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sábado, 10 de dezembro de 2022

Resenha - O Rei dos Dividendos


Saudações, confraria!

Em novembro comprei um exemplar da biografia do Barsi, entitulada "O Rei dos Dividendos", lançada em outubro desse ano, e vou postar aqui uma resenha, com alguns comentários meus e destacando os pontos que achei mais interessantes. 


"O Rei dos Dividendos", escrito pelo Luiz Barsi Filho, um dos mais ricos investidores de nossa Bolsa, é um livro bem fluido e de fácil leitura, não entra em detalhes chatos e nem em minúcias, de modo que o li bem rápido. 

Achei a leitura interessante. O início narra a origem humilde do velho investidor, nascido em uma família pobre em 1939, morando em um cortiço em São Paulo junto de outras famílias imigrantes européias, o início da vida profissional ainda na infância, vendendo uvas passas no cinema...

Depois ele conta como se formou em um curso de técnico de contabilidade e começou a trabalhar. Foi através dos conhecimentos de contabilidade que ele iniciou sua jornada nos investimentos, pois aprendeu a analisar empresas. Posteriormente se formou também em economia. Uma coisa que o favoreceu foi o fato de que quase ninguém tinha estudo naquela época (anos 60). Destaco o seguinte trecho do livro (página 32):

"No final dos anos 50 e início dos 60, mais de 70% dos brasileiros tinham no máximo 3 anos de estudo. Só 1 em cada 100 trabalhadores havia completado o ensino superior. Com meu diploma de técnico contábil eu já era a pessoa que tinha um olho só em terra de cego. Economista e contador formado, então,  nem se fala."

Além de seu emprego, ele também dava aulas de contabilidade e fazia auditorias por fora, para ganhar uma renda extra (ter mais de uma fonte de renda é cada vez mais importante, confrades... vamos buscar!)

Chegou a trabalhar um curto período em uma pequena estatal, com um salário bom para a época, mas largou o emprego (por causa das limitações do serviço público) e passou a se dedicar ao mercado de ações, no início somente com o dinheiro das aulas e das auditorias, e posteriormente (por volta do fim dos anos 60 e do início dos anos 70) com o dinheiro que recebia sendo sócio de uma corretora chamada "Cruzeiro do Sul", uma das 134 corretoras daquela época. Também passou a ser operador de pregão, atuando através de sua corretora.

A sociedade na corretora não durou muito tempo, e a mesma foi vendida em 1971. A partir daí, Barsi foi trabalhar como operador na corretora "Montanarini". Pelo visto, ele e seus sócios tiveram sorte ou foram visionários, pois em 1971 houve um crash no mercado de ações brasileiro que contribuiu para afastar os investidores pessoa física por muitos anos (o livro dá a entender que este crash originou o cliché de chamarem a bolsa de "cassino" por aqui - talvez esta tenha sido a expressão empregada pelos jornais da época, ou pelas pessoas que talvez tenham sido entrevistadas. E até hoje há quem compare as bolsas de valores em geral a cassinos ou coisas similares. E certamente esse crash foi um dos fatores motivadores para a publicação da Lei das S.A. em 1976)

Com sua crescente fama nos pregões, ele eventualmente foi convidado para escrever no jornal "Diário Popular", onde trabalhou como editor e colunista por 17 anos.

Após o crash de 1971, ele continuou trabalhando como corretor, e já vislumbrava a inviabilidade de se aposentar pelo INSS (na época, INPS). Destaco o seguinte trecho (páginas 73 e 74):

"Talvez eu tenha enxergado algo que era difícil perceber naquele momento (...) Os sinais já estavam no horizonte. As mulheres ensaiavam sua entrada no mercado de trabalho, o número de filhos por família começava a diminuir, avanços na medicina e nas condições de saneamento favoreciam a longevidade e, bem,  já era possível suspeitar que em algum momento no futuro não haveria gente suficiente trabalhando para manter os aposentados. Vale lembrar que nossa previdência é estruturada de tal modo que quem trabalha sustenta os que já se aposentaram".

Foi com base nestas ideias que ele resolveu montar sua "carteira previdenciária", pois estava convencido que o INSS era insustentável e mesmo que entregasse o que prometia, ele receberia uma aposentadoria medíocre. 

Resolveu então focar ainda mais no recebimento de dividendos, com vistas a montar uma carteira que o sustentasse na velhice. Chegou até mesmo a escrever e publicar uma cartilha (intitulada "Ações garantem o futuro") explicando este raciocínio.

Posteriormente ele conta outras histórias no livro, focando em suas participações na Klabin, Eternit, e Unipar. Nestas empresas ele adquiriu imensa quantidade de ações, na casa das milhões de unidades, para receber muitos dividendos e principalmente para ocupar cadeiras nos conselhos, ter o direito de indicar pessoas de confiança para cargos-chave e, com isso, influenciar o andamento de seus negócios. 


As ideias centrais do Barsi, no que tange às finanças pessoais, pelo que se entende da leitura de sua biografia, são as seguintes: 

    - Comprar ações de boas empresas (com bons projetos e já consolidadas) na maior quantidade possível (para receber muitos dividendos), todo mês. 

    - Não diversificar muito (ele diz no livro que a carteira dele sempre tem algo em torno de 12 ações diferentes, e faz a analogia de serem uma para cada mês do ano, como se ele buscasse garantir que todo mês receberia dividendos) - acho que a ideia dele de não diversificar muito vem do fato de ele gostar de comprar muitas ações da mesma empresa

    - Se possível, tornar-se um acionista minoritário relevante, com participação no conselho da empresa e ser capaz de influenciar os rumos do negócio (mais um motivo para ele não gostar muito de diversificar)


Porém nem tudo o que o Barsi escreveu e falou é aplicável por pessoas comuns:

"começar devagar, comprando 1.000 ações todo mês" - pode ter sido figura de linguagem, mas se ele foi literal, isso não é possível de ser feito pela vasta maioria dos brasileiros que investem na bolsa. Pelo menos no caso de algumas empresas seria necessário aportar muito dinheiro de cada vez: para comprar 1.000 ações da Petrobras custaria, hoje, uns R$ 35.000,0. Para comprar mil ações da Arezzo seria uns R$ 84.000,00. Acho mais provável que ele tenha usado uma figura de linguagem. 

"conversar com os diretores, executivos e CEO das empresas para conhecer o negócio" - para ele é perfeitamente possível, tendo em vista sua fama e fortuna, mas para nós pequenos acionistas isto seria bastante difícil, senão impossível: se às vezes até mesmo os departamentos de Relação com Investidores (RI) nos ignoram na cara de pau, que dirá os CEO, altos executivos, etc.


Para finalizar, algumas frases interessantes que eu pesquei do livro:

"Na hora de adquirir papéis, é importante conhecer o interesse do controlador ou dos controladores de um negócio" - o máximo que podemos desfrutar disso é surfar na onda dos controladores, e neste ponto eu concordo com o Bastter que o melhor jeito é tendo ações ON.

"(...) se eu não pensasse grande, ninguém pensaria por mim"- essa é uma das frases mais interessantes e verdadeiras do livro, na minha opinião. Pelos outros, você sempre será um serviçal, um capacho, um personagem secundário, um figurante, etc. Além de você mesmo e de sua família, ninguém tem interesse que você cresça, se desenvolva, nem melhore.

"Independentemente da moeda (...) a palavra 'milhão' tem um papel relevante no imaginário da nossa sociedade" - enquanto uma moeda não se degenera pela inflação, isto é verdade mesmo. Mas óbvio que se a moeda for estragada, isso perde o sentido (lembrem da nota de 100 trilhões de dólares do Zimbábue)

"Não compro o que não conheço ou não consigo entender" - é aqui que a maioria das pessoas cai nas armadilhas do mercado e da vida de modo geral. E não me refiro somente a ações, criptomoedas, etc. Me refiro também a pessoas entrando de trouxa em pirâmides, negócios escusos, etc.

"Não me canso de falar que o cidadão deve adquirir ações para comprar e guardar. Não deve pensar em si mesmo como um acionista minoritário, mas como um pequeno dono. Um dono não vende a empresa porque os papéis caíram ou porque subiram demais. Ele pensa na perenidade do negócio" - acho que esta é a melhor maneira de um pequeno investidor pessoa física sobreviver na bolsa, tendo a mentalidade de sócio (também defendida pelo Bastter) e ignorando notícias e cotações.


Esta foi a primeira vez que li algo do Luiz Barsi. Nem mesmo nos meus tempos de sardinha abissal (em que eu perdi um dinheiro com a OGX, conforme já relatei aqui no blog) eu sequer havia ouvido falar nesta personalidade de nossa bolsa. 

Embora eu não concorde com todas as ideias defendidas (eu sou a favor da diversificação) e acredite que ele não contou tudo o que ele faz (afinal, se ele contasse os seus "pulos do gato" não seria bilionário) e nem tudo  o que ele fez (me parece haver um gap na história profissional dele, na forma como foi narrada), achei uma leitura interessante. Nota 8/10.

O que acham do Barsi, confrades?


Forte abraço! 

 Fiquem com Deus!

quinta-feira, 27 de janeiro de 2022

Minha história no mercado de ações - parte 2

Saudações, confraria da melhor blogosfera do Brasil! 

Dando continuidade a esta minha pequena série (cuja primeira parte lancei há uns 6 meses...), trago aqui a parte 2 do caminho que percorri no mercado de ações. 

O objetivo desta série é compartilhar meus erros e meus acertos (mas principalmente os erros), para que mais pessoas possam aprender através de minha experiência. Afinal, muitos iniciantes frequentam nossos blogs.

Link para a parte 1 

Como escrevi na parte 1, investir naquele fundo horroroso oferecido pelo meu bancão teve o lado bom de me fazer começar a estudar sobre economia, finanças e mercado financeiro em geral, pois eu não sabia de nada. Eu era pior que uma sardinha abissal - eu era uma sardinha que nem sabia nadar!

Assim, comprei e li muitos livros a respeito do assunto. Eu estava em busca de um livro que servisse como um "manual de instruções do mercado de ações".

Lembro que o primeiro livro que li foi o "A árvore do dinheiro", de uma coleção chamada expomoney. O livro era bom para começar, mas não falava tanto sobre ações e acho que nem falava sobre FIIs (que na época era um mercado bem iniciante ainda). É um livro bem básico, voltado para quem não sabe quase nada sobre finanças. Foi um ponto de partida.


Depois li o famoso livro do Kyiosaki, o "Pai Rico, Pai Pobre", e gostei da simplicidade das lições daquele livro. Li a versão em inglês (na época os pocket books em inglês eram muito baratos na Saraiva) e graças  a isso peguei um bom vocabulário relativo a finanças que me permitiu ler mais coisas ainda em inglês.

Mas no fundo o livro do Kyiosaki também não ensinava realmente a investir em ações. Ele vale por causa do famoso diagrama do fluxo de caixa e pela lição da importância da renda passiva, mas ele foca muito mais no lado empreendedor, e ele tem um jeito de escrever como se estivesse zombando do leitor, pelo menos foi essa a impressão que eu tive quando li (tipo "ah, se você é um empregado você é imbecil e otário, e esperto sou eu e quem compra e revende imóveis seguindo a minha fórmula"). Pelo menos este livro serve para abrir os olhos quanto à importância da renda passiva e sobre a necessidade de entender ao menos um pouco de contabilidade. Por causa disso comprei o "Contabilidade Básica" do José Carlos Marion, para aprender. 



Depois li o (infame) "Os Axiomas de Zurique", que é outro livro que parece zombar do leitor (o narrador o tempo inteiro soa como se fosse um mestre das finanças e quem não segue as lições dele é um otário, ou pelo menos esta foi a impressão que eu tive, lendo a versão em português). Poucas coisas valem a pena neste livro, a maioria dos axiomas são bobagens, ainda mais para quem faz buy and hold (e acho que nem para especuladores e day traders o livro serve). Engraçado que o autor é um jornalista, e não um administrador de fundos ou especulador. Ao que me parece o autor viveu escrevendo livros sobre o mercado financeiro e colunas em jornais e revistas, e não de investimentos.

Li também (acho que em 2011) o "Investindo em Small Caps", o primeiro livro mais "técnico", com um foco mais prático. Esse livro era interessante e penso em lê-lo de novo para refletir com o conhecimento que tenho hoje em dia. 

E foi graças a esse livro que aprendi uma lição importante: não deixe pessoas conhecidas saberem que você investe (e nem sequer pensarem que você investe). Aprendi essa lição porque eu lia esse livro no refeitório da faculdade no intervalo das aulas e na hora do almoço. Um dia um colega de turma me viu lendo, puxou assunto e eu, ingênuo, dei corda, e a conversa culminou com ele me pedindo 5 mil reais emprestados. Não emprestei (era praticamente tudo o que eu tinha juntado de anos de estágio e dando aulas particulares) e ele só falou comigo de novo uns 10 anos depois (mas não pediu mais dinheiro emprestado).


Enfim, eu li estes e outros livros, e eventualmente abri uma conta na corretora do meu bancão e comecei a comprar ações.

A primeira ação que eu comprei foi a mesma que 99% dos brasileiros que investem em ações compram quando começam no mercado: PETR4. Isso foi em 2013.

Na época eu acho que nem tinha um objetivo em mente. Eu no máximo estava juntando dinheiro (na caderneta de poupança) para comprar um imóvel, mas o dinheiro para isso estava bem separado do dinheiro das ações, na minha mente. Eu nem pensava em usar o dinheiro que estava em ações para ajudar a comprar um imóvel.

Mas ao mesmo tempo eu não estava pensando em coisas como IF, TF, etc. Então meio que não era um "buy and hold" de verdade. Talvez eu tivesse uma meta de preço para vender as ações com lucro, mas não lembro. 

A questão aqui é que hoje eu vejo como pode ser perigoso investir em renda variável "só por investir", sem ter um objetivo. 

Se você não tiver um objetivo sólido de longo prazo em mente (comprar imóvel, comprar terreno, alcançar a IF, alcançar a TF, etc), pode acontecer de qualquer coisa virar motivo para você vender. 

Então quem investe sem objetivos de longo prazo tem muita chance de em qualquer queda de centavos ou de poucos reais no preço da ação querer vender tudo. Quem tem objetivos sólidos de longo prazo não está imune a isso, óbvio que não, mas acho que tem mais chance de aguentar quedas do que quem investe sem objetivo.

Depois do meu primeiro aporte, fui comprando ações todo mês (ao menos eu tinha acertado nisso - a mentalidade de aportar todo mês) e minha "diversificadíssima" carteira na época era composta pelas seguintes ações:

PETR4 (porque todo brasileiro que investe em ações investe nessa)


ELET3 (só por causa dos dividendos gordos)


ELET6 (idem)


WHRL4 (porque é a dona da melhor marca de eletrodomésticos do Brasil e tinha bons indicadores patrimoniais)


EMBR3 (porque gosto de aviação e achava que a empresa iria evoluir para se tornar uma das grandes fabricantes de aviões do mundo)

... e agora a pior de todas:

OGXP3 (porque, afinal, como dizia o Rockefeller, o melhor negócio do mundo é uma empresa de petróleo bem administrada, o segundo melhor é uma empresa de petróleo medianamente administrada e o terceiro melhor negócio do mundo é uma petroleira mal administrada... então a OGX estaria enquadrada como o terceiro melhor negócio do mundo, o que para mim estava ótimo)

A minha análise praticamente se limitava a olhar os múltiplos das empresas no site Fundamentus, e a dar uma olhada no gráfico da cotação (para estimar se a ação estava com tendência de alta ou de baixa). 

De vez em quando eu lia as postagens do fórum InfoMoney (acho que nem existe mais) para ver a opinião que as pessoas tinham sobre as ações das empresas que eu ia comprar. 

Acho que foi lá que eu descobri a OGX. 

A minha sorte foi não ter entrado nessa empresa no seu auge (que se não me engano foi por volta dos R$ 27, mas posso estar errado). 

Eu acho que quando eu entrei a ação estava a uns R$ 5,00. Fiz o primeiro aporte na empresa, nem lembro quantas comprei. 

No mês seguinte já devia estar a R$ 3,00. Fiz meu segundo aporte - afinal, todo mundo dizia que a OGX iria bombar. Era difícil não se deixar levar pelo otimismo da época (afinal, o Eike Batista era o novo Barão de Mauá). 

No mês seguinte (salvo engano, junho de 2013), acho que a ação já tinha caído para a casa dos R$ 2,00. Fiz meu último aporte nela. 

Naquela altura do campeonato, as piadas sobre a OGX já tinham chegado na mídia mainstream, e até pessoas que não eram "do mercado" faziam piadas do tipo "você quer o troco em bala ou em ações da OGX?". Eu não aportei mais em OGX, mas também não vendi as ações que tinha. Simplesmente parei de aportar nela, e permaneci com as minhas 2.980 ações OGXP3, que um tempo depois viraram 29 por conta dos agrupamentos, e as vendi só no ano retrasado, para ajudar a quitar meu financiamento imobiliário (devo ter aportado no total uns R$ 5.000 nessa empresa em 2013 e vendi por R$ 400 em 2020) 


Infelizmente, as perdas com a OGX me desanimaram em relação ao mercado de ações como um todo, de modo que eu me afastei dos investimentos desde meados de 2013, e só voltei a me interessar de novo em 2015, quando descobri a blogosfera das finanças. 

Esse capítulo fica para o próximo post desta série.

quarta-feira, 7 de julho de 2021

Os livros do Kiyosaki


Saudações,  confraria!

A maioria dos livros de finanças que são publicados aqui no Brasil, grosso modo, se dividem em basicamente 2 tipos: auto-ajuda financeira e "matemática aplicada para trades" (na minha opinião, uma pseudociência).

Há uma minoria que se salva, mas mesmo assim é difícil encontrar alguma coisa realmente de qualidade, que "te deixe de cabelo em  pé" depois de ler. 

Há  muitos livros que claramente são  escritos só para fins comerciais (em um estilo meio "embrulha e manda", se é que vocês me entendem). Por exemplo, os livros do famoso Robert Kyiosaki. 

O famoso "Pai Rico, Pai Pobre" é na minha opinião um livro muito bom, e costuma ser a primeira redpill financeira de muita gente.  A principal lição do livro(e talvez a única que importe, pelo menos para a realidade brasileira), na opinião deste que vos escreve, é aquele famoso diagrama do fluxo de caixa que ilustra a importância da busca pela renda passiva para sustentar nossos gastos. Isso realmente é algo que ninguém costuma ensinar por aí e que se não nos metemos a estudar finanças podemos passar a vida inteira sem saber (parece óbvio depois que lemos, que nem a resposta de uma charada, mas não é tão simples assim chegar a esta conclusão sozinho...Se fosse, seria muito comum ouvirmos conversas sobre fluxo de caixa, renda passiva, e sabemos que fora da nossa bolha esses assuntos não são nada comuns) 

Kyiosaki, na minha opinião, se tivesse publicado só esse livro, já teria entrado para a história. 

Em relação aos demais livros do Kyiosaki, comprei e li somente o Guia de Investimentos e o Unfair Advantage (acho que em português ele se chama "Educação Financeira" ou "O Poder da Educação Financeira"), mas estes livros não trazem muita coisa de novo em relação ao "Pai Rico, Pai Pobre": acho que no fundo são só repetições do mesmo tema. 

No Unfair Advantage ele tenta nos incitar a comprar prata, pois há várias partes em que ele fala sobre isso, sendo que o principal argumento dele era que "Enquanto o ouro foi entesourado, transformado em moedas e barras e guardado em cofres, a prata foi usada para fazer talheres e outros utensílios, e portanto pode ter se tornado mais rara que o ouro" ou algo assim. 

A princípio, parece fazer sentido, mas tendo em vista a imensa diferença que persiste entre o preço do grama de ouro e da prata, para essa teoria ser verdadeira, o Kiyosaki teria que ter sido o único cara que percebeu isso até hoje, e mesmo após alguns anos de sua publicação, o mercado ainda não percebeu...mas é óbvio que o tempo pode provar que ele estava certo. Por outro lado  acho que ele recomenda a compra de "silver certificates" e não fala muito sobre prata física,  o que na minha opinião não é lá muito efetivo (o certificado de prata provavelmente não valerá de nada num verdadeiro desastre financeiro, a meu ver, pois basta o banco fechar, falir ou simplesmente vir uma lei proibindo o resgate de títulos para que eles não valham nada)

Tem até "anúncios" e "pausas para comerciais" dentro desses dois livros, na cara de pau. A maioria é para divulgar os jogos de tabuleiro que ele criou (cashflow) ou para divulgar outros livros da coleção dele. Isso poderia ser feito em uma seção depois do final do livro, como várias editoras fazem. Mas do jeito que ele fez, jogando assim no meio da leitura, fica bizarro demais.

Teve outro dele que eu li quase todo só folheando numa livraria, por volta de 2013, chamado "Como investir em ouro e metais preciosos" em que 90% do livro é só sobre a história do uso do ouro pela humanidade (interessante) e os 10% finais são sobre o investimento em metais em si, mas quase não fala nada e em diversos pontos ele tem a cara de pau de dizer que "se você quiser investir em ouro, procure um profissional de investimentos para lhe explicar" - ora essa, então qual é a utilidade do livro? Para quê eu vou comprar um livro sobre investimento em ouro se o livro não explica como investir em ouro e ainda me sugere contratar um profissional? Aliás,  esse livro acho que nem é do Robert Kiyosaki, mas usa a "franquia" do nome dele. Muito bizarro uma pessoa emprestar o nome para franqueados...

Um detalhe interessante: ele admite que escrever não é seu forte, e quem já leu algum livro dele em inglês vai perceber isso:  em certos momentos ele escreve que nem uma criança (por exemplo, repete algumas palavras, usa muitos períodos simples, etc). Isso tem um lado bom:  para quem quer aprender vocabulário em inglês relativo a finanças, os livros do Kiyosaki são muito bons, e podem servir como ponte para livros mais avançados. Eu comecei assim, o Rich dad Poor dad foi o primeiro livro sobre o assunto que li em inglês.


Enfim, Kyiosaki é só um exemplo, há vários autores de finanças e negócios que, a meu ver, se encaixam perfeitamente na descrição de "livros escritos somente para fins comerciais". Claro que sempre podemos tirar lições úteis desses livros, e eu entendo que, dependendo do assunto, tem que encher muita linguiça para conseguir produzir um livro. Pode ter sido o caso do Kiyosaki. 

Enfim, não tem muita coisa que se salva nesses livros, poderia ter escrito em umas 5 páginas as lições sobre fluxo de caixa, mas quis escrever vários livros, então deu no que deu. Nunca os li em português... talvez o tradutor consiga salvar os livros em termos de estética.

Quais livros dele vocês já leram, confrades?

Forte abraço!
Fiquem com Deus! 

quarta-feira, 25 de setembro de 2019

Mais sobre ETFs (1) - Resenha do "The little book of Common sense Investing"


Saudações, amigos.

Estou retomando aqui no blog a discussão sobre ETF, porque ainda há coisas que me incomodam sobre o assunto... Uma vez que este blog também me serve como um diário de meus pensamentos econômicos e financeiros, quero deixar aqui registrados e claros os fundamentos da discussão tal qual eu os entendo, e conforme os estudei.
Não acho que possamos simplesmente dispensar qualquer assunto relativo a finanças (e na verdade, a praticamente qualquer área da vida) com a frase "isso é besteira, deixa para lá" ou "tal coisa é lixo, então dane-se": acho importante entendermos os fundamentos por trás das teorias para então, com o julgamento racional, tomarmos nossas próprias decisões, ao invés de seguir cegamente a opinião de fulano ou beltrano.

Esta semana terminei de ler um livro do John Bogle, aquele que já há alguns anos foi recomendado pelo Viver de Renda - "The Little Book of Common Sense Investing" (O pequeno sobre investimentos de senso comum), e vou começar esta série  fazendo aqui uma breve resenha do livro.




Aliás,  não sei se alguém da blogosfera chegou a comentar, mas, infelizmente, John Bogle morreu em janeiro deste ano. Fiquei sabendo disso enquanto fazia minha pesquisa para este post. Que Deus guarde sua alma.

Antes de mais nada, é importante dizer que tanto a vida profissional quanto a vida acadêmica de John Bogle gravitaram em torno de fundos de índice. Na verdade, ele foi o autor da ideia, o pai dos fundos de índice.. Sendo assim, é óbvio que a opinião do autor é bastante enviesada neste sentido e, por isso, recomendo cautela e um pouco de ceticismo a todos os que lerem o livro.
Dito isto, vamos à resenha:

A filosofia de investimentos de John Bogle pode ser resumida nas seguintes  afirmações:

1) Mantenha os custos baixos (taxa de administração, de carregamento, de performance,etc. Busque sempre os menores custos)
2) Mantenha o turnover baixo (ou seja, gire muito pouco o seu patrimônio, não  fique toda hora trocando o dinheiro de lugar, pulando de um ativo para outro)
3) Stay the course (mantenha-se no rumo - ou seja, não mude toda hora a sua estratégia - pense bem nela e mantenha o curso)
4) Mantenha tudo simples (ou seja, não é necessário - e é até prejudicial - usar métodos complicados de investimento, como métodos quantitativos, análises econométricas, fazer operações complicadas na bolsa, aplicar em produtos financeiros ultra sofisticados, etc. No próprio livro há a citação de um blogueiro ["Dividend Growth Investor"] que define o "Keep it Simple" como sendo "tenha ações e alguns títulos")

- O livro em si é um tanto repetitivo - em alguns pontos chega a lembrar os livros do Kyosaki, por conta da repetição de ideias... mas isso até é compreensível por 3 motivos: 1º - Bogle quer "martelar" a ideia na cabeça dos seus leitores, e uma maneira de fazer isso é através da repetição; 2º - conforme eu escrevi acima, a ideia por trás do livro é simples e pode ser resumida em 4 parágrafos, mas Bogle quis escrever um livro, então precisou encher linguiça; e 3º - por mais simples que sejam as ideias, é  necessário  demonstra-las com fatos e números para que tenham mais credibilidade;

- Nos capítulos iniciais Bogle demonstra várias vezes a superioridade de um fundo de índice (que ele denomina "TIF" - Traditional Index Funds) perante qualquer fundo de investimento ativo (fundos ativos são aqueles que tentam superar seus benchmarks, ou seja, o gestor fica fazendo operações na bolsa para superar, por exemplo, o Ibovespa) , e explica que isso se dá principalmente por causa dos custos: os fundos ativos, em sua tentativa de superar seus benchmarks, acabam girando demais seu patrimônio, incorrendo em muitos gastos com corretagens, emolumentos, taxas diversas da B3, etc. Um fundo passivo, por outro lado, como apenas tenta seguir seu benchmark, faz muito menos operações e isso gera custos menores.  Outra explicação é a "Regressão à Média", um termo estatístico que pode ser traduzido como "tudo o que sobe eventualmente desce" - com isso Bogle quer dizer que os fundos com melhor desempenho passado teriam maior propensão a ter rendimentos inferiores no futuro (e isso faz sentido, porque quanto mais um fundo cresce e maior se torna seu patrimônio, mais difícil se torna ter um retorno alto em termos percentuais, e retornos em percentuais declinantes tendem a ativar o comportamento de manada que faz com que a muitos dos investidores queiram sacar seu dinheiro do fundo);

- Outra explicação para o desempenho dos fundos ativos em geral ser pior do que o dos passivos é que o gestor que tenta superar um benchmark se vê obrigado a fazer investimentos mais arriscados, na esperança de acertar "na mosca" e faturar alto em uma tacada, mas o que acontece na maioria das vezes é justamente o contrário;

- Outro mérito do livro é apontar para os custos fiscais dos fundos de investimento. Isso é outro ponto fraco dos fundos ativos (e de qualquer investidor que fique girando demais seu patrimônio): quando o gestor fica "treidando", lucrando alguns centavos por ação em cada operação, parte deste lucro irá para o governo. Outra parte vai para alimentar as terríveis "taxas de performance" e o que sobrar, só aí irá para o patrimônio do investidor. Os fundos passivos, por outro lado, como só estão preocupados em acompanhar seu índice-referência, tendem a não girar tanto o patrimônio, o que significa menos custos com impostos.

-É interessante notar, no capítulo 15, que Bogle fala especificamente dos ETF (Exchange Traded Funds) e os define como sendo uma versão "mais agressiva" dos TIF, o que me leva a crer que aqui no BR não há TIFs na concepção de Bogle.

- Outra característica de alguns dos ETF, citada pelo autor, é a existência de um "tema", uma característica de todas as ações que o compõe e que norteia as aquisições do fundo (ex: um ETF que só investe em ações que tenham dividend yield superir a X%; ou que só invista em ações de empresas de tecnologia, ou só de empresas exportadoras, etc. No BR tem alguns ETF assim: por exemplo, aqui existe o ECOO11, que investe em empresas que adotam "práticas transparentes de eficiência de emissão de gases causadores do efeito estufa", seja lá o que isso signifique, e baseia sua alocação de ativos em "níveis de emissão de gases do efeito estufa") na visão de Bogle (e eu concordo com ele), se o fundo é baseado em um "tema", então ele não está diversificando de verdade, o que torna esta estratégia ineficiente, do ponto de vista da dicotomia Risco X Retorno. 

- Nos capítulos 18 e 19, o autor fala sobre alocação de ativos, nos quais ele defende a estratégia simples, enunciada por Benjamin Graham, de diversificar entre ações e títulos (públicos e privados), de modo que a proporção investida em ações sempre fique entre 25% e 75% do portfolio do investidor. Bogle defende que quanto maior for a expectativa de vida do investidor no momento do investimento, maior deverá ser a alocação em ações. Bogle até mesmo defende que um investidor jovem, no início de sua carreira profissional, fique alocado 100% em ações em seus primeiros anos de investimento , e também não acha uma boa ideia que mesmo um idoso tenha 0% em ações (ele acha isso arriscado) - ele defende que, idealmente, a renda do investidor idoso e aposentado seja proveniente dos dividendos das ações e da própria seguridade social (o nosso INSS), e não da venda dos ativos do portfolio.

- Por fim, uma lição muito importante: em diversos momentos do livro, o autor relembra que todas as estratégias de investimento têm uma falha em comum: todas, em maior ou menor grau, levam em consideração as rentabilidades passadas (das ações, do mercado como um todo, dos títulos públicos, etc.), o que nunca é garantia de rentabilidade futura, e é por isso que Bogle defende a ideia de que "não adianta ficar procurando a agulha no palheiro: compre o palheiro inteiro, que a agulha estará lá"; esta ideia sintetiza o que seria um TIF ideal.

Após ter lido o livro, cheguei às seguintes conclusões:

1) Na minha opinião, dentre os ETF negociados na B3, a princípio os que mais se aproximam dos critérios de investimento defendidos por John Bogle são o PIBB11, BRAX11 e BOVA11. No próximo artigo desta série (que já está no forno), falarei um pouco mais sobre eles.
2) Os fundos ativos só continuam existindo porque a maioria das pessoas têm preguiça de pensar e entender o que são coisas como taxa de administração, taxa de carregamento e taxa de performance, e seus efeitos perversos sobre o patrimônio, e também porque o lobby do setor financeiro no mundo todo é poderoso;
3) Fundos de investimentos, principalmente os ativos, são máquinas de fazer dinheiro... para seus gestores, para os bancos e corretoras, e para o governo, e tudo isso às custas do patrimônio dos cotistas;
4) O único tipo de fundo que eu acho "aceitável" como investimento são os aqueles definidos por Bogle como "TIF" (Traditional Index Fund): gerenciamento passivo, custos bem baixos (não só a taxa de administração, mas também os custos internos das operações do fundo), diversificação grande que tente replicar o índice "do mercado" (de preferência, fundos que tenham literalmente ações de todas as empresas negociadas na bolsa, ou pelo menos de muitas empresas, sem concentrar em setores específicos);
5) Em que pese o item 4, ainda há de se levar em conta o fardo da taxa de administração e, no caso brasileiro, o absurdo imposto de 15% sobre o lucro quando da venda das cotas  (Porém, pensando por outro lado, suponha que você consiga viver de renda, vendendo um pouco das cotas desses fundos periodicamente para se sustentar: se você é assalariado, você provavelmente paga entre  7,5% e 27,5% de IRPF. Mas, se seu sustento viesse não de um salário, mas das vendas das cotas de ETFs que você acumulou ao longo da vida, você acabaria pagando menos IR do que paga hoje, caso hoje você esteja na metade superior das alíquotas do IRPF... ).

Forte abraço, e até a próxima parte!