domingo, 9 de junho de 2019

Gig economy e a precariedade dos empregos - qual será o futuro do mundo do trabalho?

Boa noite, caros leitores.

Hoje li alguns artigos  e reportagens a respeito da chamada gig economy ( economia de bicos), que é como chamam as relações econômicas entre os aplicativos, mais notoriamente os de transporte e logística, e as pessoas que trabalham para eles como "autônomos"/freelancers.

 Por um lado eu enxergo isso com bons olhos, tendo em vista que tais serviços (Uber, Uber Eats, i Food) estão barateando o custo de entregas em trechos curtos, otimizado a alocação de recursos, além de dar a oportunidade de trabalho para algumas pessoas que, de outra maneira, teriam grandes dificuldades de arrumar emprego (por conta de sua formação, dificuldades com horários, doenças, local onde moram - sério, há empresas que têm preconceito com isso, e não é por causa de vale-transporte - etc.).
 Por outro lado, acho que o pessoal que trabalha com tais aplicativos, em geral, são ""forçados"" (bota aspas nisso) a vender sua força de trabalho por muito pouco, ainda mais se levarmos em conta que o risco das tarefas executadas é 100% deles. Quem vive de fazer entregas de aplicativos precisa ter uma reserva de emergência muito forte (sei lá, equivalente a 1 ano de entregas) tendo em vista que caso sofram acidentes, poderão passar meses hospitalizados, perdendo assim suas fontes de renda e acumulando dívidas, o que pode facilmente se transformar numa bola de neve. O problema é que provavelmente a vasta maioria dos que vivem desses bicos não possui nenhuma ou pouca reserva financeira e o dinheiro que ganham não deve ser suficiente para isso. Na reportagem que li, o entregador de Uber Eats entrevistado declarou que tira R$1.500,00 por mês fazendo entregas. Nesse nível provavelmente só dá pra juntar alguma coisa se morar com os pais, ou se morar numa república, ou algo assim. De qualquer maneira, o ideal é que ninguém fique a vida inteira como entregador de aplicativo: que use essa fonte de renda enquanto necessário, mas se desenvolva e parta para vôos mais altos assim que puder. R$1.500,00 é um preço muito baixo pelo seu tempo e pela saúde. Pensem nisso.

Com a deterioração das relações de emprego - provocada, entre outras coisas, pela recessão que vivemos, pelo encarecimento de se contratar um empregado com carteira assinada, pelo encarecimento das coisas em geral que obriga as empresas a estarem sempre cortando custos, etc.- a tendência atual é de haver cada vez menos empregos "formais" (CLT).  Isso explica, ao menos em parte, a "pejotização" e a "uberização".

 Por um lado tais fenômenos são bons porque é melhor ganhar alguma coisa sendo entregador do uber eats do que não ganhar nada e ter que pedir esmola na rua ou depender de um seguro desemprego, o qual tende a ser mais difícil de conseguir. Mas por outro lado, enxergo os seguintes cenários possíveis neste arranjo (um não exclui o outro): 

1) o aumento do número de pessoas na gig economy, somado ao declínio de empregados CLT provavelmente diminuirá a arrecadação de FGTS, INSS e IRPF. Eventualmente o governo vai querer "sua parte" e pode taxar tais serviços (até onde eu sei, o dinheiro que o pessoal ganha com isso ainda é limpo, sem pagar imposto. Me corrijam se eu estiver errado) e, obviamente, quem vai pagar a maior parte da conta serão os motoristas/entregadores/etc, pois a empresa dona do aplicativo irá simplesmente repassar a conta para eles, e talvez uma parte para os clientes (duvido que os salários dos altos executivos diminuam por conta disso);

2) Além disso, a diminuição de vagas CLT diminui o acesso de pessoas pobres/classe média baixa a planos de saúde privados (a maioria das pessoas que eu conheço só tem o plano de saúde que a empresa paga, e provavelmente não teriam grana para pagar do próprio bolso), o que provavelmente vai aumentar a demanda por serviços públicos de saúde. O governo enxergaria aí mais um motivo para taxar tais aplicativos - seria muito bom se o mercado passasse a oferecer algum plano de saúde mais acessível...;

3) eventualmente é bastante possível que vários desses trabalhos sejam mecanizados: a própria Uber volta e meia lança declarações de que pretende utilizar carros autônomos para substituir os motoristas humanos. Não sei  e não tenho como prever se a substituição realmente ocorrerá e se será total, ou se motoristas humanos de Uber conviverão com carros autônomos. Mesmo com uma substituição apenas parcial, isso pode significar a perda de uma importante fonte de renda para muitas pessoas. Não acho que essa tecnologia vá chegar tão rápido, pelo menos aqui no BR, e ainda tem a questão da confiança: acho que por um bom tempo ainda vão existir pessoas (principalmente as mais velhas) que vão preferir andar com um motorista por não confiarem em carros autônomos - eu não vou confiar. De qualquer maneira, é prudente que quem vive de Uber (deve ter gente que vive só disso, mas não sei se aqui no Brasil é sustentável) adquira outras fontes de renda. Aliás, isso é o que eu prego para todos os que lêem meu blog: todos devemos ter mais de uma fonte de renda, para sermos o mais livres possível ou, no mínimo, menos escravizados;

4) Mesmo que os serviços de entrega de mercadorias e transporte de passageiros sejam automatizados, não acredito que a gig economy deixará de existir, mas os próximos bicos que surgirão provavelmente serão ou coisas ainda mais precárias e incertas do que as atuais ou serviços muito específicos. Ambos os casos são coisas para as quais talvez o investimento em automação não compense, devido ao custo baixo de tais atividades (o caso das atividades precárias), ou devido à complexidade/baixa demanda das mesmas que torne o custo de investir/desenvolver a automação muito alto (o caso dos serviços muito específicos);

5) Pode ser que outros serviços que nem imaginamos sejam "uberizados" - eu acho bastante plausível, por exemplo, que atendimentos médicos não-emergenciais e que não necessitem de internação possam seguir este modelo de negócio (antigamente, os médicos iam nas casas das pessoas. Acho que isso poderia voltar a acontecer através de aplicativos, pelo menos para casos leves e de pouca ou nenhuma gravidade, o que seria bom para diminuir o problema da lotação dos hospitais e consultórios médicos). Mas por outro lado, existe a questão da confiança no prestador do serviço, que é algo que, na minha opinião, o sistema de "estrelinhas" do Uber não substitui. 




Falando agora na "pejotização", eu não vivi este fenômeno (pelo menos por enquanto), mas já ouvi relatos de pessoas conhecidas falando bem e falando mal: para alguns o salário aumentou (o que foi bom), mas todos ou quase todos os benefícios foram perdidos (péssimo), e para outros o salário diminuiu e os benefícios também foram cortados (pior ainda). Eu vejo que um lado bom da pejotização, pela experiência destes meus conhecidos, é que diminui um pouco aquela relação celetista em que o gerente/dono da empresa se sente dono do empregado (porque tem que pagar muitos benefícios, então tenta compensar forçando o empregado a trabalhar além do que está determinado no contrato). Como PJ, alguns amigos meus estão pela primeira vez na vida fazendo "somente o que está no contrato" e tendo mais liberdade para resolver problemas particulares (antes o gerente regulava tudo), mas creio que estes são os "sortudos". Outros estão na mesma situação de antes (o gerente ainda é o "dono" deles), mas ganhando um pouco menos e sem benefícios, ou seja, estão ainda mais escravizados do que antes. Talvez estes sejam os menos qualificados, e os que estão bem são os que se preocuparam mais com a própria evolução profissional e pessoal e por isso se tornaram "menos substituíveis". Vejam que sempre vale à pena investir na sua própria formação, pouco importa qual seja o futuro do mundo do trabalho. Sempre vale a pena ter outra fonte de renda, nem que seja um bico. Sempre vale a pena montar um pequeno negócio para juntar mais dinheiro e aumentar o patrimônio, tornar-se mais independente, mais livre.
  
Tudo o que escrevi sobre a uberização acima é mero achismo, exercício de futurologia, mas os princípios e lições que podemos extrair da observação destes fenômenos são verdades: nunca fiquem parados, acomodados, vegetando em frente à TV/computador/smartphone todo dia depois do trabalho. Isso é o que o "sistema" quer que vocês façam. A "matrix" se beneficia de pessoas acomodadas, porque isso representa menos concorrentes em potencial, mais empregados para explorar e mais consumidores para produtos inúteis e/ou mal feitos. Nunca parem de evoluir e se desenvolver como seres humanos, pais, mães, filhos, irmãos, e profissionais. Estudem e CRIEM sempre. Exercitem sua criatividade sempre. Sejam livres.


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