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quinta-feira, 20 de agosto de 2026

A Inflação também traz problemas morais para a sociedade

    Um costume que me parece ser uma marca de nossa acelerada época é uma estranha obsessão por encontrar uma "causa única", uma "explicação simples" com base em um só fator para qualquer problema, especialmente nas áreas de ciências humanas. É como se hoje em dia as pessoas tivessem "se esquecido" que os fenômenos sociais formam uma imensa teia de eventos correlacionados, que se influenciam uns aos outros, numa cadeia lógica muitas vezes incompreensível à razão humana, da qual muitas vezes conseguimos enxergar somente os elementos mais superficiais.



    Embora eu considere isso uma falha na forma de se pensar as coisas, ao mesmo tempo eu acho interessante, como exercício de pensamento, partir de um só fator ou fenômeno e tentar chegar a conclusões gerais, ou encontrar outros fatores/fenômenos que com ele interajam e influenciem. 

    Dito isto, escreverei sobre o fenômeno da inflação e discutirei algumas de suas implicações para a moral da sociedade. (Óbvio que a inflação não é "A" causa para os problemas aqui descritos, mas certamente contribui para agravá-los)

    Há, por exemplo, pessoas que defendem a idéia de que a diminuição do teor de ouro nas moedas para financiar as campanhas militares foi "A" causa fundamental da queda do Império Romano. Tal diminuição do percentual de ouro nos Aureums e de prata nos Sestércios não teria sido "publicada", "oficializada", nem nada disso, mas feita na surdina, sem o conhecimento do povo, o qual eventualmente percebeu que as moedas não tinham tanto valor quanto antes, estavam mais leves, e aí iniciou-se uma reação em cadeia que culminou na destruição do Império através das invasões bárbaras.

    Eu não sou um grande estudioso da história romana, mas acho essa explicação simplista demais. No entanto, não deixa de ser interessante analisar, olhando a nossa realidade brasileira, os efeitos perniciosos da inflação nos hábitos da sociedade. Vejamos:

(Os exemplos que eu escrevi neste artigo são "anedotas", mas, afinal, o que são "dados" se não uma imensa coleção de "anedotas"?)

O que dizem os livros-texto de economia acerca da inflação? Em sua maioria os livros-texto de economia possuem forte viés keynesiano, ou ao menos assim eram os que eu tive acesso (Ex: Mankiw). Em muitos está escrito que a inflação é uma alta generalizada de preços da economia, a qual leva a uma desvalorização da moeda. Ou subentende-se isso.

E o que dizem as correntes de pensamento econômicos mais voltadas ao libertarianismo a respeito da inflação? Basicamente que a inflação é a desvalorização da moeda, o que acaba acarretando numa alta generalizada de preços. O caminho inverso da explicação "keynesiana".

Uma explicação é um espelho da outra, uma troca a causa pelo efeito da outra. Eu acredito que ambas coexistam, formando uma figura similar a um ouroboros:



Eu acredito que:

1) A emissão de moeda de maneira exagerada pelo governo e pelos bancos comerciais acaba tendo como uma de suas consequências o aumento generalizado dos preços da economia (afinal, considerando que a moeda se comporta como se fosse um bem e a escassez de um bem é um dos fatores determinantes de seu valor, quanto menos escassa for uma moeda, menos valor cada unidade monetária carregará) - essa é a que provoca, nos dias de hoje, a desvalorização direta da moeda e a inflação do ponto de vista mais libertário.


2) A perda de confiança do povo em sua moeda também contribui para a inflação, pois provoca a "Inércia Inflacionária": o povo espera que a moeda desvalorize, então confia menos nela, e essa desconfiança acaba realmente desvalorizando a moeda (uma profecia auto-realizada)


3) Eu não sei se isso é um aspecto da "Inércia Inflacionária", mas eu chamaria este fenômeno que vou descrever a seguir de "Arredondamento da Inflação": Por exemplo, o IBGE/Banco Central divulga que o IPCA foi de 7,5%. O dono do mercadinho e o dono da padaria não vão aumentar os seus preços em 7,5%. Eles vão arredondar logo para 10% porque assim eles "garantem" alguma proteção a mais (se sentem mais seguros) e porque é mais fácil de fazer as contas com números redondos. Eu acredito que a inflação na prática sempre é arredondada para cima. 


4) De certa forma um aspecto do fenômeno do Arredondamento da Inflação: a desconfiança do povo nas informações emitidas por instituições oficiais também pode aumentar a inflação. Todo mundo tem uma idéia geral de que "Inflação = Ruim", e todo mundo tem uma noção de que "Inflação = Ruim = Imagem negativa para os políticos do momento", então há uma idéia de certa forma difundida que "Números oficiais são mais baixos do que a realidade para não manchar a imagem do partido que ocupa os cargos no momento", então quando é anunciado que o IPCA foi de 12%, muitos vão pensar que na verdade foi 15%, então vão aumentar seus preços em 15% ou próximo disso. E isso desvaloriza a moeda, também no ponto de vista keynesiano (alta dos preços que faz a moeda comprar menos)


E Outras coisas que contribuem para o aumento generalizado dos preços em um país, mas não diretamente para a desvalorização da moeda:

A) Os chamados "Custos de Menu" que seriam os custos relativos à própria atualização dos preços em si. O exemplo clássico é o restaurante que incorre em custos extras para ficar atualizando os preços do cardápio, daí o nome do termo, mas aqui entram também todos os custos inerentes a isso, como os custos extras que se têm com o planejamento orçamentário, custos de trocas de fornecedores, gastos com contadores, com equipe de marketing (para "suavizar" com propagandas o aumento do preço - tipo esses chocolates que diminuem de tamanho e colocam isso na embalagem como se fosse uma conquista - "novo tamanho!" ou "nova fórmula!"), os próprios custos de desenvolvimento e troca de embalagens, etc. - todos estes gastos extras aumentam os preços e contribuem para a noção keynesiana de inflação.

B) Problemas gerais com a oferta agregada (infraestrutura ruim, safras ruins, interrupções de cadeias de suprimentos, guerras, crises bancárias, etc.) também provocam altas generalizadas nos preços, o que, forçando a barra, indiretamente contribui para a desvalorização da moeda (no sentido de que uma unidade monetária compra cada vez menos bens), principalmente se tais problemas persistirem, tendo em vista que a "inércia" é um componente importante da inflação  (se o povo de um país perde a confiança em sua moeda, isso inicia uma verdadeira bola de neve inflacionária, e mesmo que os problemas com a oferta sejam resolvidos, a falta de confiança permanecerá, ao menos por um tempo). 

C) Altas cargas tributárias contribuem para o aumento generalizado dos preços e indiretamente contribuem para a inflação, na medida em que desencorajam investimentos produtivos.

D) Taxas de juros altas também provocam o efeito das cargas tributárias altas: se consigo facilmente ganhar mais dinheiro aplicando meu capital com pouco risco em títulos do tesouro, por quê vou me arriscar montando fábricas, abrindo lojas, ou exercendo qualquer outra atividade produtiva? Com isso, produz-se menos, diminui-se a oferta e aumenta-se os preços.


Não é novidade para ninguém que lê sobre economia e finanças que o Real já perdeu muito valor desde sua implantação em 1994 e que em 2024 e 2025 essa perda de valor acelerou bastante, inclusive por conta da deterioração da taxa de câmbio. Cem reais de hoje em dia compram bem menos coisas que cem reais de 1994. Aliás, as notas de cem reais estão bem mais comuns, algumas são sacadas já sujas e com marcas de dobra, sinais claros de que circularam, em contraste com, digamos, 20 anos atrás,  em que eram bem mais raras e estavam sempre limpas. Só não estão mais comuns ainda por causa do uso generalizado do pix.

Além disso, não devemos nos esquecer que o dinheiro é uma abstração e que funciona como uma "bateria de tempo", armazenando nosso tempo gasto trabalhando para que possamos utilizá-lo mais tarde - isso é a "Reserva de Valor", uma das três funções da moeda.

Assim, a desvalorização da moeda implica, então,  numa desvalorização de nosso tempo e de nosso próprio trabalho, e isso traz consequências psicológicas para todos nós,  ainda que a nível inconsciente ou subconsciente. 

Os economistas dizem que os preços funcionam como sinais que indicam o que deve ser produzido, o quanto, e aonde. Então em um cenário de inflação é como se todos nós estivéssemos o tempo todo recebendo uma mensagem: "você vai trabalhar a mesma coisa, ou mais, e vai receber cada vez menos em troca do seu trabalho". Os mais prejudicados nesse processo são os assalariados, que não conseguem ajustar o preço de sua mão-de-obra: dependem do empregador lhes conceder aumentos ou de encontrarem outro emprego que lhes pague melhor, o que no Brasil é muito difícil, dado que temos poucas empresas grandes (só temos 4 ou 5 bancos grandes, só 1 siderúrgica, só umas 2 ou 3 petroleiras, etc. enquanto que nos EUA há literalmente milhares de empresas de grande porte e capazes de pagar bons salários). 

As pessoas de mente mais fraca e de pouca evolução moral se sentem mais tentadas a cometer crimes, tendo em vista que o trabalho honesto não está rendendo tão bem quanto deveria, e a violência aumenta (assaltos, sequestros, roubos, etc.). 

Os Bens Reais, principalmente aqueles atrelados a commodities, e as próprias commodities em si, tendem a manter seu valor real, ceteris paribus, com seus preços se ajustando à inflação - vemos isso nos metais, por exemplo. E por isso aumenta o número de roubos de portas de alumínio, tampas de bueiro (geralmente feitas de ferro fundido), fios elétricos (que são feitos de cobre), etc. 

Eu já testemunhei, à luz do dia, com carros e pessoas passando em volta, um bandido arrancando os fios de um poste, mais de uma vez, e não duvido que vários leitores daqui do blog já tenham presenciado algo assim! Na minha rua já roubaram várias vezes os fios (subterrâneos!) do sinal de trânsito. Também já vi alguns bueiros sem tampa nos caminhos que faço para chegar ao trabalho, e já roubaram, de madrugada, a porta de alumínio que protegia o hidrômetro da casa de meu pai. 

Esses são só alguns exemplos, e tenho certeza de que vocês têm outros parecidos.

Roubo de cabos de cobre dos carregadores de carros Tesla, na Baía de São Francisco, nos EUA. Esse fenômeno é global, não é exclusivo do Brasil!


Há também um nível mais sutil de roubo (para alguns pode não ser roubo, mas para mim não deixa de ser moralmente reprovável) e que é praticado pelas empresas: a diminuição da qualidade dos insumos de produção (moralmente reprovável, dependendo das circunstâncias) e, em alguns casos (aí sim um roubo, inegavelmente), a falsificação dos materiais utilizados. Isso acontece bastante na indústria alimentícia em geral, tanto em restaurantes quanto nos supermercados. Um exemplo que está chamando atenção do pessoal é o chocolate: cada vez menos cacau e leite, cada vez mais "manteiga de cacau" e "soro de leite" e gordura hidrogenada (hoje nós só temos biscoitos "Sabor Chocolate"). 

Assim como os chocolates, os lanches dos fast-food e dos restaurantes como um todo vem diminuindo ano após ano, e seus ingredientes pioraram. 

A cerveja está cada vez mais aguada, com menos cevada e mais "milho", e por aí vai. Logo logo haverá a "bebida alcoólica sabor cerveja".

Para mim o pior caso de falsificação de materiais é o da fiação elétrica: alguns cabos de cobre são falsificados pelos fabricantes e passam a ter altos teores de alumínio,  isso quando não são vendidos fios de alumínio como se de cobre fossem (só com uma cobertura de cobre, ou com o alumínio oculto sob a capa de borracha), e o desempenho dos equipamentos que usam tais cabos não é o  esperado, o que resulta em mais custos de manutenção, fora o risco maior de acidentes. 

Quem me contou essa história de estarem falsificando cabos de cobre foi um técnico que eu chamei uma vez para consertar o ar condicionado da minha casa. Ele disse que tem visto isso em vários equipamentos que ele conserta, e até quando compra fios em lojas de materiais de construção. E eu não duvido que seja verdade. Com o dinheiro desvalorizando, as coisas reais tendem a ficar mais caras, e o cobre não escapa a esta regra.

Outra coisa bizarra é como que os livros-texto de economia em geral "ignoram" o problema da inflação. 

Eu tenho em casa um exemplar da 7ª edição do livro de macroeconomia do Mankiw, e em um capítulo em que ele fala a respeito da inflação ele diz algo do tipo "a inflação não é um problema de verdade porque o salário também aumenta na mesma proporção - não importa se tudo está 10 vezes mais caro porque o salário também aumenta 10 vezes", e eu li esse mesmo argumento em pelo menos outro livro de economia. 

Na minha opinião o argumento ou é burrice ou mau-caratismo. 

Esse raciocínio só seria verdadeiro se o salário aumentasse na mesma proporção que a inflação e na mesma velocidade, o que obviamente não é verdade, pelo menos não aqui no Brasil. 

Talvez em uma hiperinflação (como as da época dos planos Cruzeiro e Cruzado) as empresas dêem reajustes com mais frequência, até porque senão dali  a pouco ninguém estará comprando mais nada e elas também irão se prejudicar. 

Mas em cenários como o nosso atual, de inflação "mediana", com índice oficial entre uns 10% e 15% , não há reajustes salariais proporcionais e, nas raras vezes em que há, eles não são na mesma velocidade da inflação. Vamos perdendo nosso poder de compra a conta-gotas (na verdade, mais rápido do que isso, mas não conheço uma metáfora que ilustre bem a idéia) e nada é feito. 

Quem é autônomo consegue repassar pelo menos um pouco da inflação para seus clientes - quanto mais essencial o seu serviço, ou quanto melhor for sua reputação no mercado, mais o profissional liberal conseguirá repassar a inflação para seus clientes. Por isso que a inflação médica é a maior de todas. Nunca me esquecerei do ano em que meu plano de saúde reajustou 28% de uma só vez e fui forçado a trocar de plano.

Quem é empresário consegue repassar uma parcela maior, a depender da essencialidade / qualidade percebida de seus produtos e serviços. 

E empresas muito grandes conseguem repassar quase tudo por terem uma escala de produção que permite diluir mais seus custos. 

Como sempre, quem sofre mais é o trabalhador comum, cujo salário raramente é reajustado. Algumas empresas nem quinquênio pagam.

E aos poucos o trabalhador vai sendo empurrado para a pobreza, sendo obrigado primeiro a cortar supérfluos (se tiver) até que se chega no modo "sobrevivência". 

E não é um problema apenas estatal - a mentalidade média de nosso empresariado também é parte do nosso problema. Eu nunca vi um produto diminuir realmente de preço (Exceto as variações sazonais de frutas, legumes e vegetais). 

Por exemplo, eu duvido que, se o governo isentasse os chocolates de ICMS e outros tributos, o preço cairia para os patamares de 5 anos atrás ou que a qualidade fosse melhorar. 

Pela minha experiência, o preço e a qualidade se manteriam iguais ao de hoje, e os diretores das empresas que fabricam/importam chocolate iam ganhar bônus maiores no fim do ano. Isso porque aqui não existe concorrência, só existem oligopólios praticamente, e os oligarcas sabem que o público já se acostumou a pagar 15 reais numa barra sebosa de gordura hidrogenada com aroma de cacau, então eles não sentem necessidade de diminuir o preço.

E também é necessário dizer: a realidade de "trabalhar mais para receber cada vez menos" provocada pela inflação também provoca o efeito pernicioso do trabalhador fazer corpo mole e não trabalhar com o devido zelo. Ele não tem incentivo para trabalhar mais, pois percebe ano após ano, mês após mês, que sua recompensa só diminui. Eu vejo nisso uma difícil questão moral: eu sei que não é certo um empresário exigir dedicação total de um funcionário que trabalha de segunda a sábado das 8h às 18h em troca de R$ 1.500,00 por mês (realidade de muitos brasileiros infelizmente), mas também sei que há empregados que não fazem por onde e são mesmo indolentes, insolentes, etc. e a "sensação" de pobreza (entre aspas porque é bastante real) que a inflação traz só piora a indolência de quem já seria indolente de qualquer jeito, e torna indolentes outros que em outra realidade seriam bons trabalhadores.

Toda a sociedade perde com a inflação, e não entendo porque em praticamente todos os países (pelo menos os ocidentais, mas não tenho certeza) existe uma "meta de inflação" maior do que zero, quando deveria ser zero ou até mesmo negativa (deflação).


domingo, 15 de fevereiro de 2026

Os Conflitos entre gerações

Quem é "cronicamente online" sabe que já há alguns anos vem sendo fomentada uma animosidade entre os mais jovens, principalmente os da "geração Z" e "Millenials", contra os "baby boomers". 

Não sei se isso é algo "orgânico" ou se é realmente algo que está sendo fomentado por interesses escusos. 

De qualquer maneira, acho algo bastante interessante de ser observado.

Comentarei a respeito neste post.



Primeiramente: "baby boomer" é  o nome que recebeu a geração que nasceu nos anos 40 e 50, época em que os soldados que lutaram na segunda guerra mundial voltaram para casa e fizeram um monte de filhos - daí o nome "baby boom", que significa literalmente "explosão de bebês". 

O estereótipo da geração "baby boomer"  obviamente são os EUA e a grande questão é que eles, os "boomers", deram sorte de pegar uma época de imensa prosperidade econômica no pós-guerra. 

Uma explicação simplificada para isso é que - acredito eu - na época havia menos  homens (pois muitos haviam morrido na segunda guerra mundial) e com isso "sobravam" mais empregos e os salários tendiam a ser maiores (mas por outro lado, foi também a época em que muito mais mulheres entraram no mercado de trabalho, então não sei se isso "equilibrou" a tendência de subida dos salários, do ponto de vista da quantidade de mão de obra disponível na época)

Além disso, por causa dos esforços de guerra, foi criada uma imensa capacidade industrial para produzir combustível, tanques, carros, aviões, munição, etc. fora toda a infraestrutura logística criada e ampliada para abastecer as tropas nos fronts. Depois da guerra, toda essa capacidade ficou "ociosa" e foi redirecionada para reconstruir a Europa e também para produzir eletrodomésticos, carros civis, remédios, alimentos, etc.  Com isso, a produção aumentou, e com as tecnologias geradas para a guerra aplicadas à indústria e ao comércio a produtividade dos trabalhadores também aumentou. Com isso o preço das coisas ficou bem mais barato e os salários tenderam a subir. Assim, as pessoas podiam consumir mais. Acredito que na Europa tenha ocorrido um efeito semelhante, só que tendo ocorrido muito mais mortes de homens do que nos EUA. 

Então especialmente nos EUA foi período de imensa prosperidade econômica. 

Dizem até mesmo que foi um período de prosperidade sem igual na história, de modo que acredita-se que esta foi a geração mais rica que existiu.

Quais são as outras gerações que foram "nomeadas" pelos acadêmicos? Vejamos as principais:



1) Lost Generation ("geração perdida") - nascidos entre 1880 e 1900. Lutaram na primeira guerra mundial e imagino que muitos tenham se tornado niilistas, sombrios, pessimistas, etc. com o ocorrido. Foi a geração que testemunhou o surgimento dos aviões. Não deve ter mais ninguém vivo dessa geração.  Eu imagino que a primeira guerra deve ter sido algo chocante, mas acho estranho que os historiadores digam tanto dos impactos psicológicos da primeira guerra nessa geração (ao ponto de chamarem-na de geração perdida), tendo em vista que houve guerras horrorosas no mundo moderno antes da primeira guerra (Considerando só a Europa, eu penso muito na Guerra dos 30 anos [ok, ela aconteceu uns 300 anos antes da IGM, então não devia haver muita memória dela] e nas Guerras Napoleônicas [estas mais próximas, tendo ocorrido no início do século XIX, então na época da 1ª GM ainda havia pessoas que conviveram com os veteranos das guerras napoleônicas])



2) Greatest Generation ("a ''melhor'' geração de todas") - os nascidos entre 1900 e 1927, viveram as duas guerras mundiais, muitos lutaram na segunda, e acredito que uns poucos chegaram a lutar nas duas, ainda que como civis (pois os mais velhos dessa geração teriam 14 anos no início da primeira guerra). Viveram a vida adulta durante a Grande Depressão, o que deve ter sido bem difícil principalmente nos EUA, e os Europeus, em massa, ainda tiveram que lutar na segunda guerra mundial e depois viver nas ruínas da Europa durante a reconstrução. Muito sangue inocente derramado nessa época. Fico imaginando por onde eles andam hoje em dia, se já se recuperaram de seus traumas.

(Eu não duvidaria se tivesse sido um representante dessa suposta "melhor geração de todas" quem deu a idéia de colocar esse nome). 

Os poucos representantes dessa geração que ainda estão vivos têm 100 anos ou quase.



3) Silent Generation ("geração silenciosa") - nasceram entre 1928 e 1945, o que significa que eram crianças e cresceram durante a grande depressão e a segunda guerra e não tiveram que lutar (exceto, talvez, como civis, principalmente no caso dos países europeus que foram invadidos, e também chineses e japoneses, fora outros países asiáticos que também sofreram na segunda guerra). Devem ter sofrido o trauma de ver suas  famílias e casas destruídas quando eram crianças e adolescentes (principalmente os europeus) e o trauma do "pai soldado que nunca voltou da guerra". Receberam a alcunha de "silenciosa" porque cresceram com esse trauma e buscaram evitar conflitos e só manter as coisas e ficarem seguros, ou ao menos é o que os historiadores/sociólogos dizem. Ainda há muitos deles entre os vivos, e estão na casa dos 80~90 anos. Novamente, esse é um rótulo que se aplica muito mais aos EUA-Europa e nem tanto ao Brasil, por conta de nossa distância dos teatros de operações e de nossa relativamente baixa participação na 2ªGM.

(Foram tão silenciosos que não encontrei um meme decente sobre eles para ilustrar o post)

4) Baby boomer - os nascidos entre 1946 e 1964, segundo a minha fonte para este artigo. Já explicado acima. Como foram mais numerosos do que as anteriores, eventualmente ganharam maior representação na política, nas empresas, associações e comunidades em geral. Hoje em dia estão na faixa entre 60 e 80 anos.



5) Geração X - Aqui os historiadores/sociólogos/demagogos perderam a criatividade e ao invés de darem um nome, deram uma letra. A geração X é a dos nascidos entre 1965 e 1980, segundo a minha fonte. Também pegaram um bom período de prosperidade econômica, impulsionado por avanços nas áreas de eletrônica, informática e o comecinho da internet. Hoje estão na faixa entre 40 e 60 anos. Foram a primeira geração a serem criados, em sua maioria, com o pai e a mãe trabalhando fora, então se acostumaram a "ficarem sozinhos" desde cedo e também foram a primeira geração a testemunhar muitos divórcios, o que certamente afetou sua psique. Além disso, viveram boa parte da vida com os temores da Guerra Fria (a constante ameaça de que, a qualquer momento, os russos ou os EUA iriam começar uma guerra nuclear que escalaria de tal maneira que destruiria o mundo - esse era o terror, a "black pill" daquela época - notem que embora [teoricamente] ainda haja tantas ou mais armas nucleares do que naquela época, quase não se fala mais nisso. Acho no mínimo curioso). Essa me parece ser uma geração meio sem característica própria, quase como uma geração Baby Boomer só que sem tanta prosperidade econômica. Supervalorizam os anos 80.



6) Geração Y ou "Millenials" - são nascidos entre 1981 e 1996. Pegaram o uso da informática e da internet crescendo exponencialmente, mas ainda tiveram uma infância sem internet (e muitos sem computador, principalmente os mais pobres no Brasil). Hoje em dia estão com entre 30 e 40 anos. Receberam a alcunha de millenials porque cresceram "na virada do milênio", eu acho. Foi uma geração que cresceu com computadores, tinham aula de "informática" na escola. Cresceram nos anos 90, uma época de relativa paz e prosperidade no mundo, e por isso supervalorizam aquela década. 



7) Geração Z ou "Zoomers" - nascidos entre 1997 e 2012. Nasceram num mundo onde a internet já era amplamente usada, mas a maioria não usou smartphone quando criança. Ainda estão entre 20 e 30 anos, muitos ainda na faculdade, e outros começando a trabalhar. Já têm fama de não gostarem de trabalho, não quererem se sujeitarem a abusos em empresas e, no Brasil, têm fama de serem a geração que despreza a CLT. Acredito que sejam conhecidos como "Zoomers" somente na internet. São amplamente criticados por Boomers e pela geração X (que são os grupos que representam hoje a maioria dos cargos de chefia nas empresas) por não quererem trabalhar.



9) Geração Alfa - os nascidos depois de 2012 e até 2024. Ainda são  bebês, crianças ou adolescentes. Pegaram um mundo dominado por smartphones e internet de fácil acesso, e vão crescer em um mundo com "inteligência artificial. Muitos estão usando smartphone desde criança, mas tiveram pelo menos uma parte da vida escolar sem IA, especialmente os que nasceram mais próximos de 2012. Os mais para o final da Geração Alfa provavelmente usarão IA em toda a sua vida escolar, e brincaram com tablets e smartphones desde bebês. Ainda têm o agravante de terem tido parte da infância durante a pandemia e terem passado os anos iniciais de suas vidas vendo os adultos usando máscaras. Será que isso gerará desvios psicológicos? O tempo dirá. Só escaparam disso os nascidos a partir de 2022.

10) Geração Beta - aqui eu acho que os "estudiosos" se apressaram e já deram um nome para uma geração que mal começou. São os nascidos a partir de 2025. Ainda são todos bebês, e (teoricamente) vão crescer já com "inteligência artificial" acoplada nos smartphones e computadores, e com as tecnologias que virão depois (se houver).  Provavelmente passarão a vida escolar inteira usando IA, com todas as consequências positivas e negativas disso. Prevejo que no futuro haverá "tiozões" millenials e zoomers fazendo piadas com a geração Beta, por causa do nome. Pelo menos estes não viveram a pandemia.


Agora, falando sobre o conflito inter-geracional, vou escrever em vários tópicos, porque o assunto é grande demais para escrever um só texto contínuo e coeso. Relembro que todos os tópicos que eu escreverei são decorrentes das minhas observações e da minha experiência pessoal:

- O conflito ocorre (ou é fomentado) principalmente entre Boomers e Zoomers e entre Boomers e Millenials na internet.

- Raramente vejo brigas Millenials versus Zoomers, mas também existe. 

- A "Geração X", pelo que vi, só observa e não se manifesta muito como geração. Veremos como é que vai ser quando os X'ers ocuparem o lugar dos boomers.


- Óbvio que estes rótulos não se aplicam 100% ao Brasil, especialmente o rótulo da "geração baby boomer", pois o pessoal que cresceu no Brasil dos anos 50, 60 e 70 pegou um país muito ferrado economicamente, nem de longe se comparando aos EUA, e desconheço se foi um período de explosão populacional no Brasil à semelhança dos EUA. Talvez a geração brasileira que mais se aproxime da baby-boomer americana seja o pessoal que começou a trabalhar no início do Plano Real, que foi o nosso período de prosperidade econômica (por causa da estabilização da inflação, época em que 1 dólar = 1 real, etc.) que seriam mais a geração X, cronologicamente, mas também muitos da geração Boomer. 

- Outra geração que se deu bem no Brasil, a meu ver, foi a que estava se formando na universidade lá por volta de 2000, 2001 e 2002, que foi uma época em que houve muitos concursos públicos bons e naquela época os concursos eram mais fáceis (baseio minha opinião no nível de dificuldade das questões e também pelo fato de ser uma época em que havia uma certa descrença generalizada na lisura dos concursos, o que reduzia a concorrência - isso era fruto de épocas mais patrimonialistas: nos anos 80 muitos cargos públicos que hoje exigiriam concurso eram de livre nomeação, e conheço pessoas que conseguiram cargos permanentes por terem entrado por indicação de parentes e amigos nos anos 80 e isso ainda era possível até o começo dos anos 90)

- Com base no que escrevi acima, uma outra geração que se deu bem era a que estava em idade para trabalhar nos 80 e conhecia ou era parente de funcionários públicos em cargos de chefia e com isso puderam entrar por indicação em órgãos públicos, em cargos que hoje em dia exigiriam concurso e seriam disputados a tapa por milhares de concurseiros.

- O estereótipo que ronda a internet, para os Boomers, é o seguinte: uma geração egoísta, que surfou a maior prosperidade econômica da história, gerou muitos políticos ruins, está se recusando a "largar o osso" na política e nas empresas (muitos políticos da alta cúpula, praticamente todos, são boomers, e o mesmo vale para muitos CEOs, CFOs, etc. das maiores empresas) e têm a má-fama de estarem queimando a riqueza que acumularam ao invés de passarem para seus filhos. 

- Um exemplo disso: recentemente houve uma polêmica envolvendo um discurso do Trump, no qual o mesmo disse que poderia criar mecanismos legais para reduzir o preço das casas, mas que não faria isso para não prejudicar a riqueza dos donos de imóveis. Esta fala incomodou muito os Millenials e os Zoomers, que estão se sentindo excluídos do mercado imobiliário americano por conta dos altos preços dos imóveis.

- No Brasil, essa crise imobiliária também está afetando as esperanças do pessoal millenial e zoomer. É fato que está cada vez mais difícil comprar um imóvel no Brasil. Pela minha experiência pessoal, os preços quadruplicaram lá por volta de 2010, 2011 - algum ano desses (sei disso porque na certidão de RGI do meu imóvel eu vi que o proprietário anterior o comprou em 2008 por um preço 4 ou 5 vezes menor do que eu paguei em 2015, e ainda reclamou do atraso da liberação do valor da entrada, dizendo na minha cara que eu "ainda fiquei com os juros da entrada" só porque a transferência atrasou uns 2 ou 3 dias por conta de burocracias do banco)

- Eu me lembro de um colega de trabalho comentando uma vez (lá por volta de 2016, eu acho - eu lembro do ano por causa do emprego em que eu estava na  época) que "imóveis caros são sinal de prosperidade econômica", mas discordo totalmente dele. Acho que um país realmente próspero é aquele em que as famílias não precisam se preocupar com isso, pois ter um imóvel seria algo trivial. Infelizmente, parece que muita gente acha que imóvel caro é uma coisa necessariamente boa, mesmo que haja milhões de pessoas incapazes de terem o seu.

- Além da crise imobiliária, outra coisa que instiga discussões na internet é a aposentadoria. Lá fora, os millenials e zoomers também estão chateados com a expectativa de trabalharem para bancar a previdência dos boomers ao mesmo tempo que têm um prognóstico de não poderem se aposentar, ou se aposentarem sem benefícios ou só com benefícios ruins.

- Essa discussão da previdência também chegou no Brasil. Imagino que no nosso caso, se ainda existir um INSS, ou nós nos aposentaremos só com 80 ou 90 anos, ou então vão manter a idade mais  ou menos parecida com a que é hoje, mas o pagamento vai ser 1 salário mínimo para todo mundo, mesmo que você tenha contribuído para ganhar o teto. Ou então quem ganhar mais que 1 salário mínimo vai ter um desconto para compensar o rombo e com isso vai ganhar 1 salário mínimo líquido.

- Outra discussão que está pegando fogo lá fora já há alguns anos é a questão dos empregos que foram exportados (principalmente para a China) por conta da globalização. Os EUA e a Europa deixaram de ter muitos empregos industriais e os exportaram para o terceiro mundo, com as empresas deslocando fábricas para outros países e se transformando em uma "economia de serviços" e inventaram a "agenda verde" para justificar isso. Sob esse ponto de vista, eu enxergo a globalização como um erro, pois além do desemprego, da precariedade da "economia de serviços" (e agora da "gig economy"), isso cria uma dependência grande demais desses países para com aqueles onde as fábricas foram instaladas. Estrategicamente, acho que todo país precisa ter uma capacidade industrial e energética para não ficar na mão de outros países. Pelo menos o essencial deve ser produzido em casa. Essa é a minha opinião.

- Acho que aqui essa discussão não chegou tanto porque, primeiro, nunca tivemos tantas indústrias e nem tantos empregos bons como nos EUA dos anos 50 até os anos 80. As poucas empresas boas daqui exportaram fábricas e seus melhores empregos antes mesmo dos brasileiros perceberem que foram passados para trás.

- A Geração X parece que está de fora de todas estas discussões, mas o meme acima é bastante real pelo que pude observar em minhas leituras e pesquisas para este post: o pecado dessa geração é o orgulho.

- Vejo que a "mentalidade boomer" é algo bastante real: faz uns 2 ou 3 anos, lembro de  um pessoal mais velho no trabalho  discutindo os planos para quando se aposentarem, e todos da conversa disseram que iriam gastar 100% do valor acumulado na previdência e não deixariam nada para seus filhos, e até falavam isso de uma maneira um tanto esnobe. Claro que cada um faz o que quer com seu dinheiro, mas eu penso em deixar alguma coisa para os meus, e pretendo ensinar coisas e dar o máximo de vantagens possível para os meus filhos, se Deus quiser. Acho inconcebível essa história de "eles que se virem". Óbvio que eles precisam aprender a se virar, mas daí para gastar o patrimônio e não deixar nada, aí já acho demais. 


- Lembro-me também de uma professora na faculdade que volta e meia criticava a minha turma, dizendo que nós só pensávamos em dinheiro e "em ficar milionários rápido". Havia outras reclamações dela que eram parecidas com esta, mas não lembro agora.

- Não sei se é uma "marca geracional", mas eu tenho um pensamento um tanto "mercenário" quanto ao trabalho: eu me desiludi quanto a coisas como "me realizar" ou "fazer o que gosto" e busco somente um trabalho com o maior pagamento possível e que não me submeta a um estresse maior do que eu posso aguentar, sem idealismos, sem "missão de vida", sem "meu chamado", sem nada disso. 

- Óbvio que tudo o que se escreve como "características" das gerações são meramente "estereótipos", meras "generalizações", e não representam a totalidade dos membros de suas respectivas gerações. Então, por exemplo, há boomers que vão sim deixar heranças para os filhos, há X'ers que não são orgulhosos nem autocentrados e nem apáticos, há millenials que não são "snow flakes" e que sabem que não serão diretores no primeiro ano na empresa, e há zoomers que gostam de trabalhar mesmo na CLT.


É isso, confraria. Se eu me lembrar de outra experiência minha, ou de outro aspecto interessante desse conflito intergeracional, vou atualizar o post.

Vocês têm alguma história para contar sobre isso? Algum leitor meu é boomer? Algum é da geração Z? 


Forte Abraço!
Fiquem com Deus!

sexta-feira, 4 de dezembro de 2020

O dinheiro na idade média

 Saudações,  confrades 

        Hoje vou escrever bem resumidamente sobre o uso do dinheiro na idade média, conforme descrito pelo historiador Jacques Le Goff, autor de A Idade Média e o Dinheiro (além de vários outros livros sobre a idade média - para quem gosta do assunto, recomendo!), livro que serviu de base para este post. Resolvi escrever este artigo a título de curiosidade, porque gosto do assunto (sou colecionador de moedas e aprecio a arte numismática), e também  porque pode servir para enriquecer um pouco a cultura de meus leitores.

   



    Como é um assunto longo e detalhado, ao invés de escrever o post na forma de um texto como normalmente faço, vou colocá-lo na forma de vários tópicos dos assuntos que julguei mais interessantes do livro:

- Durante boa parte da idade média, a riqueza era representada principalmente por terras. Demorou um pouco até que o uso de moedas ressurgisse (com a queda do império romano, as moedas  "sumiram" por causa do relativo caos social da época, e por algum tempo após seu "ressurgimento", as pessoas ainda usavam algumas das moedas romanas que haviam sobrado, porque os conhecimentos acerca de cunhagem de moedas não foram aprendidos pela vasta maioria das tribos bárbaras que destruíram o império romano). 

- Como a vida era fortemente rural, muitos camponeses podiam passar a vida inteira praticamente sem nem ver moedas, porque viviam pela lavoura, e até os impostos aos senhores feudais eram pagos em víveres. Uma pequena parte que era paga em dinheiro, e mesmo assim não era em todo lugar que isso ocorria.

- Naquela época as moedas eram usadas principalmente pelos comerciantes (por conta da necessidade de transportar riqueza de maneira portátil e cômoda - o escambo é inviável para o comércio em médias e  grandes distâncias) e pelos nobres (mas, como eu disse antes, a riqueza vinha principalmente da posse de terras, e também de imóveis). 

- O uso do dinheiro foi sendo impulsionado por causa do aumento das populações das cidades, porque nelas seria inconveniente pagar as despesas em víveres, tendo em vista que não havia espaço para todos plantarem.  Assim, os habitantes das cidades adquiriam comida, bens e serviços em troca de dinheiro assim como é hoje. Estima-se que cerca de 60 a 70% dos rendimentos dos habitantes da camada mais pobre das cidades eram gastos para comprar comida (principalmente grãos). Outro motivo para o aumento do uso do dinheiro foi o ressurgimento do comércio.

- a oferta monetária era bastante dependente do comércio, principalmente do comércio exterior - como o dinheiro era 100% físico e lastreado em metal precioso (moedas de ouro e de prata), quanto mais exportações para outros países, mais moedas entrariam na economia local. Essa lógica também valia para o comércio interno, de modo que a oferta monetária poderia ser bastante diferente entre duas cidades do mesmo reino, e creio que sua localização influenciava bastante nessa questão (cidades próximas ao mar ou a outros tipos de acesso a rotas comerciais tenderiam a ser mais ricas, por exemplo, porque teriam um comércio bem mais forte)



- além da oferta monetária, o crescimento do comércio também provocava aumento da demanda por moedas. Como o processo de fabricação de moedas era bem mais demorado que hoje em dia (cada moeda era cunhada individualmente, martelando-se uma chapa do metal que formaria a moeda entre 2 "carimbos", um para o verso e outro para o anverso da moeda, e havia vários trabalhadores envolvidos na produção: o moedeiro em si, o cortador de chapas, o cara que fazia as chapas, o fiscal da qualidade das peças produzidas, etc.),  também surgiu a necessidade de moedas de maior valor  (moedas de ouro ou de prata maiores, com mais metal, etc.) para que fosse conveniente carregar quantias maiores de riqueza na estrada e também para comprar bens mais caros (terras, casas, jóias) com menos moedas, para ser mais prático.

Era assim que as moedas eram feitas, uma por uma, marteladas entre 2 carimbos de bronze ou ferro e posteriormente de aço. Não existia uma "padronização"  das moedas da forma como entendemos hoje, então havia uma margem bem ampla de erros  tolerados na fabricação de moedas. É por isso que as moedas medievais que ainda existem são tão diferentes uma da outra, mesmo sendo do mesmo país e da mesma época. Esse processo de fabricação só era possível porque ouro, prata e cobre são metais bem macios.

- Como uma coisa puxa a outra, o aumento do uso do dinheiro fez surgir uma necessidade também crescente por moedas de baixo valor, que eram chamadas de "moedas de esmola", "meios- denários", "óbolos" (lembram da parábola d'O óbolo da viúva?) ou "moedas negras" (como eram feitas de cobre, logo ficavam escuras - o cobre oxida em contato com o ar atmosférico) e eram usadas para as pequenas despesas do dia-a-dia (o autor do livro menciona que uma moeda de cobre era o preço de 1 pão em muitas cidades na época) e também para literalmente dar esmolas (o rei São Luís, da França, foi um célebre distribuidor de parisis - o "denário da esmola")


um exemplar da moeda "Parisis" - o denário da esmola


- as moedas recebiam o selo da autoridade local. O selo era uma prova de que a moeda era verdadeira e que seu teor de metal precioso era o definido em lei, e por isso uma moeda teria um valor intrínseco superior ao valor do metal precioso nela contido (até porque a oficina moedeira tinha que ter lucro, e no caso do rei era daí que vinha a "senhoriagem", que era a diferença entre o valor de face da moeda e o valor do metal nela contido - esta diferença é até hoje uma das fontes de receita pública)

- Nem sempre o rei tinha o monopólio da emissão de moedas - às vezes essa autorização era vendida para oficinas particulares, ou era delegada a nobres, de modo que cada condado/ducado/feudo/cantão poderia ter sua própria moeda em algumas nações europeias - isso por um lado dificultava um pouco o comércio entre nações, por conta da variação cambial (provavelmente o câmbio devia ser 100% baseado no peso das moedas, mas o teor de metal precioso devia variar bastante entre as moedas de cada local, de modo que podia haver distorções caso o comerciante não conhecesse o da moeda que estivesse avaliando na hora. - talvez houvesse moedas que não eram bem aceitas em determinados locais, por exemplo)

- além das moedas, também eram usados como forma de pagamento  lingotes de metais preciosos (principalmente de prata).  Tais lingotes também recebiam selos de autoridades que atestavam seu teor de pureza. 

- Obviamente, falsificações já existiam, e além das moedas falsas, as pessoas encontravam outros jeitinhos de burlar a lei: cortavam ou limavam as bordas das moedas para ir juntando os pedaços e eventualmente derrete-los e usar o metal para fabricar outras moedas ou lingotes; ou juntar todas as moedas em um saquinho e ficar agitando o saco para que o atrito entre uma moeda e outra funcionasse como uma lima, acumulando o pozinho de ouro ou prata no fundo do saco até que valesse a pena derreter o pó acumulado e transformá-lo em um lingote ou em outra moeda. Essas malandragens explicam ao menos em parte o porquê da maioria  das moedas medievais  que sobreviveram até os dias de hoje estarem tão danificadas. Aliás, é por causa deste golpe de limar ou cortar as bordas das moedas que até hoje elas têm bordas serrilhadas ou com alguma marca, mesmo que não sejam mais de ouro ou prata.


A  título de curiosidade, a última moeda de prata que circulou no Brasil foi a de 5.000 réis, de 1936, que tinha o rosto de Santos Dumont no verso e uma asa aberta no anverso. Ou seja, historicamente falando, não faz tanto tempo assim que deixamos de usar moedas de verdade - moedas de metais preciosos.



E vocês, caros leitores, o que acham do assunto? Gostam de Numismática? Gostam de História? Eu gosto de estudar estes detalhes da vida cotidiana da humanidade de outros tempos. Ajuda a entender algumas coisas de hoje em dia, além de nos dar perspectiva do longo caminho percorrido para chegarmos até aqui. 

Se souberem de alguma outra curiosidade sobre o dinheiro na idade média, comentem aí! 

Forte abraço, fiquem com Deus!