domingo, 16 de agosto de 2020

Sobre a blackpill da inteligência artificial


A humanidade, desde que o mundo é mundo, parece ter uma propensão a imaginar cenários pessimistas e de grande desolação. Talvez seja um dos sintomas do Paraíso perdido.

Deve ter sido assim na época da peste negra na Europa: muita gente deve ter imaginado que o mundo ia acabar e que todos morreriam doentes. Na época da gripe espanhola deve ter sido a mesma coisa. Acredito também que na época do nazismo, muitos tenham imaginado que o 3º reich se tratava literalmente do exército do anticristo marchando sobre a Terra, e que hitler conquistaria o mundo, trazendo assim os últimos dias. Na época da Guerra Fria (que aliás, não acabou), o grande medo que assolava os corações de muita gente era o da guerra nuclear, quando EUA e URSS disparariam seus mísseis e mergulhariam o mundo em um inferno radioativo (os mísseis teoricamente ainda existem, mas as pessoas pararam de se preocupar tanto com eles, e arranjaram outras fontes de preocupação, como o aquecimento global, agora chamado de climate change). Atualmente, com a rapidez e acessibilidade das informações, a imaginação do ser humano corre mais solta do que nunca, e acabou agravando essa questão dos cenários pessimistas. Já há alguns anos, foi cunhado na internet o termo "blackpill", o qual é derivado da "redpill" cuja origem é o filme Matrix. A redpill é uma metáfora para uma informação que, assim que passamos a conhecer, nos liberta de alguma forma, nem que seja "apenas" nos libertar de uma mentira. A sua derivada "blackpill", por outro lado, é uma informação que nos deixa deprimidos e pessimistas tão logo passamos a conhecê-la. Muitas "redpills" divulgadas são na verdade blackpills disfarçadas.
Atualmente uma blackpill que é amplamente divulgada é a respeito da inteligência artificial (IA).

Praticamente tudo o que se escreve a respeito de IA tem um tom depressivo no fundo, porque a maioria dos artigos fala a respeito de como muitos empregos vão acabar porque haverá "robôs" e sistemas inteligentes que substituirão seres humanos, e quase todos os artigos falam da necessidade de as pessoas se atualizarem para se manterem empregáveis - o problema é que nesses artigos isso soa como um contra-senso, pois pelo tom do próprio artigo "tudo será automatizado", então meio que não há para onde correr, e alguns dos trabalhos mais fáceis de serem automatizados são justamente os da área de TI. 

Grosso modo, uma IA é como um modelo matemático que se retroalimenta de dados coletados na vida real para se aperfeiçoar continuamente. A ideia em si da IA já é bem antiga, mas só recentemente é que ela se tornou possível de ser implementada por causa da melhora nas tecnologias de armazenamento: é necessário um imenso volume de dados para treinar e para operar uma IA, e era inviável reunir tantos dados assim nos tempos do disquete e mesmo depois nos tempos dos pendrives de 300mb que custavam cinquenta reais e as taxas de transmissão e processamento eram frações do que existe hoje. 

Outra maneira de explicar: uma IA é como um modelo econométrico em que os coeficientes angulares das variáveis explicativas (os "betas") são continuamente ajustados para se encaixarem cada vez melhor aos resultados observados na realidade. Como a realidade é moldada em parte por seres humanos (e seres humanos são em muitos aspectos imprevisíveis) e em uma parte muito maior pelo restante da natureza (cujas leis ainda estamos longe de realmente compreender), nunca haverá um sistema que explique perfeitamente a realidade de qualquer coisa. Além disso, a realidade não é 100% lógica: há diversas situações (inclusive em finanças) em que a decisão mais racional não necessariamente será matematicamente perfeita, e pode até mesmo ser desvantajosa do ponto de vista matemático, mas possui um motivo mais profundo, na área emocional, que a justifica. É o que faz uma pessoa vender ações com prejuízo porque precisa do dinheiro, ou comprar uma casa assumindo uma dívida de 30 anos mesmo que fosse mais barato pagar aluguel, por exemplo.

Muitos textos que circulam na internet descrevem um mundo bastante apocalíptico em que 99% das pessoas ficaram desempregadas por causa da IA e se tornaram mendigos, enquanto  1% se divide entre os donos de IAs e os poucos empregados remanescentes, ultra especializados (mas já destinados a se tornarem obsoletos, segundo as regras deste mundo hipotético). Pouco depois, só sobrariam os donos de IAs e uma multidão de mendigos como se jamais viu. Assumindo que tudo isso seja verdade, o que poderia acontecer nesse mundo?

- Será que dentre esses bilhões de mendigos ninguém tem nenhuma posse, nenhum patrimônio? Todo mundo que era dono de um imóvel,  por exemplo, vendeu a casa para aumentar seu tempo de sobrevida? Donos de carros venderam seus carros também? Para quem? Será que os donos de IAs seriam os donos de todos os bens do mundo?

- Se quase todo mundo está desempregado, então as empresas (que são operadas por IAs) vendem seus produtos e serviços para quem? De onde essa massa de mendigos tira dinheiro? De onde vem o lucro das empresas? Dinheiro faria sentido em um sistema em que a vasta maioria das pessoas está excluída dele?

- Será que os mendigos viveriam de uma "renda mínima universal"? Se for, então no fundo são todos empregados dos donos da IA (os únicos que produzem riqueza), e o "emprego" deles consiste em ser mendigo e girar o dinheiro dessa renda mínima. Se for possível economizar alguma parte do dinheiro desta renda, comprar ações das empresas, etc., então eventualmente os mendigos se tornariam proprietários também. Se não for possível este tipo de melhora, então eventualmente essa ordem seria rompida, caso a vida destes mendigos seja muito ruim. Além disso, provavelmente os mendigos formariam uma sociedade paralela para sobreviver. (Na verdade, durante uma boa parte da idade média (pelo menos na Europa), a grande maioria dos camponeses e servos nem lidava com dinheiro e a riqueza na época era representada principalmente por terras e não por moedas. Até mesmo os nobres não usavam muito o dinheiro. Por um bom tempo moedas foram coisas relativamente raras, e os camponeses mal tinham acesso aos "centavos" da época e nem precisavam. As pessoas comuns trabalhavam pela subsistência, e impostos eram cobrados em víveres - futuramente escreverei sobre isso)

- Note que se houver uma renda mínima universal,  ela só pode vir através de impostos ou de contribuições voluntárias, e como somente os donos das empresas operadas por IAs estariam produzindo, estes valores viriam deles. De um jeito ou de outro, ela não faria muito sentido em um mundo como o descrito, pois o dinheiro sairia de um lugar para voltar para o mesmo lugar, grosso modo.

- Aquele cara esquisito que escreveu os livros "sapiens"e "homo deus" descreve que o dinheiro ainda faria sentido em um mundo como esse porque as empresas operadas por IAs fariam transações entre si, mas para mim não faz sentido haver dinheiro porque, também segundo o autor, as "pessoas comuns" não teriam acesso a ele. O que ele descreveu, na verdade, seria um sistema contábil onde as empresas registraram que produtos e serviços estão devendo umas às outras e traduzindo isso na forma de números, e não dinheiro, o qual seria irrelevante. Haveria na verdade um "escambo automatizado" entre as empresas operadas por IAs. Se houvesse dinheiro e este ainda fosse relevante e as pessoas comuns neste cenário apocalíptico não tivessem acesso a tal dinheiro por serem "inempregáveis" da maneira como o autor definiu, então muito provavelmente surgiria uma sociedade paralela com moedas próprias ou simplesmente escambo. (Além disso, o próprio autor destes livros não é uma pessoa 100% confiável e intelectualmente honesta, porque em seus escritos reduziu a experiência humana apenas aos aspectos econômicos e faz algumas comparações esdrúxulas para justificar seus pontos de vista) 

- Mesmo em um mundo onde você se tornou "inempregável", se você tem um imóvel você pode alugá-lo, morar em um lugar com aluguel mais barato e embolsar a diferença. O mesmo vale se você for dono de um carro, de um barco, de qualquer bem com utilidade econômica que possa ser alugado para um terceiro. A renda de um proprietário não estaria ameaçada por IAs. Esse é uma coisa (ser proprietário de algo) em que é indiferente ser humano ou ser IA. 

- a maior parte das "IA" hoje em dia são meros geradores de lero lero melhorados. Muitas são chatbots que dão a resposta estatisticamente mais provável que um ser humano esperaria para determinada pergunta (e se um número suficiente de pessoas resolver sabotar uma IA, inventando respostas absurdas, ela pode passar com o tempo a dar as respostas erradas - foi o que aconteceu com uma IA da Microsoft) - não existe e nunca existirá um sistema infalível. Se atualmente há pessoas que se dedicam horas por dia para descobrir glitches em jogos para melhorarem seus tempos em speed runs, não acho difícil que surjam pessoas dedicadas a encontrar e explorar falhas em sistemas operados por IAs com os mais diversos propósitos.

- outro papo que costuma ser levantado por muitos deslumbrados é o de que eventualmente as IAs reescreverão seus próprios códigos e com isso suas performances "iriam decolar". Acho que isso não rola. Primeiro que uma IA não conseguiria se reescrever sozinha, ela precisaria de outra IA que lhe fosse superior para fazer isso por ela. Além disso, há um limite para a capacidade de melhora em reescrever um código. A primeira reescrita poderia até dar uma grande melhorada mas a partir daí as próximas melhorias seriam mais incrementais. E no fim o software será sempre limitado pelo hardware e pelas próprias leis da física.

-  Máquinas escrevendo códigos também não é novo: já existem há uns 30-40 anos programas que "escrevem sozinhos" as partes mais básicas de algoritmos, o que na verdade economiza o tempo dos programadores e nem de longe acabou com o emprego deles. 

- Num cenário em que não há mão de obra humana e absolutamente tudo é produzido por máquinas, então o preço de quase todas as mercadorias e serviços tenderia a zero. Não seria zero porque os recursos continuariam escassos então ainda persistiria a necessidade de um mecanismo de preços para equilibrar oferta e demanda, mas sem o custo de mão de obra em todas as atividades econômicas, tudo seria muito barato. Isso considerando, é óbvio, um cenário em que existe concorrência entre empresas.

- As consequências possíveis da automatização não são somente o desemprego: estando as pessoas desocupadas de funções que foram automatizadas /mecanizadas, podem muito bem surgir novas necessidades humanas (que são infinitas) para atividades que nem existem ainda, e aí serão aproveitadas as pessoas que foram substituídas por máquinas. Numa época em que toda a produção agrícola dependia de muita mão de obra humana, as pessoas não tinham nem tempo para pensar em outras coisas que não fossem a lavoura, o estoque para o inverno e as pragas. Não havia nem gente suficiente para tornar viáveis outros serviços possíveis. Tendo sido liberadas do campo pela mecanização da agricultura e pelo consequente aumento da eficiência de sua produção, muitas ocupações antes inimagináveis foram inventadas (por exemplo, era impensável alguém ser escritor em tempo integral, ou cuidador de idosos, ou revisor de textos, ou operador de trator, ou mecânico de tratores, ou vendedor de combustível para tratores, ou frentista de posto, ou planejador de supply chain, etc. etc.) . Porque o mesmo não ocorreria com as automatizações de hoje em dia?

- Por fim, a verdadeira inteligência vem da alma, e não do cérebro. O cérebro é um emissor e receptor, e não a fonte da inteligência. E a humanidade não é capaz de criar almas. 

Fiquem com Deus!

terça-feira, 28 de julho de 2020

Minha opinião sobre trades



Trade é um daqueles assuntos sazonais na mídia, e geralmente vem à tona quando a bolsa está registrando alta seguida de alta. Digo até que é possível medir a "temperatura" da bolsa sem acompanhar as notícias, só olhando para os anúncios patrocinados de cursos de trade e consultorias que surgem no YouTube, mesmo em vídeos que não tem nada a ver com finanças. 

Eu acho trade uma coisa muito perigosa, e vou explicar o porquê.



Vou ilustrar com um exemplo hipotético:




Vamos supor que com o que você ganha dê para separar 500 reais por mês para trades.




Agora vamos supor que você tenha dado muita sorte e conseguido um lucro de 40% líquidos em um dia e seus 500 viraram 700. Para ganhar esses 200 reais você provavelmente  teve que ficar o dia inteiro acompanhando a cotação, olhando pro monitor, pro celular, atualizando seu sistema, etc. observando a cotação subir e descer, observando seu dinheiro crescer e diminuir, com todo o estresse que isso envolve e provavelmente negligenciando qualquer outra coisa que estivesse ou que deveria estar fazendo. A meu ver, não vale à pena esse esforço para ganhar duzentos reais. E esse retorno de 40% nem tem como ser consistente. 




Mesmo que você tivesse um lucro de 100% não valeria a pena, porque você ganharia 500 reais no meu exemplo hipotético. Seus 500 viraram 1.000 em um dia, mas isso não é grande coisa: 1000 reais não mudam a vida de ninguém e, afinal,  quem consegue fazer 100% de lucro consistentemente? Ninguém. Portanto, o primeiro ponto negativo do trade, na minha opinião, é esse: não é possível você ganhar aquela bolada, aquela famosa bolada que mudaria a sua vida, fazendo trade apenas com valores que você está disposto a perder e que não te prejudicariam em nada no caso de uma perda total. Ninguém vai chegar a lugar nenhum "operando o pozinho". Só vai ter dor de cabeça e é praticamente dar dinheiro de graça para a corretora, pois a corretagem você  sempre paga, independente de ter lucro ou não.  É que nem nos cassinos: a casa sempre vence.

Mas atenção! Isso não significa que operar grandes quantias valha à pena, conforme veremos a seguir.



Outro exemplo: com muito esforço e trabalho, um assalariado brasileiro médio junta seus 100 mil reais (por exemplo, 10 anos de economias) e imprudentemente resolve que com esse dinheiro dá para "viver de bolsa" fazendo trades. Se ele desse muita, mas muita sorte mesmo e ganhasse 100% líquidos em suas operações (extremamente difícil de acontecer - além da probabilidade do evento em si ser bastante baixa, ainda tem todos os custos com taxas, corretagens e impostos), os 100K virariam 200 mil, o que para ele é muito dinheiro, mas 200 mil realisticamente mudariam sua vida? No máximo ele quitaria seu financiamento imobiliário ou abriria um negócio, o que é bom, mas fora isso, certamente o nível de estresse envolvido em fazer trades com 100 mil reais é muitíssimo maior do que os do exemplo de 500 reais e isso a meu ver não é compensado pelos eventuais ganhos.  O desgaste psicológico seria absurdo, e a chance de dar tudo errado continua sendo altíssima. Em suma, seria a meu ver uma Vitória de Pirro, muito esforço para pouco resultado, e ele teria muito mais a perder do que a ganhar. Uma queda de 20% na bolsa representaria nesse exemplo 2 anos de trabalho perdidos em questão de dias, minutos talvez, e o impacto disso no psicológico do trabalhador poderia deixá-lo arrasado, prejudicando seu desempenho no trabalho e seu relacionamento com sua família. Vale à pena? Na minha opinião a vasta maioria das pessoas tem muito mais a perder do que a ganhar fazendo trades.

Assim, o segundo ponto negativo do trade é esse: você tem muito mais a perder do que a ganhar se operar com um montante que seja significativo para a sua renda e para o seu padrão de vida. Se perder tudo ou se perder muito, sua família certamente sofrerá.  Mesmo que perca uma fração do valor, ainda assim ela pode representar um bom tempo de trabalho que foi desperdiçado, jogado no lixo, servindo para alimentar banqueiros, corretoras e os tubarões do mercado. 

E ainda tem como fazer coisas piores. O fundo do poço dos trades é mais embaixo.



Se a ganância falar mais alto e o sujeito resolver operar alavancado (fazer trade com dinheiro emprestado) ou lançar opções descobertas (vender opções de ações que ele não tem em sua carteira) na esperança de multiplicar seus ganhos, pior ainda. Além de perder todo seu dinheiro, pode terminar com uma dívida, às  vezes impagável, e isso destrói famílias e vidas.

Há muitos casos de vidas arruinadas, famílias destruídas, suicídios, por causa de trade, principalmente entre aqueles que fazem operações alavancadas. O sujeito pega 50 mil emprestados no banco e começa a fazer trades. A bolsa sofre uma queda e os 50 mil se transformam em 30 mil. Resultado: o trader vai ter que se virar para pagar os 20 mil que foram perdidos para o mercado. Já li casos bem piores, de pessoas que terminaram devendo na casa das centenas de milhares de reais, procurem por aí e vão achar vários depoimentos tristes. 
O terceiro ponto contra o trade é esse: operando alavancado, você potencializa o seu prejuízo e pode acabar arruinando sua vida e afetando enormemente sua família. Algumas dívidas causadas por operações mal sucedidas podem ser impagáveis, e a tendência é que o trader tente paga-las através de mais trades, se afundando ainda mais no buraco que ele mesmo cavou. Muitos não aprendem a lição.

Uma outra moda que vem e vai: operar penny stocks (ações que custam centavos). Já vi venderem muito a promessa de que uma pessoa comum poderia fazer fortunas especulando com ações que custam na casa dos 10 centavos - "se subir somente 1 centavo a cotação, você já ganhou 10%!!" - mas se esquecem de dois pontos importantes: primeiro, o inverso também é verdadeiro: basta cair 1 centavo para você perder 10% do seu dinheiro. Segundo, assim que subir o tal 1 centavo, a sua ordem de venda entrará numa fila gigantesca composta pelas ordens dos outros trouxas, e provavelmente a sua ordem nem será processada, porque os malandrões do mercado (que incentivaram a especulação com a penny stock justamente para isso) já terão se livrado de suas posições aos baldes, derrubando novamente a cotação.



Infelizmente há um incentivo muito grande na indústria financeira  para que pessoas comuns entrem na vida de trader,  e isso tem muito apelo principalmente para o público mais jovem, geralmente homens na faixa dos 20 e poucos anos, no começo de suas vidas profissionais, que é justamente aquela fase em que estamos empolgados com nosso potencial, em que enxergamos o mundo ainda com uma visão meio adolescente das coisas e em nossa cabeça sempre nos vemos como "acima da média". Esse apelo vem ainda mais forte para os que se formam na área de ciências exatas, principalmente o pessoal de engenharia e ciências atuariais, que têm cargas mais intensas de matemática na faculdade e por isso acabam tendo uma ilusão de que, por terem estudado mais matemática do que a maioria e terem aprendido a mexer com softwares como Matlab, Stata, R, Gretl, eViews, etc. estariam mais aptos do que o restante da manada a "superar o mercado". Tudo ilusão.




A real é que o sistema incentiva o day trade porque ele gera muita grana em corretagem, taxas, emolumentos,etc. para as corretoras e para os bancos (também produz impostos para o governo, então ele também se beneficia disso, de certa forma). A mídia especializada em finanças,  os analistas, as corretoras, etc. demonizam a caderneta de poupança porque é um dinheiro "parado" que não lhes dá tanto lucro assim (eles já lucram (ou deveriam lucrar) emprestando o dinheiro depositado em contas correntes e na poupança de clientes para outros clientes, mas gostam mais de corretagens, taxas de administração de fundos de investimento, taxas de performance, etc.)  e vendem a ideia de que é mal negócio ter casa própria  porque para eles não é bom que várias pessoas deixem 300, 400 mil reais imobilizados: para eles é muito melhor esse dinheiro girando e gerando muitas taxas, corretagens, etc. O sistema quer que vocês alimentem o sistema, e toda uma indústria foi montada para isso: tirar dinheiro do bolso de trouxa que acha que é esperto.


Para alguns de vocês pode parecer até absurdo que haja pessoas que pensem e ajam assim. Porém, tais pessoas podem estar mais próximas do que vocês imaginam. Tem gente que é facilmente enganada pela mídia, pelos analistas, vendedores de cursos, etc. Acreditem se quiserem, já tive um colega de trabalho que achava que poderia "viver de bolsa" quando juntasse -pasmem- 10 (dez!) mil reais. Já tive colegas de trabalho que (dizem) perderam valores equivalentes a carros populares fazendo trade de PETR4... 

Bancos e corretoras são instituições úteis e precisam ter lucro e prosperar? Sim, são atividades empresariais legítimas, mas chega de dar dinheiro fácil para essas empresas. Elas que se virem a para nos vender produtos e serviços de qualidade para realmente merecerem nosso dinheiro. Cabe a nós nos educarmos e aprendermos a lidar melhor com nosso dinheiro, de modo que não sejamos vítimas fáceis.

Forte abraço, fiquem com Deus!






segunda-feira, 20 de julho de 2020

A busca pelo milhão deveria ser uma busca por valor e não por dinheiro

Se vocês refletirem um pouco, a inflação já corroeu tanto o poder aquisitivo do Real que o cobiçado "um milhão de reais", um dos santos graais da blogosfera, já não é mais o que era. É bastante difícil juntar um milhão de reais para quem é assalariado, e embora esta quantia ainda dê uma grande melhora na vida pessoal em termos de tranquilidade e segurança relativas ao trabalho, ela já há um bom tempo não é capaz de trazer a IF, no máximo uma TF (tranquilidade financeira), mas ainda assim é algo arriscado. 
Nos tempos de taxa Selic a mais de 14%, havia quem pensasse ser capaz de viver sem precisar trabalhar tendo um milhão investidos em renda fixa, mas mesmo naquela época (2016) isso ainda era muito arriscado, pois a inflação alta camuflava o rendimento real, que era bastante abaixo dos 14% nominais, de modo que sacar os rendimentos deste milhão aplicado em uma renda fixa, por exemplo, só faria corroer mais depressa o valor do principal. Sacar menos do que os juros auferidos era obviamente uma opção melhor, mas ainda arriscada para quem almejasse parar de trabalhar. Com o tempo, a inflação poderia corroer o valor do principal, e caso vivamos um caso extremo como o da Alemanha do pós-guerra, este investidor que até então havia "atingido" a IF se tornaria um "mendigo milionário".
Não é exagero!

notas e moedas: Pick#110 - 500 Milhões de Marcos, 1-9-1923
Nota de 500 milhões de marcos alemães, de 1923, provando que todo mundo era multimilionário na Alemanha pós-Grande Guerra!! É um pouco difícil de ler, mas realmente está escrito Fünfhundert millionen Mark


Infelizmente, a inflação é um problema intrínseco do atual sistema monetário mundial - o qual se baseia em moedas fiduciárias (sem lastro) e no sistema de reservas fracionárias (bancos não precisam ter em caixa valores que garantam 100% dos depósitos, ou seja, bancos criam moeda literalmente do nada) e ao menos no curto prazo isso parece que não vai mudar. Nem mesmo as criptomoedas são ainda uma alternativa viável - elas ainda estão longe de serem adotadas pelo "tiozinho da padaria" e pela "dona marocas da escolinha", e somente quando isso acontecer é que elas serão realmente moedas, pois serão um meio de troca amplamente aceito (atualmente as criptos cumprem mal e porcamente apenas as funções de unidade de conta e reserva de valor, mas devido às grandes oscilações diárias e às dificuldades operacionais de usá-las no dia a dia, tais funções não são eficientemente cumpridas, na minha opinião).

Vejam em números o massacre do Real pela inflação: conforme a calculadora do cidadão, disponível no site do Banco Central, 1 milhão de reais do início do Plano Real (1994) equivalem a mais de 6 milhões de reais atualmente:



O Real perdeu muito valor desde seu início. Temos que multiplicar o milhão de reais por 6 só para empatar com seu poder de compra original. Até mesmo olhando para o passado recente a perda é chocante. Vejam quanto precisamos ter hoje em dia para empatar o poder aquisitivo de 1 milhão de reais de 2016, época da SELIC a 14,25%, na qual havia quem acreditasse poder viver com a renda desse milhão:



Precisaríamos ter quase 200 mil reais a mais só para manter o poder de compra, quase um quinto do valor. Quem tinha 1 milhão e aplicou na renda fixa e passou a viver dos juros provavelmente perdeu dinheiro, no sentido de perder poder aquisitivo.

Será que algum dia seremos capazes de desfazer este massacre financeiro? Será que algum dia o Real prosperará e se tornará uma moeda forte? 
Só o tempo dirá. 
Enquanto isso, os números incríveis de nossa inflação mostram que ao contrário de outras épocas, em que o dinheiro tinha lastro, ou seja, tinha valor intrínseco (moedas de ouro e prata, certificados de depósito de ouro, etc.) não é tão bom negócio juntar dinheiro. Óbvio que precisamos de dinheiro no dia a dia para trocarmos por bens e serviços,  e conforme já expliquei no post anterior, é inegável a importância de se ter uma reserva de emergência de pronto uso, então algum dinheiro é bom sempre termos. Esses tempos histéricos da pandemia, repletos de desmandos e arbitrariedades estatais e de empresas mancomunadas com o Estado, reafirmaram a importância da reserva de emergência.


Certificado de Ouro - Está escrito: 100 dólares EM MOEDAS DE OURO pagáveis ao portador sob demanda

Porém, o ideal é que, após constituída a reserva de emergência, comecemos a diversificar nosso patrimônio de modo que ele tenha mais valor do que dinheiro, porque o que tem valor é sempre ou quase sempre protegido contra a inflação. 

Onde encontraremos valor? Onde compramos valor? Resposta: Comprando ações de boas empresas (fundamentos sólidos, vários anos seguidos de lucros, com dívidas equilibradas ou sem dívidas, com boa participação no mercado, etc.), comprando cotas de bons fundos imobiliários (bem geridos, com imóveis bem localizados, bons imóveis, de preferência com mais de um imóvel, etc.), comprando bons imóveis (bem localizados, sem problemas judiciais) e comprando bens que tenham valor (metais preciosos, jóias, moedas, obras de arte, terrenos bem localizados e férteis, etc). 
Porém, há uma outra diversificação ainda mais importante,  e que deve ser feita todo dia, em qualquer época: a diversificação de conhecimentos e habilidades, ou seja, o investimento em você mesmo. Aumente o seu valor. Estude além do que é necessário para desempenhar sua profissão, estude para melhorar seu desempenho nela e tornar-se uma referência, pelo menos entre seus colegas. Estude e pratique outras atividades fora de sua profissão para ser versátil, primeiramente como hobbies - e quem sabe elas não podem acabar virando outras fontes de renda? Quem sabe elas não possam um dia se tornar sua principal fonte de renda? Quem sabe elas não te salvam de uma enrascada, como ser demitido? 
Além disso, nunca deixe de ler ou estudar certos assuntos só porque supostamente "não há mercado" para tais conhecimentos - aumente sua cultura, leia os clássicos da literatura, estude outros idiomas além do inglês, produza algum tipo de arte, etc. Tudo isso contribuirá, no mínimo, para aumentar sua confiança em si mesmo e para expandir sua criatividade, e estas são coisas das quais você nunca se arrependerá, e também aumentarão seu valor como pessoa. Hoje em dia é possível encontrar tantos bons livros de graça ou quase de graça, assim como inúmeros tutoriais de uma infinidade de assuntos no YouTube, em fóruns especializados, cursos on line de praticamente qualquer assunto, e por aí vai. Nunca deixe de investir em você mesmo. Não viva para juntar dinheiro, viva para melhorar a si mesmo e para melhorar a vida dos que estão à sua volta, fazendo sempre o bem.

Forte abraço!  Fiquem com Deus!