quinta-feira, 26 de dezembro de 2024

Sobre a transição de CLT/Funcionário Público para Autônomo / Pequeno Empresário

Saudações, confrades!

Espero que todos os meus leitores tenham tido um bom Natal e que tenham recebido muitas bênçãos de Nosso Senhor Jesus Cristo!

Vamos ao (provável) último post de 2024, para dar uma variada nos assuntos do blog e não ficar só nas atualizações patrimoniais, conforme eu havia dito no post anterior.

Uma coisa que me vem à mente em minhas elucubrações diárias a respeito de como sair de meu emprego atual (seja via concurso, via empreendendo, via tornando-me autônomo) é a crescente necessidade de autonomia em cada passo da jornada profissional.

(OBS: quando falo "empresário" neste texto refiro-me ao pequeno empresário autônomo, MEI, EPP, EIRELI*, que trabalha sozinho (loja virtual, confecção individual de alimentos, artesão, etc. que tenha um negócio que seja possível de ser operado sem funcionário nenhum a não ser o próprio dono))

*: acho que EIRELI não existe mais, mas posso estar enganado.


Permitam-me ilustrar usando o McDonald's como exemplo:

Quando você é criança, seus pais te levam ao McDonald's, você pede um lanche e ele aparece na sua frente, sem esforço algum. Você nem vê o dinheiro indo para o caixa, ou o cartão sendo passado na maquininha. As coisas simplesmente "acontecem" sem você fazer esforço algum e por conta disso geralmente as crianças não têm noção de como é a realidade.


Depois você cresce mais um pouco, tem seus 15 anos, e vai sozinho ao fast-food. Faz seu pedido e precisa entregar dinheiro ao balconista. Provavelmente quem te deu o dinheiro foi o seu pai ou a sua mãe, mas você teve que se desfazer dele para ganhar seu lanche. Ainda assim, o lanche "apareceu" na sua frente, embora com algum sacrifício de sua parte - o ato de entregar seu dinheiro. Você já aprende um pouco que é necessário fazer alguma coisa para que as coisas aconteçam. Mas ainda é fácil: você sacrifica um dinheiro pelo qual geralmente você não sacrificou nada, pois seus pais te deram, e o sacrifício foi deles (embora aos 15 você já saiba que as pessoas trabalham para ter dinheiro, se você nunca trabalhou você não tem uma noção verdadeira do que é trabalho)


Então suponha que depois você cresce mais, tem seus 18-19 anos e vai trabalhar no McDonald's. Agora são as outras pessoas que pedem o lanche para você, e pela primeira vez ele não vai "aparecer", você é que vai ter que fazer acontecer.

A maioria das pessoas para nesse estágio do amadurecimento. Elas começam a trabalhar, e então descobrem que elas é que têm que fazer as coisas acontecerem. O hambúrguer foi entregue embalado em cima de uma bandeja na mão do cliente porque todo um time de pessoas se envolveu na preparação na lanchonete, em todas as suas fases produtivas, e antes desse time poder trabalhar, vários outros tiveram que concluir seus trabalhos: os caminhoneiros da empresa de logística que entregou os pães, molhos e hambúrgueres congelados, os pecuaristas que criaram as vacas que forneceram a carne, os açougueiros/trabalhadores de frigoríficos que cortaram a carne, congelaram, embalaram e depois separaram para entrega, e entremeando todos estes processos estão inúmeros gerentes, advogados, contadores e coordenadores que criaram, leram, revisaram, e negociaram os contratos com todas as empresas e funcionários envolvidos, fizeram os pagamentos, registraram os pagamentos, registraram dívidas, cobraram dívidas, emitiram os pedidos, emitiram notas fiscais, emitiram DARFs, corrigiram erros, e por aí vai. Isso sem falar em: marketing, auditoria, consultorias, etc. 

Mas ainda assim, o dinheiro cai todo mês, bastando que estas pessoas continuem trabalhando nos dias em que tiverem que trabalhar. E os clientes vão até a empresa, porque já foi feito todo um trabalho para isso. Ou seja, o dinheiro vai até a empresa graças a todo um trabalho prévio que foi acumulado e que permitiu que isso acontecesse.

O estágio seguinte do "amadurecimento profissional", que eu considero ser o dos profissionais autônomos, é o de não somente fazer acontecer, mas também fazer o dinheiro e os clientes aparecerem.  O dinheiro do autônomo não cai todo automaticamente no primeiro dia útil do mês, ele recebe aos poucos ao longo de seu mês de trabalho, conforme vai atendendo seus clientes e prestando seus serviços ou vendendo seus produtos. E não necessariamente os clientes virão de maneira automática - pelo menos não no início de sua carreira. Ele leva algum tempo criando sua fama e montando uma "carteira de clientes"

(No caso do McDonald's, já foi feito um trabalho de décadas para criar uma marca reconhecida e que praticamente atrai clientes sozinha, quase sem esforço dos franqueados. O autônomo/pequeno empresário precisa levar em conta esse trabalho de conquistar clientes em seu planejamento - e é por isso que muitos pequenos negócios nascem em paralelo a empregos CLT ou empregos públicos: porque o autônomo precisa ganhar um sustento certo e mais estável enquanto está construindo sua carteira de clientes - quando não é assim, ele herdou o trabalho de seu pai ou de sua mãe, que já fizeram todo esse trabalho de criação de uma carteira de clientes e de um nome - é o caso de muitos escritórios de advocacia, por exemplo)

E mais um passo além no "amadurecimento profissional" é o do empresário que resolva empregar outras pessoas em seu negócio: além de fazer as coisas acontecerem e fazer os clientes e o dinheiro surgirem, terá que se preocupar em fazer o dinheiro aparecer para pagar seus funcionários (salários, benefícios, INSS, FGTS,  etc.) e também para pagar a si próprio!

A pessoa que foi CLT ou funcionário público "a vida toda" está acostumada com a previsibilidade de um salário que cai todo mês no começo do mês (ou no fim do mês anterior, em alguns casos), e consequentemente está acostumada a planejar seus gastos de modo a ir consumindo o salário ao longo do mês, mas com a (quase) certeza de que no mês seguinte outro salário, de igual valor, será depositado em sua conta. 

Imagino que o "choque de realidade" possa ser grande quando essa pessoa se torna autônoma ou empresária. Para começar, não é certo que haverá um valor sendo depositado em conta no início do mês ou no fim do mês anterior.  Principalmente no caso do autônomo prestador de serviços (advogado, contador, psicólogo, dentista, médico, etc.) o dinheiro vai caindo na conta aos poucos ao longo do mês, conforme ele vai trabalhando e atendendo seus clientes, o valor é variável e sujeito a sazonalidades e inúmeros outros fatores totalmente fora do controle do profissional e, com isso, o planejamento das finanças pessoais de um autônomo ou pequeno empresário é bastante diferente do de um empregado CLT / funcionário público.

Por este motivo, imagino que, idealmente, a pessoa que se prepare para ser autônoma precise: 

1) fazer primeiro uma reserva de gastos para alguns meses (digamos, uns 6 meses de gastos pessoais ou, mais idealmente, 1 ano, e essa reserva deverá incluir os custos esperados de seu negócio, como o aluguel de uma sala comercial e o condomínio do prédio onde fica esta sala, por exemplo); 

2) buscar sempre manter seu custo de vida baixo, ou o menor possível, equilibrando conforto e frugalidade, pois não há garantia alguma de que atenderá clientes / prestará serviços / venderá produtos a tempo de pagar contas no prazo (claro que com o passar do tempo adquire-se uma carteira de clientes mais estável, via propaganda boca a boca, indicação, fidelização, etc. que permite um planejamento melhor, mas isso pode demorar a acontecer!);

3) Mesmo após ter adquirido uma certa "estabilidade", sempre manter sua Reserva de Emergência (RE), repondo o mais rápido possível os valores consumidos (se eu fosse autônomo eu teria duas RE: uma "pessoal" e outra "profissional", para bancar custos da empresa como aluguel de sala, anuidades de softwares, seguros, etc. em épocas de vacas magras - o meu foco aqui é evitar aquele velho problema de misturar as finanças pessoais com as da empresa)

E imagino que com o passar do tempo, o autônomo se acostume com a idéia de "receita média mensal" ou "pró-labore médio mensal" e ajuste seus custos de vida a este valor. Acho que uma boa medida seria ajustar seus custos de vida para que sejam cerca de metade do "pró-labore médio mensal" (ou menos, caso possível), tendo em vista que a receita mensal é variável e sujeita a sazonalidades, além do fato de que, como autônomo, se você não trabalhar, você não ganha, simples assim. A metade que for economizada deve ir para aportes, "RE pessoal" e "RE profissional".

E creio também que o mais prudente é usar dinheiro ganho em cada mês seja para bancar os gastos do(s) mês(es) seguinte(s), ao contrário do raciocínio mais comumente aplicado por quem é CLT/funcionário público ("recebi este mês, gastei este mês"). 

Outra coisa importante a se considerar no planejamento é a construção de uma "reserva" para bancar suas férias, e feriados prolongados, pois afinal você provavelmente não vai aguentar ficar trabalhando sem parar durante muito tempo, e conforme eu disse acima, sem trabalho = sem dinheiro, então o autônomo precisa levar em conta que haverá dias em que simplesmente não haverá clientes ou haverá bem poucos porque é feriado, ou feriadão, e por aí vai. Você pode até querer trabalhar em um dia desses, mas pode ser que simplesmente não haja clientes. Então você precisa se preparar para dias assim também. E haverá dias em que você ficará doente, ou estará muito cansado, ou terá alguma coisa pessoal para resolver, etc. Haverá também a sua própria necessidade de descanso. Para todos esses dias você precisará ter uma reserva, pois não ganhará nada por estes "dias de folga".

Por fim, outros "choques de realidade" na transição para a autonomia são a falta do 13º e do adicional de férias, fora outros benefícios que empregadores no geral paguem (Auxílio-creche, Vale-Alimentação, Vale-Transporte, etc.), além da obrigatoriedade de recolhimento de INSS, que não é automática, fora outros tributos. O autônomo / pequeno empresário precisa prover todas essas coisas para si mesmo, e não pode se esquecer de recolher pelo menos o mínimo legalmente exigido para o INSS e os demais impostos para evitar problemas com o governo. 

No caso da falta do 13º, ela ainda é agravada pelo fato de alguns condomínios comerciais (especialmente shoppings) cobrarem o "13º aluguel", então é necessário tomar cuidado com esse custo extra que às vezes fica "nas letras miúdas do contrato". A "RE profissional" deve levar esse aluguel extra em consideração. Alguns tipos de negócio se beneficiam do aumento de vendas em dezembro e com isso dão conta desse 13º aluguel, mas acho que fica mais difícil para os pequenos empresários.


Todas essas coisas acima precisam ser levadas em conta no planejamento da carreira do autônomo / pequeno empresário.


Algum dos confrades têm experiências próprias para relatar? Como foi a mudança de vida saindo da CLT ou do emprego público para se tornar um pequeno empresário? 

Aos leitores autônomos / EPP / MEI: que profissão vocês exercem? Como conseguem clientes? 

Qual é a melhor opção: ser MEI, ser EPP, autônomo PJ ou ser um autônomo pessoa física mesmo? Ainda é possível ser autônomo pessoa física? Ou simplesmente não vale à pena?


Forte abraço, companheiros de trincheira!

Tenham todos um Feliz Ano-Novo, e que 2025 seja melhor do que 2024!

quarta-feira, 11 de dezembro de 2024

Aportes e Atualização Patrimonial - novembro de 2024

  Salve, salve, confraria!

Vamos a mais um post rápido de atualização patrimonial, por conta dos meus estudos para concursos.





Aumento de 343,1% desde o início dos aportes em junho de 2021. Este percentual é tudo: aportes, dividendos e valorização/desvalorização dos ativos.

Findo o mês de novembro do Anno de 2024 da Graça de Nosso Senhor, adentramos enfim o último  mês do ano.

Sem mais delongas, vamos ao post propriamente dito, com aquele aviso de sempre que nenhum ativo mencionado no blog e/ou em seus comentários é recomendação de compra! Estudem sozinhos e tomem suas próprias decisões, se não irão cair nos papinhos de influencers, tik-tokers, youtubers, tuiteiros, etc.


Ações - o aporte do mês foi principalmente na Hypera Farma, uma nova empresa para a carteira, e com o dinheiro que sobrou no fim do mês, comprei um pouco de Brasil Agro, Eternit, Embraer, Eletrobras e Petrobras, novamente buscando as metas que eu tracei para determinadas ações da carteira. Acho que das metas que tracei, só não conseguirei cumprir a de uma das empresas. Paciência, fica para o ano que vem!



FIIs - o aporte do mês foi em XPIN11, porque foi o que o Bastter System me "recomendou". Eu muito raramente sigo o sistema, uso mais para anotar os aportes e manter o controle do patrimônio e dos dividendos, mas este mês não consegui pensar em um critério próprio para os FIIs, e então resolvi seguir o BS. 

Conforme escrevi nos meses anteriores, ultimamente tenho aportado valores maiores em FIIs e em REITs na busca pelo aumento da renda passiva como plano B meu emprego se torne insuportável, mas sem perder de vista a qualidade dos ativos. Entretanto, em novembro a maior parte do aporte foi mesmo em ações, na proporção  60% / 40%. 

Mas vou buscar pelo menos não passar nenhum mês sem aportar em FIIs!




Exterior - sem aportes no mês, e a carteira permaneceu a mesma. Eu defendo a idéia de todo mês aportar alguma coisa no exterior, por menor que seja o valor, mas em novembro simplesmente não deu.


O dólar estava a 
R$ 5,96 no momento em que escrevi este texto e foi esse o valor que usei para calcular o patrimônio no exterior. Mas novembro foi uma montanha-russa para o nosso pobre Real, com vários dias superando a marca dos R$ 6,00 / dólar.  Já não lembro mais se foi em novembro ou em outubro, mas houve um dia em que a cotação apresentada pelo Google estava muito distorcida em relação ao câmbio oficial, e assustou muita gente (eu inclusive: lembro de ter visto e comentado com um colega que era a primeira vez que eu via o dólar superando o euro, mas na verdade foi algum erro no mecanismo de busca do Google mesmo)


Renda Passiva - esse mês foi na trave! Recebi 18,1 Coroas, sendo 1,6 do exterior, 9,3 de FIIs e 7,2 de ações de empresas brasileiras. Até o momento este foi o segundo maior valor que recebi, desde junho de 2021, e quase alcançou o recorde anterior de 18,5 coroas, recebidas em maio de 2023.

As empresas que me pagaram dividendos foram:

no Brasil - Itaú, Bradesco, Eztec, Brasil Agro, Localiza, Romi, Petrobras, Klabin, Irani, Taesa e Porto Seguro, totalizando 11 empresas. Destaque para Eztec, que pagou cerca de 83 centavos por ação, Klabin (70 centavos por ação) e Brasil Agro (R$ 1,55 por ação). 

(Algo interessante de se notar é que enquanto os FIIs dão uma certa estabilidade na renda passiva, as ações de vez em quando surpreendem entregando bons dividendos. Ao menos por enquanto as duas classes de ativo fazem parte da minha "carteira previdenciária", para usar a expressão cunhada pelo velho Barsi).

no Exterior - Paychex, Colgate Palmolive e Bank of New York Melon, e os REITS Gladstone Commercial, NNN,  EPR Properties, Realty Income, Stag Industrial, Franklin Street Properties e Healthpeak Properties.

(acho que como os juros nos EUA são menores, os proventos tendem a ser menores também, e isso ajuda a explicar porque a minha renda passiva nos EUA é pequena em comparação à recebida no Brasil).

Seguem os gráficos com a evolução da renda passiva:


Segue o gráfico com o patrimônio total dividido por ativo:


Por enquanto é isso, confrades. À semelhança do mês passado, eu tenho mais um post pronto que devo lançar daqui a uns 10 dias, só para dar uma variada de postagens do blog, para postar mais alguma que não seja de atualização patrimonial.


Forte abraço, companheiros de jornada!

Fiquem com Deus!

sábado, 16 de novembro de 2024

A polêmica da escala de trabalho: (6x1), (5x2) ou (4x3)?

Saudações, confraria da melhor blogosfera do país e da melhor finansfera do mundo!

Mais um post para quebrar o "jejum" de postagens que não sejam de atualização patrimonial. 

Desta vez estou escrevendo sobre um dos assuntos do momento, o polêmico projeto de lei que visa acabar com a escala 6x1 e implantar a 4x3 (conforme um pequeno extrato do projeto de lei que li na internet). 

As minhas opiniões sobre a escala de trabalho (e também outros assuntos envolvendo relações trabalhistas) são as seguintes:

 1) Concordo 100% que viver trabalhando 6x1 é uma droga, pois você quase não tem tempo para você, para cuidar da sua família, lazer, etc. e também quase não tem tempo para se desenvolver, de modo que quem trabalha nesse ritmo provavelmente ficará preso no ciclo 6x1. Então aquele argumento de "Pede demissão e arruma um emprego melhor se não quiser trabalhar 6x1" é  bastante desonesto, pois quem está inserido na corrida dos ratos da escala 6x1, já com obrigações e responsabilidades (Família), muito dificilmente arranjará algo melhor para poder sair. A maioria não se pode dar o luxo de sair para estudar, se qualificar, etc. 


2) O problema nem é só a carga de trabalho, mas também o tempo gasto no transporte para ir e voltar todos os dias, 6 vezes por semana.  e também o fato de que a escala 6x1 muitas vezes vira 7x0, porque dependendo da empresa, do tipo de negócio, etc. você pode ser chamado para cobrir a falta de alguém no seu dia de folga, e não necessariamente será compensado no dia seguinte. Talvez nem ganhe horas extras, e talvez nem mesmo o tal do "banco de horas" (que costuma ser desrespeitado).


3) Eu considero irreal, pelo menos no momento atual do Brasil, haver uma escala 4x3 mencionada no projeto de lei e que nem a que querem implantar na Europa (ou ao menos é o que dizem). Porém, uma escala 5x2 já melhora bastante a qualidade de vida da pessoa e é a que eu vejo como a "escala normal/padrão de trabalho", pois permite mais tempo com a família, mais tempo para religião, mais tempo de lazer, mais tempo para estudar, para ter hobbies, e por aí vai. E para quem quiser trabalhar mais, também dá mais tempo de se dedicar a bicos, a um negócio paralelo, e por aí vai. Acho que nenhuma empresa merece tanto do nosso tempo, nenhuma empresa merece o nosso 6x1. E como eu já disse outras vezes aqui, para mim a combinação "escala 6x1 + salário mínimo" é uma forma de escravidão moderna. O argumento de que "se não gosta é só pedir demissão" é desonesto porque praticamente não há opção, e para a maioria das pessoas não há mesmo opção.


4) Ao contrário do que dizem por aí, eu acho que o brasileiro trabalha muito e enxergo os nossos feriados e o nosso padrão de férias de 30 dias como uma bênção, dadas as condições do país e as dificuldades que passamos por aqui. Eu já tive um chefe com alguma experiência internacional que, quando conversava comigo, sempre aproveitava para malhar a quantidade de feriado e férias que temos por aqui e citava como exemplo os EUA, em que o normal é você começar na carreira só com algo entre 5 e 10 dias de férias por ano e só quando alcançar um cargo "sênior" é que se ganha uns 20 dias (e ele dizia também que o pessoal "sênior" nunca tirava esses 20 dias porque suas responsabilidades não costumavam permitir, fora o fato de que algum rival dentro da empresa aproveitaria esses 20 dias de ausência para "puxar o tapete") e ele, todo orgulhoso, dizia que "nos EUA o pessoal trabalha até revirar os olhos". Eu acho que ele se esqueceu de levar em conta vários fatores diferentes entre os países - por exemplo, 1 (hum) dólar nos EUA, mesmo hoje na relativa decadência do dólar, rende muito mais do que 1 real aqui - por aqui 1 real não compra quase mais nada, talvez um punhado de bala juquinha - eu lembro de quando elas custavam 1 centavo, hoje em dia deve ser algo entre 20 e 50 centavos; e as coisas lá são muito mais organizadas, limpas, eficientes, seguras, e por aí vai. Eu não acho que sobreviveríamos às bagunças, ineficiências, perigos,  caos, etc. do Brasil com uma rotina americana de trabalho, feriados e férias. Ficaríamos malucos com poucos feriados e poucas férias. Essa é a minha opinião.


5) Por outro lado, entendo que a carga tributária e de benefícios sociais e trabalhistas é deveras pesada principalmente para o pequeno e médio empresário, de modo que muitas vezes a escala só é 6x1 porque é isso que o dono do negócio é capaz de bancar. Sendo assim, uma excelente contrapartida para o fim do 6x1 seria haver uma redução proporcional nos custos tributários e trabalhistas

(Entretanto, sei que isso é um pensamento utópico, pois por aqui quando o governo se acostuma a arrecadar determinado valor, é quase impossível convencê-lo a abrir mão dessa arrecadação (até porque ao invés de guardar e fazer reservas, ele já gastou e já se acostumou a gastar). Aliás, noto que um fenômeno praticamente análogo ocorre no comércio brasileiro: quando um produto atinge determinado preço mais alto do que o anterior (por exemplo, por conta de uma safra ruim, de um pico no preço do petróleo que jogou a gasolina lá em cima, etc.) dificilmente o comércio reduz o preço para os patamares de antes, ainda que a causa do aumento do preço já tenha passado. Ou seja, no Brasil os  aumentos de impostos e de preços costumam ser permanentes. Porém, no mínimo os parlamentares que tenham algum interesse em melhorar o Brasil deveriam brigar para incluir essa redução dos custos trabalhistas nesse projeto de lei da escala 6x1. Uma excelente medida seria a redução do desconto do FGTS, tanto do funcionário quanto o patronal).


 6) Acredito que essa permanência dos aumentos de preços no comércio brasileiro seja uma consequência de vivermos em uma sociedade de baixa confiança (falta de confiança tanto no próximo quanto no governo); 


 7) E também é consequência de nossa moeda ser muito inflacionária. Infelizmente as teorias econômicas mais "mainstream" enfiaram na cabeça dos acadêmicos que a deflação é ruim e que deveríamos seguir uma inflação perpétua e baixa, mas eu discordo: ao contrário do que pregam, deveríamos mesmo é perseguir uma Deflação, também perpétua e baixa, na casa dos 2%~3% a.a, ou, ao menos, a manutenção do poder de compra da moeda (inflação zero, deflação também zero).


 8) Em que pese a elevada carga tributária e trabalhista, também acho que haja uma parcela de culpa nos empresários brasileiros, por conta de nossa cultura: aqui predomina a mentalidade controladora, em que se valoriza mais que o empregado esteja ali, no batente, onde pode ser observado e controlado, ao invés de se preocupar se ele está de fato produzindo alguma coisa.


 9) Óbvio que empresas pequenas não têm condições de pagar grandes salários, mas noto que também há no Brasil uma cultura de desvalorizar o trabalho alheio e de pagar pouco, mesmo em empresas grandes. Muito gerente no Brasil, mesmo de empresa multinacional, ganha mais ou menos o que um caixa do Walmart ganha nos EUA. E não duvido que haja mendigos nos EUA que ganhem mais dinheiro com esmolas do que muito funcionário CLT ganha de salário no Brasil. 

Novamente: parte disso é sim por causa dos altos impostos e custos trabalhistas, mas parte também é mesquinharia do "empresário brasileiro médio". Aqui vale muito a famosa metáfora do "balde de caranguejos": ninguém fora da sua família quer que você cresça e evolua, muito pelo contrário! E por esse motivo nosso serviço é desvalorizado e no geral somos todos mal pagos, não temos acesso a bons planos de carreira e crescimento profissional, e geralmente a alta cúpula das empresas médias e grandes são panelinhas e dificilmente dão aumentos de salário a empregados de escalões mais baixos - muito pelo contrário: às vezes encontram meios criativos de reduzir nossos salários (além das clássicas horas extras forçadas, para reduzir o seu salário por hora).      

(Por exemplo, uma pessoa muito próxima a mim na família trabalhava numa empresa (de média para grande) em que havia plano de carreira e todos os funcionários ganhavam PLR, até os que faziam serviços mais simples. A empresa foi vendida para determinado empresário, que colocou sua panelinha nos cargos de direção. As medidas que eles tomaram logo de cara: fim do plano de carreira (ninguém nunca mais seria promovido, e quem estava nos postos mais altos do antigo plano de carreira foi demitido), redução do salário-base (quem foi contratado depois da mudança entrou ganhando menos do que ganharia se tivesse entrado antes da troca de dono) e o fim da distribuição de PLR para todos os funcionários exceto diretores - a panelinha distribuía o lucro somente entre si).


 10) Resumindo: 

    a) As empresas são muito expropriadas via impostos e benefícios trabalhistas obrigatórios e, por conta disso, espremem seus empregados até não sobrar nada;

    b) O Brasil é muito pobre de empresas por conta da burocracia, dos altos custos, do risco jurídico e da nossa "cultura de emprego", então todo empresário sabe que, no geral, para cada funcionário reclamando do serviço tem outros 500.000 na fila implorando pela vaga e até aceitando ganhar menos e trabalhar mais. Por isso que normalmente a idéia da "livre negociação entre empregado e patrão" quase nunca acontece por aqui;

  c) Em um mundo ideal, ninguém seria obrigado a aceitar o 6x1. As pessoas só aceitam porque geralmente não têm opção. Se tivessem opção, recusariam qualquer proposta 6x1 e nenhuma empresa operaria assim. Realmente é desumano trabalhar 6x1, ainda mais ganhando "mil e quinhentão" e sem direito a  PLR, plano de saúde, etc. que é o caso da maioria das pessoas, infelizmente.

 d) O certo seria o salário ser por hora, e não por mês, e de alguma forma vinculado à produção, de forma a incentivar o trabalho e a produtividade. No mínimo, no mínimo, ser vinculado às horas trabalhadas. Aí talvez acabasse o problema das horas extras não pagas e o da escala de trabalho. O padrão brasileiro deveria ser salário por hora.

e) A escala 6x1 não deveria existir, mas para ser abolida na canetada (ser proibida por lei), então que a caneta reduza também os custos trabalhistas, sociais e tributários. (infelizmente acho difícil reduzirem todos esses custos...)

f) Geralmente as discussões sobre essa polêmica da escala estão focando só no lado econômico, mas não passam pelo lado moral / humano da coisa. Eu acho imoral fazer uma pessoa trabalhar 6x1 e pagar salário mínimo - que, ao menos, esses funcionários não fiquem 8 horas no batente, que trabalhem meio expediente, para que tenham tempo para suas famílias e seus estudos. 

f) Independente do que o governo e as empresas vão fazer, devemos todos buscar, no tempo que tivermos disponível, meios de sair da corrida dos ratos (e acho que geralmente o primeiro passo para sair da corrida dos ratos é sair do 6x1, para ganhar tempo, que vale mais do que qualquer dinheiro do mundo)