Quem é "cronicamente online" sabe que já há alguns anos vem sendo fomentada uma animosidade entre os mais jovens, principalmente os da "geração Z" e "Millenials", contra os "baby boomers".
Não sei se isso é algo "orgânico" ou se é realmente algo que está sendo fomentado por interesses escusos.
De qualquer maneira, acho algo bastante interessante de ser observado.
Comentarei a respeito neste post.
Primeiramente: "baby boomer" é o nome que recebeu a geração que nasceu nos anos 40 e 50, época em que os soldados que lutaram na segunda guerra mundial voltaram para casa e fizeram um monte de filhos - daí o nome "baby boom", que significa literalmente "explosão de bebês".
O estereótipo da geração "baby boomer" obviamente são os EUA e a grande questão é que eles, os "boomers", deram sorte de pegar uma época de imensa prosperidade econômica no pós-guerra.
Uma explicação simplificada para isso é que - acredito eu - na época havia menos homens (pois muitos haviam morrido na segunda guerra mundial) e com isso "sobravam" mais empregos e os salários tendiam a ser maiores (mas por outro lado, foi também a época em que muito mais mulheres entraram no mercado de trabalho, então não sei se isso "equilibrou" a tendência de subida dos salários, do ponto de vista da quantidade de mão de obra disponível na época)
Além disso, por causa dos esforços de guerra, foi criada uma imensa capacidade industrial para produzir combustível, tanques, carros, aviões, munição, etc. fora toda a infraestrutura logística criada e ampliada para abastecer as tropas nos fronts. Depois da guerra, toda essa capacidade ficou "ociosa" e foi redirecionada para reconstruir a Europa e também para produzir eletrodomésticos, carros civis, remédios, alimentos, etc. Com isso, a produção aumentou, e com as tecnologias geradas para a guerra aplicadas à indústria e ao comércio a produtividade dos trabalhadores também aumentou. Com isso o preço das coisas ficou bem mais barato e os salários tenderam a subir. Assim, as pessoas podiam consumir mais. Acredito que na Europa tenha ocorrido um efeito semelhante, só que tendo ocorrido muito mais mortes de homens do que nos EUA.
Então especialmente nos EUA foi período de imensa prosperidade econômica.
Dizem até mesmo que foi um período de prosperidade sem igual na história, de modo que acredita-se que esta foi a geração mais rica que existiu.
Quais são as outras gerações que foram "nomeadas" pelos acadêmicos? Vejamos as principais:
1) Lost Generation ("geração perdida") - nascidos entre 1880 e 1900. Lutaram na primeira guerra mundial e imagino que muitos tenham se tornado niilistas, sombrios, pessimistas, etc. com o ocorrido. Foi a geração que testemunhou o surgimento dos aviões. Não deve ter mais ninguém vivo dessa geração. Eu imagino que a primeira guerra deve ter sido algo chocante, mas acho estranho que os historiadores digam tanto dos impactos psicológicos da primeira guerra nessa geração (ao ponto de chamarem-na de geração perdida), tendo em vista que houve guerras horrorosas no mundo moderno antes da primeira guerra (Considerando só a Europa, eu penso muito na Guerra dos 30 anos [ok, ela aconteceu uns 300 anos antes da IGM, então não devia haver muita memória dela] e nas Guerras Napoleônicas [estas mais próximas, tendo ocorrido no início do século XIX, então na época da 1ª GM ainda havia pessoas que conviveram com os veteranos das guerras napoleônicas])
2) Greatest Generation ("a ''melhor'' geração de todas") - os nascidos entre 1900 e 1927, viveram as duas guerras mundiais, muitos lutaram na segunda, e acredito que uns poucos chegaram a lutar nas duas, ainda que como civis (pois os mais velhos dessa geração teriam 14 anos no início da primeira guerra). Viveram a vida adulta durante a Grande Depressão, o que deve ter sido bem difícil principalmente nos EUA, e os Europeus, em massa, ainda tiveram que lutar na segunda guerra mundial e depois viver nas ruínas da Europa durante a reconstrução. Muito sangue inocente derramado nessa época. Fico imaginando por onde eles andam hoje em dia, se já se recuperaram de seus traumas.
(Eu não duvidaria se tivesse sido um representante dessa suposta "melhor geração de todas" quem deu a idéia de colocar esse nome).
Os poucos representantes dessa geração que ainda estão vivos têm 100 anos ou quase.
3) Silent Generation ("geração silenciosa") - nasceram entre 1928 e 1945, o que significa que eram crianças e cresceram durante a grande depressão e a segunda guerra e não tiveram que lutar (exceto, talvez, como civis, principalmente no caso dos países europeus que foram invadidos, e também chineses e japoneses, fora outros países asiáticos que também sofreram na segunda guerra). Devem ter sofrido o trauma de ver suas famílias e casas destruídas quando eram crianças e adolescentes (principalmente os europeus) e o trauma do "pai soldado que nunca voltou da guerra". Receberam a alcunha de "silenciosa" porque cresceram com esse trauma e buscaram evitar conflitos e só manter as coisas e ficarem seguros, ou ao menos é o que os historiadores/sociólogos dizem. Ainda há muitos deles entre os vivos, e estão na casa dos 80~90 anos. Novamente, esse é um rótulo que se aplica muito mais aos EUA-Europa e nem tanto ao Brasil, por conta de nossa distância dos teatros de operações e de nossa relativamente baixa participação na 2ªGM.
(Foram tão silenciosos que não encontrei um meme decente sobre eles para ilustrar o post)
4) Baby boomer - os nascidos entre 1946 e 1964, segundo a minha fonte para este artigo. Já explicado acima. Como foram mais numerosos do que as anteriores, eventualmente ganharam maior representação na política, nas empresas, associações e comunidades em geral. Hoje em dia estão na faixa entre 60 e 80 anos.
5) Geração X - Aqui os historiadores/sociólogos/demagogos perderam a criatividade e ao invés de darem um nome, deram uma letra. A geração X é a dos nascidos entre 1965 e 1980, segundo a minha fonte. Também pegaram um bom período de prosperidade econômica, impulsionado por avanços nas áreas de eletrônica, informática e o comecinho da internet. Hoje estão na faixa entre 40 e 60 anos. Foram a primeira geração a serem criados, em sua maioria, com o pai e a mãe trabalhando fora, então se acostumaram a "ficarem sozinhos" desde cedo e também foram a primeira geração a testemunhar muitos divórcios, o que certamente afetou sua psique. Além disso, viveram boa parte da vida com os temores da Guerra Fria (a constante ameaça de que, a qualquer momento, os russos ou os EUA iriam começar uma guerra nuclear que escalaria de tal maneira que destruiria o mundo - esse era o terror, a "black pill" daquela época - notem que embora [teoricamente] ainda haja tantas ou mais armas nucleares do que naquela época, quase não se fala mais nisso. Acho no mínimo curioso). Essa me parece ser uma geração meio sem característica própria, quase como uma geração Baby Boomer só que sem tanta prosperidade econômica. Supervalorizam os anos 80.
6) Geração Y ou "Millenials" - são nascidos entre 1981 e 1996. Pegaram o uso da informática e da internet crescendo exponencialmente, mas ainda tiveram uma infância sem internet (e muitos sem computador, principalmente os mais pobres no Brasil). Hoje em dia estão com entre 30 e 40 anos. Receberam a alcunha de millenials porque cresceram "na virada do milênio", eu acho. Foi uma geração que cresceu com computadores, tinham aula de "informática" na escola. Cresceram nos anos 90, uma época de relativa paz e prosperidade no mundo, e por isso supervalorizam aquela década.
7) Geração Z ou "Zoomers" - nascidos entre 1997 e 2012. Nasceram num mundo onde a internet já era amplamente usada, mas a maioria não usou smartphone quando criança. Ainda estão entre 20 e 30 anos, muitos ainda na faculdade, e outros começando a trabalhar. Já têm fama de não gostarem de trabalho, não quererem se sujeitarem a abusos em empresas e, no Brasil, têm fama de serem a geração que despreza a CLT. Acredito que sejam conhecidos como "Zoomers" somente na internet. São amplamente criticados por Boomers e pela geração X (que são os grupos que representam hoje a maioria dos cargos de chefia nas empresas) por não quererem trabalhar.
9) Geração Alfa - os nascidos depois de 2012 e até 2024. Ainda são bebês, crianças ou adolescentes. Pegaram um mundo dominado por smartphones e internet de fácil acesso, e vão crescer em um mundo com "inteligência artificial. Muitos estão usando smartphone desde criança, mas tiveram pelo menos uma parte da vida escolar sem IA, especialmente os que nasceram mais próximos de 2012. Os mais para o final da Geração Alfa provavelmente usarão IA em toda a sua vida escolar, e brincaram com tablets e smartphones desde bebês. Ainda têm o agravante de terem tido parte da infância durante a pandemia e terem passado os anos iniciais de suas vidas vendo os adultos usando máscaras. Será que isso gerará desvios psicológicos? O tempo dirá. Só escaparam disso os nascidos a partir de 2022.
10) Geração Beta - aqui eu acho que os "estudiosos" se apressaram e já deram um nome para uma geração que mal começou. São os nascidos a partir de 2025. Ainda são todos bebês, e (teoricamente) vão crescer já com "inteligência artificial" acoplada nos smartphones e computadores, e com as tecnologias que virão depois (se houver). Provavelmente passarão a vida escolar inteira usando IA, com todas as consequências positivas e negativas disso. Prevejo que no futuro haverá "tiozões" millenials e zoomers fazendo piadas com a geração Beta, por causa do nome. Pelo menos estes não viveram a pandemia.
Agora, falando sobre o conflito inter-geracional, vou escrever em vários tópicos, porque o assunto é grande demais para escrever um só texto contínuo e coeso. Relembro que todos os tópicos que eu escreverei são decorrentes das minhas observações e da minha experiência pessoal:
- O conflito ocorre (ou é fomentado) principalmente entre Boomers e Zoomers e entre Boomers e Millenials na internet.
- Raramente vejo brigas Millenials versus Zoomers, mas também existe.
- A "Geração X", pelo que vi, só observa e não se manifesta muito como geração. Veremos como é que vai ser quando os X'ers ocuparem o lugar dos boomers.
- Óbvio que estes rótulos não se aplicam 100% ao Brasil, especialmente o rótulo da "geração baby boomer", pois o pessoal que cresceu no Brasil dos anos 50, 60 e 70 pegou um país muito ferrado economicamente, nem de longe se comparando aos EUA, e desconheço se foi um período de explosão populacional no Brasil à semelhança dos EUA. Talvez a geração brasileira que mais se aproxime da baby-boomer americana seja o pessoal que começou a trabalhar no início do Plano Real, que foi o nosso período de prosperidade econômica (por causa da estabilização da inflação, época em que 1 dólar = 1 real, etc.) que seriam mais a geração X, cronologicamente, mas também muitos da geração Boomer.
- Outra geração que se deu bem no Brasil, a meu ver, foi a que estava se formando na universidade lá por volta de 2000, 2001 e 2002, que foi uma época em que houve muitos concursos públicos bons e naquela época os concursos eram mais fáceis (baseio minha opinião no nível de dificuldade das questões e também pelo fato de ser uma época em que havia uma certa descrença generalizada na lisura dos concursos, o que reduzia a concorrência - isso era fruto de épocas mais patrimonialistas: nos anos 80 muitos cargos públicos que hoje exigiriam concurso eram de livre nomeação, e conheço pessoas que conseguiram cargos permanentes por terem entrado por indicação de parentes e amigos nos anos 80 e isso ainda era possível até o começo dos anos 90)
- Com base no que escrevi acima, uma outra geração que se deu bem era a que estava em idade para trabalhar nos 80 e conhecia ou era parente de funcionários públicos em cargos de chefia e com isso puderam entrar por indicação em órgãos públicos, em cargos que hoje em dia exigiriam concurso e seriam disputados a tapa por milhares de concurseiros.
- O estereótipo que ronda a internet, para os Boomers, é o seguinte: uma geração egoísta, que surfou a maior prosperidade econômica da história, gerou muitos políticos ruins, está se recusando a "largar o osso" na política e nas empresas (muitos políticos da alta cúpula, praticamente todos, são boomers, e o mesmo vale para muitos CEOs, CFOs, etc. das maiores empresas) e têm a má-fama de estarem queimando a riqueza que acumularam ao invés de passarem para seus filhos.
- Um exemplo disso: recentemente houve uma polêmica envolvendo um discurso do Trump, no qual o mesmo disse que poderia criar mecanismos legais para reduzir o preço das casas, mas que não faria isso para não prejudicar a riqueza dos donos de imóveis. Esta fala incomodou muito os Millenials e os Zoomers, que estão se sentindo excluídos do mercado imobiliário americano por conta dos altos preços dos imóveis.
- No Brasil, essa crise imobiliária também está afetando as esperanças do pessoal millenial e zoomer. É fato que está cada vez mais difícil comprar um imóvel no Brasil. Pela minha experiência pessoal, os preços quadruplicaram lá por volta de 2010, 2011 - algum ano desses (sei disso porque na certidão de RGI do meu imóvel eu vi que o proprietário anterior o comprou em 2008 por um preço 4 ou 5 vezes menor do que eu paguei em 2015, e ainda reclamou do atraso da liberação do valor da entrada, dizendo na minha cara que eu "ainda fiquei com os juros da entrada" só porque a transferência atrasou uns 2 ou 3 dias por conta de burocracias do banco)
- Eu me lembro de um colega de trabalho comentando uma vez (lá por volta de 2016, eu acho - eu lembro do ano por causa do emprego em que eu estava na época) que "imóveis caros são sinal de prosperidade econômica", mas discordo totalmente dele. Acho que um país realmente próspero é aquele em que as famílias não precisam se preocupar com isso, pois ter um imóvel seria algo trivial. Infelizmente, parece que muita gente acha que imóvel caro é uma coisa necessariamente boa, mesmo que haja milhões de pessoas incapazes de terem o seu.
- Além da crise imobiliária, outra coisa que instiga discussões na internet é a aposentadoria. Lá fora, os millenials e zoomers também estão chateados com a expectativa de trabalharem para bancar a previdência dos boomers ao mesmo tempo que têm um prognóstico de não poderem se aposentar, ou se aposentarem sem benefícios ou só com benefícios ruins.
- Essa discussão da previdência também chegou no Brasil. Imagino que no nosso caso, se ainda existir um INSS, ou nós nos aposentaremos só com 80 ou 90 anos, ou então vão manter a idade mais ou menos parecida com a que é hoje, mas o pagamento vai ser 1 salário mínimo para todo mundo, mesmo que você tenha contribuído para ganhar o teto. Ou então quem ganhar mais que 1 salário mínimo vai ter um desconto para compensar o rombo e com isso vai ganhar 1 salário mínimo líquido.
- Outra discussão que está pegando fogo lá fora já há alguns anos é a questão dos empregos que foram exportados (principalmente para a China) por conta da globalização. Os EUA e a Europa deixaram de ter muitos empregos industriais e os exportaram para o terceiro mundo, com as empresas deslocando fábricas para outros países e se transformando em uma "economia de serviços" e inventaram a "agenda verde" para justificar isso. Sob esse ponto de vista, eu enxergo a globalização como um erro, pois além do desemprego, da precariedade da "economia de serviços" (e agora da "gig economy"), isso cria uma dependência grande demais desses países para com aqueles onde as fábricas foram instaladas. Estrategicamente, acho que todo país precisa ter uma capacidade industrial e energética para não ficar na mão de outros países. Pelo menos o essencial deve ser produzido em casa. Essa é a minha opinião.
- Acho que aqui essa discussão não chegou tanto porque, primeiro, nunca tivemos tantas indústrias e nem tantos empregos bons como nos EUA dos anos 50 até os anos 80. As poucas empresas boas daqui exportaram fábricas e seus melhores empregos antes mesmo dos brasileiros perceberem que foram passados para trás.
- A Geração X parece que está de fora de todas estas discussões, mas o meme acima é bastante real pelo que pude observar em minhas leituras e pesquisas para este post: o pecado dessa geração é o orgulho.
- Vejo que a "mentalidade boomer" é algo bastante real: faz uns 2 ou 3 anos, lembro de um pessoal mais velho no trabalho discutindo os planos para quando se aposentarem, e todos da conversa disseram que iriam gastar 100% do valor acumulado na previdência e não deixariam nada para seus filhos, e até falavam isso de uma maneira um tanto esnobe. Claro que cada um faz o que quer com seu dinheiro, mas eu penso em deixar alguma coisa para os meus, e pretendo ensinar coisas e dar o máximo de vantagens possível para os meus filhos, se Deus quiser. Acho inconcebível essa história de "eles que se virem". Óbvio que eles precisam aprender a se virar, mas daí para gastar o patrimônio e não deixar nada, aí já acho demais.
- Lembro-me também de uma professora na faculdade que volta e meia criticava a minha turma, dizendo que nós só pensávamos em dinheiro e "em ficar milionários rápido". Havia outras reclamações dela que eram parecidas com esta, mas não lembro agora.
- Não sei se é uma "marca geracional", mas eu tenho um pensamento um tanto "mercenário" quanto ao trabalho: eu me desiludi quanto a coisas como "me realizar" ou "fazer o que gosto" e busco somente um trabalho com o maior pagamento possível e que não me submeta a um estresse maior do que eu posso aguentar, sem idealismos, sem "missão de vida", sem "meu chamado", sem nada disso.
- Óbvio que tudo o que se escreve como "características" das gerações são meramente "estereótipos", meras "generalizações", e não representam a totalidade dos membros de suas respectivas gerações. Então, por exemplo, há boomers que vão sim deixar heranças para os filhos, há X'ers que não são orgulhosos nem autocentrados e nem apáticos, há millenials que não são "snow flakes" e que sabem que não serão diretores no primeiro ano na empresa, e há zoomers que gostam de trabalhar mesmo na CLT.

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