sábado, 10 de agosto de 2019

Sobre a meritocracia e ascensão social



Eis que a revista Exame publicou este artigo no mês passado, falando mal sobre a meritocracia. Inspirado por este artigo, tecerei meus comentários.

Por um lado, admito que "meritocracia" é algo que tem sido superestimado nas empresas e se tornou já faz muito tempo uma das palavras da moda, usada para justificar uma porção de atitudes e decisões empresariais, mesmo que não tenham nada a ver ou que sejam injustificáveis.

Primeiramente, meritocracia não justifica tudo, e o "mérito" nem sempre  serve, nem sempre é suficiente e nem sempre te renderá frutos. 

Vejam bem: uma vez tive que ficar no escritório até meia noite e meia (foi o meu recorde de sair tarde do trabalho - espero que esse continue para sempre como o meu recorde) porque estava resolvendo um problema complicadíssimo cujo prazo era o dia seguinte, ou seja, não poderia ir embora até que estivesse tudo terminado. Terminei meu trabalho, e o problema foi resolvido. Tive o mérito de resolver o problema! Ganhei alguma coisa? Fora o aprendizado e a satisfação pessoal, somente o benefício de não ser mandado embora por causa das consequências que aquele problema teria causado se eu não o tivesse resolvido. Porém, como eu resolvi o tal problema, as suas consequências não aconteceram e ninguém além de mim ficou sabendo que aquele problema existia. 

Entenderam? Somente o mérito em si não quer dizer muita coisa. É fato que o sucesso em muitas áreas da vida dependerá de N fatores além do mérito, e isso inclui uma dose bem alta daquilo que alguns interpretam como sendo sorte e outros como sendo destino, e não há nada que ninguém possa fazer para mudar isso, para o desespero de muitos histéricos.

Então, realmente, "meritocracia" é um conceito vago e superestimado.

Por outro lado, discordo da maioria das coisas que o autor do artigo escreveu. Ele cambou para um discurso esquerdista mal disfarçado e falou bobagens. Para começar, ao contrário do que ele afirma implicitamente, nascer numa família rica não é garantia de ter vida tranquila e nascer numa família pobre não significa estar condenado a uma vida de dificuldades. 

Primeiro vamos concordar numa coisa: em termos de dinheiro, ninguém é rico, no máximo está rico, pois a riqueza material pode ser perdida de várias maneiras e o estado natural do ser humano é a pobreza. 

Segundo: o que é uma família rica? Me parece que os exemplos no imaginário popular brasileiro são as famílias donas de grandes e médias empresas (ok), ou aquelas com membros que são profissionais liberais de destaque, como médicos ou advogados com muitos clientes ou clientes ricos (ok), ou as famílias em que ao menos um dos membros é um alto-executivo de alguma empresa (discutível) ou um funcionário público do mais alto escalão (também discutível), principalmente se for do poder judiciário.

De todos esses exemplos, julgo que o que tem mais chance de fazer a riqueza fluir para as próximas gerações é o da família dona de grande ou média empresa. No caso do profissional liberal bem-sucedido, a chance é boa se a família se tornar um verdadeiro clã naquela profissão e montar uma estrutura corporativa familiar que suporte a geração e manutenção da riqueza (por exemplo, o pai é um médico relativamente famoso e tem seu consultório. Os filhos seguem a tradição e se tornam médicos também e com a ajuda do pai abrem uma clínica, e podem diversificar e abrir também um laboratório de análises clínicas, e por aí vai), mas se ninguém da família aproveitar para seguir a profissão deste membro bem-sucedido, a chance de a riqueza ser mantida dentro da família diminui bastante. 

O caso da família onde o pai ou a mãe são executivos tops eu vejo como o menos provável da riqueza se manter no mesmo patamar entre uma geração e outra: de uma hora para outra o alto-executivo pode dar uma escorregada e ser mandado embora, e depois não conseguir se recolocar no mercado. No caso do funcionário público do alto escalão, os cargos mais altos e que ganham mais são de livre nomeação e exoneração (ex: ministros de estado), então também não há estabilidade, então pode acontecer o mesmo caso do alto executivo: dificuldade de se recolocar no mercado após ser exonerado.  A exceção é o poder judiciário, pois um juiz ganha muito bem e é estável, e se souber acumular patrimônio a riqueza pode ser mantida até a geração seguinte.

Agora, notem que nada disso é garantido: a empresa grande pode falir; os filhos do médico rico e famoso podem resolver aproveitar a grana do pai para se acomodar ou perseguir carreiras pouco rentáveis, e o alto-executivo pode acumular vários bônus que o permitam começar sua própria empresa ou acumular uma quantidade suficiente de ações para se tornar dono de uma parte significativa do patrimônio daquela onde ele trabalha (em se tratando de S.A., possuir 0,0001% da empresa já é uma quantia muito significativa), os filhos de um juiz ou outro funcionário público top podem pôr tudo a perder, também. Repetindo: nada é garantido. Os ricos apenas estão ricos. 

Os filhos dos ricos realmente têm vantagens no início, mas elas não são garantia de sucesso. Eu fiz faculdade pública, e convivi com alguns playboys e patricinhas na época. Todos se encaixavam nos padrões que descrevi acima. Pela minha experiência na faculdade, a maioria era acomodada, achava que estava com a vida ganha e não se preocupavam muito com o fato de que depois da faculdade teriam que começar a trabalhar. 

Um exemplo: lembro de uma filha de um funcionário bem graduado de alguma multinacional que estava fazendo faculdade de moda - será que o "nome" do pai dela necessariamente abrirá portas para a filha, por melhor que ele seja dentro da empresa?  Acho que a maior vantagem que ela pôde ter foi o "colchão de segurança" que o pai lhe proporcionou, que a permitiu se arriscar numa área em que o filho de um pobre não se meteria, mas na minha opinião, a vantagem dela parou por aí. A maior probabilidade é que ela não ganhe tanto quanto o pai e depois vai ter uma vida relativamente confortável por causa da herança, isso se tiver herança. 

Para mim, a vantagem dos filhos dos ricos é essa: a segurança para se arriscar em qualquer carreira, sabendo que caso as coisas deem errado, os pais poderão sustentá-los em um novo começo. Uma outra crítica que fazem é que o filho do empresário ou do executivo vai ser beneficiado pelos "contatos" do pai. Ok, isso pode render um estágio ou um programa de trainee, mas vai depender 100% do garotão sobreviver e crescer na empresa depois disso. Em suma, se a vida é um jogo, quem nasceu em famílias com mais posses têm vários "continue",  mas ainda correm o risco de gastarem todos eles e ficarem na pior. 

Os filhos dos pobres começam em desvantagem em relação aos dos ricos? Sim, mas isso não é garantia de uma vida inteira de pobreza e privações. A riqueza surge de algum lugar, e a origem de muita família que hoje em dia é rica é um pobre trabalhador que se esforçou, teve boas ideias, soube aproveitar as oportunidades, etc. ao invés de ficar reclamando que é pobre. 

O meu bisavô, por exemplo, foi um refugiado de alguma guerra civil que ocorreu na Espanha no início do século passado, veio para o Brasil sem nada, e conseguiu criar uma família, ter uma casa, etc, sem luxo, mas conseguiu. Adiantaria ter ficado reclamando que era só um pobre refugiado sem ter nem onde cair morto? Meu avô, filho do refugiado, era pobre também, tentou montar uma pequena empresa, foi enganado pelo sócio e perdeu tudo o que investiu, mas nunca deixou faltar comida e criou bem a minha mãe, que estudou, fez faculdade, trabalhou e me criou. O meu avô por parte de pai, filho pobre de um imigrante português mais pobre ainda, morreu relativamente jovem, de tuberculose (comum na época), e minha avó paterna criou meu pai e meu tio com o dinheiro que ganhava costurando e lavando roupa para fora. Meu pai nasceu e foi criado na pobreza, mas estudou, serviu ao exército, fez faculdade, trabalhou e construiu seu patrimônio. Sua origem pobre não o impediu de ter um bom emprego e conseguir tudo o que conseguiu.  
E mesmo entre os pobres há várias camadas de diferenciação: o filho do pobre que é dono de uma biboca ou de uma barraca de cachorro quente provavelmente terá vantagens em relação aos filhos dos outros pobres que não são donos de nada. Reclamar das dificuldades da vida não vai fazer elas sumirem, e exigir compensações por parte do governo e das empresas provavelmente vai criar distorções na economia que prejudicarão todos mais para a frente (mais impostos, menos empregos, mais burocracia, mais controles, mais leis inúteis, etc.). Participar de passeatas exigindo direitos, de movimentos estudantis, etc. só é bom para quem é o líder destes movimentos, que se projeta numa carreira política. Todos os demais participantes só estão gastando tempo e energia.

Também foi dito no texto que hoje está mais difícil ascender socialmente, e está mesmo, mas não pelos motivos que a revista apresentou (aquele blá-blá-blá falacioso e vitimista de sempre). 

Os principais e reais motivos são que hoje está mais difícil arranjar emprego e está mais difícil empreender, e isso vale para todos. O Pobretão já escreveu sobre isso lá em 2012: antigamente era mais fácil empreender e ter algum sucesso, ainda que modesto, porque a concorrência era pequena, havia poucas empresas grandes, e as que havia eram menores do que as empresa gigantes de hoje (que se locupletam com o Estado para sufocar a concorrência desde antes desta nascer). 

Além disso, era mais fácil arranjar emprego antigamente porque eram tempos em que no Brasil "era tudo mato", até nas principais cidades, e a maioria das pessoas era analfabeta ou só tinha o primário, de modo que só sabendo ler, escrever e fazer contas básicas já dava para fazer alguma coisa, e alguém com ensino médio era diferenciado, e com superior era mais ainda. Ou seja, naquela época havia muito espaço disponível para as pessoas medianas (e até para as abaixo da média) crescerem e subirem na vida. O que mudou de lá para cá?

1) Hoje em dia a educação está mais acessível do que antigamente, há mais escolas, há a internet, etc. mas não necessariamente de qualidade, mesmo em escolas particulares, e também é defasada em relação ao que o mercado precisa. Até as faculdades públicas, outrora renomadas, se tornaram lixo devido à turma da lacração e a anos de "desserviços" prestados por professores marxistas. Além disso, nossas escolas secundárias viraram meras fábricas de fazedores de provas cujo único objetivo é tirar boas notas no ENEM, e não aprender e se desenvolver intelectualmente;

2) As principais cidades, especialmente as capitais dos estados, estão saturadas: várias não possuem uma infraestrutura empresarial e produtiva que dê conta da oferta de mão de obra. O resultado disso é o achatamento de salários, desemprego, a proliferação de subempregos e informalidade;

3) Outra consequência da saturação das principais cidades é o aumento do preço dos imóveis e aluguéis - todo mundo quer um espaço nelas, para abocanhar uma fatia do imenso mercado consumidor que nelas vive, então os donos dos imóveis podem cobrar mais caro;

4) A consequência do aumento dos aluguéis é o aumento dos preços dos produtos e serviços em geral - aluguéis mais altos representam mais custos, que são repassados para os consumidores;

5) Uma das consequências de longo prazo (que já sentimos na pele) é que com salários menores as pessoas têm que trabalhar mais, fazer bicos, etc., e isso em geral significa pais menos presentes, prejudicando a formação dos filhos, o que prejudica a próxima geração.  As gerações atuais já são fruto de uma criação menos presente,  e isso explica em parte o aumento do crime, a cultura do vitimismo e a queda do nível intelectual da juventude, reforçando o item 1;

6) Além disso, hoje em dia temos muitas necessidades que na verdade são falsas e que nos impelem a consumir e gastar nosso dinheiro, dificultando o acúmulo de patrimônio;

7) Está mais fácil do que nunca gastar dinheiro: é só passar o cartão na máquina, e tem mil e uma facilidades para comprar no crédito, parcelar, etc. Tudo isso nos faz gastar mais e faz com que as pessoas menos prudentes acumulem menos patrimônio. Ou seja, incentivo total ao consumo, incentivo nenhum para a poupança;

8) Está mais difícil empreender porque a fiscalização por parte do Estado está muito mais eficiente do que no passado, a burocracia necessária é maior, os impostos estão mais altos, as empresas grandes usam o aparelho estatal para acabar com as concorrentes desde antes que elas surjam (através de lobby, influências nefastas no poder legislativo para criar mais leis esdrúxulas e controles abusivos, etc.), é potencialmente perigoso para os pequenos empresários contratarem funcionários [e isso diminui seu potencial produtivo], há muita insegurança jurídica [o empresário nunca tem certeza de que está cumprindo tudo das leis trabalhistas e tributárias - neste país podemos cometer crimes sem nem sabermos!] ; ou seja, aqui no Brasil não há incentivo nenhum para produzir, e isso inibe a oferta, reforçando os itens 2, 3 e 4 da lista.

Eu poderia continuar a lista acima indefinidamente, pois não há uma resposta certa definitiva, mas acho que os 8 itens acima explicam boa parte da dificuldade de ascender socialmente que vivenciamos hoje em dia. 

Qual a opinião de vocês a respeito disso? E da meritocracia? 

Forte Abraço! 



domingo, 4 de agosto de 2019

Salários X Responsabilidades - Onde estará o equilíbrio?

Bom dia pessoal, faz quase um mês que não escrevo nada. As coisas têm estado corridas no trabalho, tenho saído tarde quase todo dia, o que me deixa sem tempo para escrever por aqui. O artigo de hoje tem um tom de desabafo, mas também há um pouco de ciência econômica embasando. São algumas coisas que tenho pensado esses dias.

A realidade é que chefe nenhum
gosta de seus empregados, muitos
tendem a tratá-los como gado
humano, e o salário vai ser uma
eterna briga: sempre ganhamos
menos do que achamos justo
diante do que fazemos e aturamos
no trabalho e ao mesmo tempo
somos considerados muito caros
pela empresa.

O chefe recorre frequentemente ao
artifício de reduzir o salário por hora
não nos permitindo sair no horário
e/ou cobrando coisas por whatsapp
e por e-mail em dias de folga ou à
noite após o expediente e nunca
pagando hora extra.
Claro que deixar de sair no horário
porque temos um prazo apertado
para cumprir ou algo importante que
não pode ser deixado paraamanhã é questão de
responsabilidade, mas é um absurdo
ter que receber um olhar feio do chefe
e sermos adicionados na lista negraquando pedimos parair ao médico ou quandovamos sair no horário, por mais raras
que essas coisassejam. É como se o tempo doexpediente não contasse nada, e para
o chefe só valesseo tempo que passamos além do
horário. Eu entendo a questão
dos incentivos e a psicologia
aplicada: idealmente numa
empresa nenhuma tarefa "fácil"
deve ser muito bem remunerada
porque senão seria criado um
incentivo para o funcionário nunca
sair do lugar, ficar a vida toda numa
tarefa fácil e ganhando bem, mesmo
tendo potencial para fazer coisas
mais complexas . Todo os salários
têm essa logica por trás, dentre outras.
Faz sentido e é bom (acredito) para a
economia e para a sociedade que haja
o mínimo possível de pessoas
acomodadas. Porém, ao mesmo
tempo, hoje em dia há um desincentivo
para o crescimento na carreira: conheço
várias pessoas dentro e fora de onde
trabalho que, embora possam ser
promovidas, fazem de tudo para não
o serem, inclusive mentindo e
diminuindo seus currículos, se
destacando menos do que poderiam,
etc., com medo de se tornarem caros
demais para a empresa.

Além disso, creio que mesmo dentre
aqueles que ganham muito bem
(digamos, 10 mil líquido ou mais,
por mês) a maioria lida com
responsabilidades e cobranças que
excedem o benefício percebido pelo
salário. Vejam um superintendente
ou um gerente sênior, por exemplo.
Imaginem a cobrança, a quantidade
de e-mails lidos e respondidos por dia,
as reuniões, as metas absurdas,etc.
E o tempo todo com a corda no
pescoço, porque basta um vacilo para
ser mandado embora, não importando
a quantidade de sucessos anteriores.

Às vezes  são responsáveis por
recursos e patrimônio de milhões de
reais… eu me pergunto: será que o
salário compensa? Eu acho que, até
pela questão psicológica, nunca
compensa, pois estamos sempre
querendo mais, e a maioria das
pessoas que passa a ganhar cinco
mil se esquece imediatamente de
como é ganhar mil. Mas por outro
lado não acho que seja justo uma
pessoa que trabalha de 8h às 20h
ganhar 1.200,00 ou 1.500,00 (o que
é o caso de muita gente hoje em
dia), ou uma pessoa que é
responsável por gerir valores de
dezenas de milhões de reais
ganhar "apenas" 5.000,00 ou 6.000,00
(Como é o caso de muito gerente,
supervisor e coordenador por aí).
Acho que hoje em dia estamos
vivendo num hiato bastante
desconfortável: não ganhamos o
suficiente para nos sentirmos
tranquilos e planejarmos bem o
futuro e ao mesmo tempo
parece que qualquer salário de
dois mil reais é caro demais para
a empresa pagar.

Onde estará o ponto de equilíbrio? 


Outra coisa: o salário mínimo. Esse
perdeu completamente o sentido,
pois quem só ganha isso vive
mal, precisa contar as moedinhas do
troco e mal consegue cobrir os custos
de vida, por mais baixosque sejam, se é que consegue. Quem
vive de salário mínimo precisa correr e se qualificar pra ganhar mais, arranjar outro trabalho, empreender, fazer bicos, etc. Sinceramente, nem sei para quê existe o salário mínimo. Claro que a mentalidade do empresário é a de reduzir os custos ao máximo, e isso inclui os salários, e no Brasil essa mentalidade (diminuir o salário por hora exigindo que o empregado fique além do expediente) ao meu ver é pior do que em outros países, e o salário minimo idealmente serviria como uma ferramenta para evitar grandes explorações por parte dos empresários (digamos, pagar 200 reais por mês em valores atuais para o empregado trabalhar de 8h às 20h). Mas sinceramente, acho que qualquer emprego que pague apenas o mínimo já é em si uma exploração (a não ser que o emprego seja muito fácil e/ou tenha um horário bem tranquilo),  de modo que a existência do salário mínimo não evita esse tipo de situação.

Claro, numa situação hipotética, uma pessoa miserável, passando fome, se sujeitaria a qualquer trabalho em troca de qualquer pagamento e seria provavelmente explorada, mas tão logo suas necessidades mais básicas fossem satisfeitas, essa pessoa passaria a procurar oportunidades melhores (digo isso baseado na ideia da Pirâmide de Maslow) e o empregador que lhe está explorando ficaria sem o empregado. Acho que no mundo real as explorações mais extremas teriam vida curta.

Outro argumento acerca da inutilidade do salário mínimo é que há empresas que dão um jeito de burlar isso e explorar seus empregados, como é o caso de empresas que só contratam estagiários, alguns restaurantes de grandes e famosos chefs que pagam seus cozinheiros com "comida e experiência", ou o caso de vários artistas que são pagos com "divulgação" (na minha família já houve um caso assim, mas meu parente recusou o trabalho, felizmente). E é uma pena que quando tentamos conversar sobre esse tipo de assunto corremos o risco de ouvir algum "fodão-que-aguenta-tudo" dizendo coisas como "hurrr se você tá insatisfeito com o salário então pede demissão hurr durrrr", como se fosse fácil se recolocar no mercado, ou então o velho e manjado argumento "huurrr você recebe salário então não é escravo huuurrr", como se a escravidão não tivesse evoluído - Nassin Taleb ilustra bem isto em seu livro "Arriscando a própria pele" (no capítulo intitulado "Como ser dono de outra pessoa legalmente"). Não suporto essas pessoas.

Na minha opinião: salário mínimo não deveria existir (perdeu a razão de ser e não adianta de nada, além de diminuir o número de pessoas que as empresas podem contratar), e os salários não deveriam nunca ser mensais: todos deveriam ganhar por hora ou por produção, sempre com base na produção real ou nas horas realmente trabalhadas, porque é mais justo: atendeu 10 clientes? Vai receber por 10 clientes. Produziu 50 unidades? Será pago por 50 unidades. Trabalhou 10 horas? Vai receber 10 horas de salário. No outro dia teve que sair mais cedo e só trabalhou 5 horas? Receberá pelas 5 horas. Com o salário por mês é muito mais fácil ser explorado: num mês de baixa atividade, no qual você saiu "no horário" quase todo dia você recebe a mesma coisa que no mês de alta atividade, com mais reuniões e operações e vendas, no qual você saiu todos os dias duas ou três horas depois do horário. Ou seja, não importa o quanto você produziu, o salário será sempre o mesmo, e isso não é justo.



Enfim, escrevi este artigo mais em tom de desabafo mesmo, porque as ultimas semanas no trabalho têm sido duras, além de outros problemas que estou passando na família, o que me faz me sentir desmotivado e triste. Falando sinceramente, admito sem medo e sem vergonha alguma que o meu sonho (e o de muitos brasileiros, pelo que observo) é ficar num empreguinho em que eu saia no horário certo e não tenha tanta cobrança de chefe, e que não envolva gerir recursos financeiros ou materiais, e de modo que eu não possa nunca ser responsabilizado pelo erro dos outros - sei que isso é muito utópico, mas sonhar não custa nada. Na verdade, acho que só de sair no horário certo já seria um grande avanço na vida. O ideal seria poder trabalhar de casa, ou então perto de casa, pra nunca pegar trânsito e não perder tempo. Tem dias no trabalho que eu me pego pensando "esta tarefa eu podia estar fazendo de casa, pela internet", mas sei que a cultura do "presencialismo" é forte no Brasil - ninguém confia em ninguém, então é difícil uma empresa aceitar que funcionários trabalhem de home-office.


Sinceramente, gosto de trabalhar, acho que é importante para a vida, para o desenvolvimento intelectual, social, moral, etc., além de ser importante você fazer algo útil para a sociedade, mas no meu emprego não tenho ambição nenhuma de ser superintendente, diretor, vice-presidente, CEO, CFO, etc. Também não tenho vontade de deixar legados, apenas faço o meu da melhor maneira possível e pronto. Tento me manter um pouco acima da média para diminuir minha chance de ser mandado embora, e só isso. Se eu pudesse, ficaria num carguinho pequeno e sem grandes responsabilidades pelo resto da vida até me aposentar. Se eu vivesse de renda ou fosse herdar uma grande fortuna, tentaria algum trabalho braçal ou artístico só pra me ocupar. Se eu conseguir atingir a TF,conforme meu objetivo, vou procurar um trabalho assim.  Sei que nunca serei feliz no trabalho (pelo menos não no meu emprego atual), então busco alegria e felicidade na minha família e nos meus hobbies e considero o trabalho apenas um ganha-pão e ocupador de tempo. Me dedico com mais afinco aos meus hobbies e aos meus estudos. São essas coisas (família, hobbies, estudos) que me fazem continuar seguindo em frente e aturando o dia-a-dia no trabalho, é assim que lido com isso.
E vocês, como encaram o dia-a-dia? O que lhes dá forças?

Forte abraço!




terça-feira, 9 de julho de 2019

Mais sobre o padrão-ouro: os mecanismos da Deflação


Retomando o assunto do padrão ouro, do qual sou entusiasta, como já disse.

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Vamos explorar um pouco mais a questão da diminuição dos preços da economia (deflação), a qual seria uma consequência bastante provável no caso da adoção de um padrão ouro no país.

(Cabe ressaltar que a  probabilidade de deflação aumentaria ainda mais com a eventual abolição do salário mínimo (ou seja, se deixássemos o mercado ditar o "salário mínimo", e não uma lei) - esta questão abordarei em outro artigo).

Pode ser que com uma eventual volta do padrão ouro, talvez ocorresse uma "febre do ouro", aumentando o ritmo das atividades de mineração, por exemplo, expandindo a oferta. Tal aumento da oferta do metal, se chegasse a se tornar excessivo, faria seu preço diminuir de modo a tornar proibitivo o custo de mineração, desestimulando novos aumentos da oferta, reestabilizando o preço e suavizando a curva de evolução da oferta de ouro para patamares mais, digamos, aceitáveis.

A possibilidade de deflação se encontra na razão entre a variação da oferta de ouro (que seria igual à oferta monetária desta nova economia) e a taxa de crescimento da economia. Se a oferta de ouro crescesse no mesmo ritmo que a economia, os preços se manteriam bastante estáveis (e a economia provavelmente estaria crescendo bem devagar). Se a oferta de ouro crescesse num ritmo mais lento que a economia (o que é de se esperar, dado que, até onde sabemos, o ouro é um metal raro), os preços em geral tenderiam a diminuir, porque com o crescimento da oferta de bens e serviços, o ouro se tornaria relativamente mais escasso frente à produção total da economia. Em outras palavras, a mesma quantidade de ouro compraria um número maior de bens e serviços, porque estes estão se tornando mais abundantes mais rapidamente do que aquele. Vejam que "ouro" neste texto não deve ser necessariamente entendido em sentido literal: basta que o lastro da moeda seja um bem  suficientemente escasso, com oferta inelástica (ou quase inelástica), de uso aceito pela sociedade e que dê confiança. Podem ser diamantes, rubis, prata, platina, ródio, paládio, ou até mesmo uma cesta destes e vários outros bens dotados das características mencionadas e que cumpram as três funções da moeda (unidade de conta, reserva de valor e meio de troca). O ruim é a moeda fiduciária (sem valor intrínseco, ou seja, o valor é mera questão de fé e confiança), que é o caso de praticamente todas (senão todas) as moedas do mundo atual.

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Vejam como o Real está sendo destruído pela inflação. Como isso pode estar certo?


Conforme disse em meu outro post sobre padrão-ouro, as consequências disso para quem poupa seu dinheiro seriam ótimas: até o dinheiro guardado em casa seria um investimento pois a deflação faria com que ele se valorizasse em relação aos bens cotados em ouro. Sendo assim, até mesmo se você guardasse regularmente uma parte do seu dinheiro "num colchão", sua velhice estaria paga, pois 50 anos depois uma moeda teria seu valor multiplicado pela deflação. Bastaria poupar para ter um bom patrimônio e se aposentar sem ter que pensar em aplicações financeiras complicadas. Cada moeda estaria valendo mais, fora qualquer renda passiva que se conseguisse. Isso dá ensejo a mais um argumento favorável ao padrão-ouro: o incentivo à poupança. Tal incentivo traz como benefício o aumento do estoque de dinheiro disponível para empréstimos, o que torna o custo de tais empréstimos mais barato, ou seja, juros mais baixos. A consequência de juros mais baixos é o aumento dos investimentos (o que em economia tem um significado diferente do mundo das finanças; em "economês" investimento significa compra de capital, ou seja, aquisição de máquinas, equipamentos, fábricas, ferramentas, etc., ou seja, aquisição de bens produtivos com finalidade empreendedora). O aumento dos investimentos, por sua vez, gera mais empregos (mais fábricas significa no mínimo maior demanda por pessoas para vender, transportar, entregar, supervisionar a produção, controlar a qualidade, fazer marketing, etc.) e aumenta a produção, o que por sua vez aumenta a oferta do bem fabricado, o que contribui para reduzir sua escassez e, consequentemente, diminuir seu preço - mais bens para uma quantidade estável de moeda, ou seja, cada unidade monetária adquire uma quantidade cada vez maior de bens. Viram como uma moeda com lastro (ou pelo menos uma moeda de oferta inelástica) pode, ajudar a criar ciclos virtuosos que beneficiam toda a sociedade, sem a necessidade de nenhum plano econômico mirabolante ou produtos financeiros complicados? Uma economia saudável gera preços decrescentes, que contribuem para diminuir o custo de vida, o que por sua vez contribui para aumentar a liberdade econômica dos indivíduos. A deflação, na forma como a descrevi acima, é algo bom e desejável.

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Mas, por incrível que pareça, o que é ensinado por aí é bem diferente.

Na minha pós-graduação (que tive que fazer por causa do trabalho, há dois anos...), eu tive uma cadeira de economia, e o professor dizia que a deflação era uma coisa ruim (me parece uma ideia keynesiana, uma vez que nesta teoria a inflação é que é vista como uma coisa boa para a economia... vai entender). A explicação dada por ele era a seguinte: em um cenário deflacionista, a economia desaceleraria com a queda do consumo, porque todo mundo iria esperar os preços diminuírem para consumir. Na minha humilde opinião, tal pensamento é no máximo meio certo. De fato o consumo de alguns produtos supérfluos diminuiria porque algumas pessoas esperariam alguma diminuição do preço para consumir, mas isso não iria zerar o consumo! As pessoas não param de consumir só porque sabem que os preços vão diminuir. Notem que isso já poderia acontecer hoje em dia: todo mundo sabe que o preço do iPhone XR, vai diminuir quando o iPhone 11 for lançado. Segundo o raciocínio de quem acha que a deflação é ruim, ninguém compraria o iPhone XR porque sabe que ano que vem será lançado o iPhone 11. É isso o que observamos na realidade? Claro que não! E estamos falando de bens supérfluos. Algumas pessoas podem até esperar o preço abaixar, mas o consumo estará longe de ser zero. Em relação aos bens normais, principalmente os de primeira necessidade, este argumento contra a deflação se torna ainda mais esdrúxulo. Pensem no arroz. Só porque eu sei que daqui a um mês o arroz vai ficar mais barato, eu vou deixar de comer arroz hoje? Claro que não!  Em relação a bens de primeira necessidade, mesmo num cenário de deflação o consumo seria quase inalterado. Não vejo cabimento na teoria de que as pessoas adiariam o consumo de alimentos e remédios para esperar mais uma queda nos preços.  O consumo de bens normais continuaria, digamos, normal. Sinceramente, não sei como o professor não pensou em como o argumento que ele usou era fraco. Talvez ele só tenha ouvido na época em que fez a faculdade dele e agora repete, que nem um papagaio.

Sei que hoje em dia uma moeda com lastro parece um sonho distante, principalmente com lastro em metais preciosos, mas sonhar não custa nada... Quem sabe o mundo, um dia, não desperte da ilusão que é o dinheiro fiduciário...

Forte abraço!