quinta-feira, 20 de agosto de 2026

A Inflação também traz problemas morais para a sociedade

    Um costume que me parece ser uma marca de nossa acelerada época é uma estranha obsessão por encontrar uma "causa única", uma "explicação simples" com base em um só fator para qualquer problema, especialmente nas áreas de ciências humanas. É como se hoje em dia as pessoas tivessem "se esquecido" que os fenômenos sociais formam uma imensa teia de eventos correlacionados, que se influenciam uns aos outros, numa cadeia lógica muitas vezes incompreensível à razão humana, da qual muitas vezes conseguimos enxergar somente os elementos mais superficiais.



    Embora eu considere isso uma falha na forma de se pensar as coisas, ao mesmo tempo eu acho interessante, como exercício de pensamento, partir de um só fator ou fenômeno e tentar chegar a conclusões gerais, ou encontrar outros fatores/fenômenos que com ele interajam e influenciem. 

    Dito isto, escreverei sobre o fenômeno da inflação e discutirei algumas de suas implicações para a moral da sociedade. (Óbvio que a inflação não é "A" causa para os problemas aqui descritos, mas certamente contribui para agravá-los)

    Há, por exemplo, pessoas que defendem a idéia de que a diminuição do teor de ouro nas moedas para financiar as campanhas militares foi "A" causa fundamental da queda do Império Romano. Tal diminuição do percentual de ouro nos Aureums e de prata nos Sestércios não teria sido "publicada", "oficializada", nem nada disso, mas feita na surdina, sem o conhecimento do povo, o qual eventualmente percebeu que as moedas não tinham tanto valor quanto antes, estavam mais leves, e aí iniciou-se uma reação em cadeia que culminou na destruição do Império através das invasões bárbaras.

    Eu não sou um grande estudioso da história romana, mas acho essa explicação simplista demais. No entanto, não deixa de ser interessante analisar, olhando a nossa realidade brasileira, os efeitos perniciosos da inflação nos hábitos da sociedade. Vejamos:

(Os exemplos que eu escrevi neste artigo são "anedotas", mas, afinal, o que são "dados" se não uma imensa coleção de "anedotas"?)

O que dizem os livros-texto de economia acerca da inflação? Em sua maioria os livros-texto de economia possuem forte viés keynesiano, ou ao menos assim eram os que eu tive acesso (Ex: Mankiw). Em muitos está escrito que a inflação é uma alta generalizada de preços da economia, a qual leva a uma desvalorização da moeda. Ou subentende-se isso.

E o que dizem as correntes de pensamento econômicos mais voltadas ao libertarianismo a respeito da inflação? Basicamente que a inflação é a desvalorização da moeda, o que acaba acarretando numa alta generalizada de preços. O caminho inverso da explicação "keynesiana".

Uma explicação é um espelho da outra, uma troca a causa pelo efeito da outra. Eu acredito que ambas coexistam, formando uma figura similar a um ouroboros:



Eu acredito que:

1) A emissão de moeda de maneira exagerada pelo governo e pelos bancos comerciais acaba tendo como uma de suas consequências o aumento generalizado dos preços da economia (afinal, considerando que a moeda se comporta como se fosse um bem e a escassez de um bem é um dos fatores determinantes de seu valor, quanto menos escassa for uma moeda, menos valor cada unidade monetária carregará) - essa é a que provoca, nos dias de hoje, a desvalorização direta da moeda e a inflação do ponto de vista mais libertário.


2) A perda de confiança do povo em sua moeda também contribui para a inflação, pois provoca a "Inércia Inflacionária": o povo espera que a moeda desvalorize, então confia menos nela, e essa desconfiança acaba realmente desvalorizando a moeda (uma profecia auto-realizada)


3) Eu não sei se isso é um aspecto da "Inércia Inflacionária", mas eu chamaria este fenômeno que vou descrever a seguir de "Arredondamento da Inflação": Por exemplo, o IBGE/Banco Central divulga que o IPCA foi de 7,5%. O dono do mercadinho e o dono da padaria não vão aumentar os seus preços em 7,5%. Eles vão arredondar logo para 10% porque assim eles "garantem" alguma proteção a mais (se sentem mais seguros) e porque é mais fácil de fazer as contas com números redondos. Eu acredito que a inflação na prática sempre é arredondada para cima. 


4) De certa forma um aspecto do fenômeno do Arredondamento da Inflação: a desconfiança do povo nas informações emitidas por instituições oficiais também pode aumentar a inflação. Todo mundo tem uma idéia geral de que "Inflação = Ruim", e todo mundo tem uma noção de que "Inflação = Ruim = Imagem negativa para os políticos do momento", então há uma idéia de certa forma difundida que "Números oficiais são mais baixos do que a realidade para não manchar a imagem do partido que ocupa os cargos no momento", então quando é anunciado que o IPCA foi de 12%, muitos vão pensar que na verdade foi 15%, então vão aumentar seus preços em 15% ou próximo disso. E isso desvaloriza a moeda, também no ponto de vista keynesiano (alta dos preços que faz a moeda comprar menos)


E Outras coisas que contribuem para o aumento generalizado dos preços em um país, mas não diretamente para a desvalorização da moeda:

A) Os chamados "Custos de Menu" que seriam os custos relativos à própria atualização dos preços em si. O exemplo clássico é o restaurante que incorre em custos extras para ficar atualizando os preços do cardápio, daí o nome do termo, mas aqui entram também todos os custos inerentes a isso, como os custos extras que se têm com o planejamento orçamentário, custos de trocas de fornecedores, gastos com contadores, com equipe de marketing (para "suavizar" com propagandas o aumento do preço - tipo esses chocolates que diminuem de tamanho e colocam isso na embalagem como se fosse uma conquista - "novo tamanho!" ou "nova fórmula!"), os próprios custos de desenvolvimento e troca de embalagens, etc. - todos estes gastos extras aumentam os preços e contribuem para a noção keynesiana de inflação.

B) Problemas gerais com a oferta agregada (infraestrutura ruim, safras ruins, interrupções de cadeias de suprimentos, guerras, crises bancárias, etc.) também provocam altas generalizadas nos preços, o que, forçando a barra, indiretamente contribui para a desvalorização da moeda (no sentido de que uma unidade monetária compra cada vez menos bens), principalmente se tais problemas persistirem, tendo em vista que a "inércia" é um componente importante da inflação  (se o povo de um país perde a confiança em sua moeda, isso inicia uma verdadeira bola de neve inflacionária, e mesmo que os problemas com a oferta sejam resolvidos, a falta de confiança permanecerá, ao menos por um tempo). 

C) Altas cargas tributárias contribuem para o aumento generalizado dos preços e indiretamente contribuem para a inflação, na medida em que desencorajam investimentos produtivos.

D) Taxas de juros altas também provocam o efeito das cargas tributárias altas: se consigo facilmente ganhar mais dinheiro aplicando meu capital com pouco risco em títulos do tesouro, por quê vou me arriscar montando fábricas, abrindo lojas, ou exercendo qualquer outra atividade produtiva? Com isso, produz-se menos, diminui-se a oferta e aumenta-se os preços.


Não é novidade para ninguém que lê sobre economia e finanças que o Real já perdeu muito valor desde sua implantação em 1994 e que em 2024 e 2025 essa perda de valor acelerou bastante, inclusive por conta da deterioração da taxa de câmbio. Cem reais de hoje em dia compram bem menos coisas que cem reais de 1994. Aliás, as notas de cem reais estão bem mais comuns, algumas são sacadas já sujas e com marcas de dobra, sinais claros de que circularam, em contraste com, digamos, 20 anos atrás,  em que eram bem mais raras e estavam sempre limpas. Só não estão mais comuns ainda por causa do uso generalizado do pix.

Além disso, não devemos nos esquecer que o dinheiro é uma abstração e que funciona como uma "bateria de tempo", armazenando nosso tempo gasto trabalhando para que possamos utilizá-lo mais tarde - isso é a "Reserva de Valor", uma das três funções da moeda.

Assim, a desvalorização da moeda implica, então,  numa desvalorização de nosso tempo e de nosso próprio trabalho, e isso traz consequências psicológicas para todos nós,  ainda que a nível inconsciente ou subconsciente. 

Os economistas dizem que os preços funcionam como sinais que indicam o que deve ser produzido, o quanto, e aonde. Então em um cenário de inflação é como se todos nós estivéssemos o tempo todo recebendo uma mensagem: "você vai trabalhar a mesma coisa, ou mais, e vai receber cada vez menos em troca do seu trabalho". Os mais prejudicados nesse processo são os assalariados, que não conseguem ajustar o preço de sua mão-de-obra: dependem do empregador lhes conceder aumentos ou de encontrarem outro emprego que lhes pague melhor, o que no Brasil é muito difícil, dado que temos poucas empresas grandes (só temos 4 ou 5 bancos grandes, só 1 siderúrgica, só umas 2 ou 3 petroleiras, etc. enquanto que nos EUA há literalmente milhares de empresas de grande porte e capazes de pagar bons salários). 

As pessoas de mente mais fraca e de pouca evolução moral se sentem mais tentadas a cometer crimes, tendo em vista que o trabalho honesto não está rendendo tão bem quanto deveria, e a violência aumenta (assaltos, sequestros, roubos, etc.). 

Os Bens Reais, principalmente aqueles atrelados a commodities, e as próprias commodities em si, tendem a manter seu valor real, ceteris paribus, com seus preços se ajustando à inflação - vemos isso nos metais, por exemplo. E por isso aumenta o número de roubos de portas de alumínio, tampas de bueiro (geralmente feitas de ferro fundido), fios elétricos (que são feitos de cobre), etc. 

Eu já testemunhei, à luz do dia, com carros e pessoas passando em volta, um bandido arrancando os fios de um poste, mais de uma vez, e não duvido que vários leitores daqui do blog já tenham presenciado algo assim! Na minha rua já roubaram várias vezes os fios (subterrâneos!) do sinal de trânsito. Também já vi alguns bueiros sem tampa nos caminhos que faço para chegar ao trabalho, e já roubaram, de madrugada, a porta de alumínio que protegia o hidrômetro da casa de meu pai. 

Esses são só alguns exemplos, e tenho certeza de que vocês têm outros parecidos.

Roubo de cabos de cobre dos carregadores de carros Tesla, na Baía de São Francisco, nos EUA. Esse fenômeno é global, não é exclusivo do Brasil!


Há também um nível mais sutil de roubo (para alguns pode não ser roubo, mas para mim não deixa de ser moralmente reprovável) e que é praticado pelas empresas: a diminuição da qualidade dos insumos de produção (moralmente reprovável, dependendo das circunstâncias) e, em alguns casos (aí sim um roubo, inegavelmente), a falsificação dos materiais utilizados. Isso acontece bastante na indústria alimentícia em geral, tanto em restaurantes quanto nos supermercados. Um exemplo que está chamando atenção do pessoal é o chocolate: cada vez menos cacau e leite, cada vez mais "manteiga de cacau" e "soro de leite" e gordura hidrogenada (hoje nós só temos biscoitos "Sabor Chocolate"). 

Assim como os chocolates, os lanches dos fast-food e dos restaurantes como um todo vem diminuindo ano após ano, e seus ingredientes pioraram. 

A cerveja está cada vez mais aguada, com menos cevada e mais "milho", e por aí vai. Logo logo haverá a "bebida alcoólica sabor cerveja".

Para mim o pior caso de falsificação de materiais é o da fiação elétrica: alguns cabos de cobre são falsificados pelos fabricantes e passam a ter altos teores de alumínioisso quando não são vendidos fios de alumínio como se de cobre fossem (só com uma cobertura de cobre, ou com o alumínio oculto sob a capa de borracha), e o desempenho dos equipamentos que usam tais cabos não é o  esperado, o que resulta em mais custos de manutenção, fora o risco maior de acidentes. 

Quem me contou essa história de estarem falsificando cabos de cobre foi um técnico que eu chamei uma vez para consertar o ar condicionado da minha casa. Ele disse que tem visto isso em vários equipamentos que ele conserta, e até quando compra fios em lojas de materiais de construção. E eu não duvido que seja verdade. Com o dinheiro desvalorizando, as coisas reais tendem a ficar mais caras, e o cobre não escapa a esta regra.

Outra coisa bizarra é como que os livros-texto de economia em geral "ignoram" o problema da inflação

Eu tenho em casa um exemplar da 7ª edição do livro de macroeconomia do Mankiw, e em um capítulo em que ele fala a respeito da inflação ele diz algo do tipo "a inflação não é um problema de verdade porque o salário também aumenta na mesma proporção - não importa se tudo está 10 vezes mais caro porque o salário também aumenta 10 vezes", e eu li esse mesmo argumento em pelo menos outro livro de economia. 

Na minha opinião o argumento ou é burrice ou mau-caratismo

Esse raciocínio só seria verdadeiro se o salário aumentasse na mesma proporção que a inflação e na mesma velocidade, o que obviamente não é verdade, pelo menos não aqui no Brasil. 

Talvez em uma hiperinflação (como as da época dos planos Cruzeiro e Cruzado) as empresas dêem reajustes com mais frequência, até porque senão dali  a pouco ninguém estará comprando mais nada e elas também irão se prejudicar. 

Mas em cenários como o nosso atual, de inflação "mediana", com índice oficial entre uns 10% e 15% , não há reajustes salariais proporcionais e, nas raras vezes em que há, eles não são na mesma velocidade da inflação. Vamos perdendo nosso poder de compra a conta-gotas (na verdade, mais rápido do que isso, mas não conheço uma metáfora que ilustre bem a idéia) e nada é feito. 

Quem é autônomo consegue repassar pelo menos um pouco da inflação para seus clientes - quanto mais essencial o seu serviço, ou quanto melhor for sua reputação no mercado, mais o profissional liberal conseguirá repassar a inflação para seus clientes. Por isso que a inflação médica é a maior de todas. Nunca me esquecerei do ano em que meu plano de saúde reajustou 28% de uma só vez e fui forçado a trocar de plano.

Quem é empresário consegue repassar uma parcela maior, a depender da essencialidade / qualidade percebida de seus produtos e serviços. 

E empresas muito grandes conseguem repassar quase tudo por terem uma escala de produção que permite diluir mais seus custos. 

Como sempre, quem sofre mais é o trabalhador comum, cujo salário raramente é reajustado. Algumas empresas nem quinquênio pagam.

E aos poucos o trabalhador vai sendo empurrado para a pobreza, sendo obrigado primeiro a cortar supérfluos (se tiver) até que se chega no modo "sobrevivência". 

E não é um problema apenas estatal - a mentalidade média de nosso empresariado também é parte do nosso problema. Eu nunca vi um produto diminuir realmente de preço (Exceto as variações sazonais de frutas, legumes e vegetais). 

Por exemplo, eu duvido que, se o governo isentasse os chocolates de ICMS e outros tributos, o preço cairia para os patamares de 5 anos atrás ou que a qualidade fosse melhorar. 

Pela minha experiência, o preço e a qualidade se manteriam iguais ao de hoje, e os diretores das empresas que fabricam/importam chocolate iam ganhar bônus maiores no fim do ano. Isso porque aqui não existe concorrência, só existem oligopólios praticamente, e os oligarcas sabem que o público já se acostumou a pagar 15 reais numa barra sebosa de gordura hidrogenada com aroma de cacau, então eles não sentem necessidade de diminuir o preço.

E também é necessário dizer: a realidade de "trabalhar mais para receber cada vez menos" provocada pela inflação também provoca o efeito pernicioso do trabalhador fazer corpo mole e não trabalhar com o devido zelo. Ele não tem incentivo para trabalhar mais, pois percebe ano após ano, mês após mês, que sua recompensa só diminui. Eu vejo nisso uma difícil questão moral: eu sei que não é certo um empresário exigir dedicação total de um funcionário que trabalha de segunda a sábado das 8h às 18h em troca de R$ 1.500,00 por mês (realidade de muitos brasileiros infelizmente), mas também sei que há empregados que não fazem por onde e são mesmo indolentes, insolentes, etc. e a "sensação" de pobreza (entre aspas porque é bastante real) que a inflação traz só piora a indolência de quem já seria indolente de qualquer jeito, e torna indolentes outros que em outra realidade seriam bons trabalhadores.

Toda a sociedade perde com a inflação, e não entendo porque em praticamente todos os países (pelo menos os ocidentais, mas não tenho certeza) existe uma "meta de inflação" maior do que zero, quando deveria ser zero ou até mesmo negativa (deflação).


Um comentário:

  1. Estamos vivendo um experimento monetário iniciado em 1971 com o fim da paridade ouro-dólar. Esse experimento é inédito, pois na história do dinheiro sempre foi utilizado algo escasso como base e imprimir dinheiro além dessa base escassa tinha o nome de fraude.
    Hoje vivemos a fraude em sua plenitude, o dinheiro é criado do nada, não se lastreia em nada. Que valor tem o trabalho quando pode ser pago com dinheiro inventado?
    O mais prenicioso foi a possibilidade inédita de poder se endividar infinitamente e deixar a conta para as gerações futuras, isso é cruel, pais vendendo o futuro dos próprios filhos.
    Não sei onde esse experimento vai acabar, mas me parece improvável que voltemos a algo tipo um novo padrão ouro, governos e sociedades estão viciadas em dívida.
    O próprio movimento FIRE é reflexo dos incentivos perversos, quem quer ficar trabalhando até morrer, recebendo salários cada vez mais desvalorizados, que não acompanhar mais os ganhos de produtividade?
    Abraços.

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