sábado, 10 de agosto de 2019

Sobre a meritocracia e ascensão social



Eis que a revista Exame publicou este artigo no mês passado, falando mal sobre a meritocracia. Inspirado por este artigo, tecerei meus comentários.
Por um lado, admito que "meritocracia" é algo que tem sido superestimado nas empresas e se tornou já faz muito tempo uma das palavras da moda, usada para justificar uma porção de atitudes e decisões empresariais, mesmo que não tenham nada a ver ou que sejam injustificáveis.

Primeiramente, meritocracia não justifica tudo, e o "mérito" nem sempre  serve, nem sempre é suficiente e nem sempre te renderá frutos. Vejam bem: uma vez tive que ficar no escritório até meia noite e meia (foi o meu recorde de sair tarde do trabalho - espero que esse continue para sempre como o meu recorde) porque estava resolvendo um problema complicadíssimo cujo prazo era o dia seguinte, ou seja, não poderia ir embora até que estivesse tudo terminado. Terminei meu trabalho, e o problema foi resolvido. Tive o mérito de resolver o problema! Ganhei alguma coisa? Fora o aprendizado e a satisfação pessoal, o benefício de não ser mandado embora por causa das consequências que aquele problema teria causado se eu não o tivesse resolvido. Porém, como eu resolvi, as consequências não aconteceram e ninguém além de mim ficou sabendo. Entenderam? Somente o mérito em si não quer dizer muita coisa. É fato que o sucesso em muitas áreas da vida dependerá de N fatores além do mérito, e isso inclui uma dose bem alta daquilo que alguns interpretam como sendo sorte e outros como sendo destino, e não há nada que ninguém possa fazer para mudar isso, para o desespero de muitos histéricos.
Então, realmente, "meritocracia" é um conceito vago e superestimado.

Por outro lado, discordo da maioria das coisas que o autor do artigo escreveu. Ele cambou para um discurso esquerdista mal disfarçado e falou bobagens. Para começar, ao contrário do que ele afirma implicitamente, nascer numa família rica não é garantia de ter vida tranquila e nascer numa família pobre não significa estar condenado a uma vida de dificuldades. Primeiro vamos concordar numa coisa: em termos de dinheiro, ninguém é rico, no máximo está rico, pois a riqueza material pode ser perdida de várias maneiras e o estado natural do ser humano é a pobreza. Segundo: o que é uma família rica? Me parece que os exemplos no imaginário popular brasileiro são as famílias donas de grandes e médias empresas (ok), ou aquelas com membros que são profissionais liberais de destaque, como médicos ou advogados com muitos clientes ou clientes ricos (ok), ou as famílias em que ao menos um dos membros é um alto-executivo de alguma empresa (discutível) ou um funcionário público do mais alto escalão (também discutível), principalmente se for do poder judiciário.
De todos esses exemplos, julgo que o que tem mais chance de fazer a riqueza fluir para as próximas gerações é o da família dona de grande ou média empresa. No caso do profissional liberal bem-sucedido, a chance é boa se a família se tornar um verdadeiro clã naquela profissão e montar uma estrutura corporativa familiar que suporte a geração e manutenção da riqueza (por exemplo, o pai é um médico relativamente famoso e tem seu consultório. Os filhos seguem a tradição e se tornam médicos também e com a ajuda do pai abrem uma clínica, e podem diversificar e abrir também um laboratório de análises clínicas, e por aí vai), mas se ninguém da família aproveitar para seguir a profissão deste membro bem-sucedido, a chance de a riqueza ser mantida diminui bastante. O caso da família onde o pai ou a mãe são executivos tops eu vejo como o menos provável da riqueza se manter no mesmo patamar entre uma geração e outra: de uma hora para outra o alto-executivo pode dar uma escorregada e ser mandado embora, e depois não conseguir se recolocar no mercado. No caso do funcionário público do alto escalão, os cargos mais altos e que ganham mais são de livre nomeação e exoneração (ex: ministros de estado), então também não há estabilidade, então pode acontecer o mesmo caso do alto executivo: dificuldade de se recolocar no mercado após ser exonerado.  A exceção é o poder judiciário, pois um juiz ganha muito bem e é estável, e se souber acumular patrimônio a riqueza pode ser mantida até a geração seguinte.

Agora, notem que nada disso é garantido: a empresa grande pode falir; os filhos do médico rico e famoso podem resolver aproveitar a grana do pai para se acomodar ou perseguir carreiras pouco rentáveis, e o alto-executivo pode acumular vários bônus que o permitam começar sua própria empresa ou acumular uma quantidade suficiente de ações para se tornar dono de uma parte significativa do patrimônio daquela onde ele trabalha (em se tratando de S.A., possuir 0,0001% da empresa já é uma quantia muito significativa), os filhos de um juiz ou outro funcionário público top podem pôr tudo a perder, também. Repetindo: nada é garantido. Os ricos apenas estão ricos. 

Os filhos dos ricos realmente têm vantagens no início, mas elas não são garantia de sucesso. Eu fiz faculdade pública, e convivi com alguns playboys e patricinhas na época. Todos se encaixavam nos padrões que descrevi acima. Pela minha experiência na faculdade, a maioria era acomodada, achava que estava com a vida ganha e não se preocupavam muito com o fato de que depois da faculdade teriam que começar a trabalhar. Um exemplo: lembro de uma filha de um funcionário bem graduado de alguma multinacional que estava fazendo faculdade de moda - será que o "nome" do pai dela necessariamente abrirá portas, por melhor que ele seja dentro da empresa?  Acho que a maior vantagem que ela pôde ter foi o "colchão de segurança" que o pai lhe proporcionou, que a permitiu se arriscar numa área em que o filho de um pobre não se meteria, mas na minha opinião, a vantagem dela parou por aí. A maior probabilidade é que ela não ganhe tanto quanto o pai e depois vai ter uma vida relativamente confortável por causa da herança, isso se tiver herança. Para mim, a vantagem dos filhos dos ricos é essa: a segurança para se arriscar em qualquer carreira, sabendo que caso as coisas deem errado, os pais poderão sustentá-los em um novo começo. Uma outra crítica que fazem é que o filho do empresário ou do executivo vai ser beneficiado pelos "contatos" do pai. Ok, isso pode render um estágio ou um programa de trainee, mas vai depender 100% do garotão sobreviver e crescer na empresa depois disso. Em suma, se a vida é um jogo, quem nasceu em famílias com mais posses têm vários "continue",  mas ainda correm o risco de gastarem todos eles e ficarem na pior. 

Os filhos dos pobres começam em desvantagem em relação aos dos ricos? Sim, mas isso não é garantia de uma vida inteira de pobreza e privações. A riqueza surge de algum lugar, e a origem de muita família que hoje em dia é rica é um pobre trabalhador que se esforçou, teve boas ideias, soube aproveitar as oportunidades, etc. ao invés de ficar reclamando que é pobre. O meu bisavô, por exemplo, foi um refugiado de alguma guerra civil que ocorreu na Espanha no início do século passado, veio para o Brasil sem nada, e conseguiu criar uma família, ter uma casa, etc, sem luxo, mas conseguiu. Adiantaria ter ficado reclamando que era só um pobre refugiado sem ter nem onde cair morto? Meu avô, filho do refugiado, era pobre também, tentou montar uma pequena empresa, foi enganado pelo sócio e perdeu tudo o que investiu, mas nunca deixou faltar comida e criou bem a minha mãe, que estudou, fez faculdade, trabalhou e me criou. O meu avô por parte de pai morreu relativamente jovem, de tuberculose (comum na época), e minha avó paterna criou meu pai e meu tio com o dinheiro que ganhava costurando e lavando roupa para fora. Meu pai nasceu e foi criado na pobreza, mas estudou, serviu ao exército, fez faculdade, trabalhou e construiu seu patrimônio. Sua origem pobre não o impediu de ter um bom emprego e conseguir tudo o que conseguiu.  
E mesmo entre os pobres há várias camadas de diferenciação: o filho do pobre que é dono de uma biboca ou de uma barraca de cachorro quente provavelmente terá vantagens em relação aos filhos dos outros pobres que não são donos de nada. Reclamar das dificuldades da vida não vai fazer elas sumirem, e exigir compensações por parte do governo e das empresas provavelmente vai criar distorções na economia que prejudicarão todos mais para a frente (mais impostos, menos empregos, mais burocracia, mais controles, mais leis inúteis, etc.). Participar de passeatas exigindo direitos, de movimentos estudantis, etc. só é bom para quem é o líder destes movimentos, que se projeta numa carreira política. Todos os demais participantes só estão gastando tempo e energia.

Também foi dito no texto que hoje está mais difícil ascender socialmente, e está mesmo, mas não pelos motivos que a revista apresentou (aquele blá-blá-blá falacioso e vitimista de sempre). 
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Tá difícil...
Os principais e reais motivos são que hoje está mais difícil arranjar emprego e está mais difícil empreender, e isso vale para todos. O Pobretão já escreveu sobre isso lá em 2012: antigamente era mais fácil empreender e ter algum sucesso, ainda que modesto, porque a concorrência era pequena, havia poucas empresas grandes, e as que havia eram menores do que as gigantes de hoje (que se locupletam com o Estado para sufocar a concorrência desde antes desta nascer). Além disso, era mais fácil arranjar emprego antigamente porque eram tempos em que no Brasil "era tudo mato", até nas principais cidades, e a maioria das pessoas era analfabeta ou só tinha o primário, de modo que só sabendo ler, escrever e fazer contas básicas já dava para fazer alguma coisa, e alguém com ensino médio era diferenciado, e com superior era mais ainda. Ou seja, naquela época havia muito espaço disponível para as pessoas medianas (e até para as abaixo da média) crescerem e subirem na vida. O que mudou de lá para cá?

1) Hoje em dia a educação está mais acessível do que antigamente, há mais escolas, há a internet, etc. mas não necessariamente de qualidade, mesmo em escolas particulares, e também é defasada em relação ao que o mercado precisa. Até as faculdades públicas, outrora renomadas, se tornaram lixo devido à turma da lacração e a anos de "desserviços" prestados por professores marxistas. Além disso, nossas escolas secundárias viraram meras fábricas de fazedores de provas cujo único objetivo é tirar boas notas no ENEM, e não aprender e se desenvolver intelectualmente;

2) As principais cidades, especialmente as capitais dos estados, estão saturadas: várias não possuem uma infraestrutura empresarial e produtiva que dê conta da oferta de mão de obra. O resultado disso é o achatamento de salários, desemprego, a proliferação de subempregos e informalidade;

3) Outra consequência da saturação das principais cidades é o aumento do preço dos imóveis e aluguéis - todo mundo quer um espaço nelas, para abocanhar uma fatia do imenso mercado consumidor que nelas vive, então os donos dos imóveis podem cobrar mais caro;

4) A consequência do aumento dos aluguéis é o aumento dos preços dos produtos e serviços em geral - aluguéis mais altos representam mais custos, que são repassados para os consumidores;

5) Uma das consequências de longo prazo (que já sentimos na pele) é que com salários menores as pessoas têm que trabalhar mais, fazer bicos, etc., e isso em geral significa pais menos presentes, prejudicando a formação dos filhos, o que prejudica a próxima geração.  As gerações atuais já são fruto de uma criação menos presente,  e isso explica em parte o aumento do crime, a cultura do vitimismo e a queda do nível intelectual da juventude, reforçando o item 1;

6) Além disso, hoje em dia temos muitas necessidades que na verdade são falsas e que nos impelem a consumir e gastar nosso dinheiro, dificultando o acúmulo de patrimônio;

7) Está mais fácil do que nunca gastar dinheiro: é só passar o cartão na máquina, e tem mil e uma facilidades para comprar no crédito, parcelar, etc. Tudo isso nos faz gastar mais e faz com que as pessoas menos prudentes acumulem menos patrimônio. Ou seja, incentivo total ao consumo, incentivo nenhum para a poupança;

8) Está mais difícil empreender porque a fiscalização por parte do Estado está muito mais eficiente do que no passado, a burocracia necessária é maior, os impostos estão mais altos, as empresas grandes usam o aparelho estatal para acabar com as concorrentes desde antes que elas surjam (através de lobby, influências nefastas no poder legislativo para criar mais leis esdrúxulas e controles abusivos, etc.), é potencialmente perigoso para os pequenos empresários contratarem funcionários [e isso diminui seu potencial produtivo], há muita insegurança jurídica [o empresário nunca tem certeza de que está cumprindo tudo das leis trabalhistas e tributárias - neste país podemos cometer crimes sem nem sabermos!] ; ou seja, aqui no Brasil não há incentivo nenhum para produzir, e isso inibe a oferta, reforçando os itens 2, 3 e 4 da lista.

Eu poderia continuar a lista acima indefinidamente, pois não há uma resposta certa definitiva, mas acho que os 9 itens acima explicam boa parte da dificuldade de ascender socialmente que vivenciamos hoje em dia. 

Qual a opinião de vocês a respeito disso? E da meritocracia? 

Forte Abraço! 



4 comentários:

  1. na minha opinião a meritocracia inicia-se no berço.
    Isso porque, evidentemente, meus filhos irão aproveitar as minhas conquistas.
    No entanto, como você disse, isso não é garantia de nada.
    Meu filho pode pegar tudo e gastar. Pode não querer fazer nada. Pode se envolver com uma puta, que vai tomar tudo dele, etc.
    Acho que os pais devem sim procurar deixar um patrimônio para os filhos, mas o mais importante é deixar educação de qualidade.
    Ensinar a importância do trabalho, da educação e do dinheiro. Isso mesmo, do dinheiro.
    Uma pessoa pobre viver a vida toda pobre é uma coisa. Agora, uma pessoa que teve dinheiro passar a ser pobre é sofrível.
    Conheço várias famílias que passaram por isso. Normalmente é quando o pai (cabeça da família) morre ou entrega tudo aos filhos em vida. Na maioria das vezes acaba em tragédia, visto que os filhos não foram preparados adequadamente.
    Como tudo caía do céu, acostumaram-se com o fácil, sendo que a realidade é bem diferente.

    Um ponto a respeito da meritocracia: ela só é importante quando é percebida por quem pode premiá-la. Ou seja, na maioria das vezes, ela não se efetiva. Não recebe a contrapartida (recompensa).
    Abraço!

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    1. Verdade,anônimo. Todo pai deveria se preocupar em deixar um patrimônio para os filhos e principalmente investir na educação e formação deles. As pessoas que dizem que os ricos e a classe média são privilegiados se esquecem de que a riqueza e o patrimônio vieram de algum lugar, e ignoram o "mérito" que um ancestral mais pobre (um avô, ou o pai e a mãe) teve de poupar e deixar o patrimônio para a geração seguinte.
      Abraço e obrigado pelo comentário!

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  2. Eu sempre achei que a maioria das pessoas que são contrárias ao conceito de meritocracia é porque elas querem exigir que a meritocracia seja algo perfeito, o que não é possível na realidade nem para a meritocracia e nem para nenhuma outra coisa.

    Eu vejo o sucesso como algo que necessita da chave: Trabalho duro + Sorte.

    Para tentar explicar de uma forma simples: Mesmo com trabalho duro, pode ser que você não alcance seus objetivos. Mas sem trabalho duro é certeza que você nunca alcançara seus objetivos.

    Mesmo se esforçando pode ser que a pessoa morra antes ou aconteça algo relacionado a sorte ou acaso que ninguém poderia prever e nem controlar (morrer em um acidente, desenvolver uma doença grave e etc).

    Mas sem trabalho duro, ninguém nunca vai alcançar o sucesso a não ser que já nasça em uma família rica e se for preguiçoso possivelmente morrerá na pobreza.

    Muitas pessoas são contrárias a ideia de meritocracia porque elas querem sucesso garantido e isso é simplesmente impossível. Nunca vai haver um sistema que garanta sucesso para todos.

    Excelente blog, abraço!

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    1. Obrigado pelo elogio, anônimo! A sorte realmente tem um papel fundamental na vida, mais do que a maioria das pessoas gosta de admitir. E nada, nada mesmo, garante o sucesso.
      Abraço e apareça!

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