terça-feira, 15 de novembro de 2022
O dinheiro é uma abstração, e isso inclui o ouro
domingo, 25 de abril de 2021
Iniciando minha carteira de investimentos - parte 2 - Reserva de Valor
Saudações, confraria da blogosfera!
Complementando o post anterior, sobre a alocação dos investimentos, vou falar sobre a reserva de valor, a qual, pelo menos no momento, pretendo que irá compor no máximo 5% de meu patrimônio (mas essa porcentagem pode mudar conforme meu entendimento e a situação geral mudem)
1) Primeiramente, para que serve uma Reserva de Valor?
No meu entendimento, ela serve para proteger a mim e à minha família de desastres políticos, como confiscos de dinheiro em conta-corrente e poupança (que nem na época do Collor), congelamento de ativos por decisões judiciais, bloqueio de conta bancária por motivos políticos, etc.
Ou seja, a reserva de valor não é para especular e lucrar com as valorizações (embora isso possa eventualmente acontecer): ela serve simplesmente para eu conseguir me virar nos cenários desastrosos que apontei acima.
Serviria, na época do confisco das poupanças nos anos 90, para eu não me desesperar (como muitos se desesperaram) e para eu conseguir ao menos por um tempo suprir minhas necessidades básicas e de minha família (comida, água, luz, etc). Se isso acontecer de novo (toc, toc, toc), ela servirá para este tipo de proteção.
Serviria também para me ajudar a fugir do país no caso de uma guerra civil, de um golpe comunista, etc. Ao menos para ajudar comprar as passagens de avião para fora, ou para pagar um atravessador na fronteira, e para as despesas iniciais em outro país.
Em último caso, serviria para subornar o guarda do gulag e fugir da prisão, no pior cenário (bati na madeira aqui, gente).
Rezemos para que nada do que escrevi acima aconteça, com nenhum de nós.
2) E o que serve como reserva de valor?
Obviamente, não pode ser nada que fique em custódia em um banco brasileiro, pois assim estaria ao alcance do governo. Sendo assim, a Reserva de Emergência não serve, e nem o dinheiro em conta corrente.
a) Dinheiro físico guardado em casa ou em algum outro esconderijo serve. No caso de um confisco semelhante ao do Collor, muito provavelmente até Reais físicos serviriam para me livrar de um sufoco.
Mas o ideal mesmo é ter moedas fortes (principalmente dólar, mas também libras e euros) físicas guardadas em algum esconderijo - não pode ser num cofre de banco, porque aí não estarão protegidas nem de um confisco geral. E numa grande crise, imagino que os bancos iriam fechar. No caso de um golpe comunista, imagino que seriam fechados pelo governo, e aí eu perderia o acesso ao cofre.
b) Além do dinheiro físico, também recomendaria ter uma conta no exterior, nos EUA ou na Europa, de modo a ter recursos mais sólidos e mais seguros em outro país, fora da jurisdição de nosso governo. A conta no exterior seria um lugar para onde eu enviaria remessas periodicamente e também para receber o valor de eventuais vendas de ações e FIIs investidos no exterior. Seria necessário um banco nos EUA ou na Europa que aceitasse correntistas não residentes, e que aceitasse abrir conta on-line. Ainda estou pesquisando isso, então se algum leitor souber, por favor me dê uma dica.
c) Também podem ser usados como reserva de valor os metais preciosos, pois historicamente sempre foram aceitos nas trocas comerciais, desde que a humanidade chegou à abstração do dinheiro.
Os mais úteis, na minha opinião, são o ouro e a prata.
Acho importante ter ambos na reserva, pois a prata serviria para pequenas transações (alimentos, transporte, roupas, etc.) e o ouro poderia servir para as grandes compras (casa, terreno, carro) e para guardar grandes valores em pouco espaço.
Porém, conforme o gráfico no capítulo 1 do livro Stocks for the Long Run, do Jeremy Siegel, o ouro praticamente acompanhou a inflação (em relação ao dólar) no período considerado na análise dele. Com base nisso, para o longo prazo o ouro só serve mesmo para a reserva de valor, pois a tendência é que acompanhe a inflação. Hoje, cerca de 320 reais compram 1 grama de ouro. Pode ser que daqui a 20 anos R$ 320,00 seja o preço de uma bala juquinha (batam três vezes na madeira aí, gente), mas 1 grama de ouro continuará sendo 1 grama de ouro e certamente valerá muito mais que uma bala juquinha.
O problema é onde adquirir ouro e prata, e de maneira conveniente para que realmente funcionem como reserva de valor - ou seja, que possa ser revendido depois, caso necessário.
Uma forma são as joias, as quais em uma situação de crise podem ser vendidas pelo peso de seu metal, com a desvantagem de que você pagará muito mais que isso para comprá-las - o que não inviabiliza o uso como reserva de valor.
Outra forma são moedas de coleção (numismáticas), principalmente as de prata, que existem muitas e não são muito caras (mas há a necessidade de consultar catálogos de moedas para verificar o teor de metal precioso em cada moeda, para saber quanto de metal estamos de fato comprando).
Elas também têm o inconveniente de que pagaremos mais do que o valor do metal e numa crise as venderemos somente pelo peso (sem o "valor numismático") - claro que isso também não inviabiliza seu uso como reserva de valor, na minha opinião.
O maior problema das moedas numismáticas é, a meu ver, o risco de falsificação. Então é necessário muito cuidado na hora de comprá-las.
Mas eu acho que a forma ideal de investir em metais são aquelas "moedas de investimento", que têm pesos padronizados e vem com certificados dos fabricantes (um exemplo famoso é a maple leaf canadense), pois creio que essas são relativamente fáceis de vender. Outra forma são barras de ouro e prata com pesos padronizados (e que também vem com certificados de autenticidade).
O que conta aqui é a facilidade de vender quando necessário, e estas (moedas e barras) são as mais fáceis de vender, na minha opinião, por conta de sua padronização.
Em relação a fundos de ouro (ex: GOLD11), eu não os considero bem como reservas de valor no sentido pleno da expressão.
Certamente podem ajudar a proteger o patrimônio contra a inflação, mas não o protegem contra confiscos de autoridades e nem contra grandes crises nacionais e internacionais, pois você é dono de um papel, e mesmo que ele seja conversível em ouro, na hora que o problema surgir você pode ficar na mão - por exemplo, o banco simplesmente fecha, ou restringe os resgates, ou o governo baixa uma lei na canetada proibindo a conversão, etc. - Exemplos históricos para isso não faltam. Pesquisem sobre a perda do lastro em ouro do dólar, quando os bancos foram proibidos de converter dólares em ouro e logo depois virou crime ter moedas de ouro nos EUA (ordem executiva 6102 de 1933).
Acho que, se você faz questão de aplicar em um fundo de ouro, ele pelo menos deveria ser no exterior, para no mínimo você estar protegido contra o risco nacional.
d) Por fim, temos as criptomoedas. Cada vez mais populares, e com novas surgindo a cada dia, elas ainda estão longe de funcionarem a contento como meio de troca (por conta da imensa volatilidade) e como unidade de conta (idem), mas ao menos as mais confiáveis delas podem, a meu ver, servir como reserva de valor, pelo menos enquanto durar esta confiança.
O problema está justamente na confiança: alguns criptoativos já se revelaram esquemas de pirâmide, vários parecem que são criados só de zoeira... enfim, é difícil confiar em um criptoativo, principalmente um que seja recém-criado. E me parece que a confiança neste tipo de ativo tem sido bastante abalada. O nosso colega da blogosfera Gerson Ravv parece que se decepcionou com as criptos.
O Peão Playboy, em seu último post até o momento, também deu uma opinião interessante e com os pés no chão sobre as criptos.
E o Heavy Metal, que anda sumido, também deu sua opinião sincera, a qual transcrevo aqui:
"Pensando em arriscar um "troco" em um fundo de Criptomoedas, mas sinceramente acho que é uma bolha prestes a estourar. Quem surfou, surfou e ganhou muito dinheiro - e eu, perdi o bonde. Tenho medo de entrar agora. Em tempo: não faço aqui juízo de certo ou errado, mas sim de timing para entrar no ativo! Se vai ser ouro digital ou "merposa", só Deus sabe. É uma onda violenta e entrar na hora errada... é pedir para rasgar dinheiro."
Para as criptos, tentando formular uma teoria, eu acho que um critério de compra plausível é o teste do tempo. Outro critério plausível seria a reputação. Vejam que isso tudo é muito subjetivo.
Se nada é garantido nos investimentos, no mundo das criptos isso é ainda mais verdade. E acho que por um bom tempo irá pairar sobre elas algum risco de criminalização ou de outro tipo de interferência estatal (vide o processo que a SEC [a CVM dos EUA] está movendo há alguns anos contra a Ripple).
Enfim, em relação às criptos, eu até quero entrar no mercado, mas com muito critério e cautela. Acho que por enquanto só aportaria algo entre R$100,00 e R$200,00 por mês. Tenho pesquisado exchanges e estudado sobre cold wallets. Se alguém tiver uma recomendação, por favor comente aí.
Dada a dificuldade inerente ao assunto, digo que as criptos merecem futuros posts, no quais irei resumir meus estudos sobre o assunto.
Existem mais coisas que servem como reserva de valor (obras de arte, itens de colecionador, etc.), mas são coisas, a meu ver, muito específicas e que seriam mais difíceis de revender do que os metais preciosos e as criptos, então não vou descrever aqui. Com certeza são bons para quem os entende, mas costumam não ser uma boa ideia para pessoas comuns.
E acima de tudo, uma coisa bem mais importante do que "onde aportar seu dinheiro" : a reserva mais importante do indivíduo, materialmente falando, são as suas habilidades e aprendizados, e também sua cultura. Sendo assim, "aportem seu tempo" estudando, praticando habilidades úteis, lendo a boa literatura, enfim, buscando sempre melhorar como indivíduos.
Pois bem, confrades, estes são os meus pensamentos sobre a Reserva de valor. Qual a opinião de vocês sobre isso?
A parte 3 desta série será sobre ações.
Forte abraço, meus companheiros de trincheira!
Fiquem com Deus!
sexta-feira, 4 de dezembro de 2020
O dinheiro na idade média
Saudações, confrades
Hoje vou escrever bem resumidamente sobre o uso do dinheiro na idade média, conforme descrito pelo historiador Jacques Le Goff, autor de A Idade Média e o Dinheiro (além de vários outros livros sobre a idade média - para quem gosta do assunto, recomendo!), livro que serviu de base para este post. Resolvi escrever este artigo a título de curiosidade, porque gosto do assunto (sou colecionador de moedas e aprecio a arte numismática), e também porque pode servir para enriquecer um pouco a cultura de meus leitores.
Como é um assunto longo e detalhado, ao invés de escrever o post na forma de um texto como normalmente faço, vou colocá-lo na forma de vários tópicos dos assuntos que julguei mais interessantes do livro:
- Durante boa parte da idade média, a riqueza era representada principalmente por terras. Demorou um pouco até que o uso de moedas ressurgisse (com a queda do império romano, as moedas "sumiram" por causa do relativo caos social da época, e por algum tempo após seu "ressurgimento", as pessoas ainda usavam algumas das moedas romanas que haviam sobrado, porque os conhecimentos acerca de cunhagem de moedas não foram aprendidos pela vasta maioria das tribos bárbaras que destruíram o império romano).
- Como a vida era fortemente rural, muitos camponeses podiam passar a vida inteira praticamente sem nem ver moedas, porque viviam pela lavoura, e até os impostos aos senhores feudais eram pagos em víveres. Uma pequena parte que era paga em dinheiro, e mesmo assim não era em todo lugar que isso ocorria.
- Naquela época as moedas eram usadas principalmente pelos comerciantes (por conta da necessidade de transportar riqueza de maneira portátil e cômoda - o escambo é inviável para o comércio em médias e grandes distâncias) e pelos nobres (mas, como eu disse antes, a riqueza vinha principalmente da posse de terras, e também de imóveis).
- O uso do dinheiro foi sendo impulsionado por causa do aumento das populações das cidades, porque nelas seria inconveniente pagar as despesas em víveres, tendo em vista que não havia espaço para todos plantarem. Assim, os habitantes das cidades adquiriam comida, bens e serviços em troca de dinheiro assim como é hoje. Estima-se que cerca de 60 a 70% dos rendimentos dos habitantes da camada mais pobre das cidades eram gastos para comprar comida (principalmente grãos). Outro motivo para o aumento do uso do dinheiro foi o ressurgimento do comércio.
- a oferta monetária era bastante dependente do comércio, principalmente do comércio exterior - como o dinheiro era 100% físico e lastreado em metal precioso (moedas de ouro e de prata), quanto mais exportações para outros países, mais moedas entrariam na economia local. Essa lógica também valia para o comércio interno, de modo que a oferta monetária poderia ser bastante diferente entre duas cidades do mesmo reino, e creio que sua localização influenciava bastante nessa questão (cidades próximas ao mar ou a outros tipos de acesso a rotas comerciais tenderiam a ser mais ricas, por exemplo, porque teriam um comércio bem mais forte)
- além da oferta monetária, o crescimento do comércio também provocava aumento da demanda por moedas. Como o processo de fabricação de moedas era bem mais demorado que hoje em dia (cada moeda era cunhada individualmente, martelando-se uma chapa do metal que formaria a moeda entre 2 "carimbos", um para o verso e outro para o anverso da moeda, e havia vários trabalhadores envolvidos na produção: o moedeiro em si, o cortador de chapas, o cara que fazia as chapas, o fiscal da qualidade das peças produzidas, etc.), também surgiu a necessidade de moedas de maior valor (moedas de ouro ou de prata maiores, com mais metal, etc.) para que fosse conveniente carregar quantias maiores de riqueza na estrada e também para comprar bens mais caros (terras, casas, jóias) com menos moedas, para ser mais prático.
- Como uma coisa puxa a outra, o aumento do uso do dinheiro fez surgir uma necessidade também crescente por moedas de baixo valor, que eram chamadas de "moedas de esmola", "meios- denários", "óbolos" (lembram da parábola d'O óbolo da viúva?) ou "moedas negras" (como eram feitas de cobre, logo ficavam escuras - o cobre oxida em contato com o ar atmosférico) e eram usadas para as pequenas despesas do dia-a-dia (o autor do livro menciona que uma moeda de cobre era o preço de 1 pão em muitas cidades na época) e também para literalmente dar esmolas (o rei São Luís, da França, foi um célebre distribuidor de parisis - o "denário da esmola")
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| um exemplar da moeda "Parisis" - o denário da esmola |
- as moedas recebiam o selo da autoridade local. O selo era uma prova de que a moeda era verdadeira e que seu teor de metal precioso era o definido em lei, e por isso uma moeda teria um valor intrínseco superior ao valor do metal precioso nela contido (até porque a oficina moedeira tinha que ter lucro, e no caso do rei era daí que vinha a "senhoriagem", que era a diferença entre o valor de face da moeda e o valor do metal nela contido - esta diferença é até hoje uma das fontes de receita pública)
- Nem sempre o rei tinha o monopólio da emissão de moedas - às vezes essa autorização era vendida para oficinas particulares, ou era delegada a nobres, de modo que cada condado/ducado/feudo/cantão poderia ter sua própria moeda em algumas nações europeias - isso por um lado dificultava um pouco o comércio entre nações, por conta da variação cambial (provavelmente o câmbio devia ser 100% baseado no peso das moedas, mas o teor de metal precioso devia variar bastante entre as moedas de cada local, de modo que podia haver distorções caso o comerciante não conhecesse o da moeda que estivesse avaliando na hora. - talvez houvesse moedas que não eram bem aceitas em determinados locais, por exemplo)
- além das moedas, também eram usados como forma de pagamento lingotes de metais preciosos (principalmente de prata). Tais lingotes também recebiam selos de autoridades que atestavam seu teor de pureza.
- Obviamente, falsificações já existiam, e além das moedas falsas, as pessoas encontravam outros jeitinhos de burlar a lei: cortavam ou limavam as bordas das moedas para ir juntando os pedaços e eventualmente derrete-los e usar o metal para fabricar outras moedas ou lingotes; ou juntar todas as moedas em um saquinho e ficar agitando o saco para que o atrito entre uma moeda e outra funcionasse como uma lima, acumulando o pozinho de ouro ou prata no fundo do saco até que valesse a pena derreter o pó acumulado e transformá-lo em um lingote ou em outra moeda. Essas malandragens explicam ao menos em parte o porquê da maioria das moedas medievais que sobreviveram até os dias de hoje estarem tão danificadas. Aliás, é por causa deste golpe de limar ou cortar as bordas das moedas que até hoje elas têm bordas serrilhadas ou com alguma marca, mesmo que não sejam mais de ouro ou prata.
A título de curiosidade, a última moeda de prata que circulou no Brasil foi a de 5.000 réis, de 1936, que tinha o rosto de Santos Dumont no verso e uma asa aberta no anverso. Ou seja, historicamente falando, não faz tanto tempo assim que deixamos de usar moedas de verdade - moedas de metais preciosos.
E vocês, caros leitores, o que acham do assunto? Gostam de Numismática? Gostam de História? Eu gosto de estudar estes detalhes da vida cotidiana da humanidade de outros tempos. Ajuda a entender algumas coisas de hoje em dia, além de nos dar perspectiva do longo caminho percorrido para chegarmos até aqui.
Se souberem de alguma outra curiosidade sobre o dinheiro na idade média, comentem aí!
Forte abraço, fiquem com Deus!
domingo, 8 de setembro de 2019
As loucuras do mundo moderno (3) - o lado sombrio da tecnologia
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| Essa imagem sempre me faz lembrar do mito da caverna... |
Uma chance que a humanidade tem contra esta ameaça é a criação de "N" moedas virtuais independentes, com servidores diferentes, códigos diferentes, etc., sendo necessário a cada pessoa diversificar nestas moedas, para não correr o risco de ter todo o seu dinheiro deletado ou bloqueado, além da boa e velha diversificação em ouro físico e outros metais preciosos.
O pior cenário possível numa realidade sem dinheiro físico seria o caso de uma única moeda virtual de curso forçado - o que significaria controle total sobre a parte financeira da sua vida, controle este que poderia facilmente se derramar por outras áreas.
- Softwares de reconhecimento facial : já estão em uso na China, e sei lá onde mais. É vendida a ideia de que são necessários para manter as pessoas seguras, porque localizam criminosos bem rápido (assim como o desarmamento da população civil, que também é vendido com a ideia de "proteger o povo", mas a história já mostrou que na verdade é um "benefício" vendido para nos prejudicar no futuro). O problema é que depois que tais sistemas são implantados e aperfeiçoados, eles se mostram ferramentas muito convenientes para ditadores ou governos totalitários, e passam a ser usadas para localizar opositores e demais pessoas que representem perigo para o "Partido". 1984 realmente foi um aviso. O negócio é tão sério que em Hong Kong o pessoal está derrubando postes com câmeras. Não é brincadeira! Estes manifestantes de Hong Kong estão sacrificando suas vidas em prol da liberdade.
(link do vídeo)
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| O pessoal protestando em Hong Kong estava derrubando torres com câmeras, e usavam guarda-chuvas para não serem identificados pelos softwares de reconhecimento facial. |
Eu escrevi este artigo com um tom pessimista e de alerta porque enxergo muitas coisas ruins no mundo atual, e várias vezes elas parecem se sobrepor às boas. Agora também queria deixar aqui uma mensagem mais positiva, pois é fundamentalmente necessário que haja muito mais espaço para o otimismo em nossos corações: não foi dito que "a noite é mais escura logo antes do amanhecer"? Nos resta saber se a noite já está escura o suficiente... Mas de qualquer maneira, esperemos os raios da aurora do novo dia, porque o novo dia virá. Como tudo o que acontece só o acontece pela vontade de Deus, então pode ser que em seu afã para controlar as massas e manter seus privilégios e fortunas, as pessoas mal intencionadas por trás das tecnologias supracitadas estejam, sem o saber, pavimentando o caminho para o reino de Deus na Terra. Acredito que estes movimentos e "mecanismos" divinos, em curso ao longo de toda a história, cuja total compreensão está além do alcance da mente de qualquer ser humano, são captados, de forma sutil, pelas mentes mais criativas, especialmente no ramo das artes em geral, especialmente na literatura.*
Para citar um exemplo: há décadas, J.R.R. Tolkien, devido à sua grande cultura e estudos em diversas áreas do saber, especialmente no campo teológico, percebeu um pouco destes mecanismos, e os incluiu nesta passagem fenomenal de sua obra, a qual aliás é uma excelente metáfora para a criação do mundo (os colchetes são meus):
"Então falou Ilúvatar [Deus] e disse: - Poderosos são os Ainur [os anjos], e o mais poderoso dentre eles é Melkor [o diabo]; mas, para que ele saiba, e saibam todos os Ainur, que eu sou Ilúvatar, essas melodias que vocês entoaram, irei mostrá-las para que vejam o que fizeram. E tu, Melkor, verás que nenhum tema pode ser tocado sem ter em mim sua fonte mais remota, nem ninguém pode alterar a música contra a minha vontade. E aquele que tentar, provará ser senão meu instrumento na invenção de coisas ainda mais fantásticas, que ele próprio nunca imaginou." - O Silmarillion, 1977
* Obviamente me refiro às verdadeiras artes, e à verdadeira literatura, e não ao que hoje convencionou-se chamar de arte e literatura.
terça-feira, 9 de julho de 2019
Mais sobre o padrão-ouro: os mecanismos da Deflação
Retomando o assunto do padrão ouro, do qual sou entusiasta, como já disse.

Vamos explorar um pouco mais a questão da diminuição dos preços da economia (deflação), a qual seria uma consequência bastante provável no caso da adoção de um padrão ouro no país.
(Cabe ressaltar que a probabilidade de deflação aumentaria ainda mais com a eventual abolição do salário mínimo (ou seja, se deixássemos o mercado ditar o "salário mínimo", e não uma lei) - esta questão abordarei em outro artigo).
Pode ser que com uma eventual volta do padrão ouro, talvez ocorresse uma "febre do ouro", aumentando o ritmo das atividades de mineração, por exemplo, expandindo a oferta. Tal aumento da oferta do metal, se chegasse a se tornar excessivo, faria seu preço diminuir de modo a tornar proibitivo o custo de mineração, desestimulando novos aumentos da oferta, reestabilizando o preço e suavizando a curva de evolução da oferta de ouro para patamares mais, digamos, aceitáveis.
A possibilidade de deflação se encontra na razão entre a variação da oferta de ouro (que seria igual à oferta monetária desta nova economia) e a taxa de crescimento da economia. Se a oferta de ouro crescesse no mesmo ritmo que a economia, os preços se manteriam bastante estáveis (e a economia provavelmente estaria crescendo bem devagar). Se a oferta de ouro crescesse num ritmo mais lento que a economia (o que é de se esperar, dado que, até onde sabemos, o ouro é um metal raro), os preços em geral tenderiam a diminuir, porque com o crescimento da oferta de bens e serviços, o ouro se tornaria relativamente mais escasso frente à produção total da economia. Em outras palavras, a mesma quantidade de ouro compraria um número maior de bens e serviços, porque estes estão se tornando mais abundantes mais rapidamente do que aquele. Vejam que "ouro" neste texto não deve ser necessariamente entendido em sentido literal: basta que o lastro da moeda seja um bem suficientemente escasso, com oferta inelástica (ou quase inelástica), de uso aceito pela sociedade e que dê confiança. Podem ser diamantes, rubis, prata, platina, ródio, paládio, ou até mesmo uma cesta destes e vários outros bens dotados das características mencionadas e que cumpram as três funções da moeda (unidade de conta, reserva de valor e meio de troca). O ruim é a moeda fiduciária (sem valor intrínseco, ou seja, o valor é mera questão de fé e confiança), que é o caso de praticamente todas (senão todas) as moedas do mundo atual.
| Vejam como o Real está sendo destruído pela inflação. Como isso pode estar certo? |
Conforme disse em meu outro post sobre padrão-ouro, as consequências disso para quem poupa seu dinheiro seriam ótimas: até o dinheiro guardado em casa seria um investimento pois a deflação faria com que ele se valorizasse em relação aos bens cotados em ouro. Sendo assim, até mesmo se você guardasse regularmente uma parte do seu dinheiro "num colchão", sua velhice estaria paga, pois 50 anos depois uma moeda teria seu valor multiplicado pela deflação. Bastaria poupar para ter um bom patrimônio e se aposentar sem ter que pensar em aplicações financeiras complicadas. Cada moeda estaria valendo mais, fora qualquer renda passiva que se conseguisse. Isso dá ensejo a mais um argumento favorável ao padrão-ouro: o incentivo à poupança. Tal incentivo traz como benefício o aumento do estoque de dinheiro disponível para empréstimos, o que torna o custo de tais empréstimos mais barato, ou seja, juros mais baixos. A consequência de juros mais baixos é o aumento dos investimentos (o que em economia tem um significado diferente do mundo das finanças; em "economês" investimento significa compra de capital, ou seja, aquisição de máquinas, equipamentos, fábricas, ferramentas, etc., ou seja, aquisição de bens produtivos com finalidade empreendedora). O aumento dos investimentos, por sua vez, gera mais empregos (mais fábricas significa no mínimo maior demanda por pessoas para vender, transportar, entregar, supervisionar a produção, controlar a qualidade, fazer marketing, etc.) e aumenta a produção, o que por sua vez aumenta a oferta do bem fabricado, o que contribui para reduzir sua escassez e, consequentemente, diminuir seu preço - mais bens para uma quantidade estável de moeda, ou seja, cada unidade monetária adquire uma quantidade cada vez maior de bens. Viram como uma moeda com lastro (ou pelo menos uma moeda de oferta inelástica) pode, ajudar a criar ciclos virtuosos que beneficiam toda a sociedade, sem a necessidade de nenhum plano econômico mirabolante ou produtos financeiros complicados? Uma economia saudável gera preços decrescentes, que contribuem para diminuir o custo de vida, o que por sua vez contribui para aumentar a liberdade econômica dos indivíduos. A deflação, na forma como a descrevi acima, é algo bom e desejável.

Mas, por incrível que pareça, o que é ensinado por aí é bem diferente.
Na minha pós-graduação (que tive que fazer por causa do trabalho, há dois anos...), eu tive uma cadeira de economia, e o professor dizia que a deflação era uma coisa ruim (me parece uma ideia keynesiana, uma vez que nesta teoria a inflação é que é vista como uma coisa boa para a economia... vai entender). A explicação dada por ele era a seguinte: em um cenário deflacionista, a economia desaceleraria com a queda do consumo, porque todo mundo iria esperar os preços diminuírem para consumir. Na minha humilde opinião, tal pensamento é no máximo meio certo. De fato o consumo de alguns produtos supérfluos diminuiria porque algumas pessoas esperariam alguma diminuição do preço para consumir, mas isso não iria zerar o consumo! As pessoas não param de consumir só porque sabem que os preços vão diminuir. Notem que isso já poderia acontecer hoje em dia: todo mundo sabe que o preço do iPhone XR, vai diminuir quando o iPhone 11 for lançado. Segundo o raciocínio de quem acha que a deflação é ruim, ninguém compraria o iPhone XR porque sabe que ano que vem será lançado o iPhone 11. É isso o que observamos na realidade? Claro que não! E estamos falando de bens supérfluos. Algumas pessoas podem até esperar o preço abaixar, mas o consumo estará longe de ser zero. Em relação aos bens normais, principalmente os de primeira necessidade, este argumento contra a deflação se torna ainda mais esdrúxulo. Pensem no arroz. Só porque eu sei que daqui a um mês o arroz vai ficar mais barato, eu vou deixar de comer arroz hoje? Claro que não! Em relação a bens de primeira necessidade, mesmo num cenário de deflação o consumo seria quase inalterado. Não vejo cabimento na teoria de que as pessoas adiariam o consumo de alimentos e remédios para esperar mais uma queda nos preços. O consumo de bens normais continuaria, digamos, normal. Sinceramente, não sei como o professor não pensou em como o argumento que ele usou era fraco. Talvez ele só tenha ouvido na época em que fez a faculdade dele e agora repete, que nem um papagaio.
Sei que hoje em dia uma moeda com lastro parece um sonho distante, principalmente com lastro em metais preciosos, mas sonhar não custa nada... Quem sabe o mundo, um dia, não desperte da ilusão que é o dinheiro fiduciário...
Forte abraço!



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