Eu sempre achei estranho e um tanto vergonhoso, em todos os lugares que trabalhei, ver um chefe meu, geralmente um cara mais velho, casado e com filhos, levar esporros monstruosos e engolir sapos terríveis de seus chefes, estes geralmente diretores, vice presidentes, gerentes gerais, etc., além de serem "obrigados" a fazer várias coisas que não agregam nada ao trabalho, mas que servem apenas para agradar os chefões (ficar até bem mais tarde só esperando o chefe voltar de uma reunião, por exemplo, ou perder horas fazendo um powerpoint cheio de firulas e gracinhas ao invés de focar só na informação em si, ou ser obrigado a almoçar com o diretor todo dia, ou ir a eventos sociais representando a empresa, etc.) - e quanto maior for a empresa, mais coisas deste tipo acontecem, principalmente se for multinacional, tudo com grandes níveis de estresse. Eu sempre que presencio uma coisa dessas fico pensando "Como ele aguenta? Pelo nível de salário desse cara, era pra ter um mega reserva financeira, um grande patrimônio, que lhe desse tranquilidade para não aturar essas coisas ou então pelo menos levar tudo mais tranquilamente". Óbvio que ele aguenta porque ele quer manter o nível de salário e o status, mas essa vida de executivo /superintendente/coordenador regional é um outro nível da corrida dos ratos, e muitas vezes nem esses funcionários de alto nível de empresas top construíram um patrimônio decente, e isso os obriga a se manterem na luta para continuarem em seus cargos altos, e lá a disputa é ainda mais acirrada, porque a concorrência é de nível mais alto (tanto em competência quanto em habilidades bajulatórias sociais).
Agora falando dos trabalhadores brasileiros em geral, especialmente os das cidades, dificilmente eles têm um patrimônio que os deixe tranquilos e protegidos de alguma forma contra crises e desemprego, e este é apenas um dos motivos pelos quais tanta gente engole tanto sapo todo dia no trabalho (eu sei que engolir sapos faz parte da vida, tendo patrimônio alto ou não, mas há de se concordar que tendo um patrimônio alto o número de sapos a serem engolidos seria bem menor, ou então no mínimo eles seriam mais fáceis de engolir). Como muitos aceitam muita coisa no trabalho, acaba que todos temos que aceitar também. A Teoria dos Jogos, principalmente o Dilema do Prisioneiro, ajuda a explicar o porquê - por exemplo, como existe alguém que está disposto a sair bem mais tarde do trabalho, seja isso necessário ou não, isso lhe dá aos olhos dos chefes um "diferencial" em relação aos outros que não estão dispostos a saírem mais tarde, então todos passam a ter que sair mais tarde para se manter na competição dentro da empresa, porque sair no horário passa a ser arriscado e porque sair tarde é um diferencial "fácil" de se obter, então ele passa a ser o mínimo esperado de cada empregado).
Uma outra coisa que contribui para isso é o que eu vou chamar neste texto de "cultura de emprego". Vou explicar o que quero dizer com isso.
Creio que a maioria que lê meus textos e frequenta a blogosfera das finanças irá concordar que o roteiro profissional "padrão" do "brasileiro urbano médio" é:
Formação >>> emprego >>> ??? >>> aposentadoria (INSS)
Dentro da zona misteriosa ("???") fica a "carreira" do indivíduo dentro de uma empresa - uma coisa cada vez mais rara: antigamente, era normal passar 30 anos trabalhando na mesma empresa, e se esta empresa fosse grande e rica o bastante, ela ainda cuidaria de você na aposentadoria através de planos próprios de previdência privada, associações de ex-funcionários, etc. É o caso, por exemplo, da IBM e da Shell.
Hoje em dia passar 30 anos numa empresa é quase impossível, o normal para muita gente é ser chutado em uns 5 ou 6 anos caso você não seja promovido e, dependendo da área, até em menos tempo. Não dá para "construir uma carreira" no sentido antigo do termo na maioria das empresas atualmente. A carreira hoje em dia é a soma de nossas experiências profissionais e o conhecimento/know-how acumulado e também o famigerado network (nossa, como eu odeio essa palavra). E quanto mais velhos ficamos, mais facilmente somos demitidos (as empresas no Brasil em geral, quiçá no mundo, têm algo contra pessoas acima de 35 anos) e mais difícil se torna nossa recolocação (pelo mesmo motivo), e isto torna todos mais "medrosos" e faz com que se sujeitem a muita coisa que em outras condições não se sujeitariam para manter o emprego.
Sendo curto e grosso: por causa do medo de perder o emprego, muita gente acaba abaixando a cabeça para muita coisa que acontece no trabalho, e por isso muitos abusos acontecem e isso ajuda a explicar porque hoje em dia doenças como depressão, ansiedade e burnout são cada vez mais comuns.
A própria blogosfera das finanças é, de certa forma, um sintoma disso: muitos dos blogueiros e dos comentaristas (eu incluso) são pessoas insatisfeitas com seus trabalhos e que buscam uma esperança de mudança de vida através da frugalidade, do mercado financeiro, do desenvolvimento pessoal, etc. e encontram ecos de seus pensamentos na blogosfera das finanças.
A insatisfação com a vida profissional é algo generalizado atualmente. Creio que isso seja em parte culpa da "cultura do filho doutor" e também em parte culpa da nossa "cultura de emprego".
O que quero dizer com isso é: nossa cultura profissional não deveria ser focada em emprego, porque ela nos torna mais submissos a hierarquias, chefes, etc., além do emprego funcionar como um tipo de cabresto, constantemente usado para nos ameaçar e intimidar.
Na minha opinião, a nossa "cultura de emprego" deveria ser focada em autonomia, ou seja, deveria ser uma "cultura de autonomia": o roteiro padrão esperado deveria ser trabalhar para alguém só até certa idade, e depois se tornar autônomo ou empresário, desta maneira:
Formação >>> Emprego (aquisição de experiência e recursos) >>> "Carreira solo" >> Tranquilidade Financeira
Se o normal fosse esse, as coisas por aqui seriam um pouco melhores, pelo menos nos seguintes aspectos:
1) Haveria menos desemprego, porque seria normal trabalhar em empresas só até certa idade, então essa rotatividade de funcionários seria maior, não por cortes de custos, mas porque os próprios funcionários decidiriam sair para iniciarem suas próprias jornadas;
2) Com mais autônomos e pequenos/médios empresários, haveria mais vagas de empregos também (autônomos poderiam contratar assistentes, estagiários, etc. e seria bom para jovens adquirirem experiência) e mais produção, o que significa maior oferta, o que reduziria os preços de produtos e serviços;
3) Com mais empresas e mais empregos, o trabalhador teria mais poder de barganha (seria fácil sair da empresa e arranjar outro emprego, levando embora conhecimentos e experiências que servirão à concorrência, o que faria com que os salários tendessem a ser mais altos para reter funcionários - ao contrário de hoje em dia, em que há 500 mil desempregados para cada vaga de emprego, então quase todas pagam 1 salário mínimo, sem VT, sem hora extra e sem PL); e
4) Tudo isso contribuiria para a diminuição das doenças psiquiátricas que afligem esta nossa estranha era (depressão, ansiedade, neurose, etc. são em grande parte provocadas por pressões no trabalho) e a sociedade teria um pouco mais de felicidade.
Não vou ser hipócrita - eu também faço parte da "cultura de emprego": assim como muitos, fui formado assim, cresci acostumado com esta ideia, e agora vejo as consequências. A verdade é que em muitos aspectos é mais fácil e mais confortável ser empregado CLT e isso também ajuda a explicar essa cultura de emprego, porque você de alguma forma sente que a empresa está "cuidando de você", mas isto na verdade é uma ilusão perigosíssima: na verdade, você está é terceirizando muitas decisões importantes de sua vida para o seu chefe: ele escolhe qual vai ser o seu plano de saúde (não se iludam, sai do seu salário, mesmo que não apareça nenhuma coparticipação na folha de pagamento), ele aplica parte de sua renda numa previdência privada que a empresa escolheu, ele escolhe o que fazer com seu horário, ele que tem a palavra final de quando serão suas férias, dependendo da empresa é ele que decide o que você vai fazer no final de semana, ele determina onde você vai morar, etc. Com isso, uma boa fatia da sua vida está nas mãos de um terceiro que geralmente te enxerga apenas como um custo e não como um ser humano.
Óbvio que a vida de um empresário ou autônomo também está em muitos aspectos regida por terceiros - os clientes - mas o nível de controle destes profissionais sobre seus trabalhos e suas vidas é bastante superior ao do empregado CLT comum.
Realmente é mais difícil ser autônomo ou ser empresário do que ser CLT, não só por causa da concorrência no mercado, mas também porque isso envolve assumir os riscos e as decisões que normalmente terceirizamos quando somos empregados de alguém, conforme expliquei acima. Mas por outro lado, passaremos a sermos mais donos de nossos destinos.
 |
|
Por causa da doutrinação esquerdista que recebemos na escola já há décadas, o brasileiro médio tem a tendência de enxergar o empresário como um FDP explorador. Óbvio que alguns são isso mesmo, principalmente os maiores, que usam seus recursos para influenciar o Estado e financiar movimentos revolucionários e com isso matar a concorrência desde o berço para se manterem no topo da pirâmide. Mas na grande maioria dos casos, o empresário é um cara "classe média" ou até mesmo "pobre" e que tem muito mais a perder do que o empregado e trabalha muito mais horas por dia e geralmente sem férias e sem feriados. Então aquela ideia que os soças vendem do "empresário malvadão explorador dos pobrezinhos" não é verdadeira em 99,999% dos casos, mas essa ideia que foi implantada em nossas mentes infelizmente também colabora para fortalecer a "cultura de emprego" na mentalidade brasileira e sabotar a nossa busca por autonomia.
Acho que nesse ponto os brasileiros têm muito a aprender com os árabes e os portugueses - estes dois grupos têm essa mentalidade de autonomia muito mais desenvolvida, tanto que seus estereótipos são caricaturas de pequenos comerciantes e empresários (o árabe vendedor de tapetes e especiarias e o "seu" Manoel da padaria) - geralmente pessoas destas duas etnias não são empregadas de ninguém, a não ser de outros árabes e portugueses, e mesmo assim só enquanto não juntam recursos para abrirem seus próprios negócios.
O que vocês acham da nossa cultura de emprego? Acham que as coisas seriam melhores se fizéssemos uma mudança para uma cultura mais focada em autonomia?
Forte abraço, amigos, fiquem com Deus!