida em troca de "baterias". E, como escrevi anteriormente, isto só funciona na base da confiança. Se em dado momento a confiança em determinada "bateria" acabar, todas as suas cópias se tornam praticamente inúteis.

E nós passamos por várias camadas de abstração para chegarmos onde estamos hoje em relação ao que entendemos como dinheiro. 

O resumo deste caminho seria mais ou menos assim:

1) No início não existia dinheiro, não havia maneira simples e padronizada de "armazenar" tempo, então todos apenas satisfaziam suas necessidades imediatas e as da tribo, e no máximo estocavam coisas não perecíveis (peles, ossos, ferramentas, cerâmicas, etc.) mas sem pensar muito em trocas - estocavam principalmente porque era necessário para sobreviver (ao inverno, à seca, etc.) ;


2) Eventualmente chegou-se a um acordo não-escrito em que determinados objetos poderiam ser trocados por alimentos, água e por outros objetos (escambo);


3) Chegou-se a uma "conclusão coletiva" de que seria mais fácil e prático usar pedaços de ouro para fazer trocas, e novamente chegou-se a um acordo não-escrito de que isto seria aceito - esta foi a meu ver primeira camada de abstração,  pois foi adotado como meio de troca algo que não tem utilidade imediata em termos de sobrevivência - o ouro. Aceitou-se armazenar esforço e tempo de vida em pedaços de metal;

4) Com o surgimento de Estados (nada mais que a consolidação do domínio das "tribos" mais fortes), ao invés de meros pedaços de ouro passa-se a cunhar moedas (para padronizar o peso e tamanho de cada pedaço de ouro) e o soberano de cada Estado garante que a moeda de ouro é realmente de ouro e tem aquele peso determinado (por isso que as moedas têm os rostos dos governantes e os símbolos do governo) - e cada soberano também força o curso de sua moeda em seus domínios, bem como detém o monopólio de cunhagem da moeda (ou vende tais direitos para um aliado) - chegamos a mais um grau de abstração, pois para que valesse a pena cunhar moedas de ouro, o valor de cada moeda deveria ser superior ao valor do ouro nela contido - havia em cada moeda um valor imaginário: a diferença entre o valor extrínseco e o intrínseco;




5) Um belo dia, percebeu-se que seria mais prático carregar recibos e comprovantes de depósitos de ouro em bancos do que carregar sacos de moedas, e com isto surgiu o papel-moeda. Nesta época era indiferente usar o recibo ou a moeda de ouro, e qualquer um que entregasse um recibo em um banco receberia o ouro em troca, e vice-versa: o dinheiro ainda tinha lastro. Outro grau de abstração foi alcançado: não apenas a moeda vale mais do que o ouro nela contido, o papel que diz que eu possuo determinada quantidade de moedas de ouro guardadas num cofre dentro de um estabelecimento bancário vale tanto quanto as tais moedas. Ou seja, aceitou-se armazenar tempo de vida e esforço em pedaços de papel timbrados, pois tais papéis poderiam ser trocados por ouro.

dizem que os primeiros exemplares de papel-moeda foram notas promissórias chinesas



6) Eventualmente, por decisão unilateral estatal (ao menos nos casos em que conheço), abandona-se o lastro do dinheiro: o papel-moeda deixa de ser conversível em ouro. Por um tempo, esse dinheiro de papel convive com moedas de ouro, mas eventualmente isso terminou e todos passaram a usar só os papéis. Isto foi mais um grau de abstração alcançado: aceitou-se armazenar tempo em pedaços de papel timbrados pois o governo garante que tais papéis serão aceitos como meio de troca. O governo consegue forçar o uso do papel através da força da lei, mas não consegue controlar completamente o valor de tais papéis,  os quais dependem da confiança que os usuários depositam neles, e é por isso que a isto se chama "moeda fiduciária". Se a população perde a confiança no valor do papel-moeda, seu valor diminui,  e esta diminuição quebra ainda mais a confiança,  num ciclo vicioso.

7) Aos poucos, com a crescente digitalização da economia, o papel moeda físico vai sumindo e vai dando lugar a transações com cartões de crédito e débito,  transferências bancárias totalmente eletrônicas, e etc. O PIX facilitou ainda mais o processo. Isto foi mais uma camada de abstração alcançada: não é nem mesmo em um pedaço de papel - o tempo de vida e o esforço das pessoas está sendo armazenado em baterias totalmente virtuais: lançamentos contábeis eletrônicos em sistemas digitais de bancos.

Se criptomoedas vingarem como meio de troca (não sei e ninguém sabe se isso vai acontecer), então acho que isto representaria mais uma camada de abstração: armazenar tempo de vida em baterias virtuais geradas por algoritmos, sendo que alguns "garantem" uma escassez artificial (limite ao número de unidades mineráveis, como o BTC, BCH, etc.) e outras não (ETH). Claro que para isto funcionar, um número suficiente de pessoas precisa aceitar que isto funciona, senão as criptos continuarão sendo apenas bilhetes de loteria e objetos de especulação. 

Notemos que, apesar de a humanidade estar entrando em camadas de abstração cada vez mais etéreas e profundas acerca do que é dinheiro, o escambo não desapareceu completamente (e nem acredito que desaparecerá), e nem as moedas de ouro (também acredito que não irão desaparecer). 

No meu resumo acima, eu foquei no que é explicitamente dinheiro e deixei de lado outras abstrações que também funcionam como dinheiro (o mercado de crédito e o de derivativos, que são mais antigos do que muitos imaginam), para evitar que o texto ficasse longo demais. Talvez eu escreva mais sobre estes outros mecanismos em futuros posts.

A lição central aqui é: o dinheiro, mesmo o ouro, só funciona porque um número suficiente de pessoas concorda que funciona. A vantagem do ouro é que ele é usado há milênios pela humanidade, mas no fundo ele precisa ser aceito por um número suficiente de pessoas para funcionar. Como é usado há milênios, ele tende a ser sempre aceito, mas pode haver cenários em que talvez não seja.

Eu acho que, se não existisse o artifício do dinheiro (armazenar tempo): 

 - ou a principal ocupação da maioria das pessoas seria a de suprir o básico (alimento e água) com as próprias mãos para si mesmo e suas famílias (tal como era no estado natural do homem) - no regime feudal era assim... os camponeses geralmente passavam a vida inteira sem ver dinheiro, só cuidando da terra em troca de proteção do senhor feudal, ou pelo menos é o que nos diz o falecido historiador Jacques Legoff; ou 

- haveria uma divisão de trabalho em troca de outra coisa que não seria dinheiro (honra, favores, reputação, ou algo assim). 


O que acham disso, confrades? 

Que outras reflexões poderíamos tirar a respeito das camadas de abstração do dinheiro?

Forte abraço! 

Fiquem com Deus!

domingo, 25 de abril de 2021

Iniciando minha carteira de investimentos - parte 2 - Reserva de Valor

 Saudações, confraria da blogosfera!

Complementando o post anterior, sobre a alocação dos investimentos, vou falar sobre a reserva de valor, a qual, pelo menos no momento, pretendo que irá compor no máximo 5% de meu patrimônio (mas essa porcentagem pode mudar conforme meu entendimento e a situação geral mudem)

1) Primeiramente, para que serve uma Reserva de Valor?

No meu entendimento, ela serve para proteger a mim e à minha família de desastres políticos, como confiscos de dinheiro em conta-corrente e poupança (que nem na época do Collor), congelamento de ativos por decisões judiciais, bloqueio de conta bancária por motivos políticos, etc. 

Ou seja, a reserva de valor não é para especular e lucrar com as valorizações (embora isso possa eventualmente acontecer): ela serve simplesmente para eu conseguir me virar nos cenários desastrosos que apontei acima. 

Serviria, na época do confisco das poupanças nos anos 90, para eu não me desesperar (como muitos se desesperaram) e para eu conseguir ao menos por um tempo suprir minhas necessidades básicas e de minha família (comida, água, luz, etc). Se isso acontecer de novo (toc, toc, toc), ela servirá para este tipo de proteção.

Serviria também para me ajudar a fugir do país no caso de uma guerra civil, de um golpe comunista, etc. Ao menos para ajudar comprar as passagens de avião para fora, ou para pagar um atravessador na fronteira, e para as despesas iniciais em outro país.

Em último caso, serviria para subornar o guarda do gulag e fugir da prisão, no pior cenário (bati na madeira aqui, gente).

Rezemos para que nada do que escrevi acima aconteça, com nenhum de nós. 

2) E o que serve como reserva de valor?

Obviamente, não pode ser nada que fique em custódia em um banco brasileiro, pois assim estaria ao alcance do governo. Sendo assim, a Reserva de Emergência não serve, e nem o dinheiro em conta corrente. 

a) Dinheiro físico guardado em casa ou em algum outro esconderijo serve. No caso de um confisco semelhante ao do Collor, muito provavelmente até Reais físicos serviriam para me livrar de um sufoco.

Mas o ideal mesmo é ter moedas fortes (principalmente dólar, mas também libras e euros) físicas guardadas em algum esconderijo - não pode ser num cofre de banco, porque aí não estarão protegidas nem de um confisco geral. E numa grande crise, imagino que os bancos iriam fechar. No caso de um golpe comunista, imagino que seriam fechados pelo governo, e aí eu perderia o acesso ao cofre.

b) Além do dinheiro físico, também recomendaria ter uma conta no exterior, nos EUA ou na Europa, de modo a ter recursos mais sólidos e mais seguros em outro país, fora da jurisdição de nosso governo. A conta no exterior seria um lugar para onde eu enviaria remessas periodicamente e também para receber o valor de eventuais vendas de ações e FIIs investidos no exterior. Seria necessário um banco nos EUA ou na Europa que aceitasse correntistas não residentes, e que aceitasse abrir conta on-line. Ainda estou pesquisando isso, então se algum leitor souber, por favor me dê uma dica. 

c) Também podem ser usados como reserva de valor os metais preciosos, pois historicamente sempre foram aceitos nas trocas comerciais, desde que a humanidade chegou à abstração do dinheiro. 

Os mais úteis, na minha opinião, são o ouro e a prata. 

Acho importante ter ambos na reserva, pois a prata serviria para pequenas transações (alimentos, transporte, roupas, etc.) e o ouro poderia servir para as grandes compras (casa, terreno, carro) e para guardar grandes valores em pouco espaço. 



Porém, conforme o gráfico no capítulo 1 do livro Stocks for the Long Run, do Jeremy Siegel, o ouro praticamente acompanhou a inflação (em relação ao dólar) no período considerado na análise dele. Com base nisso, para o longo prazo o ouro só serve mesmo para a reserva de valor, pois a tendência é que acompanhe a inflação. Hoje, cerca de 320 reais compram 1 grama de ouro. Pode ser que daqui a 20 anos R$ 320,00 seja o preço de uma bala juquinha (batam três vezes na madeira aí, gente), mas 1 grama de ouro continuará sendo 1 grama de ouro e certamente valerá muito mais que uma bala juquinha. 


O problema é onde adquirir ouro e prata, e de maneira conveniente para que realmente funcionem como reserva de valor - ou seja, que possa ser revendido depois, caso necessário. 

Uma forma são as joias, as quais em uma situação de crise podem ser vendidas pelo peso de seu metal, com a desvantagem de que você pagará muito mais que isso para comprá-las - o que não inviabiliza o uso como reserva de valor.

Outra forma são moedas de coleção (numismáticas), principalmente as de prata, que existem muitas e não são muito caras (mas há a necessidade de consultar catálogos de moedas para verificar o teor de metal precioso em cada moeda, para saber quanto de metal estamos de fato comprando). 

Elas também têm o inconveniente de que pagaremos mais do que o valor do metal e numa crise as venderemos somente pelo peso (sem o "valor numismático") - claro que isso também não inviabiliza seu uso como reserva de valor, na minha opinião. 

O maior problema das moedas numismáticas é, a meu ver, o risco de falsificação. Então é necessário muito cuidado na hora de comprá-las.


Mas eu acho que a forma ideal de investir em metais são aquelas "moedas de investimento", que têm pesos padronizados e vem com certificados dos fabricantes (um exemplo famoso é a maple leaf canadense), pois creio que essas são relativamente fáceis de vender. Outra forma são barras de ouro e prata com pesos padronizados (e que também vem com certificados de autenticidade). 

O que conta aqui é a facilidade de vender quando necessário, e estas (moedas e barras) são as mais fáceis de vender, na minha opinião, por conta de sua padronização.

Em relação a fundos de ouro (ex: GOLD11), eu não os considero bem como reservas de valor no sentido pleno da expressão. 

Certamente podem ajudar a proteger o patrimônio contra a inflação, mas não o protegem contra confiscos de autoridades e  nem contra grandes crises nacionais e internacionais, pois você é dono de um papel, e mesmo que ele seja conversível em ouro, na hora que o problema surgir você pode ficar na mão - por exemplo, o banco simplesmente fecha, ou restringe os resgates, ou o governo baixa uma lei na canetada proibindo a conversão, etc. - Exemplos históricos para isso não faltam. Pesquisem sobre a perda do lastro em ouro do dólar, quando os bancos foram proibidos de converter dólares em ouro e logo depois virou crime ter moedas de ouro nos EUA (ordem executiva 6102 de 1933). 

Acho que, se você faz questão de aplicar em um fundo de ouro, ele pelo menos deveria ser no exterior, para no mínimo você estar protegido contra o risco nacional. 


d) Por fim, temos as criptomoedas. Cada vez mais populares, e com novas surgindo a cada dia, elas ainda estão longe de funcionarem a contento como meio de troca (por conta da imensa volatilidade) e como unidade de conta (idem), mas ao menos as mais confiáveis delas podem, a meu ver, servir como reserva de valor, pelo menos enquanto durar esta confiança. 

O problema está justamente na confiança: alguns criptoativos já se revelaram esquemas de pirâmide, vários parecem que são criados só de zoeira... enfim, é difícil confiar em um criptoativo, principalmente um que seja recém-criado. E me parece que a confiança neste tipo de ativo tem sido bastante abalada.  O nosso colega da blogosfera Gerson Ravv parece que se decepcionou com as criptos.

O Peão Playboy, em seu último post até o momento, também deu uma opinião interessante e com os pés no chão sobre as criptos.

E o Heavy Metal, que anda sumido, também deu sua opinião sincera, a qual transcrevo aqui: 

"Pensando em arriscar um "troco" em um fundo de Criptomoedas, mas sinceramente acho que é uma bolha prestes a estourar. Quem surfou, surfou e ganhou muito dinheiro - e eu, perdi o bonde. Tenho medo de entrar agora. Em tempo: não faço aqui juízo de certo ou errado, mas sim de timing para entrar no ativo! Se vai ser ouro digital ou "merposa", só Deus sabe. É uma onda violenta e entrar na hora errada... é pedir para rasgar dinheiro."

Para as criptos, tentando formular uma teoria, eu acho que um critério de compra plausível é o teste do tempo. Outro critério plausível seria a reputação.  Vejam que isso tudo é muito subjetivo. 

Se nada é garantido nos investimentos, no mundo das criptos isso é ainda mais verdade. E acho que por um bom tempo irá pairar sobre elas algum risco de criminalização ou de outro tipo de interferência estatal (vide o processo que a SEC [a CVM dos EUA] está movendo há alguns anos contra a Ripple).

Enfim, em relação às criptos, eu até quero entrar no mercado, mas com muito critério e cautela. Acho que por enquanto só aportaria algo entre R$100,00 e R$200,00 por mês. Tenho pesquisado exchanges e estudado sobre cold wallets. Se alguém tiver uma recomendação, por favor comente aí.

Dada a dificuldade inerente ao assunto, digo que as criptos merecem futuros posts, no quais irei resumir meus estudos sobre o assunto. 

Existem mais coisas que servem como reserva de valor (obras de arte, itens de colecionador, etc.), mas são coisas, a meu ver, muito específicas e que seriam mais difíceis de revender do que os metais preciosos e as criptos, então não vou descrever aqui. Com certeza são bons para quem os entende, mas costumam não ser uma boa ideia para pessoas comuns. 

E acima de tudo, uma coisa bem mais importante do que "onde aportar seu dinheiro" : a reserva mais importante do indivíduo, materialmente falando, são as suas habilidades e aprendizados, e também sua cultura. Sendo assim, "aportem seu tempo" estudando, praticando habilidades úteis, lendo a boa literatura, enfim, buscando sempre melhorar como indivíduos.

Pois bem, confrades, estes são os meus pensamentos sobre a Reserva de valor. Qual a opinião de vocês sobre isso? 

A parte 3 desta série será sobre ações.

Forte abraço, meus companheiros de trincheira! 

Fiquem com Deus!


sexta-feira, 4 de dezembro de 2020

O dinheiro na idade média

 Saudações,  confrades 

        Hoje vou escrever bem resumidamente sobre o uso do dinheiro na idade média, conforme descrito pelo historiador Jacques Le Goff, autor de A Idade Média e o Dinheiro (além de vários outros livros sobre a idade média - para quem gosta do assunto, recomendo!), livro que serviu de base para este post. Resolvi escrever este artigo a título de curiosidade, porque gosto do assunto (sou colecionador de moedas e aprecio a arte numismática), e também  porque pode servir para enriquecer um pouco a cultura de meus leitores.

   



    Como é um assunto longo e detalhado, ao invés de escrever o post na forma de um texto como normalmente faço, vou colocá-lo na forma de vários tópicos dos assuntos que julguei mais interessantes do livro:

- Durante boa parte da idade média, a riqueza era representada principalmente por terras. Demorou um pouco até que o uso de moedas ressurgisse (com a queda do império romano, as moedas  "sumiram" por causa do relativo caos social da época, e por algum tempo após seu "ressurgimento", as pessoas ainda usavam algumas das moedas romanas que haviam sobrado, porque os conhecimentos acerca de cunhagem de moedas não foram aprendidos pela vasta maioria das tribos bárbaras que destruíram o império romano). 

- Como a vida era fortemente rural, muitos camponeses podiam passar a vida inteira praticamente sem nem ver moedas, porque viviam pela lavoura, e até os impostos aos senhores feudais eram pagos em víveres. Uma pequena parte que era paga em dinheiro, e mesmo assim não era em todo lugar que isso ocorria.

- Naquela época as moedas eram usadas principalmente pelos comerciantes (por conta da necessidade de transportar riqueza de maneira portátil e cômoda - o escambo é inviável para o comércio em médias e  grandes distâncias) e pelos nobres (mas, como eu disse antes, a riqueza vinha principalmente da posse de terras, e também de imóveis). 

- O uso do dinheiro foi sendo impulsionado por causa do aumento das populações das cidades, porque nelas seria inconveniente pagar as despesas em víveres, tendo em vista que não havia espaço para todos plantarem.  Assim, os habitantes das cidades adquiriam comida, bens e serviços em troca de dinheiro assim como é hoje. Estima-se que cerca de 60 a 70% dos rendimentos dos habitantes da camada mais pobre das cidades eram gastos para comprar comida (principalmente grãos). Outro motivo para o aumento do uso do dinheiro foi o ressurgimento do comércio.

- a oferta monetária era bastante dependente do comércio, principalmente do comércio exterior - como o dinheiro era 100% físico e lastreado em metal precioso (moedas de ouro e de prata), quanto mais exportações para outros países, mais moedas entrariam na economia local. Essa lógica também valia para o comércio interno, de modo que a oferta monetária poderia ser bastante diferente entre duas cidades do mesmo reino, e creio que sua localização influenciava bastante nessa questão (cidades próximas ao mar ou a outros tipos de acesso a rotas comerciais tenderiam a ser mais ricas, por exemplo, porque teriam um comércio bem mais forte)



- além da oferta monetária, o crescimento do comércio também provocava aumento da demanda por moedas. Como o processo de fabricação de moedas era bem mais demorado que hoje em dia (cada moeda era cunhada individualmente, martelando-se uma chapa do metal que formaria a moeda entre 2 "carimbos", um para o verso e outro para o anverso da moeda, e havia vários trabalhadores envolvidos na produção: o moedeiro em si, o cortador de chapas, o cara que fazia as chapas, o fiscal da qualidade das peças produzidas, etc.),  também surgiu a necessidade de moedas de maior valor  (moedas de ouro ou de prata maiores, com mais metal, etc.) para que fosse conveniente carregar quantias maiores de riqueza na estrada e também para comprar bens mais caros (terras, casas, jóias) com menos moedas, para ser mais prático.

Era assim que as moedas eram feitas, uma por uma, marteladas entre 2 carimbos de bronze ou ferro e posteriormente de aço. Não existia uma "padronização"  das moedas da forma como entendemos hoje, então havia uma margem bem ampla de erros  tolerados na fabricação de moedas. É por isso que as moedas medievais que ainda existem são tão diferentes uma da outra, mesmo sendo do mesmo país e da mesma época. Esse processo de fabricação só era possível porque ouro, prata e cobre são metais bem macios.

- Como uma coisa puxa a outra, o aumento do uso do dinheiro fez surgir uma necessidade também crescente por moedas de baixo valor, que eram chamadas de "moedas de esmola", "meios- denários", "óbolos" (lembram da parábola d'O óbolo da viúva?) ou "moedas negras" (como eram feitas de cobre, logo ficavam escuras - o cobre oxida em contato com o ar atmosférico) e eram usadas para as pequenas despesas do dia-a-dia (o autor do livro menciona que uma moeda de cobre era o preço de 1 pão em muitas cidades na época) e também para literalmente dar esmolas (o rei São Luís, da França, foi um célebre distribuidor de parisis - o "denário da esmola")


um exemplar da moeda "Parisis" - o denário da esmola


- as moedas recebiam o selo da autoridade local. O selo era uma prova de que a moeda era verdadeira e que seu teor de metal precioso era o definido em lei, e por isso uma moeda teria um valor intrínseco superior ao valor do metal precioso nela contido (até porque a oficina moedeira tinha que ter lucro, e no caso do rei era daí que vinha a "senhoriagem", que era a diferença entre o valor de face da moeda e o valor do metal nela contido - esta diferença é até hoje uma das fontes de receita pública)

- Nem sempre o rei tinha o monopólio da emissão de moedas - às vezes essa autorização era vendida para oficinas particulares, ou era delegada a nobres, de modo que cada condado/ducado/feudo/cantão poderia ter sua própria moeda em algumas nações europeias - isso por um lado dificultava um pouco o comércio entre nações, por conta da variação cambial (provavelmente o câmbio devia ser 100% baseado no peso das moedas, mas o teor de metal precioso devia variar bastante entre as moedas de cada local, de modo que podia haver distorções caso o comerciante não conhecesse o da moeda que estivesse avaliando na hora. - talvez houvesse moedas que não eram bem aceitas em determinados locais, por exemplo)

- além das moedas, também eram usados como forma de pagamento  lingotes de metais preciosos (principalmente de prata).  Tais lingotes também recebiam selos de autoridades que atestavam seu teor de pureza. 

- Obviamente, falsificações já existiam, e além das moedas falsas, as pessoas encontravam outros jeitinhos de burlar a lei: cortavam ou limavam as bordas das moedas para ir juntando os pedaços e eventualmente derrete-los e usar o metal para fabricar outras moedas ou lingotes; ou juntar todas as moedas em um saquinho e ficar agitando o saco para que o atrito entre uma moeda e outra funcionasse como uma lima, acumulando o pozinho de ouro ou prata no fundo do saco até que valesse a pena derreter o pó acumulado e transformá-lo em um lingote ou em outra moeda. Essas malandragens explicam ao menos em parte o porquê da maioria  das moedas medievais  que sobreviveram até os dias de hoje estarem tão danificadas. Aliás, é por causa deste golpe de limar ou cortar as bordas das moedas que até hoje elas têm bordas serrilhadas ou com alguma marca, mesmo que não sejam mais de ouro ou prata.


A  título de curiosidade, a última moeda de prata que circulou no Brasil foi a de 5.000 réis, de 1936, que tinha o rosto de Santos Dumont no verso e uma asa aberta no anverso. Ou seja, historicamente falando, não faz tanto tempo assim que deixamos de usar moedas de verdade - moedas de metais preciosos.



E vocês, caros leitores, o que acham do assunto? Gostam de Numismática? Gostam de História? Eu gosto de estudar estes detalhes da vida cotidiana da humanidade de outros tempos. Ajuda a entender algumas coisas de hoje em dia, além de nos dar perspectiva do longo caminho percorrido para chegarmos até aqui. 

Se souberem de alguma outra curiosidade sobre o dinheiro na idade média, comentem aí! 

Forte abraço, fiquem com Deus!