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segunda-feira, 20 de julho de 2020

A busca pelo milhão deveria ser uma busca por valor e não por dinheiro

Se vocês refletirem um pouco, a inflação já corroeu tanto o poder aquisitivo do Real que o cobiçado "um milhão de reais", um dos santos graais da blogosfera, já não é mais o que era. É bastante difícil juntar um milhão de reais para quem é assalariado, e embora esta quantia ainda dê uma grande melhora na vida pessoal em termos de tranquilidade e segurança relativas ao trabalho, ela já há um bom tempo não é capaz de trazer a IF, no máximo uma TF (tranquilidade financeira), mas ainda assim é algo arriscado. 
Nos tempos de taxa Selic a mais de 14%, havia quem pensasse ser capaz de viver sem precisar trabalhar tendo um milhão investidos em renda fixa, mas mesmo naquela época (2016) isso ainda era muito arriscado, pois a inflação alta camuflava o rendimento real, que era bastante abaixo dos 14% nominais, de modo que sacar os rendimentos deste milhão aplicado em uma renda fixa, por exemplo, só faria corroer mais depressa o valor do principal. Sacar menos do que os juros auferidos era obviamente uma opção melhor, mas ainda arriscada para quem almejasse parar de trabalhar. Com o tempo, a inflação poderia corroer o valor do principal, e caso vivamos um caso extremo como o da Alemanha do pós-guerra, este investidor que até então havia "atingido" a IF se tornaria um "mendigo milionário".
Não é exagero!

notas e moedas: Pick#110 - 500 Milhões de Marcos, 1-9-1923
Nota de 500 milhões de marcos alemães, de 1923, provando que todo mundo era multimilionário na Alemanha pós-Grande Guerra!! É um pouco difícil de ler, mas realmente está escrito Fünfhundert millionen Mark


Infelizmente, a inflação é um problema intrínseco do atual sistema monetário mundial - o qual se baseia em moedas fiduciárias (sem lastro) e no sistema de reservas fracionárias (bancos não precisam ter em caixa valores que garantam 100% dos depósitos, ou seja, bancos criam moeda literalmente do nada) e ao menos no curto prazo isso parece que não vai mudar. Nem mesmo as criptomoedas são ainda uma alternativa viável - elas ainda estão longe de serem adotadas pelo "tiozinho da padaria" e pela "dona marocas da escolinha", e somente quando isso acontecer é que elas serão realmente moedas, pois serão um meio de troca amplamente aceito (atualmente as criptos cumprem mal e porcamente apenas as funções de unidade de conta e reserva de valor, mas devido às grandes oscilações diárias e às dificuldades operacionais de usá-las no dia a dia, tais funções não são eficientemente cumpridas, na minha opinião).

Vejam em números o massacre do Real pela inflação: conforme a calculadora do cidadão, disponível no site do Banco Central, 1 milhão de reais do início do Plano Real (1994) equivalem a mais de 6 milhões de reais atualmente:



O Real perdeu muito valor desde seu início. Temos que multiplicar o milhão de reais por 6 só para empatar com seu poder de compra original. Até mesmo olhando para o passado recente a perda é chocante. Vejam quanto precisamos ter hoje em dia para empatar o poder aquisitivo de 1 milhão de reais de 2016, época da SELIC a 14,25%, na qual havia quem acreditasse poder viver com a renda desse milhão:



Precisaríamos ter quase 200 mil reais a mais só para manter o poder de compra, quase um quinto do valor. Quem tinha 1 milhão e aplicou na renda fixa e passou a viver dos juros provavelmente perdeu dinheiro, no sentido de perder poder aquisitivo.

Será que algum dia seremos capazes de desfazer este massacre financeiro? Será que algum dia o Real prosperará e se tornará uma moeda forte? 
Só o tempo dirá. 
Enquanto isso, os números incríveis de nossa inflação mostram que ao contrário de outras épocas, em que o dinheiro tinha lastro, ou seja, tinha valor intrínseco (moedas de ouro e prata, certificados de depósito de ouro, etc.) não é tão bom negócio juntar dinheiro. Óbvio que precisamos de dinheiro no dia a dia para trocarmos por bens e serviços,  e conforme já expliquei no post anterior, é inegável a importância de se ter uma reserva de emergência de pronto uso, então algum dinheiro é bom sempre termos. Esses tempos histéricos da pandemia, repletos de desmandos e arbitrariedades estatais e de empresas mancomunadas com o Estado, reafirmaram a importância da reserva de emergência.


Certificado de Ouro - Está escrito: 100 dólares EM MOEDAS DE OURO pagáveis ao portador sob demanda

Porém, o ideal é que, após constituída a reserva de emergência, comecemos a diversificar nosso patrimônio de modo que ele tenha mais valor do que dinheiro, porque o que tem valor é sempre ou quase sempre protegido contra a inflação. 

Onde encontraremos valor? Onde compramos valor? Resposta: Comprando ações de boas empresas (fundamentos sólidos, vários anos seguidos de lucros, com dívidas equilibradas ou sem dívidas, com boa participação no mercado, etc.), comprando cotas de bons fundos imobiliários (bem geridos, com imóveis bem localizados, bons imóveis, de preferência com mais de um imóvel, etc.), comprando bons imóveis (bem localizados, sem problemas judiciais) e comprando bens que tenham valor (metais preciosos, jóias, moedas, obras de arte, terrenos bem localizados e férteis, etc). 
Porém, há uma outra diversificação ainda mais importante,  e que deve ser feita todo dia, em qualquer época: a diversificação de conhecimentos e habilidades, ou seja, o investimento em você mesmo. Aumente o seu valor. Estude além do que é necessário para desempenhar sua profissão, estude para melhorar seu desempenho nela e tornar-se uma referência, pelo menos entre seus colegas. Estude e pratique outras atividades fora de sua profissão para ser versátil, primeiramente como hobbies - e quem sabe elas não podem acabar virando outras fontes de renda? Quem sabe elas não possam um dia se tornar sua principal fonte de renda? Quem sabe elas não te salvam de uma enrascada, como ser demitido? 
Além disso, nunca deixe de ler ou estudar certos assuntos só porque supostamente "não há mercado" para tais conhecimentos - aumente sua cultura, leia os clássicos da literatura, estude outros idiomas além do inglês, produza algum tipo de arte, etc. Tudo isso contribuirá, no mínimo, para aumentar sua confiança em si mesmo e para expandir sua criatividade, e estas são coisas das quais você nunca se arrependerá, e também aumentarão seu valor como pessoa. Hoje em dia é possível encontrar tantos bons livros de graça ou quase de graça, assim como inúmeros tutoriais de uma infinidade de assuntos no YouTube, em fóruns especializados, cursos on line de praticamente qualquer assunto, e por aí vai. Nunca deixe de investir em você mesmo. Não viva para juntar dinheiro, viva para melhorar a si mesmo e para melhorar a vida dos que estão à sua volta, fazendo sempre o bem.

Forte abraço!  Fiquem com Deus!


terça-feira, 9 de julho de 2019

Mais sobre o padrão-ouro: os mecanismos da Deflação


Retomando o assunto do padrão ouro, do qual sou entusiasta, como já disse.

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Vamos explorar um pouco mais a questão da diminuição dos preços da economia (deflação), a qual seria uma consequência bastante provável no caso da adoção de um padrão ouro no país.

(Cabe ressaltar que a  probabilidade de deflação aumentaria ainda mais com a eventual abolição do salário mínimo (ou seja, se deixássemos o mercado ditar o "salário mínimo", e não uma lei) - esta questão abordarei em outro artigo).

Pode ser que com uma eventual volta do padrão ouro, talvez ocorresse uma "febre do ouro", aumentando o ritmo das atividades de mineração, por exemplo, expandindo a oferta. Tal aumento da oferta do metal, se chegasse a se tornar excessivo, faria seu preço diminuir de modo a tornar proibitivo o custo de mineração, desestimulando novos aumentos da oferta, reestabilizando o preço e suavizando a curva de evolução da oferta de ouro para patamares mais, digamos, aceitáveis.

A possibilidade de deflação se encontra na razão entre a variação da oferta de ouro (que seria igual à oferta monetária desta nova economia) e a taxa de crescimento da economia. Se a oferta de ouro crescesse no mesmo ritmo que a economia, os preços se manteriam bastante estáveis (e a economia provavelmente estaria crescendo bem devagar). Se a oferta de ouro crescesse num ritmo mais lento que a economia (o que é de se esperar, dado que, até onde sabemos, o ouro é um metal raro), os preços em geral tenderiam a diminuir, porque com o crescimento da oferta de bens e serviços, o ouro se tornaria relativamente mais escasso frente à produção total da economia. Em outras palavras, a mesma quantidade de ouro compraria um número maior de bens e serviços, porque estes estão se tornando mais abundantes mais rapidamente do que aquele. Vejam que "ouro" neste texto não deve ser necessariamente entendido em sentido literal: basta que o lastro da moeda seja um bem  suficientemente escasso, com oferta inelástica (ou quase inelástica), de uso aceito pela sociedade e que dê confiança. Podem ser diamantes, rubis, prata, platina, ródio, paládio, ou até mesmo uma cesta destes e vários outros bens dotados das características mencionadas e que cumpram as três funções da moeda (unidade de conta, reserva de valor e meio de troca). O ruim é a moeda fiduciária (sem valor intrínseco, ou seja, o valor é mera questão de fé e confiança), que é o caso de praticamente todas (senão todas) as moedas do mundo atual.

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Vejam como o Real está sendo destruído pela inflação. Como isso pode estar certo?


Conforme disse em meu outro post sobre padrão-ouro, as consequências disso para quem poupa seu dinheiro seriam ótimas: até o dinheiro guardado em casa seria um investimento pois a deflação faria com que ele se valorizasse em relação aos bens cotados em ouro. Sendo assim, até mesmo se você guardasse regularmente uma parte do seu dinheiro "num colchão", sua velhice estaria paga, pois 50 anos depois uma moeda teria seu valor multiplicado pela deflação. Bastaria poupar para ter um bom patrimônio e se aposentar sem ter que pensar em aplicações financeiras complicadas. Cada moeda estaria valendo mais, fora qualquer renda passiva que se conseguisse. Isso dá ensejo a mais um argumento favorável ao padrão-ouro: o incentivo à poupança. Tal incentivo traz como benefício o aumento do estoque de dinheiro disponível para empréstimos, o que torna o custo de tais empréstimos mais barato, ou seja, juros mais baixos. A consequência de juros mais baixos é o aumento dos investimentos (o que em economia tem um significado diferente do mundo das finanças; em "economês" investimento significa compra de capital, ou seja, aquisição de máquinas, equipamentos, fábricas, ferramentas, etc., ou seja, aquisição de bens produtivos com finalidade empreendedora). O aumento dos investimentos, por sua vez, gera mais empregos (mais fábricas significa no mínimo maior demanda por pessoas para vender, transportar, entregar, supervisionar a produção, controlar a qualidade, fazer marketing, etc.) e aumenta a produção, o que por sua vez aumenta a oferta do bem fabricado, o que contribui para reduzir sua escassez e, consequentemente, diminuir seu preço - mais bens para uma quantidade estável de moeda, ou seja, cada unidade monetária adquire uma quantidade cada vez maior de bens. Viram como uma moeda com lastro (ou pelo menos uma moeda de oferta inelástica) pode, ajudar a criar ciclos virtuosos que beneficiam toda a sociedade, sem a necessidade de nenhum plano econômico mirabolante ou produtos financeiros complicados? Uma economia saudável gera preços decrescentes, que contribuem para diminuir o custo de vida, o que por sua vez contribui para aumentar a liberdade econômica dos indivíduos. A deflação, na forma como a descrevi acima, é algo bom e desejável.

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Mas, por incrível que pareça, o que é ensinado por aí é bem diferente.

Na minha pós-graduação (que tive que fazer por causa do trabalho, há dois anos...), eu tive uma cadeira de economia, e o professor dizia que a deflação era uma coisa ruim (me parece uma ideia keynesiana, uma vez que nesta teoria a inflação é que é vista como uma coisa boa para a economia... vai entender). A explicação dada por ele era a seguinte: em um cenário deflacionista, a economia desaceleraria com a queda do consumo, porque todo mundo iria esperar os preços diminuírem para consumir. Na minha humilde opinião, tal pensamento é no máximo meio certo. De fato o consumo de alguns produtos supérfluos diminuiria porque algumas pessoas esperariam alguma diminuição do preço para consumir, mas isso não iria zerar o consumo! As pessoas não param de consumir só porque sabem que os preços vão diminuir. Notem que isso já poderia acontecer hoje em dia: todo mundo sabe que o preço do iPhone XR, vai diminuir quando o iPhone 11 for lançado. Segundo o raciocínio de quem acha que a deflação é ruim, ninguém compraria o iPhone XR porque sabe que ano que vem será lançado o iPhone 11. É isso o que observamos na realidade? Claro que não! E estamos falando de bens supérfluos. Algumas pessoas podem até esperar o preço abaixar, mas o consumo estará longe de ser zero. Em relação aos bens normais, principalmente os de primeira necessidade, este argumento contra a deflação se torna ainda mais esdrúxulo. Pensem no arroz. Só porque eu sei que daqui a um mês o arroz vai ficar mais barato, eu vou deixar de comer arroz hoje? Claro que não!  Em relação a bens de primeira necessidade, mesmo num cenário de deflação o consumo seria quase inalterado. Não vejo cabimento na teoria de que as pessoas adiariam o consumo de alimentos e remédios para esperar mais uma queda nos preços.  O consumo de bens normais continuaria, digamos, normal. Sinceramente, não sei como o professor não pensou em como o argumento que ele usou era fraco. Talvez ele só tenha ouvido na época em que fez a faculdade dele e agora repete, que nem um papagaio.

Sei que hoje em dia uma moeda com lastro parece um sonho distante, principalmente com lastro em metais preciosos, mas sonhar não custa nada... Quem sabe o mundo, um dia, não desperte da ilusão que é o dinheiro fiduciário...

Forte abraço!

terça-feira, 25 de junho de 2019

Dinheiro 100% virtual e o fim do dinheiro físico - será que o futuro é sombrio?


O que o futuro nos trará, amigos?

Só podemos imaginar. Alguns dizem que a tecnologia já entrou na fase exponencial da curva de evolução e desenvolvimento. Numa pós graduação que fiz há pouco tempo, um professor dizia que 90% dos produtos que usaremos daqui a 10 anos não foram inventados. Por um lado é bom imaginar os futuros avanços na área de saúde, transporte, energia, etc: transportes mais eficientes e rápidos, energia mais barata e abundante, diagnósticos mais precisos, procedimentos médicos menos invasivos, etc. Por outro lado, existe o aspecto sombrio da tecnologia: dinheiro 100% virtual, reconhecimento facial em cada esquina, satélites e celulares espiões (essa parte, aliás, já é real), etc.

 Uma das piores coisas, na minha opinião, é o dinheiro 100% virtual e o fim do dinheiro físico. Os governos (e algumas grandes empresas) já há muito tempo estão cerceando nossas liberdades, e vemos que agora eles estão apontando suas armas para o dinheiro de papel . Leiam sobre a Operação Tio Patinhas, da Receita federal, por exemplo:

O objetivo desta operação é pegar quem faz fraudes fiscais declarando dinheiro vivo que não possui, para  posteriormente usar o montante fictício para lavar dinheiro, muitas vezes proveniente de atividades ilícitas. Esta operação é um potencial precedente aberto para termos proibições semelhantes a esta que vigora em Portugal.
Além das fraudes fiscais,  os casos de políticos corruptos que foram flagrados com malas de dinheiro, dinheiro na cueca, etc., provavelmente serão usados como desculpa para fomentar políticas graduais de extinção do dinheiro físico. Aliás, tal assunto já está sendo cogitado, aqui e em outros países. 

"Ah, mas está certo, Mago,é inaceitável em pleno 2019 eu ainda ter que esperar mais tempo na fila do mercado por causa de um velhinho que resolveu pagar em moedas ou por causa de uma senhora que pagou uma garrafa de coca com uma nota de 50!" Não, seu jumento. Em primeiro lugar, quem usa o ano como argumento é no máximo um sofista, e no mínimo um idiota. Segundo, óbvio que pagar no cartão é mais rápido e mais confortável, mas você não entende que no dia em que não existir mais dinheiro físico, os bancos e o governo (e quem mais estiver interessado) vão saber TUDO o que você faz na vida:

-Sabe aqueles 100 reais que você deu de mesada pro seu filho de 11 anos? O governo vai saber e um dia pode querer cobrar um imposto sobre essa "doação" (existe esse imposto, o ITCMD, um absurdo, na minha opinião, e mesmo que haja um valor mínimo para que realmente ocorra a incidência do imposto, se você for seguir a letra da lei, o certo é declarar cada doação que dar ou receber, ainda que seja abaixo deste mínimo!).

-Sabe aquela barrinha de chocolate comprada depois do almoço no jornaleiro em frente ao trabalho? O governo vai saber, e provavelmente seu plano de saúde também.

-Sabe aquela vovozinha que sobrevive fazendo bolos por encomenda para complementar a renda do INSS? Vão questionar porque ela compra tanta farinha e ovos toda semana e vão saber de cada pagamento que ela receber, e provavelmente vão querer cobrar imposto em cima, talvez inviabilizando o negócio da senhora.

Parecem situações absurdas? Podem parecer absurdas, mas são possíveis e se tornam ainda mais prováveis em cenários de dinheiro totalmente digital.

Mas o pior sobre o dinheiro totalmente virtual nem é a diminuição da privacidade. O pior é a possibilidade e a facilidade de sua carteira virtual ser deletada, ou de o seu acesso à mesma ser negado e você não ter para onde correr, a não ser, talvez, o escambo ou a caridade de outras pessoas. Vejam este meme que já fizeram a respeito da moeda virtual que o facebook pretende lançar:



Imaginem só, meus amigos, ser impedido de comprar coisas ou de receber pagamentos só porque emitiu uma opinião contrária aos "community standards"... Pode parecer paranóia minha, teoria da conspiração, mas vejam que algo assim já está para acontecer na China, e acho que não é novidade para ninguém: o sistema de ranking social. A fusão de um sistema como esse com uma moeda de curso forçado totalmente virtual controlada por um governo ou por um monopólio/oligopólio de empresas é algo potencialmente terrível. Óbvio que se houver mais de uma criptomoeda é possível contornar o problema descrito acima através da diversificação da carteira, mas ainda há alguns riscos a serem considerados:

1 - provavelmente somente empresas grandes terão bala na agulha para manter suas próprias criptomoedas, dado o grande volume de dados e as consequentes despesas com servidores e manutenção, além da questão da confiabilidade (é improvável que muitos usassem a criptomoeda da padaria da esquina, não necessariamente por ela ser pequena, mas principalmente por quase ninguém conhecê-la)
2 - empresas grandes costumam fazer parte de conglomerados e até mesmo tendem a se cartelizar  e adquirir concorrentes menores. É o caso do facebook, da disney, das operadoras de cartão de crédito, dos grandes bancos, só para citar alguns.
3 - em consequência do item 2, não adiantaria muita coisa diversificar com moedas de um mesmo conglomerado ou cartel (o bloqueio da carteira provavelmente valeria para todas as empresas do setor/cartel), então uma possível solução seria diversificar entre cartéis.
4 - empresas grandes tendem a ser mancomunadas com governos, e provavelmente adeririam a sistemas estatais de ranking social, ou criariam seus próprios sistemas com apoio estatal, boicotando e excluindo pessoas que não atendam aos padrões exigidos pelo governo ou pelo cartel (caso da China). Em um sistema como o brasileiro (capitalismo de compadrio, ou socialismo de mercado, onde as grandes empresas usam o poder estatal para diminuir ou eliminar a concorrência, em troca de apoio político, financiamentos de campanhas, propinas, etc.) ficaria ainda mais difícil surgir a concorrência que frearia tais loucuras (que seriam impossíveis num cenário de concorrência perfeita, no qual a parcela da demanda excluída por não seguir os "community standards" seria absorvida pelas empresas concorrentes e a chance de cartelização é nula)  Diversificar com moedas de cartéis diferentes não adiantaria muito neste caso do conluio entre grandes empresas e governo.

A conclusão é óbvia: no que tange ao dinheiro virtual, somente criptomoedas descentralizadas e não associadas nem a governos e nem a empresas trariam alguma segurança, mas até isso é ilusório, uma vez que ainda restaria a questão de "quem realmente controla o bitcoin?" Ou "quem garante essa moeda? Como saber que não é apenas uma pirâmide?". Além da importantíssima questão da confiabilidade das criptomoedas descentralizadas, o ideal é que também haja várias, para favorecer a diversificação e reduzir o risco de perda da carteira. Outra coisa fundamental é que as wallets e as corretoras de criptomoedas também sejam descentralizadas e independentes, pois de nada adiantaria a diversificação se só houvesse uma corretora negociando criptomoedas, ou se só houvesse uma wallet disponível para usar por exemplo. Se seu cadastro fosse bloqueado, você perderia o acesso ao seu dinheiro da mesma maneira. É uma pena, entretanto, que as criptomoedas tenham tido este começo tão errático (o caso do bitcoin), pois todos estes altos e baixos repentinos e bruscos na cotação certamente contribuíram para atrasar a construção da confiança nas criptos descentralizadas.

No que tange ao dinheiro físico, enquanto as pessoas valorizarem ouro, prata, e demais metais e pedras preciosas, ainda será possível haver um sistema monetário paralelo, uma saída para os que forem excluídos do sistema monetário por não usarem a marca da besta terem violado os "community standards". Na verdade, qualquer coisa que as pessoas valorizem e que possa cumprir os papéis da moeda (meio de troca, unidade de conta e reserva de valor) poderia vir a ser usada como tal, ainda mais se isto ocorrer espontaneamente pela vontade das pessoas.  Na Rússia já houve até mesmo uma moeda com lastro em batatas. (notem que se não fosse algo sério, o governo russo não teria nem dado bola para o caso)

Em um cenário assim, de dinheiro totalmente virtual e de curso forçado, o ouro, a prata, metais e gemas preciosas em geral ganhariam mais um motivo para terem lugar na carteira de investimentos de qualquer um, principalmente em meio físico e guardados em algum lugar seguro e secreto que não seja um banco. Este tipo de ameaça que paira sobre nós é mais um motivo pelo qual eu adoraria a volta do padrão-ouro, ou qualquer lastro em metal precioso.

Olhando para o futuro com lentes mais otimistas, não podemos subestimar a criatividade humana. Não acredito que, havendo um número suficiente de excluídos do sistema, tal grupo fosse aceitar passivamente o ostracismo. Muito provavelmente surgiriam mercados negros e moedas paralelas (físicas e virtuais) para atender a esta demanda reprimida. Talvez nem isso: pode ser que mesmo as maiores empresas não queiram abrir mão da demanda excluindo clientes; pode ser que a desobediência civil em massa acarrete no colapso de um sistema de ranking social; a falta de confiança na moeda virtual estatal pode levar a uma fuga para ativos reais nas transações quotidianas (volta às moedas metálicas, ou outros tipos de moeda-mercadoria); etc. As possibilidades são infinitas, e como eu disse em outros posts: é tudo um exercício de futurologia



domingo, 26 de maio de 2019

Considerações sobre o padrão-ouro



Eu sou entusiasta do padrão-ouro.
Creio que todos compartilham o desejo de uma moeda estável e forte, pois o que o ser humano mais deseja em sua vida é o conforto ou, pelo menos, a redução de seu próprio desconforto inicial. Com uma moeda estável, o sério problema dos ciclos econômicos seria resolvido, melhorando enormemente o padrão de vida (leia-se o conforto) de toda a sociedade. Posteriormente explicarei o motivo disso. Na opinião dos estudiosos das teorias liberais, o melhor caminho para uma moeda estável é adotar o padrão-ouro, ou seja, lastrear a emissão de moeda em ouro. Assim era feito antigamente, quando da invenção da cunhagem de moedas. O ouro, por ser durável, facilmente reconhecível, suficientemente escasso, maleável e de fácil cunhagem, foi o meio de troca voluntariamente aceito pela sociedade. Só em 1971, quando Nixon quebrou o acordo de Bretton-Woods é que o padrão-ouro foi totalmente abandonado. Ou seja, o atual sistema financeiro (sem lastro) só existe há menos de 50 anos. Em termos históricos, isto não é nada, e a meu ver o estrago já é grande. 
Atualmente, há quem acredite que o mundo caminha para uma crise ainda mais severa que a de 2008, devido à eventual falência do modelo de desenvolvimento nacional baseado no endividamento do Estado. Há quem afirme que, para combater a inflação que e tornar menos piores as consequências da grande crise, o melhor caminho seria a volta do uso do ouro como lastro do dinheiro. Com o advento do bitcoin e outras criptomoedas, alguns consideram que já não seria mais necessário uma moeda com lastro em algum ativo físico, e que as moedas digitais supririam perfeitamente esta função de “moeda forte”. Sinceramente, não sei se concordo com isso (Quando eu tiver estudado mais sobre criptomoedas, vou expor minhas opiniões aqui. Creio que ainda não estudei o bastante para opinar sobre elas).

Eu concordo plenamente que uma moeda estável e forte traz muito conforto e segurança para a sociedade, além de praticamente eliminar o problema da aposentadoria (bastaria saber poupar o dinheiro para garantir alguma renda decente nos anos de inatividade) e a necessidade de um sistemas de aposentadoria públicos. O planejamento financeiro se torna muito mais fácil se não houver o fantasma da inflação escurecendo o futuro... Sinceramente, eu gosto da ideia de moedas com lastro em metais preciosos. Elas me passam a sensação de que são dinheiro "de verdade". É triste saber que nossa moeda não vale praticamente nada e que até mesmo nos demais países latino-americanos não é bem aceita. Não sei quanto a vocês, mas quando penso em como o Real está fraco, sinto que meu salário é uma enganação: sou da classe média no Brasil, até porque aqui o Real é de curso forçado -ou seja, no Brasil todos têm que aceitar reais como pagamento e instrumento de quitação de dívidas, por força de lei -  mas em qualquer lugar desenvolvido eu seria praticamente um mendigo, meus reais não valem nada. Triste a nossa realidade. 

Eu gostaria muito que nossa moeda fosse forte, e de preferência com lastro em ouro. 

 O meu único porém é a respeito da quantidade de ouro necessária para sustentar o volume de negócios atual. Será que há ouro suficiente no mundo para atender à demanda? Seria possível cunhar moedas de ouro suficientes? Ou será que voltaríamos ao padrão-ouro clássico, no qual guardava-se o metal precioso num banco, que por sua vez emitia um título comprovando o depósito, documento este resgatável em ouro (esta foi a origem do papel-moeda) e que seria usado nas trocas do dia-a-dia? Sendo este o caso, o governo deveria ficar “de olho” nos bancos, para evitar que eles emitissem mais títulos do que a quantidade de ouro que havia no cofre, o que de fato aconteceu em nossa história, e ainda acontece, dando origem ao sistema de reservas fracionárias – ou seja, os bancos só têm em suas reservas uma fração do total da soma de todas as contas-correntes. Justamente por isso, um boato bastante convincente de que tal banco está indo à falência pode fazer com que ele de fato quebre, pois quando todos os correntistas forem, ao mesmo tempo, correndo para sacar seu dinheiro, o banco não terá o suficiente para atender a todos e ficará sem dinheiro nenhum. Os correntistas que “chegarem atrasados” e não conseguirem sacar a tempo também ficarão sem o seu dinheiro, e provavelmente processarão o banco, o qual eventualmente terá que liquidar todos os seus ativos para honrar suas dívidas e, com isso, deixará de existir.
Dizem os liberais que não haveria problema quanto à quantidade de ouro, pois o mercado se adaptaria à quantidade de dinheiro disponível. Assim, quando houvesse poucas moedas de ouro disponíveis no país (o que seria provocado, por exemplo, por um excesso de importações em relação às exportações), os preços encolheriam, uma vez que ninguém teria dinheiro em quantidade física suficiente para custear valores altos. Os comerciantes poderiam até demorar um pouco a reduzir seus preços, mas seriam eventualmente obrigados a fazer isto, tendo em vista que não conseguiriam vender nada aos preços antigos, de quando havia moedas em maior quantidade. Por outro lado, um grande aumento nas exportações que gerasse superávit na balança comercial faria com que a quantidade de ouro disponível aumentasse. Havendo mais moedas em circulação, isso permitiria aos comerciantes aumentarem os preços de seus produtos e serviços. Segundo os liberais, estas variações nos preços nada têm a ver com a ideia keynesiana de inflação/deflação, pois o dinheiro não teve seu valor alterado. Vou tentar explicar porquê: antigamente, quando o padrão-ouro era seguido no mundo inteiro, os nomes das moedas – dólares, libras esterlinas, francos, francos-suíços, marcos, etc. – eram simplesmente nomes diferentes para diferentes quantidades de ouro (assim como “um metro” é outro nome para “cem centímetros”), ou seja, eram meras unidades de medida. Por exemplo, uma libra esterlina equivalia a aproximadamente 0,25 onça de ouro. A grosso modo, para tornar mais simples o entendimento, os ingleses diziam “isto custa uma libra esterlina” ao invés de dizer “isto custa um quarto de onça de ouro”. Não havendo fraudes no processo de cunhagem das moedas, mesmo que os preços das mercadorias aumentassem ou diminuíssem, uma libra esterlina continuaria valendo 0,25 onça de ouro. Um metro são sempre cem centímetros, da mesma maneira que uma libra esterlina sempre equivalia a um quarto de onça de ouro. O que poderia mudar era a quantidade de ouro necessária para comprar uma casa, por exemplo.
Uma confusão que pode ser feita a partir deste raciocínio diz respeito à definição de inflação. Para os keynesianos, a inflação é uma alta contínua e generalizada dos preços da economia. Para os liberais, a inflação é, basicamente, a perda de valor da moeda (consequentemente, isto também gerará uma elevação nominal nos preços, mas este é o efeito, e não a causa da inflação). Aplica-se o raciocínio contrário para a deflação (ganho de valor da moeda, que gera uma diminuição de preços). Portanto, nos exemplos dados acima (de déficit e de superávit na balança comercial), não houve inflação, uma vez que a moeda não perderia seu valor em ouro. Uma libra esterlina continuaria valendo 0,25 onça de ouro (novamente, assumindo que não houvesse fraude na cunhagem das moedas). Afinal, trata-se de uma unidade de medida. Não seria absurdo que se estabelecesse que, em um metro, há uma quantidade variável de centímetros, às vezes 100, às vezes 202?
Explicando melhor, sendo a moeda lastreada em ouro, e o ouro sendo uma commodity, seu valor também é determinado pela lei da oferta e da demanda. Por isso, no caso de um superávit comercial, haveria mais ouro na economia. Esta abundância do metal precioso forçaria o seu valor para baixo (ou seja, o ouro seria menos valorizado pelas pessoas; seria encarado como um bem mais comum. Portanto, não se conseguiria cobrar um preço muito alto pelo ouro), e isso é que provocaria um aumento nos preços – a quantidade de moedas necessárias para se comprar o mesmo produto seria maior, ou seja, aumentaria a quantidade de ouro necessária (note que as moedas ainda seriam equivalentes à mesma quantidade de ouro!). Caso houvesse numa economia ouro suficiente para tornar seu valor irrisório (digamos, ouro praticamente nascendo em árvores), a quantidade de moedas de ouro necessárias para se comprar um pão, por exemplo, seria tão grande que não valeria à pena carregá-la até a padaria, por vários motivos: esforço físico (caso fossem moedas metálicas ou lingotes), praticidade, risco de perder o dinheiro no caminho, risco de ser roubado, etc. Neste cenário, o ouro provavelmente seria abandonado como meio de troca e outra coisa substituiria o ouro como lastro para as moedas. Este substituto poderia ser qualquer um que a sociedade aceitasse voluntariamente e que fosse suficientemente escasso para que seu uso valesse à pena. Poderia ser outro metal precioso, como por exemplo a prata, o paládio, o nióbio ou a platina; poderia ser alguma pedra preciosa (diamantes, rubis, etc.), poderia ser também alguma commodity agrícola, como o trigo (mas há neste caso o risco da superprodução de trigo, o que provocaria outra mudança de meio de troca); já houve na História até mesmo o exemplo do lastro em terras (a não ser que houvesse uma expansão do território, não haveria como criar mais terras. Portanto, isso a tornava “escassa o suficiente”)... Enfim, se fosse necessário, o ouro seria substituído por outra coisa, pela própria vontade da sociedade, sem necessidade de imposição exógena. O próprio mercado (que é a sociedade como um todo) encontraria a solução para este problema, pois as pessoas precisam de bens e serviços. Portanto, “o show tem que continuar”.
Entretanto, um cenário tal qual o descrito acima é praticamente impossível de ocorrer em um padrão-ouro, uma vez que este metal é suficientemente escasso para impedir que sua acumulação chegue a tal ponto. O exemplo dado é muito mais provável de acontecer com uma moeda lastreada em grãos de areia, em folhas de goiabeira ou em moedas sem lastro algum (o que infelizmente é o caso de praticamente todos, senão todos, os países do mundo hoje em dia).
O caso das moedas sem lastro (ou moedas fiduciárias, ou seja, que necessitam puramente da confiança e da fé da sociedade em seu valor para serem usadas como meio de troca) merece muita atenção, pois aí está uma das principais causas de todas as crises que ocorreram no século XX e no início do XXI, além de todas as outras que ainda virão enquanto o mundo persistir neste erro: o fato (mencionado acima) de os bancos poderem emprestar mais dinheiro do que têm em suas reservas faz com que eles praticamente “imprimam” dinheiro, aumentando rapidamente e artificialmente a oferta de moeda na economia. Como o valor de um bem é determinado por sua escassez, a progressiva abundância de dinheiro faz com que cada unidade monetária valha cada vez menos, o que pressiona os preços de todos os bens e serviços para cima e causa empobrecimento da população, uma vez que os salários não costumam aumentar na mesma proporção e nem na mesma velocidade. Numa economia que adota o padrão-ouro (ou que lastreie sua moeda em algum bem suficientemente escasso), isso é muito mais difícil de ocorrer, uma vez que os bancos precisariam adquirir alguma quantidade de ouro para lastrear suas emissões de dinheiro (mesmo que adotem as reservas fracionárias). A desvalorização da moeda, se ocorrer (caso da adoção das reservas fracionárias), seria muito menor e exponencialmente mais lenta do que no caso atual do mundo, no qual o dinheiro não tem lastro algum.