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quinta-feira, 26 de dezembro de 2024

Sobre a transição de CLT/Funcionário Público para Autônomo / Pequeno Empresário

Saudações, confrades!

Espero que todos os meus leitores tenham tido um bom Natal e que tenham recebido muitas bênçãos de Nosso Senhor Jesus Cristo!

Vamos ao (provável) último post de 2024, para dar uma variada nos assuntos do blog e não ficar só nas atualizações patrimoniais, conforme eu havia dito no post anterior.

Uma coisa que me vem à mente em minhas elucubrações diárias a respeito de como sair de meu emprego atual (seja via concurso, via empreendendo, via tornando-me autônomo) é a crescente necessidade de autonomia em cada passo da jornada profissional.

(OBS: quando falo "empresário" neste texto refiro-me ao pequeno empresário autônomo, MEI, EPP, EIRELI*, que trabalha sozinho (loja virtual, confecção individual de alimentos, artesão, etc. que tenha um negócio que seja possível de ser operado sem funcionário nenhum a não ser o próprio dono))

*: acho que EIRELI não existe mais, mas posso estar enganado.


Permitam-me ilustrar usando o McDonald's como exemplo:

Quando você é criança, seus pais te levam ao McDonald's, você pede um lanche e ele aparece na sua frente, sem esforço algum. Você nem vê o dinheiro indo para o caixa, ou o cartão sendo passado na maquininha. As coisas simplesmente "acontecem" sem você fazer esforço algum e por conta disso geralmente as crianças não têm noção de como é a realidade.


Depois você cresce mais um pouco, tem seus 15 anos, e vai sozinho ao fast-food. Faz seu pedido e precisa entregar dinheiro ao balconista. Provavelmente quem te deu o dinheiro foi o seu pai ou a sua mãe, mas você teve que se desfazer dele para ganhar seu lanche. Ainda assim, o lanche "apareceu" na sua frente, embora com algum sacrifício de sua parte - o ato de entregar seu dinheiro. Você já aprende um pouco que é necessário fazer alguma coisa para que as coisas aconteçam. Mas ainda é fácil: você sacrifica um dinheiro pelo qual geralmente você não sacrificou nada, pois seus pais te deram, e o sacrifício foi deles (embora aos 15 você já saiba que as pessoas trabalham para ter dinheiro, se você nunca trabalhou você não tem uma noção verdadeira do que é trabalho)


Então suponha que depois você cresce mais, tem seus 18-19 anos e vai trabalhar no McDonald's. Agora são as outras pessoas que pedem o lanche para você, e pela primeira vez ele não vai "aparecer", você é que vai ter que fazer acontecer.

A maioria das pessoas para nesse estágio do amadurecimento. Elas começam a trabalhar, e então descobrem que elas é que têm que fazer as coisas acontecerem. O hambúrguer foi entregue embalado em cima de uma bandeja na mão do cliente porque todo um time de pessoas se envolveu na preparação na lanchonete, em todas as suas fases produtivas, e antes desse time poder trabalhar, vários outros tiveram que concluir seus trabalhos: os caminhoneiros da empresa de logística que entregou os pães, molhos e hambúrgueres congelados, os pecuaristas que criaram as vacas que forneceram a carne, os açougueiros/trabalhadores de frigoríficos que cortaram a carne, congelaram, embalaram e depois separaram para entrega, e entremeando todos estes processos estão inúmeros gerentes, advogados, contadores e coordenadores que criaram, leram, revisaram, e negociaram os contratos com todas as empresas e funcionários envolvidos, fizeram os pagamentos, registraram os pagamentos, registraram dívidas, cobraram dívidas, emitiram os pedidos, emitiram notas fiscais, emitiram DARFs, corrigiram erros, e por aí vai. Isso sem falar em: marketing, auditoria, consultorias, etc. 

Mas ainda assim, o dinheiro cai todo mês, bastando que estas pessoas continuem trabalhando nos dias em que tiverem que trabalhar. E os clientes vão até a empresa, porque já foi feito todo um trabalho para isso. Ou seja, o dinheiro vai até a empresa graças a todo um trabalho prévio que foi acumulado e que permitiu que isso acontecesse.

O estágio seguinte do "amadurecimento profissional", que eu considero ser o dos profissionais autônomos, é o de não somente fazer acontecer, mas também fazer o dinheiro e os clientes aparecerem.  O dinheiro do autônomo não cai todo automaticamente no primeiro dia útil do mês, ele recebe aos poucos ao longo de seu mês de trabalho, conforme vai atendendo seus clientes e prestando seus serviços ou vendendo seus produtos. E não necessariamente os clientes virão de maneira automática - pelo menos não no início de sua carreira. Ele leva algum tempo criando sua fama e montando uma "carteira de clientes". 

(No caso do McDonald's, já foi feito um trabalho de décadas para criar uma marca reconhecida e que praticamente atrai clientes sozinha, quase sem esforço dos franqueados. O autônomo/pequeno empresário precisa levar em conta esse trabalho de conquistar clientes em seu planejamento - e é por isso que muitos pequenos negócios nascem em paralelo a empregos CLT ou empregos públicos: porque o autônomo precisa ganhar um sustento certo e mais estável enquanto está construindo sua carteira de clientes - quando não é assim, ele herdou o trabalho de seu pai ou de sua mãe, que já fizeram todo esse trabalho de criação de uma carteira de clientes e de um nome - é o caso de muitos escritórios de advocacia, por exemplo)

E mais um passo além no "amadurecimento profissional" é o do empresário que resolva empregar outras pessoas em seu negócio: além de fazer as coisas acontecerem e fazer os clientes e o dinheiro surgirem, terá que se preocupar em fazer o dinheiro aparecer para pagar seus funcionários (salários, benefícios, INSS, FGTS,  etc.) e também para pagar a si próprio!

A pessoa que foi CLT ou funcionário público "a vida toda" está acostumada com a previsibilidade de um salário que cai todo mês no começo do mês (ou no fim do mês anterior, em alguns casos), e consequentemente está acostumada a planejar seus gastos de modo a ir consumindo o salário ao longo do mês, mas com a (quase) certeza de que no mês seguinte outro salário, de igual valor, será depositado em sua conta. 

Imagino que o "choque de realidade" possa ser grande quando essa pessoa se torna autônoma ou empresária. Para começar, não é certo que haverá um valor sendo depositado em conta no início do mês ou no fim do mês anterior.  Principalmente no caso do autônomo prestador de serviços (advogado, contador, psicólogo, dentista, médico, etc.) o dinheiro vai caindo na conta aos poucos ao longo do mês, conforme ele vai trabalhando e atendendo seus clientes, o valor é variável e sujeito a sazonalidades e inúmeros outros fatores totalmente fora do controle do profissional e, com isso, o planejamento das finanças pessoais de um autônomo ou pequeno empresário é bastante diferente do de um empregado CLT / funcionário público.

Por este motivo, imagino que, idealmente, a pessoa que se prepare para ser autônoma precise: 

1) fazer primeiro uma reserva de gastos para alguns meses (digamos, uns 6 meses de gastos pessoais ou, mais idealmente, 1 ano, e essa reserva deverá incluir os custos esperados de seu negócio, como o aluguel de uma sala comercial e o condomínio do prédio onde fica esta sala, por exemplo); 

2) buscar sempre manter seu custo de vida baixo, ou o menor possível, equilibrando conforto e frugalidade, pois não há garantia alguma de que atenderá clientes / prestará serviços / venderá produtos a tempo de pagar contas no prazo (claro que com o passar do tempo adquire-se uma carteira de clientes mais estável, via propaganda boca a boca, indicação, fidelização, etc. que permite um planejamento melhor, mas isso pode demorar a acontecer!);

3) Mesmo após ter adquirido uma certa "estabilidade", sempre manter sua Reserva de Emergência (RE), repondo o mais rápido possível os valores consumidos (se eu fosse autônomo eu teria duas RE: uma "pessoal" e outra "profissional", para bancar custos da empresa como aluguel de sala, anuidades de softwares, seguros, etc. em épocas de vacas magras - o meu foco aqui é evitar aquele velho problema de misturar as finanças pessoais com as da empresa)

E imagino que com o passar do tempo, o autônomo se acostume com a idéia de "receita média mensal" ou "pró-labore médio mensal" e ajuste seus custos de vida a este valor. Acho que uma boa medida seria ajustar seus custos de vida para que sejam cerca de metade do "pró-labore médio mensal" (ou menos, caso possível), tendo em vista que a receita mensal é variável e sujeita a sazonalidades, além do fato de que, como autônomo, se você não trabalhar, você não ganha, simples assim. A metade que for economizada deve ir para aportes, "RE pessoal" e "RE profissional".

E creio também que o mais prudente é usar dinheiro ganho em cada mês seja para bancar os gastos do(s) mês(es) seguinte(s), ao contrário do raciocínio mais comumente aplicado por quem é CLT/funcionário público ("recebi este mês, gastei este mês"). 

Outra coisa importante a se considerar no planejamento é a construção de uma "reserva" para bancar suas férias, e feriados prolongados, pois afinal você provavelmente não vai aguentar ficar trabalhando sem parar durante muito tempo, e conforme eu disse acima, sem trabalho = sem dinheiro, então o autônomo precisa levar em conta que haverá dias em que simplesmente não haverá clientes ou haverá bem poucos porque é feriado, ou feriadão, e por aí vai. Você pode até querer trabalhar em um dia desses, mas pode ser que simplesmente não haja clientes. Então você precisa se preparar para dias assim também. E haverá dias em que você ficará doente, ou estará muito cansado, ou terá alguma coisa pessoal para resolver, etc. Haverá também a sua própria necessidade de descanso. Para todos esses dias você precisará ter uma reserva, pois não ganhará nada por estes "dias de folga".

Por fim, outros "choques de realidade" na transição para a autonomia são a falta do 13º e do adicional de férias, fora outros benefícios que empregadores no geral paguem (Auxílio-creche, Vale-Alimentação, Vale-Transporte, etc.), além da obrigatoriedade de recolhimento de INSS, que não é automática, fora outros tributos. O autônomo / pequeno empresário precisa prover todas essas coisas para si mesmo, e não pode se esquecer de recolher pelo menos o mínimo legalmente exigido para o INSS e os demais impostos para evitar problemas com o governo. 

No caso da falta do 13º, ela ainda é agravada pelo fato de alguns condomínios comerciais (especialmente shoppings) cobrarem o "13º aluguel", então é necessário tomar cuidado com esse custo extra que às vezes fica "nas letras miúdas do contrato". A "RE profissional" deve levar esse aluguel extra em consideração. Alguns tipos de negócio se beneficiam do aumento de vendas em dezembro e com isso dão conta desse 13º aluguel, mas acho que fica mais difícil para os pequenos empresários.


Todas essas coisas acima precisam ser levadas em conta no planejamento da carreira do autônomo / pequeno empresário.


Algum dos confrades têm experiências próprias para relatar? Como foi a mudança de vida saindo da CLT ou do emprego público para se tornar um pequeno empresário? 

Aos leitores autônomos / EPP / MEI: que profissão vocês exercem? Como conseguem clientes? 

Qual é a melhor opção: ser MEI, ser EPP, autônomo PJ ou ser um autônomo pessoa física mesmo? Ainda é possível ser autônomo pessoa física? Ou simplesmente não vale à pena?


Forte abraço, companheiros de trincheira!

Tenham todos um Feliz Ano-Novo, e que 2025 seja melhor do que 2024!

domingo, 23 de abril de 2023

Seria possível atingir a IF sem ser frugal?

Saudações, confraria!

Escrevi o post de hoje baseado em um comentário feito pelo colega Engenheiro Tardio no blog do Neto Financista do Velho Barreiro. 

No post, o colega perguntou qual era o valor que o NFVB  considerava suficiente para atingir a IF. Ao fim de sua resposta, o colega NFVB questionou se seria possível atingir a IF sem ser frugal.  

Eu dei o meu pitaco sobre o assunto, respondendo o seguinte (e aqui neste post está a versão "completa" do meu comentário):

Acho que não é possível ser FIRE sem ser frugal, a não ser que você ganhe muito, mas muito dinheiro por mês. 

Não estou falando de R$ 10.000,00 nem de R$ 25.000,00 / mês (valores já muito altos para os padrões brasileiros...mas não esqueçam que vivemos em um país de população muito pobre, onde na média o pessoal ganha R$ 2.200/mês, conforme o IBGE). Estou falando de valores a partir de, digamos, centenas de milhares de reais por mês. 

Só que nesse nível de renda, o pensamento deve mudar muito, assim como a forma que se encara o trabalho (pode até ralar e se estressar, mas de uma maneira diferente que pessoas comuns ralam e se estressam - talvez de uma maneira que não dê vontade de parar como muitos de nós sentimos, porque provavelmente a sensação de recompensa nesse nível de renda deve ser maior do que a nossa).


Por exemplo, lembro de ter lido numa reportagem em uma revista (há muito tempo, acho que quando estava na faculdade ou no fim do ensino médio) que dizia que o Faustão ganhava meio milhão de reais (0,5MM) só para mencionar o nome de uma marca no programa dele, a cada vez que mencionava a tal marca, e ganhava 1MM ou 1,5MM para inventar na hora algum trocadilho/jingle/frase de efeito usando essa marca. 

E isso fora outras receitas que o programa dele trazia. 

Não sei se no caso desses "pingados" que ele ganhava só para dizer o nome de uma marca o dinheiro ficava 100% para ele ou se ele usava para pagar algum custo relativo ao programa (equipe, equipamentos, etc), mas supondo que ele tirasse limpo uns 3 milhões por mês, ele já seria FIRE com pouco mais de 3 meses de trabalho (FIRE para os nossos padrões, claro, pois vejo que muitos colocam o número mágico de 10MM como o objetivo). 

Alternativamente a aporta em ações ou FIIs, ele poderia comprar 1 imóvel muito bom por mês ou vários imóveis de nível classe média ou classe média baixa todo mês, e em pouco tempo seria capaz de viver de aluguel. 

As possibilidades são inúmeras nesse nível de grana. 

Porém, o problema é que pessoas que ganham nesse nível teriam um FIRE diferente. Dificilmente ele se contentaria com 9 milhões para ser FIRE. Ter "somente" 9 milhões de reais para ele seria como ser condenado a viver na pobreza, considerando o padrão de vida que ele deve ter (e mesmo que haja "reportagens" que dizem que ele é na verdade um cara simples, o padrão "simples" dele ainda seria provavelmente muito superior ao que estamos acostumados).

Talvez pessoas que ganham dinheiro no nível dele também tenham um "número mágico", que nem gostamos de inventar, só que o dessas pessoas seria muito maior, talvez na casa dos bilhões de reais. 

Mas muito provavelmente uma pessoa como o Faustão não encara o trabalho da mesma maneira que encaramos, então ele não deve ver motivo para ser FIRE, até porque ele muito provavelmente já deve ter o FI de FIRE, e ele sabe que se parasse agora poderia viver tranquilo o resto da vida (claro, considerando que ele tem um bom patrimônio poupado). 

Acho que isso ajuda a explicar o nível de workaholismo de grandes empresários e altos executivos de empresas. Claro que alguém poderia dizer que eles são ricos por serem workaholics, mas eu digo que isso acaba funcionando como um ciclo virtuoso. Como eles enxergam o trabalho de forma diferente do trabalhador comum, eles têm muito mais motivação para trabalhar, e isso os incentiva a serem workaholics / trabalhar muito. E isso é impulsionado por uma recompensa maior, e também por uma sensação de recompensa/satisfação proporcionada pelo trabalho bastante superiores às de um empregado comum.

Para nós, meros mortais, resta somente sermos frugais e/ou conseguirmos outras fontes de renda.

Há dezenas de ideias internet afora de como economizar gastos corriqueiros do dia a dia. Sendo frugais, reduzimos nossos custos de vida (muita das vezes sacrificando coisas importantíssimas como o lazer) e com isso fazemos sobrar mais dinheiro, que idealmente seria revertido em aportes maiores. Claro que nem sempre isso é possível, faz parte da vida. E além disso, há um limite para a frugalidade, além do qual não conseguiremos de jeito nenhum reduzirmos os gastos, mesmo que chegássemos ao extremo de morar na rua para economizar as contas domésticas (e tem gente que quase chega nisso... tem uma história famosa de um empregado do Google que morava dentro de um caminhão no estacionamento da empresa para conseguir juntar dinheiro... pesquisem essa história!)

Quanto à renda extra, eu vejo isso sendo dito em vários lugares na internet e também defendo aqui no blog: a necessidade cada vez maior no mundo de hoje de conseguir outras fontes de renda complementares à do emprego "oficial", seja outro emprego no contra-turno, um pequeno negócio próprio, aulas particulares, livros, etc. Através da renda extra, poderemos aumentar nosso poder de aporte e atingirmos mais rapidamente a tranquilidade financeira, além de já termos desde já a tendência de ficarmos mais tranquilos no emprego "oficial".  Se você conseguir isso, ótimo! Porém, mesmo assim há um limite para o que conseguiremos produzir de renda extra por conta própria sem sermos pessoas excepcionais. 

E a vida não é uma ciência exata. As mesmas coisas não funcionam para todo mundo, e nem ao mesmo tempo. Eu, por exemplo, me encontro numa fase da vida em que só posso ser frugal, pois não tenho tempo para buscar fontes extras de renda (ao menos não em valores significativos).

Enfim, confraria, respondendo novamente à pergunta do título do post: acho que para pessoas normais atingirem uma IF, é necessário sim algum grau de frugalidade (viver 1 degrau abaixo do que poderia), mas isso deve idealmente ser combinado com a busca por fontes extras de renda. E devemos sempre lembrar que a vida é feita de diversas fases. Em algumas épocas será impossível ser frugal, em outras será impossível buscar rendas extras, e em outras será impossível fazer as duas. Temos que ir gerenciando as coisas da melhor forma que nos couber.

E, claro, manter sempre em mente que a vida não é só dinheiro e juntar dinheiro. 

O que os confrades pensam do assunto?

Forte abraço!
Fiquem com Deus!

quarta-feira, 22 de dezembro de 2021

Reflexões para o Natal

 Saudações, confraria da blogosfera das finanças!


Como o Natal está chegando, resolvi escrever este pequeno post com algumas reflexões que julgo serem importantes para todos nós, frequentadores da finansfera.



Devemos sempre nos lembrar de pensar no dinheiro como uma mera ferramenta para alcançarmos nossos objetivos, e nunca como o nosso objetivo em si. Do contrário, acabamos nos tornando servos de mammon (o qual, conforme Milton escreveu no "Paraíso Perdido"*, desde antes da Queda, era o anjo mais propenso ao mal, pois "vivia olhando para baixo", como se estivesse sempre à procura de moedas ou pedras preciosas no chão), e conforme está escrito, "não se pode servir a dois senhores". Mesmo quem não acredita em Deus pode perceber e entender o quão ruim é ser um servo do dinheiro e do status e deixar o que é mais importante na vida de lado.

(*: lembrando que a obra de Milton não pertence à doutrina cristã - mas, mesmo assim, não deixa de nos fornecer metáforas e reflexões interessantes sobre teologia)

Eu sei que estamos naquela busca pela tranquilidade financeira (e alguns pela IF), geralmente porque não gostamos de nossos empregos ou porque queremos poder um dia poder trabalhar menos ou simplesmente largar tudo. O que quero dizer aqui é que devemos pegar leve nessa busca, sem deixar de aproveitar as coisas boas da vida em prol de "aportar o máximo possível" e, principalmente, sem deixar de ajudar os outros da forma como pudermos ajudar (que vai muito além de simplesmente "dar dinheiro" para os necessitados: podemos ajudar com palavras, dando conselhos, compartilhando experiências de vida,  simplesmente ouvindo o que as pessoas têm a dizer, sendo pacientes, escutando seus desabafos,  perdoando seus erros... em suma, doando nosso tempo, dando apoio emocional, e por aí vai). 

A vida é muito, mas muito mais do que juntar dinheiro. Nosso objetivo neste mundo não é nos tornarmos ricos, e nem sermos bem-sucedidos em nossas carreiras, seja lá o que isso signifique hoje em dia. Todas estas coisas podem nos servir como ferramentas, mas não são nossas missões no mundo. 

Nós estamos aqui para colocarmos, cada um de nós, um "tijolinho" em prol da construção do reino de Deus. Ou seja, cada um de nós pode fazer o mundo um pouquinho melhor, dentro das possibilidades de cada um. Devemos fazer isso onde pudermos, por nossos próprios atos, e dando o exemplo.

Nós também estamos aqui para evoluirmos, tanto intelectual quanto moralmente. Devemos aproveitar nosso tempo neste mundo para aprender o máximo que pudermos aprender, de modo a desenvolvermos nossa inteligência e, mais importante, nossa moral.

Também estamos aqui para servir ao próximo, principalmente para ajudarmos os mais necessitados. Cada um deve ajudar como puder. E como eu escrevi, há muitas maneiras de fazer isso.

Por fim, lembrem-se de valorizar a Família. Nestes tempos apressados e bizarros que vivemos, costumamos deixar muitas pessoas de lado, muitas vezes a troco de nada. Liguem, liguem mesmo, ouçam a voz, não fiquem simplesmente mandando mensagem no whatsapp, para aqueles parentes com quem não falam há muito tempo, ouçam o que têm a dizer, sejam atenciosos. Se puderem, visitem estes familiares. Se puderem ajudar, ajudem. Se reaproximem das pessoas, tentem, na medida do possível, reconstruir os laços que se perderam. Isso vale muito mais que dinheiro.


Sendo assim, confrades, caso não nos vejamos mais, desejo-lhes um Feliz Natal!

Que Deus lhes abençoe!

sexta-feira, 16 de julho de 2021

E se eu ganhasse na mega-sena?

 

Saudações, confraria!

(post para desestressar)

Ficar sonhando com o que faria caso ganhasse na mega-sena é um assunto comum e que vemos sendo discutido em praticamente qualquer mesa de amigos ou de colegas de trabalho por aí. Volta e meia fico pensando nisso também. Sonhar não custa nada.



Eis aqui o que este que vos escreve faria caso ganhasse um prêmio de loteria, em diversas situações hipotéticas:

1) Ganhei um prêmio "pequeno" (acertei a quadra, a quina, etc.) inferior a 1 milhão - trataria como um bônus ou uma PL e aportaria normalmente, diversificando entre ações, FIIs e renda fixa. Nada de novo em relação ao que já faço. Se eu ganhasse o suficiente (300 mil reais ou mais) compraria outro imóvel e deixaria para alugar. Talvez eu pegasse uma parte (até uns 50K) e investiria em um pequeno negócio que eu tocaria em paralelo ao meu emprego, sem pedir demissão. Fora isso, nenhuma mudança de vida. Infelizmente, o nosso dinheiro já foi tão corroído pela inflação que mesmo 1 milhão de reais é muito e ao mesmo tempo é pouco, é mais um dos "hiatos da economia" de que falei neste post. Não é o suficiente para chutar o balde. Provavelmente com uma parte do dinheiro eu ajudaria (discretamente) a pagar uma dívida de algum parente passando dificuldades.


2) Acertei os 6 números e ganhei entre 1 e 3 milhões - continuaria no meu atual emprego, mas já trabalharia bem mais tranquilo. O dinheiro eu diversificaria da mesma maneira que pretendo diversificar hoje. Dependendo do prêmio,  eu transformaria uns 500 mil em moeda forte e deixaria no exterior. Eu usaria uma parte dos rendimentos  para ajudar a pagar dívidas de um ou mais parentes com dificuldades, mas sempre sendo bem discreto quanto a isso (por mais que a caridade seja importante, ela precisa ser anônima, e além disso é perigoso que pessoas próximas passem a te enxergar como um "saco de dinheiro infinito")


3) Ganhei entre 3  e 10 milhões - este é o patamar que eu chamo de Tranquilidade Financeira (TF). Eu continuaria trabalhando,  só que bem mais tranquilo, e enquanto isso iria procurando outro emprego, só que de meio expediente (provavelmente professor de alguma escola no meu bairro ou em um bairro próximo, mas aí eu teria que começar e concluir uma licenciatura, então demoraria pelo menos uns 4 ou 5 anos pra conseguir). Transferiria 1 ou 2 milhões pro exterior, para proteger, e o resto diversificaria aqui mesmo. Uma boa parte ficaria em renda fixa, acho que deixaria no máximo uns 2 milhões divididos em ações e FIIs. Com os rendimentos eu conseguiria ajudar algumas pessoas de minha família, fazendo doações mensais, mas obviamente sem nunca demonstrar que fiquei milionário.


4) Ganhei um prêmio acima de 10 milhões - é uma imensa quantia que deixa qualquer pessoa que nasceu pobre ou classe média bem tranquila e se a pessoa souber administrar e tiver os pés no chão pode fazer com que dure para sempre. Acho que a partir dos 20 milhões posso considerar que atingi a IF. Ganhando 10 milhões ou mais na mega-sena  eu esperaria uns 6 meses para sair do emprego, para disfarçar, e provavelmente faria a licenciatura presencialmente, curtindo um pouco a "vida de universitário" novamente (ou não, afinal já não posso mais me dar ao luxo de ser irresponsável, mas ainda assim eu gosto do ambiente de sala de aula) ou então montaria um pequeno negócio que me permitisse trabalhar só meio expediente (algum daqueles que eu já escrevi nas minhas postagens sobre pequenos negócios e nas postagens desta série que ainda virão). Assim eu trabalharia com alguma coisa que eu gosto, sem pressão nenhuma, só pra me manter ocupado e só meio expediente.  Provavelmente eu mandaria uns 4 milhões para o exterior, para proteção. Com os rendimentos do prêmio (juros, dividendos, aluguéis) ajudaria parentes em dificuldades, como em todos os casos. 


5) Ganhei sozinho na Mega-sena da Virada - é tanto dinheiro que seria até difícil decidir o que fazer. Provavelmente eu daria aulas também,  ou ficaria em um pequeno negócio. O importante é ficar em paz.  O dinheiro eu diversificaria só em renda fixa, no Brasil e no exterior, e aqui no BR provavelmente só em poupança. Provavelmente metade iria para o exterior, uma parte nos EUA e outra parte na Europa. Com uma pequena parte do dinheiro eu seria capaz de comprar a cidadania de qualquer país que eu desejasse, então isso me daria acesso a mais bancos. Obviamente eu só colocaria o dinheiro em bancos grandes. Eu seria capaz de ajudar alguns parentes a comprarem casas próprias e com isso tirá-los de bairros perigosos. Acho que eu moraria no exterior e viria para o Brasil de vez em quando para visitar a família, ou bancaria a viagem dos parentes mais próximos para virem me visitar. Acho que eu iniciaria um projeto de caridade e me dedicaria a isso, usando parte dos rendimentos do prêmio para bancar os custos.


Em qualquer dos cenários acima, eu jamais esbanjaria. Eu nunca pensei em ter camaro, mansões, barcos... nada disso, porque essas coisas muito provavelmente tirariam minha paz e tranquilidade. Óbvio que eu aumentaria bem o meu padrão de vida, mas isso seria de uma maneira bem disfarçada, até para não atrair a inveja alheia, que é uma força muito perigosa de se lidar no mundo. 

Na real, eu jogo na sena só de vez em quando (quando lembro de jogar), só 6 números e sempre os mesmos números. O importante é não transformar isso num vício e nem ficar torrando dinheiro apostando.

E vocês,  pessoal? O que fariam se ganhassem na mega-sena? Chutariam o balde? Comprariam uma mansão? Comprariam títulos nobiliárquicos? Comentem aí!


Forte abraço!

Fiquem com Deus!

domingo, 11 de julho de 2021

A questão da Saúde Pública

Saúde Pública é um assunto muito polêmico, com debatedores fanáticos de ambos os lados. Uns parecem que defendem o SUS com uma paixão que só deveria ser dedicada a Deus, aos santos e a entes queridos, e outros o desprezam com uma fúria que a meu ver também é desproporcional e não adianta de nada.

Meu post pode soar polêmico para alguns, mas relembro que é apenas a minha opinião pessoal, baseada em experiência própria e de parentes próximos, e que eu não tenho pretensão nenhuma de neste humilde blog, o qual escrevo como hobby e no meu tempo livre, dar a "solução mágica" para a questão da saúde pública. Aliás, eu nem acredito que exista ainda uma resposta certa para qual é o melhor caminho para a saúde: ser 100% pública, 100% privada, um meio-termo, pública para algumas coisas e privada para outras, e por aí vai. 

Eu também não acredito em ninguém que diga ter a solução mágica, até porque a maioria dos que dizem isso não trabalham na área de saúde e geralmente são apenas blogueiros escrevendo na internet.

Dito isto, vamos à minha opinião sobre o polêmico assunto:

O SUS é sim caro e ineficiente, desrespeitoso para com nós pagadores de impostos, poderia ser muito melhor, poderia ser melhor gerido, mas eu acho que poderia ser pior também. 

Será que a saúde 100% privada seria melhor? Provavelmente seria melhor, mas será que seria o mar de rosas que dizem que seria, com cirurgias baratas, médicos disputando clientes a tapa cobrando preços módicos por suas consultas e teríamos UTIs com diárias acessíveis que não levariam ninguém a falência? Não sei, pois nunca vivemos nesta realidade. Qualquer opinião sobre isso é puro achismo. 

(se alguém souber de um caso de um país onde isso acontece, por favor me diga...)

A saúde, infelizmente, é um produto caro por diversos motivos (por exemplo, a demanda por remédios, tratamentos e cirurgias geralmente é inelástica) e no SUS isso ainda é agravado por conta de desvios de verba e outras formas de corrupção. Com certeza há também as considerações econômicas relativas à questão da ineficiência estatal em relação ao mercado para gerir recursos que também influenciam isto. 

Mas, apesar de tudo, eu "prefiro" o nosso sistema aqui do que o de outros países, mesmo com todas as nossas falhas ("prefiro" é uma palavra forte, eu sei). E o motivo não é puramente econômico. 

Óbvio que eu não conheço a fundo os sistemas de saúde de outros países, no máximo tenho "referências anedóticas" (termo que pessoas metidas a inteligentes, especialmente da área de ciências naturais, adoram usar para arrotar "superioridade"). Mas para mim, que não sou médico e nem trabalho na área de saúde, elas bastam. 

No fundo, talvez eu "prefira" o nosso sistema por já estar acostumado com ele e saber onde estão as falhas e onde devo tomar cuidado. Se eu emigrasse, teria que me acostumar com os problemas de outro lugar, e esta mudança seria dolorosa, provavelmente. 

Como eu não tenho poder para privatizar ou melhorar a saúde pública, então só posso aceitar sua existência e lidar com ela da melhor forma possível.

Minha "referência anedótica": eu tenho uma pessoa na família que emigrou para o Reino Unido pois conseguiu um emprego por lá. De vez em quando conversamos e, quando o assunto é saúde, essa pessoa me relata algumas dificuldades que sofre com o National Health Service (NHS, o SUS britânico) e com médicos particulares também. 

Para começar, me parece que lá os médicos são tratados como semi-deuses: é muito difícil ter contato diretamente com um médico por lá. Em consultas, geralmente você é atendido por enfermeiras e são elas que conversam com os médicos no seu lugar, até para pegar o atestado e a receita.  O médico fica na sala dele, e nem te vê. Pelo menos foi essa a experiência que a tal pessoa da minha família passou.

Outro problema: parece que mesmo fazendo consultas particulares (fora do NHS) tem uma lei que obriga o cidadão a primeiro ir em um clínico geral para só depois ser encaminhado para o especialista que irá de fato tratar do seu problema. Isso é bom em alguns casos e para que hipocondríacos não sobrecarreguem os especialistas, mas convenhamos que tem vezes que não precisa ser  médico para saber que tipo de especialista precisamos para tratar nossos problemas. Aqui no Brasil ao menos podemos ir direto ao especialista. 

Outro problema: as enfermeiras tomam conta de coisas demais, e os médicos parecem mais burocratas que ficam só vendo coisas pelos sistemas, ao invés de ver os pacientes. Por exemplo, este meu parente já foi barrado na porta da emergência de um hospital porque a enfermeira de plantão não considerou que seu caso era "emergência" e o mandou embora do hospital sem direito nem a uma consulta ou a um exame - mas era mesmo emergência, foi um descolamento de retina bastante doloroso, que poderia ser grave e para piorar aconteceu em um domingo, com tudo fechado. A enfermeira em questão disse que o caso poderia esperar até segunda-feira e ser tratado em uma ótica. Aliás, isso é outra curiosidade sobre a medicina britânica: o oftalmologista não é bem um "médico", é mais um "técnico de oftalmologia" e atende pacientes em óticas. Me parece que é mais um ofício do que uma profissão de saúde, do jeito que este parente me contou.

Outra curiosidade: até onde sei, enfermagem é a única faculdade pública 100% "gratuita" que existe no Reino Unido (lá você paga para estudar mesmo que a faculdade seja pública, exceto se for enfermagem, conforme escrevi), provavelmente como forma de política pública para aumentar o efetivo de mão de obra em hospitais e o número de profissionais de saúde por habitante. Como consequência, muitas pessoas pobres e classe média baixa do Reino Unido acabam indo estudar enfermagem, pois é a única faculdade que são capazes de bancar. Como consequência disto, há muitas pessoas frustradas, que na verdade não queriam ser enfermeiras, mas se tornaram porque "era o que dava" - e na opinião deste meu parente, é por este motivo que tem tantas enfermeiras carrancudas por lá.

Por outro lado, me parece que o NHS é bem mais organizado, e tem mais hospitais, de modo que ao menos eles não ficam lotados que nem os do SUS - cada um vai para o hospital de sua "região", ou de seu "bairro", não é que nem a bagunça daqui em que o humilde hospital de uma cidade mediana precisa atender também à população das vinte cidadezinhas próximas que não têm hospital.

Outra coisa boa do Reino Unido: me parece que os planos de saúde são mais baratos do que aqui. Esta pessoa da minha família estava para ver um plano cuja taxa era de 600 libras por ano, o que daria uns 350 reais por mês se considerarmos a libra a 7 reais. Em geral os planos de saúde aqui no Brasil são mais caros que isso.

Outra curiosidade sobre os britânicos: eles parecem se preocupar menos com a saúde do que os brasileiros (isso é bom e ruim ao mesmo tempo). Uma evidência disto é que lá ninguém ou quase ninguém tem termômetro em casa para medir a febre. Eles quando acham que estão com febre, tomam um tylenol e deu, nem medem a temperatura. E também evitam ao máximo ir ao médico, só vão quando estão muito ferrados mesmo (mas também acho que aqui nós vamos ao médico demais... é importante ter um equilíbrio)

Enfim, eu """prefiro""" o nosso sistema público (e privado também) em relação ao britânico porque, em que pese este ser mais eficiente, ele me parece muito mais hostil. Ele me passa uma ideia de "isso é problema seu", "no meu entendimento isso não é emergência, por favor se retire", "você não pode falar com o doutor", "não, não vou te encaminhar pro cardiologista mesmo que você tenha histórico de enfartos, quem tem que te atender primeiro é o clínico geral, não interessa". 

Agora falando sobre o Brasil, aqui ocorre uma distorção de certa forma semelhante ao caso das enfermeiras britânicas: muita gente aqui faz medicina pelo status e pela expectativa de ter uma renda bem mais alta que a média, e não por "ter o chamado" ou vocação para a medicina, e o resultado disso são muitos médicos que nem olham para a cara do paciente, tratam com arrogância, não são solícitos, e por aí vai. 

(Claro que graças a Deus existem bons médicos que tratam bem seus pacientes e são solícitos, e muitos fazem caridade e atendem em determinados dias sem cobrar)

Outro problema nosso: os médicos estão muito concentrados nas capitais, de forma que viver em muitas cidades do interior é de certa maneira "inviável" por não ter disponibilidade de médicos, clínicas e laboratórios. Que dirá hospitais. 

Se não me engano, os nossos conselhos de medicina proíbem os médicos e as clínicas de divulgarem publicamente seus preços (lembro de ter lido uma resolução de algum CRM de algum lugar dizendo que isso era "para não caracterizar o exercício mercantilista da profissão médica".... Fica aqui minha crítica aos Conselhos de Medicina: ora, se não se pode exercer a profissão médica "mercantilisticamente" então porque cobram pela consulta? Porque não vivem da caridade de seus aprendizes, de seus pacientes e da comunidade a qual servem, conforme preconizado por Hipócrates?) Penso que se não houvesse esta restrição, os preços das consultas tenderiam a ser mais baratos, pois saberíamos imediatamente quanto cada médico cobra.

Outro problema nosso: os hospitais daqui são os mesmos há pelo menos uns 50 anos - é raro construírem outro. Sempre que converso sobre estas coisas com meu pai ele diz que desde que ele era criança não construíram mais nenhum hospital em nossa cidade. E realmente os nossos hospitais públicos parecem ter parado no tempo. Os que eu já entrei ao menos eram assim.

Agora as coisas boas daqui: ao menos aqui eu consigo ir direto para um especialista quando sei qual é o meu problema.  Consigo falar com os médicos, eles não são tão semi-deuses quanto os britânicos. As enfermeiras não me impedem de entrar no hospital. Comparando o preço de consultas e exames particulares, me parecem mais acessíveis aqui do que no Reino Unido, mesmo para consultas sem plano. Óbvio que depende do lugar. 

Sobre a velha discussão Estado X Iniciativa Privada, eu acho justo que haja um meio termo. O que eu quero dizer com isso: em que pese o argumento de que "ninguém deveria ser obrigado a pagar pelo atendimento médico dos outros" eu não acho certo uma pessoa morrer porque não tem dinheiro para pagar por um atendimento em uma emergência, por exemplo. 

Então, acho que no mínimo o atendimento da emergência poderia ser público e o resto poderia ser privado. Também acho que pelo menos alguma coisa do tratamento de câncer e outras doenças sérias poderia ser pública. Por quê estes casos, exatamente? Não sei, só acho. É o que me parece certo, e lembrem-se de que eu não tenho poder nenhum para mudar a realidade, então levem isso em conta antes de me criticarem. E não precisaria ser "dinheiro público" bancando isso, poderia ser um fundo custeado pelos habitantes de determinada cidade para atender emergências daquela cidade, por exemplo, ou uma empresa de seguros, ou algo assim. 

Acho errado deixar alguém morrer por esta pessoa não ter dinheiro para pagar o médico e outras pessoas ainda acharem isso certo, dizerem que "ah, se não tinha dinheiro então era incompetente, incapaz, vagabundo, etc." (como já li por aí em discussões desse tipo). Sou contra isso porque seria uma forma de "darwinismo social"  ("sobrevive quem tem dinheiro, quem não consegue ganhar dinheiro é um peso para a sociedade e é melhor morrer")  - e do "darwinismo social" para a eugenia é um pulo. 

Se aceitarmos que é válido alguém morrer porque não consegue pagar uma conta, então eventualmente a sociedade aceitará que é válido matar alguém por ser deficiente (na Islândia, por exemplo, é permitido abortar bebês com síndrome de Down, uma verdadeira tragédia que um dia cobrará seu preço), ou por ter QI abaixo de determinado número, ou por ter mais do que determinada idade (essa eu já vi defenderem também... já li por aí um cara dizendo que acima dos 75 anos a pessoa é um peso porque "polui mais o planeta do que é capaz de dar em troca para a sociedade"... daí para dizer que é melhor matar as pessoas acima de 75 anos é só um pulo. Fiquem atentos a estes supostos "defensores do planeta", pessoal. A maioria só quer uma desculpa para cobrar mais impostos e para matar pessoas sem ser preso), e quando nos dermos conta estaremos em um mundo onde seremos de verdade o tal do homo economicus, meros animais ou robôs que vivem para satisfazer necessidades fisiológicas. 

Somos muito mais do que isso.

Fiquem com Deus!

domingo, 24 de janeiro de 2021

Comentários sobre a educação e o ensino no Brasil

 Saudações, confrades!

Aproveitando que hoje foi o último dia do ENEM, vou escrever sobre a baixa qualidade (em geral) do ensino no Brasil, com ênfase no ensino superior, um assunto amplamente debatido na nossa querida blogosfera das finanças.

Como vocês devem estar carecas de saber, já faz muitos anos que a qualidade do nosso ensino vem caindo (eu diria que há pelo menos uns 40 ou 50 anos), e a era PT no governo só acelerou a decadência.

Isso, na minha opinião, é de propósito, e tem o intuito de  nos transformar em gado obediente e 100% dependente do Estado. O conhecimento ajuda a trazer liberdade, tanto financeira quanto das amarras mentais de ideologias (o pior tipo de escravidão, na minha opinião), e os governos em geral (assim como algumas grandes empresas, que cada vez mais se confundem com o Estado, ou até mesmo como um novo tipo de Estado) não gostam da ideia de homens livres: querem que você seja só um pobre coitado que nem sabe ler direito e dependa do Estado para tudo, até para decidir o que comer na hora do almoço (não é à toa que cada vez mais ficam forçando a barra com bobagens do tipo "pegada de carbono", comer insetos para não precisar criar gado, controle populacional, etc.)

Voltando ao assunto principal do post: vejam, porém, que não é só o governo o culpado pela derrocada do ensino no Brasil: a própria mentalidade do povo colabora com isto. Parte do problema é o pensamento incutido no imaginário popular brasileiro de que o acesso ao  curso superior é um direito e, não apenas isto, mas que fazer faculdade  é uma etapa obrigatória da vida. 

Claro que isso se aplica muito mais à vida nas grandes e médias cidades, que é onde estão as empresas e órgãos públicos mais importantes, que são os lugares onde normalmente se exige maior qualificação da mão de obra. (Se bem que acho que até hoje tem gente no interiorzão rural que ainda nutre esperanças de "ir pra faculdade pra não ser peão de roça"... e acaba virando "peão de escritório"). 

Como há muita demanda por praticamente qualquer ensino superior, o mercado não ficou parado e criou a "indústria do diploma", com a abertura de inúmeras faculdades particulares. E o governo, sempre faminto por capital político, ampliou o ensino superior público. Todas estas coisas aconteceram sem um bom planejamento, e assim temos muito mais diplomados do que o mercado precisa em diversas áreas. Infelizmente, a economia no Brasil não é tão desenvolvida a ponto de precisar de tantos profissionais formados todo ano. O resultado disso é o achatamento geral dos salários e muito desemprego. É graças a aplicativos de entrega, uber, cabify, etc. que a situação não está pior ainda.




E para piorar, a qualidade do ensino (público ou privado) em geral é péssima.

Claro também que para algumas profissões é mesmo necessário um nível maior de estudos, o que justifica a necessidade do nível superior, mas o problema é que esta necessidade se generalizou, e muitos empregos que antes não exigiam diploma hoje exigem, porque, como "todo mundo tem diploma", não ter passa a ser uma desvantagem, e acaba sendo uma maneira fácil para o RH de qualquer empresa eliminar candidatos às vagas de emprego.

Um exemplo que ocorreu na minha família: um parente meu era gerente do departamento de ações de um banco nos anos 70-80, e isso sem nem ter o ensino médio! Ele só tinha o primário! Como ele eventualmente "ficou caro" para o banco, foi demitido e foi se virar trabalhando como corretor autônomo da bolsa, e trabalhou com isso por muitos anos, até bem pouco tempo, e isso só com o diploma da quarta série. Foi só a partir de 2007-2008 que a CVM inventou do nada uma regra estúpida de que os corretores deveriam ter no mínimo o ensino médio completo. Esse meu parente era uma prova de que tal regra era desnecessária, mas fazer o quê, aqui é o Brasil, então ele foi obrigado a fazer a prova do ENEM  para ter o direito de continuar trabalhando. Detalhe: ele passou na prova do ENEM sem nem estudar, só com o conhecimento "de vida". Não acho que ele passaria para medicina, mas ele tirou a pontuação mínima exigida para que pudesse usar o resultado como um "diploma" do ensino médio. 

(E tem muito adolescente com a matéria ainda "fresca" na cabeça que não passa.)

Baseado nesta história e em outras que já vi, digo com segurança que, em termos de conhecimentos e capacidade de se virar no trabalho, muita gente só com o primário e/ou com ensino  médio de antigamente certamente dá um banho em 90% das pessoas com mestrado/doutorado/Phd de hoje em dia. 

Sei do que estou falando. Tenho mais de um professor na família, tanto na área pública quanto na iniciativa privada, e através deles sei como andam essas coisas. A qualidade de tudo vem caindo: professores recém-formados, materiais produzidos, e até a dos alunos.

Infelizmente, nossa "academia" é muito apegada à teoria e aos formalismos (saibam que toda faculdade, não importa a área, tem uma matéria chamada "metodologia da pesquisa" que praticamente só serve para "ensinar" a fazer o TCC, e o próprio TCC é uma coisa besta: o que mais importa não é o conteúdo, é seguir as regrinhas da ABNT, muitos avaliadores nem lêem). Nossa "academia" quase não dá valor à prática. Então vemos, por exemplo, na área de economia, administração e contabilidade, cursos 100% teóricos, em que não se ensina nem a mexer no excel e no powerpoint (que até hoje constituem uns 90% do trabalho de escritório), que dirá tópicos mais avançados. Vemos licenciaturas com aulas que mais parecem propaganda político-partidária e demagogia do que realmente ensinam os futuros professores a ensinar. Até mesmo as faculdades de medicina me parecem que estão formando "leitores de manual" ao invés de médicos, conforme já escrevi por aqui.

E digo mais: a maioria dos diplomas não são realmente necessários para suas respectivas áreas profissionais - isso é um fato para o qual cada vez mais pessoas estão despertando, mas ainda demorará um tempo até que o mercado de trabalho deixe de se importar com diplomas. Talvez a "pejotização" acelere isso. Lá fora, nos EUA, com todo aquele drama causado pelas imensas dívidas estudantis (as universidades por lá, pelo menos as famosas, são bem caras, custando mais de 50 mil dólares por semestre), me parece que também está havendo um despertar para o fato de que há algum tempo os cursos superiores não estão com essa bola toda.

Eu mesmo tinha muita vontade de fazer mestrado na minha área, mas de uns tempos para cá desanimei bastante - confesso que em boa parte por causa da perspectiva de ter que fazer mais um TCC, só que um com muito mais páginas - talvez um dia eu escreva um post falando só sobre o drama que é fazer esse tipo de trabalho e compartilhando algumas experiências pessoais. 

Porém, eu sei que serei "obrigado" a fazer pelo menos um mestrado caso consiga virar professor, por questões de sobrevivência profissional e para ampliar minha empregabilidade (no serviço público, porque escolas e cursos particulares às vezes rejeitam candidatos com muita qualificação, pelo que fiquei sabendo, de modo que muitos omitem estes cursos de seus currículos...)

Recomendo a todos os que se interessam pela área de ensino a leitura dos livros do saudoso professor Pier Luigi (Aprendendo Inteligência, Ensinando Inteligência e Estimulando Inteligência).

O que os confrades acham disso? Fizeram faculdade? Como foi sua experiência? Pretendem fazer mestrado, doutorado, etc?  

Forte abraço! Fiquem com Deus e tenham uma excelente semana!

quarta-feira, 14 de outubro de 2020

A importância de deixar uma herança para os filhos

 Saudações,  confrades!

Escrevi este post inspirado neste bizarro tweet do perfil bloomberg opinion:


Vejam que atitude destrutiva estes "analistas" estão incentivando (pelo menos na manchete): gastar quase todo o patrimônio em vida e não passar quase nada para os filhos, ao invés disso dar-lhes apenas "experiências".

(O texto linkado ao tweet não é tão sensacionalista quanto a manchete, lá pelo meio do artigo ele fala em "dar dinheiro aos poucos" aos filhos para evitar mordidas do imposto de renda, mas como a maioria das pessoas só vai ler a manchete, a ideia que vai ficar é a de "não passar herança, porque isso não faz mais sentido no mundo atual")

Claro que não é saudável ser um pai avarento que nunca dá nada pros filhos. Óbvio que faz parte da criação proporcionar (dentro das possibilidades de cada um) boas experiências, lições e conselhos que ajudem os filhos a se desenvolverem como pessoas, estas coisas valem, sim, mais do que dinheiro, mas daí para torrar a grana e passar zero (ou pior, passar uma dívida) para os filhos eu já acho um imenso e perigoso exagero.

Também sei que cada um é dono de seu patrimônio e portanto cada um decide o que for melhor para si nesta questão de deixar ou não uma herança pros filhos. Se uma pessoa decide que quer usufruir de seu patrimônio até o último centavo, e faz esta escolha livremente, aí é de cada um.

Como sempre, defendo o equilíbrio.

A herança serve para que no longo prazo a família desfrute de alguma segurança, para que possa aproveitar as oportunidades que surgirem (imóveis, negócios, etc.), para que possam se dedicar a coisas além do trabalho e de correr atrás do sustento. Uma família sem herança tem que começar "do zero" em cada geração, e dificilmente irá para a frente, provavelmente será pobre para sempre (até que surja um gênio empreendedor que alavanque o patrimônio da família, mas por definição isso é bem raro).

Por quê playboys e patricinhas têm a chance de ir para a faculdade estudar coisas como artes, teatro, etc., para as quais o mercado é mais duro e fazer um sucesso mediano é bastante difícil, ou se dedicar a pequenos negócios e atividades de retorno duvidoso, coisas que um filho de um pobre normalmente não poderia fazer? Porque eles têm um patrimônio familiar que lhes dá tranquilidade suficiente para não se preocuparem em necessariamente ter que se dedicar a atividades com retorno financeiro mais certo. Eles têm um "Continue" no jogo da vida. Se tudo der errado para a patricinha e a carreira de desenhista não der certo, sua família pode bancar uma faculdade de emprego mais fácil, como medicina, por exemplo, ou um mestrado/pós-graduação numa instituição de prestígio que lhe abra algumas portas no mundo corporativo - fora os contatos que os pais provavelmente têm. E se mesmo assim tudo der errado, os filhos dos ricos terão um grande patrimônio deixado de herança que os sustentará, mesmo que só consigam subempregos ou seus pequenos negócios só rendam lucros minúsculos.

(vejam que não estou criticando estas pessoas: se existe a patricinha, é porque alguém antes dela ralou e suou muito a camisa em um emprego ou negócio. Desta forma, não acho certo o haterismo que existe em cima de playboys e patricinhas só pelo fato de estes terem dinheiro)

Por quê o filho do pobre é obrigado a ter empregos "de verdade" e a colocar a mão na massa, muitas vezes em atividades insalubres e extenuantes? Por que ele não tem escolha. Ele "só tem munição para 1 tiro", e tem que acertar, então normalmente ele não pode tentar ganhar a vida como pintor de quadros, ou dançarino de balé clássico, ou cantor, etc. Quer dizer, ele pode sim tentar fazer essas coisas, mas só no tempo livre: ele precisa de um emprego (ou de um negócio) "normal", com uma renda mais estável, que lhe dê dinheiro para as necessidades básicas. Claro que também é possível um pobre prosperar nestas coisas, mas as chances são bastante pequenas.

Sendo assim, uma família pobre terá chances de sair da pobreza através do trabalho e do acúmulo de patrimônio. E este acúmulo de patrimônio através de gerações pode eventualmente acabar com a pobreza de uma família (e por "acabar com a pobreza" eu quero dizer permitir aos descendentes não se preocuparem mais em faltar dinheiro para pagar o aluguel, não se preocuparem em faltar dinheiro para comprar comida, etc. Ou seja, não estou falando de luxos, estou falando em satisfazer com mais segurança as necessidades dos níveis mais baixos da pirâmide de Maslow). Sendo assim, eu vejo a herança como uma coisa essencial e importante, algo que não pode ser negligenciado, nem tratado levianamente.

E o "sistema" (a "matrix", chamem do que quiserem) sempre nos incentivará a fazer o contrário disso: nos incentivará a gastar o máximo possível, inventará falsas necessidades, luxos desnecessários, nos estimulará a girar o patrimônio, pagar muitas taxas, muitas comissões, muitos impostos, etc., em suma, o sistema sempre tentará nos manter presos na corrida dos ratos. A manchete que mostrei no início do post é só mais um exemplo disso. Cabe a cada um de nós nos disciplinarmos e buscarmos o equilíbrio financeiro, para que um dia possamos desfrutar da tranquilidade financeira e, se Deus permitir, transmitir algo além de conselhos e experiências para os filhos.


sexta-feira, 4 de setembro de 2020

A "cultura de emprego" brasileira faz parte do problema

Eu sempre achei estranho e um tanto vergonhoso, em todos os lugares que trabalhei, ver um chefe meu, geralmente um cara mais velho, casado e com filhos, levar esporros monstruosos e engolir sapos terríveis de seus chefes, estes geralmente diretores, vice presidentes, gerentes gerais, etc., além de serem "obrigados" a fazer várias coisas que não agregam nada ao trabalho, mas que servem apenas para agradar os chefões (ficar até bem mais tarde só esperando o chefe voltar de uma reunião, por exemplo, ou perder horas fazendo um powerpoint cheio de firulas e gracinhas ao invés de focar só na informação em si, ou ser obrigado a almoçar com o diretor todo dia, ou ir a eventos sociais representando a empresa, etc.) - e quanto maior for a empresa, mais coisas deste tipo acontecem, principalmente se for multinacional, tudo com grandes níveis de estresse. Eu sempre que presencio uma coisa dessas fico pensando "Como ele aguenta? Pelo nível de salário desse cara, era pra ter um mega reserva financeira, um grande patrimônio, que lhe desse tranquilidade para não aturar essas coisas ou então pelo menos levar tudo mais tranquilamente". Óbvio que ele aguenta porque ele quer manter o nível de salário e o status, mas essa vida de executivo /superintendente/coordenador regional é um outro nível da corrida dos ratos, e muitas vezes nem esses funcionários de alto nível de empresas top construíram um patrimônio decente,  e isso os obriga a se manterem na luta para continuarem em seus cargos altos, e lá a disputa é ainda mais acirrada, porque a concorrência é de nível mais alto (tanto em competência quanto em habilidades bajulatórias sociais).

Agora falando dos trabalhadores brasileiros em geral, especialmente os das cidades, dificilmente eles têm um patrimônio que os deixe tranquilos e protegidos de alguma forma contra crises e desemprego, e este é apenas um dos motivos pelos quais tanta gente engole tanto sapo todo dia no trabalho (eu sei que engolir sapos faz parte da vida, tendo patrimônio alto ou não, mas há de se concordar que tendo um patrimônio alto o número de sapos a serem engolidos seria bem menor, ou então no mínimo eles seriam mais fáceis de engolir). Como muitos aceitam muita coisa no trabalho, acaba que todos temos que aceitar também. A Teoria dos Jogos, principalmente o Dilema do Prisioneiro, ajuda a explicar o porquê - por exemplo, como existe alguém que está disposto a sair bem mais tarde do trabalho, seja isso necessário ou não, isso lhe dá aos olhos dos chefes um "diferencial" em relação aos outros que não estão dispostos a saírem mais tarde, então todos passam a ter que sair mais tarde para se manter na competição dentro da empresa, porque sair no horário passa a ser arriscado e porque sair tarde é um diferencial "fácil" de se obter, então ele passa a ser o mínimo esperado de cada empregado).

Uma outra coisa que contribui para isso é o que eu vou chamar neste texto de "cultura de emprego". Vou explicar o que quero dizer com isso.

Creio que a maioria que lê meus textos e frequenta a blogosfera das finanças irá concordar que o roteiro profissional "padrão" do "brasileiro urbano médio" é:

Formação >>> emprego  >>>  ???  >>>  aposentadoria (INSS)

Dentro da zona misteriosa ("???") fica a "carreira" do indivíduo dentro de uma empresa - uma coisa cada vez mais rara: antigamente, era normal passar 30 anos trabalhando na mesma empresa, e se esta empresa fosse grande e rica o bastante, ela ainda cuidaria de você na aposentadoria através de planos próprios de previdência privada, associações de ex-funcionários, etc. É o caso, por exemplo, da IBM e da Shell.

Hoje em dia passar 30 anos numa empresa é quase impossível, o normal para muita gente é ser chutado em uns 5 ou 6 anos caso você não seja promovido e, dependendo da área, até em menos tempo. Não dá para "construir uma carreira" no sentido antigo do termo na maioria das empresas atualmente. A carreira hoje em dia é a soma de nossas experiências profissionais e o conhecimento/know-how acumulado e também o famigerado network (nossa, como eu odeio essa palavra). E quanto mais velhos ficamos, mais facilmente somos demitidos (as empresas no Brasil em geral, quiçá no mundo, têm algo contra pessoas acima de 35 anos) e mais difícil se torna nossa recolocação (pelo mesmo motivo),  e isto torna todos mais "medrosos" e faz com que se sujeitem a muita coisa que em outras condições não se sujeitariam para manter o emprego. 

Sendo curto e grosso: por causa do medo de perder o emprego, muita gente acaba abaixando a cabeça para muita coisa que acontece no trabalho, e por isso muitos abusos acontecem e isso ajuda a explicar porque hoje em dia doenças como depressão, ansiedade e burnout são cada vez mais comuns. 

A própria blogosfera das finanças é, de certa forma, um sintoma disso: muitos dos blogueiros e dos comentaristas (eu incluso) são pessoas insatisfeitas com seus trabalhos e que buscam uma esperança de mudança de vida através da frugalidade, do mercado financeiro, do desenvolvimento pessoal, etc. e encontram ecos de seus pensamentos na blogosfera das finanças. 

A insatisfação com a vida profissional é algo generalizado atualmente. Creio que isso seja em parte culpa da "cultura do filho doutor" e também em parte culpa da nossa "cultura de emprego".

O que quero dizer com isso é: nossa cultura profissional não deveria ser focada em emprego, porque ela nos torna mais submissos a hierarquias, chefes, etc., além do emprego funcionar como um tipo de cabresto,  constantemente usado para nos  ameaçar e intimidar.  

Na minha opinião, a nossa "cultura de emprego" deveria ser focada em autonomia, ou seja, deveria ser uma "cultura de autonomia": o roteiro padrão esperado deveria ser trabalhar para alguém só até certa idade, e depois se tornar autônomo ou empresário, desta maneira:

Formação >>> Emprego (aquisição de experiência e recursos) >>> "Carreira solo" >> Tranquilidade Financeira

Se o normal fosse esse, as coisas por aqui seriam um pouco melhores, pelo menos nos seguintes aspectos: 

1) Haveria menos desemprego, porque seria normal trabalhar em empresas só até certa idade, então essa rotatividade de funcionários seria maior, não por cortes de custos, mas porque os próprios funcionários decidiriam sair para iniciarem suas próprias jornadas;

2) Com mais autônomos e pequenos/médios empresários, haveria mais vagas de empregos também (autônomos poderiam contratar assistentes, estagiários, etc. e seria bom para jovens adquirirem experiência) e mais produção, o que significa maior oferta, o que reduziria os preços de produtos e serviços;

3) Com mais empresas e mais empregos, o trabalhador teria mais poder de barganha (seria fácil sair da empresa e arranjar outro emprego, levando embora conhecimentos e experiências que servirão à concorrência, o que faria com que os salários tendessem a ser mais altos para reter funcionários - ao contrário de hoje em dia, em que há 500 mil desempregados para cada vaga de emprego, então quase todas pagam 1 salário mínimo,  sem VT, sem hora extra e sem PL); e

4) Tudo isso contribuiria para a diminuição das doenças psiquiátricas que afligem esta nossa estranha era (depressão, ansiedade, neurose, etc. são em grande parte provocadas por pressões no trabalho) e a sociedade teria um pouco mais de felicidade.

Não vou ser hipócrita - eu também faço parte da "cultura de emprego": assim como muitos, fui formado assim, cresci acostumado com esta ideia, e agora vejo as consequências. A verdade é que em muitos aspectos é mais fácil e mais confortável ser empregado CLT e isso também ajuda a explicar essa cultura de emprego, porque você de alguma forma sente que a empresa está "cuidando de você", mas isto na verdade é uma ilusão perigosíssima: na verdade, você está é terceirizando muitas decisões importantes de sua vida para o seu chefe: ele escolhe qual vai ser o seu plano de saúde (não se iludam, sai do seu salário, mesmo que não apareça nenhuma coparticipação na folha de pagamento), ele aplica parte de sua renda numa previdência privada que a empresa escolheu, ele escolhe o que fazer com seu horário, ele que tem a palavra final de quando serão suas férias, dependendo da empresa é ele que decide o que você vai fazer no final de semana, ele determina onde você vai morar, etc. Com isso, uma boa fatia da sua vida está nas mãos de um terceiro que geralmente te enxerga apenas como um custo e não como um ser humano. 

Óbvio que a vida de um empresário ou autônomo também está em muitos aspectos regida por terceiros - os clientes - mas o nível de controle destes profissionais sobre seus trabalhos e suas vidas é bastante superior ao do empregado CLT comum.

Realmente é mais difícil ser autônomo ou ser empresário do que ser CLT, não só por causa da concorrência no mercado, mas também porque isso envolve assumir os riscos e as decisões que normalmente terceirizamos quando somos empregados de alguém, conforme expliquei acima. Mas por outro lado, passaremos a sermos mais donos de nossos destinos.


Por causa da doutrinação esquerdista que recebemos na escola já há décadas, o brasileiro médio tem a tendência de enxergar o empresário como um FDP explorador. Óbvio que alguns são isso mesmo, principalmente os maiores, que usam seus recursos para influenciar o Estado e financiar movimentos revolucionários e com isso matar a concorrência desde o berço para se manterem no topo da pirâmide. Mas na grande maioria dos casos, o empresário é um cara "classe média" ou até mesmo "pobre" e que tem muito mais a perder do que o empregado e trabalha muito mais horas por dia e geralmente sem férias e sem feriados. Então aquela ideia que os soças vendem do "empresário malvadão explorador dos pobrezinhos" não é verdadeira em 99,999% dos casos, mas essa ideia que foi implantada em nossas mentes infelizmente também colabora para fortalecer a "cultura de emprego" na mentalidade brasileira e sabotar a nossa busca por autonomia.

Acho que nesse ponto os brasileiros têm muito a aprender com os árabes e os portugueses - estes dois grupos têm essa mentalidade de autonomia muito mais desenvolvida, tanto que seus estereótipos são caricaturas de pequenos comerciantes e empresários (o árabe vendedor de tapetes e especiarias e o "seu" Manoel da padaria) - geralmente pessoas destas duas etnias não são empregadas de ninguém, a não ser de outros árabes e portugueses, e mesmo assim só enquanto não juntam recursos para abrirem seus próprios negócios.

O que vocês acham da nossa cultura de emprego? Acham que as coisas seriam melhores se fizéssemos uma mudança para uma cultura mais focada em autonomia? 


Forte abraço, amigos, fiquem com Deus!

segunda-feira, 20 de julho de 2020

A busca pelo milhão deveria ser uma busca por valor e não por dinheiro

Se vocês refletirem um pouco, a inflação já corroeu tanto o poder aquisitivo do Real que o cobiçado "um milhão de reais", um dos santos graais da blogosfera, já não é mais o que era. É bastante difícil juntar um milhão de reais para quem é assalariado, e embora esta quantia ainda dê uma grande melhora na vida pessoal em termos de tranquilidade e segurança relativas ao trabalho, ela já há um bom tempo não é capaz de trazer a IF, no máximo uma TF (tranquilidade financeira), mas ainda assim é algo arriscado. 
Nos tempos de taxa Selic a mais de 14%, havia quem pensasse ser capaz de viver sem precisar trabalhar tendo um milhão investidos em renda fixa, mas mesmo naquela época (2016) isso ainda era muito arriscado, pois a inflação alta camuflava o rendimento real, que era bastante abaixo dos 14% nominais, de modo que sacar os rendimentos deste milhão aplicado em uma renda fixa, por exemplo, só faria corroer mais depressa o valor do principal. Sacar menos do que os juros auferidos era obviamente uma opção melhor, mas ainda arriscada para quem almejasse parar de trabalhar. Com o tempo, a inflação poderia corroer o valor do principal, e caso vivamos um caso extremo como o da Alemanha do pós-guerra, este investidor que até então havia "atingido" a IF se tornaria um "mendigo milionário".
Não é exagero!

notas e moedas: Pick#110 - 500 Milhões de Marcos, 1-9-1923
Nota de 500 milhões de marcos alemães, de 1923, provando que todo mundo era multimilionário na Alemanha pós-Grande Guerra!! É um pouco difícil de ler, mas realmente está escrito Fünfhundert millionen Mark


Infelizmente, a inflação é um problema intrínseco do atual sistema monetário mundial - o qual se baseia em moedas fiduciárias (sem lastro) e no sistema de reservas fracionárias (bancos não precisam ter em caixa valores que garantam 100% dos depósitos, ou seja, bancos criam moeda literalmente do nada) e ao menos no curto prazo isso parece que não vai mudar. Nem mesmo as criptomoedas são ainda uma alternativa viável - elas ainda estão longe de serem adotadas pelo "tiozinho da padaria" e pela "dona marocas da escolinha", e somente quando isso acontecer é que elas serão realmente moedas, pois serão um meio de troca amplamente aceito (atualmente as criptos cumprem mal e porcamente apenas as funções de unidade de conta e reserva de valor, mas devido às grandes oscilações diárias e às dificuldades operacionais de usá-las no dia a dia, tais funções não são eficientemente cumpridas, na minha opinião).

Vejam em números o massacre do Real pela inflação: conforme a calculadora do cidadão, disponível no site do Banco Central, 1 milhão de reais do início do Plano Real (1994) equivalem a mais de 6 milhões de reais atualmente:



O Real perdeu muito valor desde seu início. Temos que multiplicar o milhão de reais por 6 só para empatar com seu poder de compra original. Até mesmo olhando para o passado recente a perda é chocante. Vejam quanto precisamos ter hoje em dia para empatar o poder aquisitivo de 1 milhão de reais de 2016, época da SELIC a 14,25%, na qual havia quem acreditasse poder viver com a renda desse milhão:



Precisaríamos ter quase 200 mil reais a mais só para manter o poder de compra, quase um quinto do valor. Quem tinha 1 milhão e aplicou na renda fixa e passou a viver dos juros provavelmente perdeu dinheiro, no sentido de perder poder aquisitivo.

Será que algum dia seremos capazes de desfazer este massacre financeiro? Será que algum dia o Real prosperará e se tornará uma moeda forte? 
Só o tempo dirá. 
Enquanto isso, os números incríveis de nossa inflação mostram que ao contrário de outras épocas, em que o dinheiro tinha lastro, ou seja, tinha valor intrínseco (moedas de ouro e prata, certificados de depósito de ouro, etc.) não é tão bom negócio juntar dinheiro. Óbvio que precisamos de dinheiro no dia a dia para trocarmos por bens e serviços,  e conforme já expliquei no post anterior, é inegável a importância de se ter uma reserva de emergência de pronto uso, então algum dinheiro é bom sempre termos. Esses tempos histéricos da pandemia, repletos de desmandos e arbitrariedades estatais e de empresas mancomunadas com o Estado, reafirmaram a importância da reserva de emergência.


Certificado de Ouro - Está escrito: 100 dólares EM MOEDAS DE OURO pagáveis ao portador sob demanda

Porém, o ideal é que, após constituída a reserva de emergência, comecemos a diversificar nosso patrimônio de modo que ele tenha mais valor do que dinheiro, porque o que tem valor é sempre ou quase sempre protegido contra a inflação. 

Onde encontraremos valor? Onde compramos valor? Resposta: Comprando ações de boas empresas (fundamentos sólidos, vários anos seguidos de lucros, com dívidas equilibradas ou sem dívidas, com boa participação no mercado, etc.), comprando cotas de bons fundos imobiliários (bem geridos, com imóveis bem localizados, bons imóveis, de preferência com mais de um imóvel, etc.), comprando bons imóveis (bem localizados, sem problemas judiciais) e comprando bens que tenham valor (metais preciosos, jóias, moedas, obras de arte, terrenos bem localizados e férteis, etc). 
Porém, há uma outra diversificação ainda mais importante,  e que deve ser feita todo dia, em qualquer época: a diversificação de conhecimentos e habilidades, ou seja, o investimento em você mesmo. Aumente o seu valor. Estude além do que é necessário para desempenhar sua profissão, estude para melhorar seu desempenho nela e tornar-se uma referência, pelo menos entre seus colegas. Estude e pratique outras atividades fora de sua profissão para ser versátil, primeiramente como hobbies - e quem sabe elas não podem acabar virando outras fontes de renda? Quem sabe elas não possam um dia se tornar sua principal fonte de renda? Quem sabe elas não te salvam de uma enrascada, como ser demitido? 
Além disso, nunca deixe de ler ou estudar certos assuntos só porque supostamente "não há mercado" para tais conhecimentos - aumente sua cultura, leia os clássicos da literatura, estude outros idiomas além do inglês, produza algum tipo de arte, etc. Tudo isso contribuirá, no mínimo, para aumentar sua confiança em si mesmo e para expandir sua criatividade, e estas são coisas das quais você nunca se arrependerá, e também aumentarão seu valor como pessoa. Hoje em dia é possível encontrar tantos bons livros de graça ou quase de graça, assim como inúmeros tutoriais de uma infinidade de assuntos no YouTube, em fóruns especializados, cursos on line de praticamente qualquer assunto, e por aí vai. Nunca deixe de investir em você mesmo. Não viva para juntar dinheiro, viva para melhorar a si mesmo e para melhorar a vida dos que estão à sua volta, fazendo sempre o bem.

Forte abraço!  Fiquem com Deus!